Recomenda-se:

Netscope

Monday, November 24, 2014

Do assunto da semana: o "subir na vida"...mal.




pun·do·nor |ô| 
(espanhol pundonor)
substantivo masculino
1. Sentimento de dignidadebrio. = AMOR-PRÓPRIOHONRA
2. Recatodecoro. = PUDOR


Este post não se trata de fazer política de bancada (deixo a política para quem trata disso e quem me conhece ou me lê o blog com frequência sabe ou adivinha quais são as minhas simpatias) de fazer coro e muito menos de prever ou dar palpites sobre se é verdade ou mentira. Há que aguardar calmamente o desenrolar da história, esperando que não seja mais uma que, à moda dos brandos costumes, fique envolta em nevoeiro.

 Escrevo isto porque o exemplo serve para governo de todos. 

Para o caso, é irrelevante se o nosso ex Primeiro-Ministro é culpado ou não das muitas artimanhas que lhe têm atribuído: haja o que houver, a vergonhaça já ninguém lhe tira...e enquanto Povo, acho que agradecíamos não ter de passar por uma destas.

Tenho dito por aqui incontáveis vezes que a honra é um conceito fora de moda - se antigamente certas pessoas não eram recebidas em certos sítios por muito sucesso ou fortuna que tivessem, hoje verifica-se o contrário. Um malandro tem lugar em toda a parte, ou quase, desde que seja um malandro rico e bem sucedido...por isso, poucos se importam de ser malandros ou de passar por tal.

  No século XIX chegava-se ao extremo de pensar que era preferível ir para a cadeia por homicídio do que por roubo, pois qualquer homem honrado podia perder a cabeça mas não ficava sem a sua reputação por causa disso; hoje está-se no exagero oposto: a reputação vale muito pouco. Importam os resultados, o arrivismo, a abjecta arte de se safar, de embolsar, de ser um figurão, um espertalhão, um chico esperto, um pato bravo. 

Vive-se muito o conceito burguês de que não é guardando castidade e honestidade que se vai a parte alguma, e isso está enraizado de tal maneira que quem é honesto e procura evoluir limpamente é alvo de descrédito (se teve tanto êxito é porque herdou, roubou ou subiu na horizontal)  ou de de desdém (é um palerma) . Ou em muitos casos uma pessoa recta não chega mesmo a lado nenhum, porque não pactua com a podridão do sistema.

 Ser "esperto" desde que venha acompanhado de contas bem recheadas e de um lugar de destaque (o velho "ele embolsa, mas ao menos faz") é quase motivo de admiração - até que se seja apanhado, claro. Isso tudo só vale se a esperteza for tanta que o malandro consiga escapar sempre; caso assim não seja a populaça, sempre volúvel, exerce o seu direito de passar o figurão de bestial a besta.

  Voltando ao caso, independentemente de as alegações serem verdadeiras ou falsas, José Sócrates nunca pareceu importar-se com isso: as sucessivas acusações de tirar licenciaturas ao Domingo ou de se aproveitar disto ou daquilo nunca o fizeram parar e escavar para restaurar o seu bom nome. Não sei o que pensava, mas uma pessoa honrada não anda por aí contente e feliz com o seu bom nome manchado. Ir para Paris com uma situação privilegiada e ter todos os confortos não importa a quem dá valor à sua reputação, se não puder caminhar de cabeça erguida. E não são os luxos nem as condecorações que permitem a alguém caminhar na rua de queixo levantado sem riscos de lhe atirarem injúrias.

  Ora, para o nosso ex Primeiro Ministro, sempre pareceram mais relevantes os fatos italianos (pessoalmente acho que devia ter optado pela alfaiataria inglesa, mas gostos não se discutem) as férias extravagantes, todas as ostentações de mau gosto, por muitas suspeitas que isso levantasse. É de facto um homem do seu tempo - dos tempos bem duros que atravessamos. Se não é corrupto, vaidoso nem egocêntrico, infelizmente para ele contribuiu para essa imagem. No mínimo, é um temerário.

  Se assim não fosse, poderia ter evitado estas maçadas com um percurso mais discreto, mais claro e mais limpo.

 Face ao estado das coisas, esta é uma excelente ocasião de atirar carapuças: não a Sócrates que enfim, lá está ocupadíssimo e eu não bato num homem ferido, mas a todos os que defendem e praticam a abjecta arte de subir na vida.

 A bajulação, os compadrios, os malabarismos, a corrupção, os cordelinhos, a ambição desmedida, o subir de forma horizontal ou torta, o virar de casacas e as batotas, o arrivismo e o alpinismo muitas vezes não compensam. 

Ainda que a honra não valha um pataco para certas pessoas, ser apanhado - ou acusado publicamente de tal - é sempre desagradável. E Deus não dorme. Ao menos que tenham medo das consequências, já que pundonor não lhes assiste.





2 comments:

A Bomboca Mais Gostosa said...

Gostei muito deste post, muito bom mesmo.
É realmente como tu dizes, a honra é, actualmente, completamente relegada para último plano. Não interessa se é boa pessoa, ou é honesta. Interessa é que tenha dinheiro, que seja chico esperto, e, de preferência, que fuja ao fisco sem ser apanhado.
Quanto ao Sócrates sempre fui bastante acérrima na minha opinião, acho que ele é um trafulha e um traste.

Ulisses L said...

Sei perfeitamente bem o que é não compactuar com a podridão e com isso ser chamado de palerma!
Eu, se calhar e falando destes tempos, infelizmente tenho uma costela Japonesa que, embora já não pese muito no meu património genético, me dá uma noção de vergonha e honra! Como é óbvio, o resultado é que não saio da cepa torta!

Como eu disse lá pelo meu canto, independentemente de ele ser culpado ou inocente, há por aí muita gente que deve estar a pôr as barbas de molho! Provavelmente gente que também deve andar a ver como é que pode lixar o Juiz que teve os ditos no sítio para fazer isto, porque num país como Portugal, é mesmo preciso ter a "salada" no sítio para fazer uma coisa destas e sair sem uma beliscadura!

No entanto, pessoalmente, esta história tem sido do melhor! Há muito que não me ria tanto com uma comédia...

:)

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...