Recomenda-se:

Netscope

Sunday, August 24, 2014

Mariana e Deolinda: dois exemplos de dignidade feminina na literatura portuguesa.




Na perspectiva actual, a mulher idealizada é a lutadora que coloca os seus direitos, felicidade e objectivos acima de tudo. Mais facilmente se desculpa uma atitude menos ética, seja em
nome do amor ou do sucesso, do que a abnegação em função do dever, ou de qualquer valor mais elevado. Mas algumas heroínas de outros tempos, nomeadamente na nossa literatura,
dão exemplos de altruísmo e nobreza que não ficaria mal serem mais destacados e
analisados nos bancos da escola.

Amor de Perdição dispensa apresentações e o triângulo amoroso entre Simão, Teresa e Mariana é um dos aspectos centrais da obra. Mariana é uma linda rapariga do campo, de corpo bem feito, belo rosto e olhos azuis; é mesmo descrita como sendo ainda mais bela do que Teresinha, a protagonista.  

É também apresentada como uma jovem valente,
desembaraçada, capaz de se defender e de cuidar de si mesma e dos outros
 sob uma aparência doce e submissa. Por dever de gratidão toma conta de Simão nas suas  desgraças, votando-lhe uma dedicação de irmã, mas acaba por apaixonar-se pelo fidalgo.

Ou seja, aparentemente Mariana é aquela "amiga do namorado" com segundas intenções que todas as mulheres receiam.


Embora saiba que, aos olhos do mundo "só poderia servir-lhe de criada" e que ainda que assim não fosse ele jamais poderia amá-la porque entregou previamente o coração a outra mulher (e quando o coração de um homem pertence a outra nada feito, qualquer mulher
sensata percebe isso)  Mariana ama-o, sem esperança.

 Contenta-se em ser amiga dele, mas está longe de ser daquilo que eu chamo uma mulher da luta.

Este amor pouco saudável só a prejudica a ela própria; Mariana é incapaz de ser falsa e egoísta. Pode até sentir ciúmes de Teresa, mas embora tenha inúmeras vezes "a faca e o queijo na mão" para a separar de Simão, já que é o único contacto entre os dois namorados, faz tudo para os ajudar.


Mais do que a sua própria felicidade, preocupa-a a felicidade da pessoa que ela ama.

 Já que não pode ser feliz com ele, ao menos que contribua para a felicidade dele.


A atitude complexa de Mariana tem ainda outro ângulo que considero interessante: apesar de amar Simão sem recompensa, fica-se com a impressão de que ela não o quer através de batotas ou com reservas;seria tudo ou nada ou seja, não o quer amando outra mulher; só o aceitaria se ele viesse a esquecer-se de Teresa - claro que isto não acontece e acaba tudo num drama enorme, mas quantas mulheres seriam tão dignas como Mariana?

O mais certo era deitarem as cartas da rival ao lixo e tentarem conquistar o Simão, mesmo sabendo que ele continuava apaixonado por outra.


   Já em A Rosa do Adro, novela mais obscura mas nem por isso menos popular, é Deolinda que prova ser uma verdadeira amiga e uma mulher de valores inabaláveis, que põe a justiça à frente da sua própria felicidade.

A Rosa do Adro, romance publicado em 1870 - já nos finzinhos do Romantismo, portanto- sem grande reconhecimento em vida do autor (o jornalista Manuel Maria Rodrigues) acabaria por se tornar, graças às adaptações ao palco e ao cinema, num dos maiores best-sellers
portugueses.

 A história é um caso de aldeia daquele tempo: a costureira Rosa, a beldade do lugar, apaixona-se pelo menino rico, o estudante de Medicina Fernandinho.


 Fernando aproveita-se da situação, seduz a inocente costureirinha e não cumpre a jura de casar com ela. 


Doente de amor e consumida com receio de que a sua desonra se torne pública, Rosa definha - ou antes, entisica - enquanto o namorado, esquecido dos seus deveres de homem de bem, celebra o noivado com Deolinda, a filha da Senhora Baronesa e amiga de infância de Rosa.


Deolinda, porém, acaba por perceber o que se passou e interroga Rosa que por sua vez também é uma rapariga de brio e não quer estragar a felicidade da amiga revelando-lhe a vileza de Fernando (havia de ser na vida real,
 volto a dizer).

 Uma vez esclarecida, Deolinda sente-se incapaz de ver Fernando com os mesmos
 olhos, quanto mais de casar com um homem capaz de uma acção tão feia, e...convence-o a fazer o que a honra manda e a desposar Rosa.

"Nunca te amei, Fernando?!... Deus o sabe; mas é que acima do amor e
de tudo está a tua honra e a minha dignidade de mulher. Pois acharias airoso
que eu te desposasse em face de uma infeliz a quem não só amaste, mas até
roubaste o sossego e a felicidade? Que conceito fariam de mim? "

" (...)vou obrigar Fernando a compenetrar-se do estado da
pobre rapariga, para que a despose. Estou certa de que ele não se negará a
isso, porque eu, da minha parte, recuso-me formalmente a aceitá-lo por
marido".

 Mostrando um domínio enorme sobre os seus próprios sentimentos, 
Deolinda lá convence Fernando e oferece mesmo a Rosa o vestido de noiva que tinha preparado para si. 

Claro que não serve de grande coisa porque como é costume nestes livros acaba tudo noutro drama enorme mas pronto, o que conta aqui é a nobreza e altruísmo da personagem. Fosse
 um caso real, o mais provável era Rosa e Deolinda esgatanharem-se uma à outra sem 
dignidade nenhuma e disputarem o mariola do Fernandinho sem perceberem que quem valia 
menos ali era ele, que andava a enganar ambas e que não merecia casar nem com uma nem com outra.


 Mas se ficção é ficção ao menos que dê exemplos elevados de dignidade feminina, eu acho...

No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...