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Thursday, September 25, 2014

Mostra-me o teu lado lunar, lá diz a cantiga.



A avó tinha uma máxima bem verdadeira: é no hospital e na prisão que se conhecem os amigos – ou seja, quem é leal (amigos, amores, familiares) não deserta nos maus momentos. Oscar Wilde disse, por seu lado e muito sabiamente também, que os amigos também se reconhecem nos momentos de triunfo: afinal, é preciso um espírito elevado para não se encher de inveja perante o êxito de outrem.

 Em todo o caso, o amor verdadeiro reconhece-se nos momentos extremos: os muito bons e os muito maus. E isto também se aplica às flutuações de temperamento. Quem ama verdadeiramente não toma o outro por garantido nas fases felizes: os gestos de carinho e as atenções são sempre valorizados e apreciados.
 Há essa constância: pequenas coisas como saber revezar-se na arte de dar o braço a torcer, nunca terminar o dia zangados, mostrar por gestos e palavras o quanto a cara metade é preciosa. Quem ama tem, por mais seguro de si que seja, o permanente receio de perder o outro; sabe que nada é certo na existência, que tudo o que sentimos como nosso pode ser-nos tirado e vive na esperança de que isso não aconteça. Por isso valoriza: sabe que muita gente daria tudo para ter esse tipo de sentimento na sua vida. Cada instante é precioso.

 Porém, o amor puro tem o seu verdadeiro teste nos momentos negros: nas fases em que – por uma crise de casal, um erro, um problema financeiro, uma doença ou outra razão qualquer – tudo deixa de ser bonito, e o outro não age como antigamente. É quando alguém mostra o seu lado insuportável, injusto, desabrido ou mesmo cruel que se vê o quilate da cara metade, e até que ponto os sentimentos são genuínos. Quem ama o lado belo tem de saber amar o lado negro, ou não ama: afeiçoou-se a uma ilusão, a uma imagem redutora ou à ideia que fazia do outro.

 Não quer isto dizer que se deva suportar indefinidamente o intolerável, mas não há amor sem paciência, sem heroísmo, sem mananciais de tolerância e abnegação.

 Querer só a faceta perfeita, rejeitar o lado vulnerável, rude ou assustador de quem se supõe amar, é tão pouco amor como tomá-lo por garantido nas fases felizes.

Isso pode ser romance, mas está longe de ser real…

2 comments:

Paula said...

Por isto tantos casamentos não resistem a crises, desemprego ou doenças, enquanto outros saem fortalecidos!
vidademulheraos40.blogspot.com.

Carla Isabel said...

É isso mesmo...gostei do que li e partilho da mesma opinião!

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