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Thursday, September 18, 2014

Porque é que o Titanic nunca me convenceu?


Ocorreu-me esta ideia quando há dias li qualquer coisa a propósito num artigo de nostalgia dos anos 90. Nunca comprei a maluqueira do filme de James Cameron. Mentiria se dissesse que não fiquei entusiasmada ao saber de uma produção sobre a tragédia (já que o acontecimento e a época sempre me fascinaram) ou que não gostei dele em si, apesar de se tornar tão popularucho. Por mim, as cenas das senhoras de sociedade na 1ª classe e as peripécias dos irlandeses na 3ª podiam ter continuado por ali fora, que eu não me ralava.

 O que nunca engoli nem com molho de tomate foi o belo romancezinho entre a Rose e o Jack, por quem era suposto o público torcer. Are you serious?! Já lá vamos.

 Primeiro, a Rose. Nunca compreendi a Rose. Sempre a achei estouvada e egoísta. 

Também sou suspeita, para vos ser sincera: se eu vivesse naquela época, se tivesse a idade da Rose nesse tempo, ia ser o mais parecido que havia com uma reaccionária (se é que posso aplicar aqui a palavra, mas acho que posso) ou se preferirem, um Velho do Restelo jovem e de saias. Ainda me lembro da cara espantada da minha professora de História do 8º ano, quando eu lhe disse que não achava piada às suffragettes. Era suposto todas as meninas gostarem dessa parte:  as suffragettes eram umas gandas malucas que desobedeciam à ordem estabelecida e faziam manifs, eram valentes e iam presas e tudo.



Admito que por cá, a forma como a cirurgiã Carolina Beatriz Ângelo deu a volta aos homens para votar como chefe de família foi uma jogada brilhante (imagino a cara deles) mas melhor faria se não tivesse discursado e debatido tanto- morreu do coração aos 33 anos quando tinha coisas bem mais importantes a oferecer à Humanidade do que debater política. Lá dizia Bernard Shaw que não percebia para que é que mulheres bonitas e inteligentes se esgatafunhavam por coisas dessas...



 Logo eu não havia de simpatizar muito com raparigas como a Rose, sempre revoltadas para que o mundo mudasse numa direcção que não sabiam se lhes convinha. 



Voltemos então à doidivanas da Rose. A Rose é uma menina mimada que sabe muito pouco da vida e acha que a relva é mais verde do outro lado. Tem um noivo bonito e Alfa que a adora, que não lhe nega nada desde que ela o trate bem, que quer casar com ela e oferecer-lhe uma vida de mimos e segurança apesar de ele ser rico e ela estar completamente falida. Caledon, o noivo, não gosta de Picasso, mas oferece-lhe quadros dele porque ela gosta. E pode não dizer frasezinhas romanescas nem tolerar disparates, mas manifesta-se como sabe: no caso, oferece-lhe diamantes porque pode e na sua ingenuidade acha que ela merece o mais belo e raro diamante do mundo. O valor da peça é irrelevante, o gesto é que diz tudo.

 Como é que ela agradece a devoção dele? Contrariando o coitado em tudo o que se lembra. É que não lhe faz uma vontadinha sequer, trata de o contradizer à frente de quem está, faz cara feia a tudo, enfim, é desfeita atrás de desfeita. Depois aparece o Jack- cara -de- bebé, que não a conhece de lado nenhum, bom rapaz mas um tremendo irresponsável.


O Jack é novidade, é idealista, boémio, sonhador, faz de sensível, diz-lhe o que ela quer ouvir - que ela pode fazer o que quiser da vida dela e voar e mimimi - e claro, a menina que está para contrariar toda a gente decide que o rapaz rebelde que nunca viu mais gordo é o amor da vida dela, que quer viver como os amigos dele que passam o tempo a cantar e a dançar porque tem uma ideia romântica do que é a vida dura dessas pessoas, que vai fugir com ele assim que o navio atracar e mai´nada.

 Não lhe ocorre ter respeito pelo homem a quem deu a sua palavra nem remorsos de o enganar em público, não pensa na pobre mãe que ficará na miséria se ela romper o noivado, não repara sequer que o Jack, o bom do Jack, vive de biscates, vive para o presente e amanhã Deus dará, logo não se sabe se amanhã manterá as juras de amor. 


Ela nem sequer acha estranho quando ele lhe diz que costuma privar com prostitutas e as acha mulheres exemplares. Sinal de alarme, anyone?
 Desculpem estragar o romantismo da adolescência de muita gente, mas se o navio não tivesse afundado, o romance não duraria duas semanas. Até podiam chegar a Paris, mas o mais certo era ele trocá-la por uma corista qualquer e a Rose juntar-se ao circo (que é mais ou menos o que acaba por acontecer, vá).
No entanto afundou e é o pobre do Cal que a vai procurar a todo o custo mesmo 
sabendo-se traído e escarnecido. 


 Aí comecei a pôr em causa se o Caledon a adora perdidamente ou se é um tanto pateta, porque tenciona meter uma bala no homem que lhe roubou a noiva (e a desenhou sem roupa) mas continua a querer casar com uma destemperada daquelas. De qualquer modo, nesta altura é suposto a audiência simpatizar com a Rose, a traidora e com Jack, o desmiolado, e dizer "que ciumento malvado que é o noivo! Que possessivo!" - também, faltava que não fosse perante vexames daqueles...

Depois  a película finda como sabemos: ela acaba por ter sozinha todas as aventuras que a família não queria que tivesse (ser actriz, andar a cavalo sem sela de senhora, etc) mas acho que a história passa uma mensagem totalmente errada. Ter uma vida estável ao lado de uma pessoa com ideias firmes não é necessariamente estar "encurralada", assim como fazer o que nos apetece não é garantia de não ter contrariedades na vida. Todos estamos sempre sujeitos a alguma coisa, ninguém é totalmente livre. As restrições que a Rose ia enfrentar junto do Caledon não eram piores do que aquelas que teria de lidar juntando-se com o Jack ou outro "cidadão do mundo" qualquer. Havia muitas coisas que também podia fazer junto do marido, afinal, "ele não lhe negava nada".


 Claro que podem dizer "ah, mas ela amava era o Jack" - sinceramente acho que não amava nenhum. Não sabia o que queria da vida. Uma paixoneta, um entusiasmo, não é amor.
 Por fim, assumindo que isso fosse verdade, ela não deu uma chance ao noivo, embirrou  com ele desde o início; mas também nisto sou suspeita porque sempre achei o Billy Zane mais interessante e custa-me a crer que alguém prefira o imberbe Leonardo Di Caprio, mas tudo é possível...





5 comments:

barcelence said...

Torna-se demasiado fácil falar mal das suffragettes, quando se esquece que o antigo Código Civil contemplava a ação de reivindicação sobre a esposa que abandona o lar contra vontade do Sr seu marido. Num país em que, depois de vedarem o voto às mulheres, acabaram por vedá-lo a todo e qualquer português durante circa 40 anos. Não se misture gosto pelo glamour dos folhinhos e chá e maquilhagem e coisa e tal, tolda muito a visão política.

Imperatriz Sissi said...
This comment has been removed by the author.
Imperatriz Sissi said...

Não se trata de misturar, esquecer ou desconhecer o contexto. Trata-se de, conhecendo a minha pessoa e imaginando-me naquela época, saber que muito dificilmente aderir a tais movimentos (muito menos cá, com valores republicanos em que não me revejo). Embora reconheça que na época havia razões mais válidas para protestar do que agora, houve também muitas coisas menos boas que resultaram daí.

A Bomboca Mais Gostosa said...

Lol por acaso concordo com a tua análise em quase tudo. Está certo que ela ia casar obrigada, mas só tinha de vincar a sua posição, porque na verdade e como tu dizes, ela não amava nenhum. O Jack foi apenas uma paixoneta teen. Ela não sabia o que queria mas o outro pobre coitado levou por tabela.
Na altura não achava grande piada ao Leonardo, mas agora... Vai lá vai lol

Paula said...

Pois a mim o que sempre me fez espécie é não terem os dois ficados no pedaço de destroços e o rapaz ter morrido de hipotermia junto a ela!
vidademulheraos40.blogspot.com.

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