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Wednesday, October 15, 2014

Normalização ou "desglamourização"?


Lembro-me que, quando eu era pequena, houve um modismo parvo (como tantos que há agora) pela normalização da fruta.

 "Exija fruta normalizada!" era a palavra de ordem: por acaso o termo normalizada não traduzia nada de exactamente normal ou comum - ou seja, tudo o que não fosse maçãs simétricas sem amolgadelas, ananazes perfeitamente encaixáveis uns nos outros como peças de Lego, laranjas totalmente redondinhas todas iguais e assim por diante, não prestava. Tratava-se, se a memória não me falha, de uma patacoada qualquer para nos impingir modernices da "Europa" , daquelas que só prejudicavam a nossa agricultura, e de pôr toda a gente a comer a temida fruta "espanhola" que não sabia a coisa nenhuma.

 Claro que, como acontece quase sempre nestes casos, dali a tempos andava tudo a fugir à fruta normalizada, ou clonada, porque fruta que era fruta tinha imperfeições, tamanhos diferentes, beliscadelas de passarinhos e além de saber a alguma coisa não fazia mal à saúde nem estava cheia de aditivos.

 Ora, com as pessoas passa-se mais ou menos a mesma coisa, mas no sentido inverso: a era do photoshop, da cirurgia plástica e da internet trouxe a público não só os recursos habitualmente reservados a uma pequena amostra dos mortais (modelos e celebridades) e pôs toda a gente por um lado, a procurar essa mesma perfeição algo irrealista mas por outro, consciente de que essa perfeição não é verdadeira. 

Daí a que a sociedade se insurgisse de forma extremista contra os "padrões impossíveis" e frisasse histericamente a suposta "beleza real", foi um pulo.

 As mulheres - e os média -  passaram rapidamente de sonhar com a perfeição a rosnar, todas contentes "ninguém é assim tão lindo- aquilo é photoshop. Vamos todas andar à vontade e convencer o público de que o feio é o novo bonito". Wishful thinking, no mínimo. E uma tolice.

 Actualmente chegou-se a um tal extremo que já há movimentos anti depilação, por exemplo; mas a essas mulheres, não basta desleixarem-se sozinhas: querem obrigar a sociedade a achar isso lindo, só porque é natural.


O caso que se passou ontem, com os jornais a publicarem a pior imagem da actriz Jessica Athayde no firme propósito de gerar discussão (e de pôr o mulherio à batatada) é só um exemplo. Outro foi o roubo de ficheiros privados de celebridades. Noutros tempos, teriam escolhido o ângulo mais favorecedor da actriz portuguesa e deitado ao lixo as imagens indecentes de Kate Upton e outras, porque a ideia era glamourizar: mas na época da normalização, importa mostrar o lado mais vulnerável e menos bonito das pessoas bonitas, para que ninguém se sinta inferior.

  Esta semana várias ilustrações que mostram as mulheres a rebelarem-se contra a depilação, a dieta e o styling correcto para favorecer o seu tipo de corpo voltaram às redes sociais: chamam-lhes "empowering", porque tentam convencer a desejada maioria de que "a sociedade não deve impor às mulheres o que é feio ou bonito". Ora, impor essas ideias  é tão extremo e tão nocivo como fixar um ideal inatingível de perfeiçãoSeria outra ditadura, e bem pior que a da "beleza perfeita"...

Primeiro, porque incentiva ao desleixo com a aparência, roubando às mulheres a feminilidade e instituindo uma cultura de pouco ou nenhum esforço; depois, porque é irrealista. Não é a sociedade que impõem isto ou aquilo: todos temos noção daquilo que é agradável aos olhos, harmonioso e equilibrado. A própria natureza o faz. Se uma mulher não se importa com os padrões vigentes de beleza e quer usar o que lhe fica pior, não se pentear nem depilar e assim por diante, é uma liberdade que lhe assiste; o que não pode é esperar que toda a gente aplauda ou considere isso lindo. Não quer esforçar-se para ter boa aparência? Então não se queixe, lide com as consequências. As mesmas ilustrações "poderosas" foram rapidamente alvo de sátiras bem menos hipócritas (abaixo):


 Qual é o mal de se colocarem padrões, mas com bom senso? Ninguém tem de ser perfeito, mas também não tem de se pôr no seu pior de propósito. Cada um tem a obrigação de cuidar da beleza que Deus lhe deu o melhor que pode, porque já há coisas feias que cheguem neste pobre planeta.

A celulite, as gordurinhas, o acne e outras imperfeições não são o fim do mundo, já sabemos que graças à poluição e outros males atacam uma vez por outra quase toda  a gente e que se podem tratar como qualquer outro problema de saúde (que é o que são)  mas não temos de gritar por aí que isso é bonito. Se isso convém a uma minoria preguiçosa e invejosa, tanto pior.

Normalizada nem a fruta, quanto mais as pessoas.








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