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Saturday, September 13, 2014

A mulher que fez a minha recruta.



Esta semana tive notícias de uma das mulheres que mais me influenciaram, apesar de ter passado menos tempo com ela do que gostaria: a minha professora de ballet. 

Soube que hoje, com os seus oitentas, continua a ensinar, continua implacável, tradicional e com um gosto irrepreensível, capaz de polir os diamantes mais brutos e de puxar o lustro às que levavam de casa uma boa escola de "costas direitas e barriga p´ra dentro!". 

 Ela intimidava não só com as palavras cortantes que dirigia às discípulas sem hesitar (não havia cá considerações para com a frágil auto estima das crianças) mas com a aura de perfeição que irradiava. 

"Encolha a barriga, menina!"

"Não consigo respirar" 

"Uma senhora não precisa de respirar!"

Ditos deste tipo eram constantes a todas as colegas. Rapidamente se percebia que se pode estar descontraída sem descontrair como não se deve, algo que é bom lembrar todos os dias. Não porque sejam coisas que se esqueçam, mas porque exigem esforço, nem que seja no fundinho da nossa cabeça.

A professora era uma verdadeira bailarina da velha guarda-  muito pouco a ver com algumas jovens professoras de agora, graciosas é certo, mas com vícios e tolerâncias de outras formas de dança que tendo o seu mérito, não possuem o rigor da dança clássica, do ballet "puro". Era uma mulher pequenina, mas parecia alta dada a perfeição da sua postura. Estava longe de ser nova, mas as bailarinas só envelhecem até certo ponto. Mais do que bela no sentido plástico, era elegante, das mulheres mais elegantes que já conheci, daquelas que fazem as outras sentirem-se corcovadas, ou rechonchudas, ou descompostas só de entrar na sala. Imaginem a Miranda de O Diabo Veste Prada, versão bailarina. Depois dela, duvido que as suas alunas tivessem um bocadinho de medo que fosse de um professor ou chefe - e aposto que se acontecesse, bastaria recordar aquela barra para perder os tremeliques.

Rapidamente se passava respeitá-la, porém...e a ter por ela uma verdadeira adoração. Mais do que isso, reparavam-se em coisas que antes passavam despercebidas. A rigidez do chignon (um sarilho para os cabelos rebeldes), o pescoço de cisne, os ombros sempre no lugar, a reconfortante estabilidade das roupas sempre iguais, mas imaculadas. Impossível não ganhar alguma aversão a grandes fantasias no vestuário e uma certa preferência pela beleza da forma e a qualidade do material em detrimento das novidades.

Ainda hoje, nestes tempos tão descontraídos, tão liberais, ela não permite tatuagens nem piercings na sua aula. Não sei como se arranjam - presumo que ela continue a formar raparigas que sabem ouvir, aprender e obedecer. Coisa rara.

A dança clássica não só esculpe o corpo com as formas ideais, como ensina tudo o que uma mulher precisa de saber mas esquece muitas vezes - a graciosidade, o porte, a simplicidade, o bom gosto, o asseio, a elegância, o esforço - e sobretudo, a saber sofrer. 

Actualmente, no tempo dos "direitos" e poucos "deveres", na época das mulheres "ferozes" e "poderosas", do costume de cultivar grandes glúteos em vez de trabalhar para os manter no devido sítio, sofrimento, dedicação, disciplina e sacrifício são palavras non gratas. O ballet será dos últimos redutos que incentivam, sem adoçar, tais valores junto das raparigas. Acham-se ferozes e poderosas? Tentem equilibrar-se em pontas.

 Quanto mais não seja, num cenário ideal, a Moda, o que vestimos,  deveria basear-se sobretudo em "escolas" de elegância: o ballet, a equitação, o Exército, os grandes salões. Foi assim durante muito tempo, hoje já não, mas há uma certa tradição que nunca desaparece por completo.

Muitas mulheres realmente belas - e realmente poderosas - foram bailarinas ou passaram pelo ballet: Brigitte Bardot (que popularizou algumas peças usadas nas aulas de dança, como as fitas e as blusas pretas de decote amplo) Audrey Hepburn (depois dela as "bailarinas" passaram a chamar-se "sabrinas"...mas de onde terá ela tirado a ideia? E os simples conjuntos pretos que inevitavelmente associamos a ela?) Naomi Campbell, Madonna (que degenerou um pouco, mas de onde acham que tirou tanta concentração e disciplina férrea para chegar onde chegou?) e muitas, muitas outras.

 Em boa verdade, se é recomendável a todas as meninas passarem pelo ballet, fazer disso carreira convém a muito poucas mortais...porque se sofre muitíssimo.  Sei que a professora tinha tido bastantes desgostos, daí a sua pouca tolerância a pieguices. Não é necessário ir a tais extremos a não ser em casos de vocação...mas um bocadinho faz muita falta para a vida. No pain, no gain. 

 Quanto mais não seja para chegar a uma certa idade linda, impecável e fabulosa como a Senhora Professora. Respeito - muito, muitíssimo, todo.




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