Well, I've been afraid of changing
'Cause I've built my life around you...
Uma leitora sugeriu-me que abordasse um ângulo dos
relacionamentos que, se estou bem recordada, não tinha sido visto por aqui: o
das mulheres que constroem a sua vida à volta do marido/namorado e, quando as
coisas se tornam feias, se vêem de repente isoladas.
Isto não é um exclusivo feminino – decerto haverá homens que
se acham na mesma situação desagradável – mas nós mulheres somos por natureza
mais propensas, em maior ou menor grau, a esse disparate. É um daqueles
reflexos que ficam por genética e tradição e continuam a manifestar-se mesmo
quando já não têm utilidade. E uma vez que é algo inconsciente, pode dar-se até
com meninas/senhoras relativamente independentes, seguras de si e que não
correspondam ao estereótipo da “rapariga carente”.
Em boa verdade pode
acontecer a qualquer uma, desde que tenha um pouco de tempo livre nas mãos –
ou caia na asneira de estar demasiado disponível quando se apaixona.
No entanto, quem é
tímida ou tem uma forma mais tradicional de estar corre riscos maiores de
cometer este erro (já lá vamos). Embora aqui se defenda em muitos textos o
direito a uma postura e forma de estar tradicionalmente feminina, eis a
excepção que confirma a regra.
É sempre mau depender
de alguém, emocionalmente ou de outra forma qualquer. Bem diz o ditado “a vida de uma mulher é como a pasta, e um
homem é a almôndega: torna a pasta melhor? Sem dúvida, mas pasta sem almôndegas
continua a ser pasta”. É preciso ter sempre presente que aquela não é a
última almôndega à face da terra, capice?
Mesmo entre as
mulheres mais modernas existe o impulso de criar conforto, de dar apoio, de
arranjar o que está estragado (até quando não tem remédio) de brincar às
casinhas, de ser útil e de agradar. Isto é tudo positivo, desde que bem direcionado,
mas desastroso se levado ao exagero. E para cair nesse extremo, basta DISTRAIR-SE – porque ninguém abandona a
sua vida de um dia para o outro. Vai acontecendo aos bocadinhos. Primeiro com o
entusiasmo da paixão que leva tudo à frente, depois porque o hábito se instalou
e mais tarde (quase sempre) para tentar segurar as pontas com o mais nefasto dos
remédios.
E a parte pior é que nenhum homem agradece isso.
Não é por mal que o fazem- eles são caçadores inatos e
perdem o interesse se algo está demasiado disponível. Logo, a dependência
não beneficia a mulher que constrói a sua vida à volta do parceiro, nem a cara
metade (que deixa de ter um desafio) e muito menos a relação (que
invariavelmente arrefece).
Ora, há três situações que facilitam que este
mal se instale:
1-
A primeira é a boa e velha insegurança, que dava
um compêndio: quem está tão desesperada para ter um companheiro que faz TUDO
para agradar devia antes de mais trabalhar a auto estima, porque não vai cair
só nesta asneira mas em todas as outras e depois fica sozinha e chorona e
infeliz e como é carente não consegue estar bem sozinha e o círculo vicioso
continua ad nauseam.
Depois há as que se
dão com pessoas relativamente equilibradas (ou seja, com a maioria!)
2 - Se uma mulher é
naturalmente introvertida, tem uma rotina tranquila, um círculo de amigos
restrito e aprecia a estabilidade, torna-se mais fácil acomodar um companheiro
na sua vida. Até aí tudo bem, desde que não deixe a sua individualidade de
parte para atender aos horários/rotinas/exigências de Sua Excelência – o que tende
a acontecer se o cavalheiro for absorvente e/ou possessivo. O problema? Muitas
confundem possessividade ou sufoco com atenção e quando dão por si cancelaram o
ginásio, largaram as amizades, deixaram projectos importantes de parte,
viraram-se do avesso e são uma maquineta que se desdobra em função do outro.
3 -Outro caso que convida a essa distracção - e
que continua a acontecer em certos meios- é o das mulheres que estão ao lado de
um homem poderoso, Alfa, com um cargo relevante ou certo protagonismo e uma
personalidade dominadora. Mesmo as que mantêm a sua carreira e a sua vidinha
podem cair na tentação confortável de deixá-lo guiar a dança, ficando num papel discreto de apoio. Até aí tudo perfeito; nada de mal na tradição, desde
que o cavalheiro retribua a dedicação e a disponibilidade emocional não seja
ilimitada. Nenhuma relação tem equilíbrio se não houver respeito, fronteiras
bem delineadas e aquilo que podemos chamar áreas
intocáveis: se por causa do outro se deixa de dar a devida atenção às
pessoas queridas e aos objectivos individuais, há algo de errado.
A consequência nos três casos é que quando a relação esfria
ou desaparece, quem construiu a sua vida à volta da cara metade fica sem nada, porque
tudo o que tinha – amigos, vida social, preocupações, anseios, rotinas e até
objectivos profissionais – estava de algum modo ligado à outra pessoa. Além da
ruptura, que é sempre dolorosa, não existe qualquer estrutura de apoio.
O melhor remédio contra este mal é a prevenção; não deixar
que relação alguma invada as áreas intocáveis citadas atrás e não se virar do
avesso por ninguém. A quem já se encontra nesse dilema, há que, pouco a pouco, reclamar a sua existência (e poder) de volta. Quem não tem vida própria, não se pode doar a outrem.
Uma mulher ocupada é sempre muito mais interessante – tanto
para a cara metade, como para futuros (eventuais) pretendentes – e nunca corre o risco de
deixar que a desrespeitem. Afinal, ela tem mais que fazer.
