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Sunday, August 31, 2014

Laclos dixit: um forte ainda era pouco.


Choderlos De Laclos escreveu um dos meus romances preferidos e um dos que melhor retratam a sordidez humana (ou até que ponto as cruéis paixões podem chegar em mãos de pessoas desocupadas), As Ligações Perigosas.

 Felizmente para o olhar de um esteta, o livro é glamouroso porque se concentra em personagens sofisticadas: com excepção dos lacaios dos protagonistas e de uma cortesã que pouco adianta para a história, todos pouco tidos e achados no enredo (meros peões da maldade de um homem e de uma mulher que tinham tudo para ser felizes mas preferem torrar o tempo em conspirações que só servem para perder toda a gente) o olhar, as conversas, são dos movers and shakers, dos que estão próximos do poder e do privilégio. Fúteis e cruéis, certo, mas sempre com uma certa classe.

 Tivesse o autor ido mais longe, analisado mais abaixo na cadeia alimentar, perdido um bocadinho a dissecar os que queriam estar perto de Valmont, as camponesas que disputavam a sua atenção, as costureiras que invejavam entre si a honra de trabalhar para a Merteuil, os rumores sussurrados pelo seu cabeleireiro e assim por diante, aí sim veríamos o feio teatro da baixeza humana em todo o seu esplendor -  quanto maior o desespero, quanto maior a distância, mais mesquinhos os actos, mais sujas as palavras, mais reles os argumentos e mais chinfrins os métodos.



 Mas uma coisa o autor sabia: a maioria das pessoas não pode ver uma camisa lavada a um pobre, quanto mais uma camisa nova
 Quem tem algo de bom - protagonismo, amor, poder, riqueza, beleza, sucesso, o que seja- nunca pode estar muito descansado. Há sempre quem murmure, cobice, inveje, critique, conspire, ache que aquilo é injusto e que a sua pessoa (ou alguém que lhe convenha) estava bem melhor naquele lugar, por mais falso que isso seja. 

Os invejosos raramente têm espelhos em casa, língua discreta e uma vida muito ocupada.

  Por isso, o remédio é resguardar e restringir. Construir um forte à volta, um mundinho privado onde só entrem os que contam alguma coisa. Não vale a pena conhecer muita gente, se metade só serve para confundir. Fechar os ouvidos, abrir bem os olhos e manter as muralhas bem altas é um preço aborrecido a pagar por qualquer privilégio, é um bocadinho triste, mas...dura lex, sed lex. Ou better safe than sorry.





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