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Wednesday, August 13, 2014

"Mete Like" não se diz.







O verbo "meter" - que pressupõe pôr algo dentro de qualquer coisa ("meter a viola no saco", ou "meter a chave na fechadura"),  intrometer-se ("não te metas!") ou causar,  ("aquilo mete medo") - é um desgraçado. 

Usam-no como bengala para descrever tudo, para substituir uma quantidade inacreditável de vocabulário, muitas vezes sem grande relação com o sentido que se pretende. 

Dizia Bernard Shaw que as pessoas denunciam  a sua origem pelo modo como falam:  pois bem, poucas coisas descobrem (ou imitam) tão depressa uma educação pouco prendada como abusar do verbo meter - a não ser talvez o malfadado «vai fazer o "comer"». 

Quem recorre constantemente ao "meter" para substituir pousar, inserir, guardar, pôr, colocar, clicar, arrumar, atirar, introduzir, esconder, fazer e tantos outros termos mais adequados... ou tem um vocabulário muito reduzido, ou é preguiçoso, ou não se preocupa minimamente com a imagem que dá.

Pode-se "meter colherada", "meter o nariz na vida dos outros" (não são coisas bonitas de se fazer, mas é correcto dizer-se) , "meter (se) em sarilhos/aventuras/camisa de onze varas", "meter fulano na cadeia" (porque a prisão está associada à imagem antiga de calabouço ou masmorra, a um buraco imundo e pouco espaçoso para onde se atira  ou onde se enfia alguém) , "meter medo", "meter isto ou aquilo na mochila", "meter-nos em cada uma", mas não se deve meter o Verbo Meter onde ele não é chamado.

Os adolescentes caem muito nesse mau hábito, ora por tonteria própria, ora por falta de reparo de pais e professores (que ouvem e vêem escrito mas não dizem nada, achando que é uma coisa sem mal nenhum).  

  Mas o pior é que há muitos adultos, páginas da internet (algumas infelizmente muito populares) e pior, jornais a banalizar o chavão. O "meter" mal usado é rude, pouco polido e dá a ideia de estarmos a falar com uma pessoa infantil ou pouco instruída, mesmo que isso não seja verdade.

Exemplos corriqueiros são "mete isso em cima da mesa em vez de "põe/pousa isso em cima da mesa" ( o que não faz sentido já que a mesa é uma superfície plana, sem bolsos ou buracos onde se possa meter o que quer que seja) "meter em tribunal" (que não estará exactamente errado e pode ser usado coloquialmente, mas escrito num jornal...é pouco sofisticado no mínimo), "meter inveja" (mete-se medo, mas a inveja faz-se ou provoca-se) 
 e - malhas que a internet tece- "meter Like".

 Certo, o "Like" não é um termo português, logo o verbo que acompanha o polegar erguido que obceca tanta gente dará que pensar. Mas "clicar", "fazer", "colocar" Like numa imagem, ou, na dúvida, a tradução "gostar de" fica sem dúvida menos...parolinho!

Com um idioma tão rico como o nosso, usar estas bengalas não é só feio: é um desperdício de palavras e um mata neurónios.

 Dizer-se "mete like na minha página!" é simplesmente a primeira ideia que passa pela cabeça das pessoas, o que prova a que ponto o "meter" está metido na cabeça e no léxico da maioria.

Metam na cabeça que isso é feio  (sim, este foi de propósito, porque "meter na cabeça" ou na ideia é uma das formas aceitáveis de usar o verbo favorito de muita gente....).






1 comment:

Urso Misha said...

e além de que pedir para meter/colocar um like na página é um pouco como "epah gosta lá de mim!"

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