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Friday, September 12, 2014

Amor é...ter paciência de Job.




O amor tudo suporta - embora eu tenha para mim que os ataques à dignidade e a falta de respeito são a única coisa que não se pode sofrer com exagerada passividade (ou com ausência de firmeza) sob pena de pôr em causa o mesmo amor.

 De qualquer forma quem ama tem paciência, ou não pode dizer que ama; é o velho caso quem não aguenta o calor, sai da cozinha, porque os testes são diários...e às vezes as coisas pequeninas, repetidas, insistentes, os minúsculos hábitos, os pequenos nadas que se vão avolumando, são as provas mais difíceis. 

Numa relação, ou em família, nada se faz sem muito laissez faire laissez passer, sem doses maciças de "tenho tolerância porque também gosto que sejam pacientes com os meus defeitos" sem alguma fé na possibilidade de as coisas irem ao sítio por si mesmas com carinho, exemplo, método e tentativa e erro.

  Por vezes, conhecer aqueles que nos são mais próximos não é um dado adquirido. Há subtilezas que só se compreendem com anos de convivência, de crises, de desgostos, de reconciliações, de alegrias partilhadas que nos ensinam a relativizar. Sem persistência, não se alcança esse conhecimento do outro; sem esse conhecimento, as coisas mais triviais parecem graves, e é aí que as rupturas irremediáveis podem acontecer.

O amor não é como uma compra por impulso; é um investimento a longo prazo. Se houver danos, temos de estar preparados para arranjar, consertar, preservar, não para substituir e passar adiante.

  Havia uma mulher na Argélia que era profundamente infeliz, embora tivesse aparentemente as condições ideais para levar uma vida tranquila: bem casada (aos olhos do mundo) sem falta de bens materiais e com algum prestígio na comunidade, faltava-lhe porém o essencial: um marido decente. O esposo, que se chamava Patrício, era mau e mulherengo. A pobre coitada chorava e rezava, rezava e chorava, e distraia-se confortando os mais necessitados.
 Como se não bastasse, a paciente senhora, que todos elogiavam como um modelo de virtudes mal empregado num marido tão ingrato, tinha um filho igualzinho ao pai - estroina, desobediente e valdevinos, ninguém fazia nada dele. 

 Dava tantas inquietações em casa que a mãe, que era muito piedosa, receava mandá-lo baptizar com medo que ele profanasse o sacramento. Mesmo quando decidiu fazer alguma coisa da vida e estudar, aos dezasseis anos, o filho desnaturado tentou tudo para escapar à vigilância da mãe, viajando para fora. E a pobrezinha lá continuava o combate à distância - sem telemóveis, nem Skype, nem nenhuma destas maravilhas dos nossos dias que permitem acalmar as ânsias de quem está longe - com as armas que tinha à mão: bons exemplos, conselhos e muita, muita reza...

  Tanto rezou que conseguiu converter o marido. Mais tarde, teria a mesma alegria ao realizar o desejo de ver o filho baptizado e desempenhando um importante cargo de professor. A mãe, como já terão adivinhado, era Santa Mónica; e o filho era Santo Agostinho, grande Doutor da Igreja.

 Não deixa de ser estranho que actualmente com tanta ciência, tanta tecnologia, tantos recursos à disposição, haja uma tendência para se ser muito mais impaciente, muito mais intolerante e facilitista, quando as relações e as famílias continuam a ser tão importantes para todos como eram no século IV...



1 comment:

Carla Santos Alves said...

Adorei.Adorei mesmo.
Julgo que a pressa de se chegar, nem sei bem onde, levas à intolerância em relação ao outro. Os casamentos são quase descartáveis, infelizmente.
Nada se constrói com leviandade, e castelos na areia leva-os a água.
Estar casado nem sempre é fácil, é como um barco no mar, há calmaria e tempestades, e é com a tempestade que percebemos a estrutura do nosso barco, e quando vamos em velocidade cruzeiro, sabe muito bem.;)

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