Gone with the Wind - tanto o livro, como o filme - é uma das minhas fixações de infância. Sempre achei Scarlett a heroína perfeita, embora esteja mais para anti heroína do que outra coisa.
Não sabe o que é o medo, mas tem um lado vulnerável. E faz tudo isso sendo lindíssima, tão delicada como uma flor. Numa época em que a sociedade parece obcecada com "dar poder às mulheres", Scarlett só não é mais popular porque o empowerment da personagem tem uma faceta que não cai bem de acordo com os padrões actuais: ela sabe ser tradicional quando é preciso.
Scarlett está longe de ser uma mulher idealizada: não é a donzela em apuros dos ideais de outros tempos, nem a super mulher de acordo com o ideal dos nossos dias: ela é muito mais complexa do que isso. É uma personagem realista, que possui a Virtú segundo Maquiavel: lida com o mundo como ele é, em vez de lutar inutilmente contra o status quo.
Se a vida lhe dá limões, ela faz limonada e o resto é retórica...
Ora, é impossível pensar nela sem recordar uma das suas linhas mais famosas:
Quando as coisas ficam realmente pretas (nomeadamente, quando Rhett decide deixá-la precisamente na altura em que ela se apercebe de que o amava) Scarlett sabe que pensar demasiado no assunto é a receita para perder o juízo. Por isso, adia o desespero para o dia seguinte. Dá a si própria tempo para se acalmar e espera que o amanhã lhe traga uma boa estratégia para resolver o problema, ou um milagre, ou qualquer mudança positiva.
Amanhã tudo pode ser diferente; a nossa mente pode olhar noutra direcção, a roda girar, os ventos mudar, os nossos olhos tropeçarem numa solução que estava escondida debaixo do tapete ou simplesmente, suceder que a Fortuna caprichosa tenha guardado uma boa surpresa para nos apresentar no momento certo.
Mas é fácil não acreditar nisto quando há padrões desagradáveis que se instalam e repetem, ou quando uma situação fica estagnada. Aí, pensar no dia de amanhã é mais um tormento do que um alívio: cai-se no pânico do amanhã. Sabem, a sensação ingrata de abrir os olhos e pensar "lá vem mais um dia cheio de aborrecimentos! Quem me dera ficar na cama! Que sina a minha, por mais que faça fica tudo na mesma, etc, etc".
Ora, isso é uma asneira porque se tudo correr normalmente (mal estaríamos!) o amanhã chega na mesma e temos de o aturar quer gostemos quer não. E com tantos acontecimentos aleatórios a dar-se constantemente por esse mundo fora, tanto movimento dos astros, tanto efeito borboleta, tantas infinitas possibilidades, alguma coisa há-de aparecer para salvar o dia.
Se não for nesse amanhã que é o hoje, será no amanhã-amanhã, ou no depois de amanhã. É errado adiar tudo, menos o desalento: essa é a excepção à regra, e caso para aplicar sem sarcasmo o estribilho do nosso António Variações: é para amanhã/deixa lá não faças hoje/porque amanhã/tudo se há-de arranjar.
Não te desesperes hoje, porque amanhã tudo se há-de arranjar.
Ou como dizia a avó, amanhã Deus dará.
Que remédio!

