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Sunday, November 30, 2014

A nobre arte de ser um copo vazio



Ouvem-se muito por aí todo o tipo de frases sobre o pessimista que vê o copo meio vazio e o optimista pollyanesco que acha sempre que o copo está meio cheio, e as vantagens e handicaps de cada abordagem.

 Não é bom ver tudo pelo lado negativo (se não soubermos ver as coisas boas que temos e nem estar abertos a mais bónus do universo somos, no mínimo, uns maldispostos) nem muito prudente ver sempre o lado positivo de tudo: todas as situações podem ter vantagens e oportunidades escondidas, mas por vezes é mesmo preciso agarrar os problemas pelos cabelos e não os maquilhar com wishful thinking.

No entanto, o que não é tão comum ver-se é a possibilidade de o copo estar vazio, sem metade de coisa nenhuma. Mas aqui a pensar com os meus botões, eu que não aprecio meios termos, acho que há muito poder num copo vazio, porque um copo vazio e limpo está pronto para tudo e pode tornar-se qualquer coisa. Nem sequer precisa de ser passado por água para receber sumo de laranja, vinho ou coca cola. Encerra todas as possibilidades.

 Isto é dito de muitas maneiras, em várias fés e correntes de pensamento. Bruce Lee não falou propriamente sobre o copo, mas aconselhava "sejam como a água". A água não tem restrições, adapta-se a qualquer formato, amacia as pedras e quando contida por muito tempo, ganha uma força capaz de rebentar com os obstáculos no seu caminho. Mas para dar forma a essa força é preciso um recipiente, um copo vazio.

 Vários pensadores da Igreja Católica, como Santo Afonso de Ligório, defendem a ideia de "esvaziar-se" de si mesmo para que Deus possa agir.  Nós, meros mortais, só atrapalhamos.

 E numa perspectiva mais New Age, muitos autores de auto ajuda do estilo "atraia assim e assado, mude a sua vida" afirmam que para trazer coisas boas, é preciso primeiro livrar-se daquilo que empata e ocupa espaço. Não é possível atrair uma relação ideal enquanto se está preso a uma relação imperfeita. Não é possível mudar enquanto se estiver agarrado a velhos hábitos. Mas é claro, muitas vezes o copo está meio cheio (ou meio vazio)e é difícil (ou imprudente) atirar fora o que se tem para começar do zero.

 Só quando o copo se esvazia mesmo - geralmente, contra a vontade do dono-  é que se encaram todas as probabilidades. O caldo entornado, o leite derramado, é o fim de tudo...ou um novo começo.

 Aí entra o velho adágio "quando se chega ao fundo do poço, não há lugar para onde ir a não ser para cima".

 Essa é a vantagem do copo limpo: quem se queixa porque não tem amigos/cara metade/um projecto de carreira, está a ver mal as coisas. É que está no estado de recipiente perfeito, próprio para criar ordem a partir do caos, pronto para se encher. Um vaso limpo para criar tudo de novo, sem ninguém para fazer de peso morto nem lixo a ocupar espaço.

 Entre água choca ou água que não serve para matar a sede, às vezes mais vale pegar no copo e ir à procura de uma fonte límpida ou de uma garrafa de Evian para quem gosta, sei lá. Mas isso, claro, exige independência mental...e pouca paciência para ficar sentado a medir quanta água tinha o copo. Ou a chorar sobre a água derramada.


1 comment:

A Guia Turística said...

Adorei, pela diferença de perspectiva que (muitas vezes) não queremos ver.

Vejo sempre onde a Sissi fala daqueles livros de bons costumes de antigamente e (devido ao meu ofício) ao estudar o Espelho de Reis de um bispo português, lembrei-me de si :)

Ah! E é uma obra da Idade Média.

Ana

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