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Thursday, September 11, 2014

A nobre arte de "perdoai-os que eles não sabem o que fazem"



Quem anda neste mundo, a não ser que traga um saco pela cabeça, sujeita-se a encontrar gente má, invejosa e embirrenta. Se tiver sucesso ou for abençoado com algo de especial - talento, beleza, meios -pior um pouco. Ou seja, por muito boa pessoa que se seja, dada à paz, metida na sua vidinha, sem fazer mal a uma mosca, ficando longe de intrigas...basta existir ou estar para incomodar alguém, no melhor espírito o velho, o rapaz e o burro. E por vezes nem a diplomacia resolve, nem se pode aplicar o santo remédio de não conviver com tais pessoas - porque há obrigações sociais ou profissionais que não o permitem.

 Não há nada mais desagradável do que saber que se é observado, medido e criticado com as piores intenções, e o mais mau- por almas que não merecem crédito e não descansam de maneira nenhuma. 

Primeiro, é preciso estar consciente de que não vale a pena ser mais simpático do que a boa educação exige: pessoas assim querem ver o seu alvo fora de cena e ponto final; inventam todas as provocações no sentido de desorientar o adversário e fazê-lo cometer um erro que leve a isso. A atitude destes entes lembra aquela anedota protestante que já contei: a mulher do Pastor, faça o que fizer tem sempre defeito perante a congregação. Se veste bem, é vaidosa; se se arranja modestamente, é desleixada; se sorri muito, é cheia de si; se é reservada, acha-se muito importante; se trabalha para a igreja, é porque se imiscui, mas se não se envolve, é preguiçosa; se contraria o marido, é atrevida; se não influencia as decisões dele, é uma mosca morta...

Ou seja, quem tem protagonismo nunca está sossegado.

Quando tal sucede, pode haver a péssima tentação de fazer tudo para não lhes dar razão, alterando a forma de estar; mas isso é um erro terrível e a melhor forma de dar poder, ainda que cá por dentro, aos detractores. É abrir portas à insegurança que eles tanto se matam e esfolam para causar.

Quem procede correctamente, sem nada que os superiores lhe apontem, não precisa de mudar uma vírgula  para agradar a quem procura defeitos de propósito. Aliás, é preciso bloquear mentalmente tal ideia e não permitir sequer que o que se rosna cause a mais leve perturbação; o Imperador Marco Aurélio, useiro e vezeiro nestas andanças, dizia que para se defender de tais indivíduos, é só não se tornar como eles:

"Cá por mim cumpro o meu dever. O resto não me amofina, que (...) são (...) seres privados de razão ou transviados que não sabem ver o caminho".

 Depois, dentro do possível, é aplicar a máxima Bíblica de dar a outra face. Sempre acreditei que dar a outra face pode não ser um acto de mansidão, mas de desprezo nítido. Certo é que o Bom Livro manda dar uma face (não as duas, nem diz quantas vezes) mas em muitas ocasiões mais vale que os actos (e a figuras tristes, as grosserias, as peixeiradas) fiquem com quem os praticou, pois tais papelões falam por si.

 Quem é mau e ressabiado, arranja sempre forma de enlaçar o próprio pé, de cavar a própria cova e assim por diante. Não nos cansemos a ajudá-los, que não é preciso.

 Por fim, a bem da paz de espírito, um belo "perdoai-os que eles não sabem o que fazem" pode ser o melhor remédio. Uma pessoa há-de amofinar-se por causa de uma criatura feia que não suporta a beleza alheia, ou uma pessoa mal amada que não aguenta ver a felicidade dos outros, ou uma alma frustrada e cheia de problemas que rebenta de ciúmes à mínima coisa, de tão mal que anda? Já bem basta a esses infelizes verem-se ao espelho todas as manhãs, acordarem sozinhos e lidarem com as desditas da sua vida. São dignos de pena, já que tentar ajudar seria inútil na maior parte dos casos: só os ia fazer sentir ainda mais furiosos.

 O essencial é não se perturbar, ainda que de leve, com tais ataques...e viver bem. Atrás desses, virão mais: é inevitável. Se Cristo não agradou a todos, como hão-de os simples mortais conseguir um milagre desses?

 Fica o consolo de que pessoas desse género nunca embirram com quem é muito desgraçado, muito desfavorecido e não tem nada que se lhe inveje. Por isso, considere-se a embirração uma forma de elogio, e adiante.





3 comments:

Sandra Marques de Paiva said...

Clap Clap Clap.... vou-me inspirar neste texto para escrever o meu ;) É que está perfeito e até me fez sentir melhor.

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada Sandra :D.
Ainda bem que foi útil. beijinho.

Ana Andrade said...

Texto perfeito e nada mais a dizer

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