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Tuesday, October 21, 2014

Maria Fitzherbert e Josefina: adoradas e...desafortunadas (Parte II)


Josefina, a musa de Napoleão, fê-lo penar bastante para obter o seu amor, e só mais tarde- um pouco tarde demais - percebeu o quanto o amava. Seria mais feliz se não tivesse procedido dessa maneira, mas por vezes os sentimentos são coisas difíceis de decifrar... e um coração de mulher é sempre um poço de enigmas.

 Já Maria Fitzherbert (1756-1837) essa fez sofrer muito o homem que viria a ser seu marido (salvo seja, como veremos), o futuro Rei George IV de Inglaterra: não por leviandade ou egoísmo, mas por ser uma mulher ajuizada e virtuosa, qualidades que de pouco lhe valeram.

 Bonita, oriunda de uma família distinta mas empobrecida, aos 25 anos Maria Fitzherbert, nascida Smythe, via-se duas vezes viúva: o primeiro marido era um jovem fidalgo bastante superficial, que  morreu no próprio ano do matrimónio; o segundo um rico proprietário de terras, que a deixou numa situação financeira muito confortável.



 Na posse de alguns meios e com um nome aceite em toda a parte, Maria encontrava-se em posição de frequentar a sociedade; senhora de um palminho de cara, de uma invejável cabeleira loura e de um porte sedutor - predicados a que juntava duas mil libras de rendimento e vastas propriedades - pretendentes não lhe faltavam, mas a linda viúva não tinha pressa em encontrar marido: tencionava gozar o mais possível a sua liberdade e o desafogo que não conhecera antes.

O sossego, porém, não duraria muito. 



 Uma das suas maiores amigas, Lady Sefton, tinha um camarote na ópera, e crê-se que foi lá que o Príncipe George a viu pela primeira vez, ficando instantaneamente obcecado por ela. Maria, Católica devota e conhecedora tanto das regras do mundo em que se movimentava como da péssima reputação de conquistador do herdeiro do Trono, 
recusava-lhe os avanços como podia sem o melindrar. 

Não se envaidecia por ter conquistado a segunda figura do Reino: como mulher sensata que era, a ideia aterrorizava-a.

 O príncipe, uns anos mais novo do que ela e mais inexperiente em amores profundos (embora não em matéria de aventuras escandalosas) parecia no entanto não se importar em fazer-lhe uma corte cerrada, ignorando as más línguas que se deliciavam com a perseguição. Maria estava mortificada - na sua dignidade feminina, não queria ser mais uma conquista fácil na lista do real Romeu; sem outra saída esperava que não o levando a sério, ele se entusiasmasse com uma nova aventura e a deixasse em paz. Debalde. 



 E no entanto, começava a apaixonar-se por ele...o que não era difícil: George era um rapaz de bela presença, o homem mais pretendido do reino, e tanta paixão comoveria a mulher mais empedernida. Ainda assim Maria dominava-se, temendo desgostos maiores.

Tal resistência, porém, só aguçava a desvairada paixão dele: o Príncipe de Gales parecia um estouvado quando lhe apresentavam razões de Estado, as diferenças religiosas e outras, para invalidar tal união. Amava Maria com o ímpeto da sua idade e o egoísmo da sua condição, não se ralando com os danos que a reputação dela pudesse sofrer ou as aflições em que a colocava. Pensou em raptá-la, em usar de violência, e só o respeito que a amada lhe inspirava o deteve. 

Vendo que ele não desistia, Maria encheu-se de coragem e, ante o seu milésimo pedido para fugirem juntos - e o dela para porem fim a tal amizade - respondeu-lhe: "sei que sou muito insignificante para poder aspirar ao papel de vossa esposa, mas considero-me valiosa demais para ser vossa amante".

 Desesperada, por duas vezes Maria fez preparativos para abandonar o país. Chegou a fugir para França, onde o Marquês de Bellois lhe propôs casamento. Ela recusou: amava George, ainda que não pudesse viver com ele. O Príncipe, que a mandava espiar dia e noite, tentou e ameaçou o suicídio a cada uma das suas fugas, ou assim fez crer, jurando perante testemunhas (entre as quais, a famosa Duquesa de Devonshire) que casaria com ela e com mais ninguém...e Maria apaixonada, vencida, não pôde negá-lo mais.

 Ela chamava à paixão do Príncipe "a sua fatalidade" - e assim era. Acabou por deixar que o casamento morganático, semi secreto, se realizasse em 1785.
 Porém, o facto não tardou a saber-se e Maria, o elo mais fraco em toda a situação, era acusada de ambiciosa, de pôr em causa o Trono, de atrair uma revolução,de enfeitiçar o Príncipe com os seus requebros...calúnias que ninguém se atrevia a atirar à cara do marido e que a feriam duas vezes por serem absurdas- ela que tanto tentara escapar-lhe! 



 Foram consultadas as maiores autoridades na matéria, concluindo-se que o matrimónio, um caso inédito, era legítimo à luz da Igreja Católica e Anglicana, mas inválido segundo a lei civil...e George, saciada a paixão e coberto de dívidas, apressou-se a casar, com pompa e circunstância, com a sua prima Carolina de Brunswick,cujos pais estavam dispostos a livrá-lo de apuros financeiros.

  A partir daqui, os historiadores dividem-se: há quem diga que apesar da nova união - bígama? - Maria e George se viriam a reconciliar e que, escudados na garantia Papal de que o casamento era legítimo, continuaram a viver juntos por 10 anos, com inúmeras zaragatas pelo meio (o que seria plausível, dado o desastre que foi o seu segundo casamento).  Outros defendem que Maria se recolheu com o seu desgosto e reunindo toda a sua dignidade, lhe fechou as portas para sempre. 

 De qualquer modo, George chamava a Maria "a sua metade, a sua esposa na alma e perante Deus, ainda que não aos olhos do mundo" e no leito de morte, pediu para ser enterrado com o seu retrato ao pescoço. O irmão que lhe sucedeu, Guilherme IV, tinha um grande respeito por Maria e pediu-lhe que aceitasse o título de Duquesa. Ela recusou, pedindo apenas que lhe fosse dada a honra de poder usar trajes de viúva, e que os seus criados fossem autorizados  a vestir librés reais, como sinal público de que fora uma verdadeira e devotada esposa.

  Tanta discrição acabaria por reabilitá-la aos olhos do público, dando-lhe uma aura de figura romântica, de vítima paciente de um Príncipe desmiolado. Não que nada disso contribuísse para a sua felicidade, podemos presumir...










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