A avó tinha uma máxima bem verdadeira: é no hospital e na prisão que se conhecem os amigos – ou seja, quem
é leal (amigos, amores, familiares) não deserta nos maus momentos. Oscar Wilde
disse, por seu lado e muito sabiamente também, que os amigos também se
reconhecem nos momentos de triunfo: afinal, é preciso um espírito elevado para
não se encher de inveja perante o êxito de outrem.
Em todo o caso, o
amor verdadeiro reconhece-se nos momentos extremos: os muito bons e os muito
maus. E isto também se aplica às flutuações de temperamento. Quem ama
verdadeiramente não toma o outro por garantido nas fases felizes: os gestos de
carinho e as atenções são sempre valorizados e apreciados.
Há essa constância:
pequenas coisas como saber revezar-se na arte de dar o braço a torcer, nunca
terminar o dia zangados, mostrar por gestos e palavras o quanto a cara metade é
preciosa. Quem ama tem, por mais seguro de si que seja, o permanente receio de
perder o outro; sabe que nada é certo na existência, que tudo o que sentimos como
nosso pode ser-nos tirado e vive na esperança de que isso não aconteça. Por
isso valoriza: sabe que muita gente daria tudo para ter esse tipo de sentimento
na sua vida. Cada instante é precioso.
Porém, o amor puro
tem o seu verdadeiro teste nos momentos negros: nas fases em que – por uma
crise de casal, um erro, um problema financeiro, uma doença ou outra razão
qualquer – tudo deixa de ser bonito, e o outro não age como antigamente. É
quando alguém mostra o seu lado insuportável, injusto, desabrido ou mesmo cruel
que se vê o quilate da cara metade, e até que ponto os sentimentos são
genuínos. Quem ama o lado belo tem de saber amar o lado negro, ou não ama:
afeiçoou-se a uma ilusão, a uma imagem redutora ou à ideia que fazia do outro.
Não quer isto dizer
que se deva suportar indefinidamente o intolerável, mas não há amor sem
paciência, sem heroísmo, sem mananciais de tolerância e abnegação.
Querer só a faceta
perfeita, rejeitar o lado vulnerável, rude ou assustador de quem se supõe amar,
é tão pouco amor como tomá-lo por garantido nas fases felizes.
Isso pode ser romance, mas está longe de ser real…
