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Sunday, August 31, 2014

Os males do orgulho, segundo Oscar Wilde.


Um homem muito sábio disse que o orgulho pode ser legítimo, mas que não devemos ufanar-nos das coisas que só ao acaso se devem. 
 Os acidentes felizes de nascimento - ou seja, a beleza, os dons naturais, uma condição privilegiada, o talento e a inteligência...são motivos para levantar as mãos para o céu mas por isso mesmo, para que não se desperdicem é preciso temperá-los com uma dose maior de modéstia e de auto exigência.

 Quanto mais dotado se é, mais rigoroso se deve ser com a sua pessoa e mais indulgente para com os outros. Depois, há outro aspecto da soberba que convém corrigir: ter-se em tão alta conta que se veja cada falha alheia como pecado mortal e imperdoável, como crime de lesa majestade.A altivez nativa que caracteriza uma pessoa bela e bem adornada das prendas de espírito ou das felicidades mundanas transforma-se em arrogância se for mal direccionada.

 Pior ainda, o orgulho exacerbado pode deitar a perder as melhores coisas da vida: quantos grandes feitos, quantos grandes amores não deixaram de acontecer porque alguém foi demasiado orgulhoso? Às vezes espera-se tanto que um dia é tarde demais.

 Oscar Wilde - outro homem sábio - no seu conto "The Star Child", ilustra bem como o orgulho pode chegar a tal ponto que nem o arrependimento ou a expiação são suficientes para reparar os danos.

 Resumidamente, uma criança lindíssima é encontrada por pobres lenhadores na floresta, envolta em ricos panos que denunciam a sua alta linhagem. Apesar das dificuldades que a família atravessa, o casal decide criar o bebé como se fosse seu.

 Em vez de se mostrar agradecido, o menino cresce mau como as cobras; só está bem a torturar pedintes e animais e a desencaminhar as outras crianças. A única coisa que o faz feliz é a sua grande beleza e sonhar acordado com a sua nobre origem. Quando a mãe verdadeira lhe aparece, vestida como uma pobre mendiga, ele rejeita-a cruelmente por lhe desfazer as ilusões. 

Então, como acontece quase sempre nestas histórias, é transformado num monstro horroroso para se penitenciar .

 Só então, depois de muitos sofrimentos e maus tratos, aprende a lição. Torna-se realmente bom e após terríveis peripécias, recupera a sua verdadeira forma. Nessa altura descobre que a mãe estava apenas disfarçada para o testar, que é na realidade uma Rainha, e que o leproso que ajudou em várias ocasiões é o Rei seu pai. É recebido com todas as honras, redime-se das suas maldades, mas...vive somente três anos para reinar porque as penas que sofreu durante o seu castigo lhe destruíram a saúde. Ainda por cima é sucedido por um Rei muito cruel, que faz sofrer grandemente o seu povo.

 Eis um final bem estranho para um conto de fadas, mas que dá que pensar. Nem sempre o arrependimento, a compensação e a bondade são suficientes ou chegam a horas. Por vezes o destino atravessa-se no caminho das melhores intenções, logo não convém haver atrasos de vida que se podem evitar.

 E o orgulho excessivo é isso mesmo: um grande atraso de vida, um desmancha prazeres e um empecilho à felicidade...


2 comments:

maria madeira said...

"Um empecilho à felicidade". Ora nem mais... Ainda que por vezes e de forma inconsciente se caia no erro de se ser orgulhoso. Se for transitório não será dramático :)

Imperatriz Sissi said...

O mal é mesmo o orgulho teimoso!

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