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Friday, September 5, 2014

Tomás de Kempis dixit: o homem perfeito.



"Não se há-de dar crédito a toda a palavra, nem julgar ao de leve (...). Os varões perfeitos não crêem de leve tudo o que se lhes conta (...). A esta sabedoria também pertence não crer quaisquer palavras dos homens, nem dizer logo aos outros o que se creu ou ouviu".

in "A imitação de Cristo"

Considerada uma das maiores obras do Catolicismo e um dos livros mais traduzidos de sempre, a Imitação de Cristo, escrita por um monge no sec. XV, mantém-se um clássico incontornável e está cheia de máximas de grande bom senso. 

 Se há coisa que causa insegurança no amor, nas amizades ou nas relações profissionais é lidar com uma pessoa que acredita em tudo o que ouve, não importa quão pouco fidedigna ou merecedora de crédito a fonte seja.

 Pessoas assim são tão desconfiadas - e ao mesmo tempo tão crédulas -  que vêem conspirações ou más intenções em toda a parte menos onde elas estão de facto e assim ouvem daqui, ouvem dali no intuito de se certificarem da verdade ou de confirmarem as suas suspeitas. O resultado é que acabam por ouvir os piores mexericos, os boatos mais tolos ou a versão que interessa a cada um dos envolvidos, sem ponderar o que terá cada intrometido a ganhar com o assunto...e pior, agem de acordo com a última versão que o vento lhes trouxe.

 Ser mexeriqueiro - seja por espalhar, ou por ouvir mexericos - é um dos defeitos mais feios e incómodos à face da Terra. Mas se numa mulher a comadrice é perniciosa, num homem é simplesmente desprezível...pois de um homem espera-se um comportamento varonil, isento de tais fraquezas.


 Shakespeare ilustrou bem este tipo de homem em Othello, que preferiu acreditar sem pensar duas vezes num sujeito que claramente tinha interesse em dar-lhe cabo da vida a confiar um bocadinho que fosse na própria esposa.

 Quem assim é, é demasiado inseguro para formar uma opinião e mantê-la; demasiado volúvel para ser leal e tão imaturo que não consegue gerir nada, nem sequer ser senhor de si mesmo. E se estiver numa posição de poder...mais desastrosa se torna esta mania parao próprio orelhudo e para os desgraçados que dele dependem.

  Amar uma pessoa assim, ser amigo de alguém com tão grandes orelhas ou trabalhar para um chefe que, como diz o povo, emprenha pelos ouvidos, é um verdadeiro pesadelo.

 Sai-se de junto da pessoa muito feliz, tudo em paz...apenas para descobrir que no dia seguinte acreditou num disparate qualquer e se vira contra a cara metade, o melhor amigo ou o colaborador de confiança, sem razão plausível. 

Vive-se a pisar ovos, a caminhar sobre gelo fino, sempre a olhar por cima do ombro, quando para pôr fim a tais males bastava que o desconfiado orelhudo tivesse juízo e escolhesse com mais critério as pessoas a quem autoriza levar e trazer.

 Afinal, nenhum homem inteligente pode pretender ser amigo íntimo de todos, nem crer nos outros mais do que nos factos ou do que na sua própria consciência. O mesmo livro recomenda e muito bem, "caridade se deve ter para com todos; mas não se deve ter para com todos a familiaridade".


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