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Saturday, September 27, 2014

Lady Mendl dixit: original é uma coisa, excêntrico é outra.


Elsie de Wolfe, Lady Mendl-  socialite, actriz e decoradora de interiores que praticamente inventou tal profissão e libertou as casas de clientes ricos e famosos (como os Duques de Windsor) do austero ambiente vitoriano - não foi exactamente uma senhora convencional. 
Era dotada de um verdadeiro horror às coisas feias (ou às coisas que não iam muito ao seu gosto fresco e moderno) e de uma imaginação borbulhante; escandalizava os convidados do marido diplomata ao aparecer vestida de bailarina de cancan e com uma idade já avançada ainda fazia yoga e piruetas. Nasceu numa família de classe média americana sem muito dinheiro mas com boas relações na sociedade europeia, que a mandou para casa de uma tia escocesa para polir a sua educação. Isto possibilitou-lhe travar bons conhecimentos e reinventar-se como a mulher que convinha aos seus desígnios. Não era no entanto tão bem nascida que tivesse de se restringir às regras das perfeitas senhoras do seu tempo, por isso viveu da forma que achou melhor.

 Embora durante a sua carreira no palco fosse descrita não como uma grande actriz, mas como alguém que dominava a arte de "usar bem belas roupas" privou com mitos como Shaw e Oscar Wilde e criou a sua própria realidade.

Era uma original, portanto.



Mas a futura Lady Mendl tinha uma qualidade rara ...que falta por vezes aos originais e que é essencial para que uma forma única de estar não se transforme em extravagância ou excentricidade desagradável: bom senso. Ou graciosidade e amenidade, se preferirem. 

Ser belo (a) no sentido estrito do termo não está na mão de cada um (a): a beleza pode ser relativa; pode-se (e deve-se) trabalhar a beleza natural ou tirar partido do sex appeal, de uma figura que não sendo linda, é interessante e carismática;  é possível aumentar-se e realçar-se os dotes de cada um, mas a formosura  não é democrática; é sorte, fruto do acaso. 

Ser espirituoso é um dom a empregar com parcimónia como se usam os temperos na comida; mas também uma ferramenta e às vezes, uma necessidade - muitas vezes é preciso ter sprezzatura para não ferir susceptibilidades directamente ou para escapar a um dito mais atrevido sem cair na má criação, mas na dúvida mais vale passar por circunspecto do que por tonto ou palhacito de serviço. 

Ser gracioso (a), no entanto...bem, isso é uma obrigação e uma capacidade acessível a todos. Não só nos gestos e na forma leve de estar, mas na habilidade de não tomar os outros (e muito menos a si mesmo) demasiado a sério. Lady Mendl não afinava, não desatinava, não se irritava nem em tribunal. Sacudia tudo com uma frase desarmante ou um sorriso misterioso. É claro que isto é bem mais fácil de dizer que de fazer, principalmente para as mulheres de hoje, numa época em que já não é suposto
 aplicarem-se as sábias mas complicadas regras do antigamente. 

Morder - ou moderar - a língua pode ser dificílimo, especialmente quando estamos cobertas de razão ou sabemos perfeitamente que a outra pessoa (um cavalheiro, muitas vezes) está a dizer tolices ou coisas que faltam à verdade. A vontade de replicar ou corrigir é dolorosa de dominar, mas deve pesar-se se vale a pena gastar latim, discutir e principalmente debater, que quase sempre descamba em cenas desagradáveis. Em E tudo o Vento Levou, obra contemporânea de Lady Mendl e que reflecte um pouco do mundo em que Elsie cresceu, a heroína Scarlett O´Hara é posta perante esse dilema: a sua personalidade forte contra o comportamento que é esperado no seu meio:

'You must not interrupt gentlemen when they are speaking, even if you do think you know more about matters than they do. Gentlemen do not like forward girls.´

  Daí Lady Mendl dizer "seja gracioso (a) nem que isso o mate"; há que fugir às picardias, isto para homens e mulheres. Mas se fosse fácil, qualquer um era gracioso...





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