"Always be yourself no matter what", "stay true to yourself", etc, etc, são clichés muito badalados em livros lamechas de auto ajuda e citações ainda mais lamechas (e chochas) que poluem as redes sociais. Mas o que vem a ser isso de ser fiel a si próprio, afinal de contas?
Trabalhar a personalidade com se nasceu, aprimorar os dotes de cada um, polir os defeitos para estar bem em sociedade e agradar às pessoas queridas é natural e aconselhável.
Se temos mau feitio devemos transformá-lo num temperamento vibrante mas moderado, que não se torne cansativo para os outros; se somos tímidos há que contrariar o acanhamento excessivo que põe em causa a delicadeza para com quem nos rodeia e pode atrapalhar projectos profissionais; quem é vaidoso, desleixado, egoísta, teimoso, e assim por diante...precisa de olhar para dentro e fazer por encontrar um certo equilíbrio. Este processo é normal: está presente por dentro (nos pensamentos e atitudes) e por fora (no vestuário e nos hábitos); faz parte de crescer e evoluir, de explorar as nuances do carácter, de saber estar em toda a parte e do saber adaptar-se às situações.
Nada isto porém se deve traduzir em afectação, em procurar ser aquilo que se não é, em negar-se a si mesmo (a) e muito menos em abafar totalmente a personalidade em função dos outros. O aperfeiçoamento é como a maquilhagem, que deve ser usada na quantidade exacta para realçar a beleza natural, e não ser uma máscara.
Uma coisa é maquilhar a personalidade - outra bem diferente é desfigurá-la com cirurgias à alma.
Se quem está ao lado - ou uma determinada condição ou circunstância - obriga, controla ou condiciona cada olhar, cada gesto, cada palavra, cada raciocínio, isso já é mau. Ninguém consegue dar o seu melhor, nem por si nem pelos outros, se viver no constante receio de desagradar, de ser mal interpretado (a); ninguém consegue andar para a frente se for forçado (a) a olhar sempre para baixo; ninguém brilha se viver com medo que essa luz desperte inseguranças e traga complicações.
Devemos pôr-nos sempre em segundo lugar perante os outros, esperando que façam o mesmo em relação a nós; mas nunca em último.
Quando a necessidade de agradar ou de não causar ondas é constante e excessiva, quando se pensa demasiadas vezes "estarei a fazer isto bem?", quando tem de se calcular cada movimento, algo está errado. Significa que é altura de perguntar "espelho, espelho meu, afinal onde estou eu?" antes que o próprio espelho deixe de saber a resposta.
