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Saturday, November 8, 2014

A sério, é preciso perguntar?




Um vídeo está a tornar-se viral por colocar a pergunta "do I look like a slut?" - ou seja, por pôr as mulheres a questionar-se o que é que a palavra "slut" (galdéria) realmente significa, pelo menos em termos de aparência. 

O discurso da autora levantaria algumas questões relevantes - como o velho paradoxo se uma mulher rejeita um homem é insultada de "galdéria", mas se lhe cede aos avanços, é chamada da mesma coisa - se não fechasse, logo à partida, todas as discussões com a ideia "there is no such thing as a slut".

Seguem-se uma série de argumentos anti "slut shaming" do género "o hábito não faz o monge", "uma mulher pode vestir o que lhe apetecer que isso não diz nada sobre o seu comportamento"  e a culpar o Patriarcado (essa tal coisa que anda de noite e ninguém sabe o que é e que ao que parece é culpada de todos os desaires femininos desde a noite dos tempos). 

Tudo para levar ao mesmo argumento politicamente correcto "vamos parar de descrever certas roupas como ordinárias".

Perdão, meninas, mas em nome de um punhado de mulheres que gostam de pensar pela própria cabeça, permitam-me discordar: se uma roupa é excessivamente provocante, de mau gosto e aspecto reles, era o que me faltava não poder descrevê-la como ordinária. Querem privar-nos de um termo tão eloquente, o que não é justo.

 Isso diz que a pessoa que sai à rua vestida como uma stripper é necessariamente uma profissional da dança do varão? Não, diz apenas que está a vestir esse uniforme com as naturais consequências para a sua imagem. Como já disse aqui, a roupa não faz o carácter: o carácter faz a roupa. Quem se atavia assim até pode não ser uma serigaita, mas no mínimo tem mau gosto e falta de miolo.

 Diz que a pessoa está a pedir para ser atacada? Jamais, mas mostra que é no mínimo imprudente porque gente malvada não falta por aí.

Vou dizer isso na cara da pessoa? Não, isso seria uma indelicadeza (a não ser que a pessoa seja uma amiga minha que tenha um ataque temporário de insanidade e tente sair assim, nesse caso terá de se ver comigo) mas ninguém pode privar outrem de julgar, ainda que erradamente.

A liberdade é bilateral: cada um é livre de vestir como entender, e quem vê é igualmente livre para tirar as suas conclusões e para o descrever lá na sua cabeça, desde que não incomode ninguém.

O mais cómico no meio disto tudo é a hipocrisia da situação: se muitas destas meninas tão democráticas, com uma moral tão elástica, vissem uma rapariga pouco vestida a
 insinuar-se à sua cara metade, passava-lhes rapidamente a solidariedade feminina: ponho as mãos no fogo em como "galdéria!" era o insulto mais leve que lhes ocorria chamar. O mais provável era descarregarem na pindérica semi vestida e deixarem o namorado santinho sem um sermão sequer, a apreciar o panorama.

Solidariedade feminina será tentar ensinar quem não sabe apresentar-se a vestir melhor, quanto mais não seja pelo exemplo ou mostrando alternativas: não aplaudindo aquilo que é condenável, ou sendo conivente com modas de mau gosto em nome de uma "libertação" em que as próprias mulheres parecem não acreditar.

 E no fim de tudo, ainda gostava de perceber de onde vem a dúvida. Se uma rapariga precisa de indagar antes de sair de casa se parece isto ou aquilo, é porque se calhar parece. Quem não deve não teme e não faltam roupas atraentes que se podem vestir sem passar perto de tais rótulos. 

  Fomentar-se a classe, o raciocínio lógico e a modéstia entre as mulheres seria meio caminho andado para reduzir discussões patéticas destas, creio...


4 comments:

Sandra Marques de Paiva said...

Isto fez-me lembrar de um vislumbramento meu em plena Feira Medieval que foi o seguinte: uma moça um tanto ou quanto "forte" com um vestido branco justo, curto, que mal cobria a nádega e ainda cai-cai com uma alça transparente de soutien a ver-se. Para rematar a coisa, um salto bem alto. Já disse que estávamos na Feira Medieval? Parece que me espetaram um garfo nos olhos.... ou se calhar até era preferível do que ver tal cenário. Esta "senhora" parecia o que? Decerto não era uma galdéria!

Imperatriz Sissi said...

Foi uma pena os figurantes não terem entrado no papel e não a levarem ao pelourinho!

Ulisses L said...

Já por aqui tenho brincado um pouco acerca de como as "galdérias" enchem por vezes o olho e são uteis para lavar a vista...
...em alguns casos, pelo menos! (Noutros chegam a ser uma verdadeira ofensa ao senso comum!)

Não obstante, claro que concordo contigo! Até sou capaz de olhar para uma galdéria jeitosa e bem destapada e pensar que, provavelmente, até poderia haver ali uma ou das horas bem passadas...
...horas essas que não valem, de todo, o esforço, ou até o mero cansaço psicológico de ter de a ouvir falar!
Se é verdade que o habito não faz o monge, também é verdade que na cabeça de muitas mulheres há uma enorme confusão sobre o que é sexy ou o que vai longe demais! E, claro, as mulheres mais "sexy", pelo menos do meu ponto de vista pessoal, têm uma qualidade que passa pelo porte, pela pose, pela segurança que têm (até em lidar com a maneira como, muitas vezes, são assediadas, parecendo passar acima de primatas energumenos de uma maneira que acaba por os desarmar) e, claro, tudo isso acaba por se reflectir na maneira como se apresentam no dia a dia.

Atrevo-me a deixar-te aqui um excerto do meu segundo romance que acho que tem um pouco a ver, sobretudo na conclusão final, e que resume um pouco o meu pensamento, brincadeiras à parte :

"Ele olhou-a assim que entrou, com um ar sério, observou-a minuciosamente.
-A sua maquilhagem não está bem. – Disse ao fim de um bocado – Está demasiado carregada e é muito nova para ter tanta base na cara. Além disso, como tem a pele muito branca não gosto de a ver com esses tons. Use um “eye shadow” em tons de rosa, ou castanhos suaves. Os azuis que está a usar esbatem-lhe os olhos, que são da mesma cor, em vez de os realçarem. Use cores contrastantes para os destacar e dar ainda mais vida. Afinal não nos vamos esconder de ninguém. E o batom, em vez desse rosa, use um encarnado escuro e brilhante para contratar mais com o seu tom de pele.
Ela ficou a olhar para ele, surpreendida pela reação, assentiu e virou-se para voltar para o quarto. Ele voltou a interpela-la:
-Já agora, troque a roupa interior.
Ela voltou-se para ele, encarando-o com um ar inquiridor. Ele sorriu e continuou.
-Era melhor usar roupa interior creme… - disse.
Só então ela reparou que a roupa interior preta era claramente visível por debaixo do vestido. Corou, sentindo-se verdadeiramente embaraçada. Ele sorriu.
-Andreia, lembre-se sempre: a diferença entre a elegância e a vulgaridade, na maior parte das vezes, não é mais que um mero detalhe…
"

:)

Imperatriz Sissi said...

Muito bom, Ulisses. Acho que as galdérias são como a pobreza- infelizmente, havemos de sofrer com elas para sempre. Mas que queiram sê-lo ou parecê-lo e ainda ser aplaudidas, é o cúmulo.

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