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Sunday, October 12, 2014

Malala, ou de começar a viver cedo demais.


Com apenas 17 anos, Malala Yousafzai já teve duas existências diferentes - primeiro, a da pequena blogger e activista Paquistanesa que sobreviveu a um atentado (começou a dar entrevistas aos 11 anos e tornou-se um símbolo do direito à educação aos 14); depois, a da rapariga que espantou o mundo com a sua eloquência, centrando a sua "luta por direitos" nos direitos e igualdades que realmente importam - independentemente dos "movimentos" que chamem a si as suas palavras.

 Nesse antes e depois há agora o Nobel da Paz que a própria diz não merecer, com a modéstia que costuma caber aos grandes. A sensibilidade, coragem, serenidade e dom da palavra da jovem Malala são inegáveis.
 Ao atribuir-lhe uma das maiores honras do Mundo Ocidental, é claro que se está a mandar uma poderosa mensagem - contra o extremismo, pelos direitos das crianças, pelo direito universal à educação. Porém, duvido que isso fosse possível se Malala fosse uma corajosa -mas tímida -jovem  que sobreviveu ao inferno.

  Numa época de desencanto em que os últimos grandes heróis (Mandela, Gandhi, Madre Teresa) foram desaparecendo (e em que sabemos demasiado sobre os líderes mundiais para que algum esteja muito tempo nas luzes da ribalta sem que se descubram pés de barro) a capacidade de proferir um discurso histórico é tão rara como preciosa. E Malala tem esse dom, além da inocência e do conhecimento de causa: consegue surpreender, comover e ser ouvida. Isso é mérito dela e não das circunstâncias ou do acaso.

 Seria o final perfeito se estivéssemos num conto de fadas: a menina  valente recebeu o Nobel e viveu feliz para sempre.

No entanto - e detesto ser a Cassandra de serviço - volto a dizer que vivemos um tempo que procura desesperadamente humanizar, normalizar ou expor as grandes figuras. E Malala é humana, com tudo o que isso implica. Muito provavelmente, mais humana se tornará à medida que (como é o seu direito inalienável, não esqueçamos) for crescendo mais um bocadinho... e conforme vá sendo confrontada (inevitavelmente, receio) com o lado menos bonito da política internacional, com os interesses, com o status quo e as manobras de bastidores.

  Todos tivemos o momento em que deixámos de acreditar no Pai Natal e mais tarde (na adolescência ou já depois de adultos) o momento em que nos apercebemos que existe uma coisinha chata chamada realpolitik, que faz coisinhas malvadas como colocar o petróleo à frente da vida humana, por exemplo. Não sei qual foi o vosso instante "wake up and smell the coffee"; comigo aconteceu quando era um pouco mais nova que Malala e o senhor meu pai, ex Capacete Azul, me explicou que por vezes, há outros interesses internacionais que impedem que a paz se faça e vidas sejam salvas. Na altura mandei à revista Time um e-mail sentidíssimo a mostrar a minha revolta com os politicos supostamente fofinhos que se tinham atrevido a dar cabo do meu idealismo.

 Depois comecei a achar que Maquiavel tinha razão e que não nos restava outro remédio senão lidar com o Mundo que temos o melhor que podemos.

 Espero que Malala não seja assim tão ingénua, porque já viu muita coisa. Mas espero também que com o Nobel, não perca o direito a ser o que ainda é: uma rapariga, quase uma criança.

 E as raparigas crescem, expandem o seu raciocínio, abrem os olhos -mais do que isso, erram. Mudam. Para mudar e crescer, é impossível ser sempre perfeita. Malala pode, por mais ajuizada que seja, tomar uma má decisão que manche a sua imagem imaculada. Pode associar-se à multidão errada (ou a uma multidão que não convenha à agenda de quem a apoia, vá). Pode muito bem acordar e decidir que não está capaz de fazer um grande discurso, que já não quer ser "uma grande politica", que apenas deseja o percurso de uma jovem normal da sua idade, ou dedicar-se a algo completamente diferente. 

 Duvido que consiga ou queira voltar atrás, mas é possível e é algo que ninguém pode, sem cometer uma monstruosidade, retirar-lhe. Mas vai ser uma complicação passar as fases normais da sua vida no olhar público, com a pressão constante de ser a menina prodígio, uma espécie de messias para um mundo desiludido. É muita expectativa para uns ombros tão frágeis.

 Ao fazer dela um porta estandarte que os media tentarão mais tarde ou mais cedo humanizar (não necessariamente da forma mais lisonjeira) espero que se lembrem que mais do que um símbolo dos direitos das crianças, ela é um ser humano com direito a mudar de opinião, a fazer disparates e a procurar ser feliz à sua maneira. O que é um bocadinho mais difícil quando se começa a viver tão cedo, a ter o mundo às costas tão cedo. Godspeed, menina.

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