Eu que tanto gosto de contos de fadas à moda antiga e que não compro nem um bocadinho a tendência das Princesas Disney modernaças, valentonas e serigaitas, sempre tive cá a minha embirraçãozinha com a Cinderela.
Eu explico: primeiro, porque nas versões mais recentes (que são as que a maioria lê) se perderam pormenores que vinham nos originais de Perrault e dos irmãos Grimm e por isso a Gata Borralheira, coitada, tornou-se sinónimo de alpinista social... quando a única interesseira na história era a madrasta, que casou por dinheiro e estatuto (noutras versões ainda a madrasta era uma fidalga de brasões empobrecidos, mas continuava a ser interesseira).
Segundo, porque embora se possa dizer que a minha favorita, A Bela Adormecida, também não fez grande coisa por si própria e ficou à espera do Príncipe, em sua defesa a Bela Adormecida estava enfeitiçada e não se conseguia mexer do sítio; foi vítima do equivalente medieval a uma dessas drogas horríveis que agora põem nos copos das raparigas incautas, o que não era o caso da Cinderela.
A Cinderela estava na plena posse das suas faculdades e mesmo assim continuou a tolerar os abusos da madrasta e das irmãs sem tir-te nem guar-te; se não é a Fada Madrinha vir em seu auxílio ainda agora continuava a limpar as cinzas da lareira que era um gosto. E no fundo, o que é que a madrasta fazia? Metia-lhe medo, só isso: nem sequer arranjou um caçador para lhe tratar da saúde, como a madrasta da Branca de Neve que apesar de tudo era Rainha e uma Bruxa má como as cobras ainda por cima, com um espelho mágico que era pior que um GPS para encontrar a desgraçadinha onde quer que ela se escondesse.
A madrasta da Cinderela nem ao menos tinha poderes, logo era um caso de a moça se impor à vassourada, ou chamar o juiz de paz ou qualquer coisa. Mas não, teve de vir a Fada para consertar tudo com um bibiddi-boddiddi-boo (adoro essa canção, já agora).
E terceiro porque não tenho nada contra a ideia romântica de ser salva pelo Príncipe Encantado, ou contra uma mulher deixar-se mimar pelo homem da sua vida, ou mesmo de ter um papel mais tradicional se ambos quiserem: mas a Cinderela é um bocadinho demais.
Quebrado o encantamento, sem a Fada e sem o Príncipe, não lhe resta nada senão uma abóbora e um sapato de cristal desemparelhado. Sem o Príncipe, ela não é senão a Gata Borralheira. Não tem nada de interessante a passar-se na sua vida. Mesmo para experimentar o sapatinho precisou de ajuda e não me admirava que se o Príncipe saísse um grande malvado depois do casamento, ela continuasse a ser tão xoninhas como era com a madrasta,levando ao exagero o papel de esposa extremosa.
Nenhuma rapariga inteligente, por mais feminina e tradicional que seja, deve cair num caso Cinderela: há que estar sempre prevenida para que as Doze Badaladas não a deixem apeada e sem sapatos. E pelo sim pelo não, pedir à Fada Madrinha que lhe ensine a usar uma varinha mágica em vez de estar à espera que a velhota lhe arranje calçado, vestido e carruagem de cada vez que lhe apetece. Ser doce, bondosa, paciente e bonita, tudo isso são grandes virtudes, mas...convém ter um bocadinho de miolo. Ser apenas uma Paciente Griselda nem sempre é boa ideia.
