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Monday, September 8, 2014

Lina Cavalieri: a reencarnação de Vénus


"Não se detenha em coisas desagradáveis; se valoriza a sua beleza, despreze-as"

Lina Cavalieri


A vida da cantora lírica Lina Cavalieri - uma das maiores beldades da Belle Époque e alcunhada de "a rapariga mais bonita do mundo" e "Vénus na Terra" é um exemplo de como uma mulher pode fazer o seu próprio destino. Ou se quiserem, de que por vezes os deuses se divertem a criar as maiores pérolas de beleza e talento nos locais mais improváveis.

  Do origens humildes, Natalina Cavalieri ficou orfã aos 15 anos e foi entregue ao Estado, passando a viver num orfanato de religiosas. Mas a disciplina rigorosa da instituição não casava bem com a natureza irrequieta da linda jovem, que na primeira oportunidade fugiu com um grupo de teatro.


A existência fora da alçada das boas Irmãs não era fácil, porém - Lina teve vários empregos menos agradáveis para sobreviver: distribuir jornais, vender flores nas ruas de Roma...para se distrair das suas desditas, cantava. E foi assim que (como Edith Piaf mais tarde, e muitas outras) foi descoberta, tornando-se cantora de café-concerto. Daí a Paris foi um pulo: lá encantou os bon-vivants da cidade nas Folies Bergère, cantando melodias napolitanas ao lado de belezas lendárias como a Belle Otero e Cécile Sorel (que viria a tornar-se Condessa de Ségur).
  
Enquanto isso, tomava lições de canto para desenvolver a sua voz com uma das melhores professoras da época. Várias pessoas amigas lhe diziam que o seu destino não era o cabaret, mas o bel canto - e que se a sua voz não possuía, na opinião de alguns, a força e extensão característica das prima donnas, o seu timbre melodioso, a sua figura encantadora, a expressividade dos seus solos e o seu natural sentido do estilo e da publicidade eram suficientes para ter a seus pés as maiores plateias da Europa.
O amor de um homem - o Príncipe russo Alexandre Bariatinsky, com quem viria alegadamente a casar e a ter um filho - veio reforçar esta ideia. Se ia unir o seu destino a uma mulher do mundo do espectáculo, queria orgulhar-se dela. Ele mesmo lhe custeou as aulas de música e moveu influências para a tornar a mais bela diva lírica daquele tempo.

 


 O esforço resultou- em parte. O seu debute em 1900 (em Lisboa, nem mais) foi um fracasso. O público português era exigente e não lhe perdoou o nervosismo e a inexperiência. Mais tarde a bela soprano vingar-se-ia com um triunfo retumbante na Capital Portuguesa, depois de ter conquistado as maiores plateias, de São Petersburgo a Nova Iorque...mas o Príncipe afastar-se-ia dela após esta primeira contrariedade. 
 Um coração partido e uma má estreia não a demoveram, porém; os grandes mestres diziam-lhe "tu és tão bela que te podes dar ao luxo de errar de vez em quando" e era um facto. Lina tinha a sorte não só de ser uma beleza clássica, intemporal - como provam os retratos - mas de corresponder ao ideal do seu tempo: figura de ampulheta, uma cintura minúscula, pele clara, rosto oval e cabelo escuro.

A presença da mais bela mulher do mundo no palco iludia as audiências, fazia-as pensar que ela representava e cantava melhor do que o fazia na realidade. Os seus melhores papéis eram aqueles em que devia parecer linda e surgir em palco com as mais luxuosas toilettes. Ela sabia aparecer e causar impacto. Em pouco tempo, a Fama bafejava-a e tinha amealhado uma fortuna considerável.

 Querida pela sociedade nova iorquina, em 1910 casou com um membro da riquíssima família Astor; mas esta segunda união acabaria logo após a Lua-de-Mel, seguindo-se uma batalha em tribunal e um acordo milionário. Azar ao amor, sorte na carreira: voltou à Rússia, onde se tornou a estrela favorita dos tempos pré revolucionários. 
 A partir de 1914 retirou-se e assentou entre Paris (onde abriu uma elegante loja e passou a escrever uma coluna numa revista feminina) e a sua Itália natal (desempenhando papéis em filmes mudos). Quando a Itália se envolveu na I Guerra Mundial, ela continuou a  carreira cinematográfica nos Estados Unidos. A sua maravilhosa formosura não se tinha desvanecido, por isso publicou um livro (ainda disponível actualmente) - "Os meus Segredos de Beleza".
  Durante a II Guerra Mundial, já na casa dos sessenta, Lina voluntariou-se como enfermeira. Infelizmente, morreu em 1944 durante um ataque aéreo aliado que lhe destruiu a elegante casa em Florença, quando ela e o seu último marido não fugiram para o abrigo a tempo na tentativa de salvar alguns valores.
 No cinema, seria interpretada por outra grande beldade, uma Gina Lollobrigida muito espartilhada, em 

La donna più bella del mondo - nem mais.

  









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