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Wednesday, September 17, 2014

A Vogue foi comprada por uma data de rappers, só pode.





Não há outra explicação para, depois de uma Kardashian na capa e outras tropelias (começo sinceramente a perder a conta a tanto disparate) publicar agora um artigo a anunciar "a madrugada do traseiro".

Bom, o problema nem é o artigo em si: se um fenómeno existe, é natural que os media o assinalem.

Também não é a questão racial que o público apontou em massa no twitter, dizendo que só agora  é que a revista se dignou a reparar numa coisa que já por aí anda desde o início do Milénio, e antes. 

 Nisso estou de acordo com a Vogue, vá: se por aí andava era um conceito underground, circunscrito a certas cenas musicais e determinados ambientes menos, bom...bem vistos. Se só agora se tornou mainstream e supostamente aceitável, é natural que só agora determinadas publicações concedam dar-lhe tempo de antena.

Acrescente-se que as mulheres africanas não podem queixar-se de não estar bem representadas na Vogue - a lindíssima Lupita é o exemplo mais recente de uma mulher de classe para todas as audiências - mas ficam, elas e todas as outras, mal representadas quando se fala no fenómeno do traseiro à escala global.



 O que me chamou a atenção no artigo foi a total ausência de espírito crítico, de julgamento estético ou moral - aliás o quase louvor -  perante algo que vai completamente contra o que a Vogue sempre defendeu. Porque uma coisa é o regresso (cíclico) desta ou daquela figura feminina. Era previsível e desejável que as curvas voltassem a estar em voga, não como padrão único mas numa perspectiva mais realista de a beleza e a harmonia existirem em vários tipos. 

 Há beleza em todos os géneros de silhueta, desde que devidamente vestida e com classe - das Caras e Kates às Belluccis, Vergaras e Uptons passando pelas Queens Latifahs e até, porque não, Iggy Azaleas deste mundo. A questão não é a circunferência dos glúteos per se. Nada contra o big booty, tudo contra este exagero medonho e boçal.

O problema é o contexto grosseiro e aberrante com que isso é apresentado e o mau exemplo que transmite que -  mais do que tudo -  contraria a exigência, elegância e rigor que a Vogue devia representar.

 A Vogue era a revista que ditava tendências, não a revista que se dobrava humildemente a elas, aos ecos da rua. Nunca foi uma revista from the people, for the people. A sua missão era determinar os padrões (elevados, elitistas mesmo) a que era suposto aspirar, não era ser cúmplice aquilo que supostamente devia desprezar ou contrariar.

 Se a própria Vogue baixa os padrões e coloca a fasquia a este nível, não sei como pode inspirar alguém. Ou pode - mas não na direcção daquilo que era a Vogue. Passo.


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