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Saturday, November 22, 2014

E eu que nunca falei sobre a Imperatriz Sissi...


No outro dia apontaram-me um facto relativo aqui ao salão que eu já tinha considerado, mas que deixei passar: é que chamando-se este blog Imperatriz Sissi e falando de muitas mulheres que fizeram história, pouco ou nada se escreveu sobre a verdadeira Imperatriz Sissi.

Para isso, concorreram dois motivos: o primeiro (que já devo ter explicado algures mas agora tenho preguiça de procurar) é que Sissi sempre foi o meu petit nom, desde que andava de cueiros.  É assim que me tratam em casa e que os íntimos me chamam. Ora, num dia em que eu estava um bocadinho com a telha, uma pessoa amiga troçou de mim *com certa razão* perguntando-me se eu por acaso pensava que era a Imperatriz Sissi . Achei graça e ficou... mas Imperatriz é o blog e não eu, pois nunca gostei muito de mandar...decido o que aqui se passa e já não é mau.

 Voltemos a Isabel (Sisi) Amália Eugénia von Wittelsbach, Imperatriz consorte da Áustria, Rainha consorte da Hungria, Boémia e Croácia e Duquesa da Bavária (nome muito grande para uma mulher tão delicada!). 

Sempre a achei linda, uma princesa de conto - quem não gostava dos filmes da Romy Schneider? E aquele cabelo? Céus. Também apreciava duas colecções de livros (acima) uma juvenil e outra ilustrada para crianças sobre a Imperatriz na sua adolescência, que contavam peripécias ficcionadas com base naquilo que se conhece da sua personalidade. Encantavam-me as aventuras da bela e indomável filha dos Duques nos seus vestidos bávaros, que queria ser artista de circo e  achava que "montar a cavalo, rosas encarnadas e nata batida" eram as melhores coisa do mundo - três escolhas com que eu me identificava muito!



 E claro que era terrivelmente romântico quando ela conhecia o Arquiduque seu primo que gostava exactamente do mesmo e que se apaixonava por ela à primeira vista: digam o que disserem sobre diferenças que se completam e blá blá blá, os amores perfeitos devem começar assim, às primeiras impressões e a gostar - mas sobretudo a detestar - as mesmas coisas. O que se faz com isso depois, já é outra história.

 E esse foi precisamente o caso - quem tiver lido a versão real do que se passou a seguir, sabe que Sisi (celebrizada Sissi pela cultura popular) foi muito infeliz.




   Pessoalmente, o que sempre me fez confusão não foi o facto de o casal não ter sido "feliz para sempre"; qualquer rapariga consciente das obrigações que esperam uma mulher sabe que não existem cenários perfeitos, especialmente quando, por magníficos que pareçam, envolvem grandes responsabilidades: tudo vem com um preço.
 O que sempre me indispôs na sua biografia foram os aspectos em que se tornou infeliz a si própria e por conseguinte, àqueles que a rodeavam.

 Claro que a culpa não seria só sua. Nunca é. Mas a Imperatriz Sissi, que tinha tudo para ser (se não completamente e para sempre, pelo menos razoavelmente) feliz, fez pouco pela própria felicidade. Ao que se sabe nem sempre foi sensata, e eu admiro acima de tudo as mulheres sensatas.



Casou muito cedo e por amor (um privilégio que não era a regra para as jovens da sua condição) abandonando a vida campestre que tanto prezava, e acatou obrigações e desafios de que era impossível não estar consciente sendo a sua mãe irmã da Princesa Sofia da Bavária, sua sogra.

  Ao aceitar a glória, é preciso abraçar igualmente os sacrifícios que a acompanham; e quando se é figura de proa, prescinde-se da liberdade de agir a bel talante. Isto pode não ser agradável...mas é um sinal de maturidade sine qua non.



 Para a sua felicidade e do marido (que deveria ser a sua prioridade a partir desse momento) e facilitar o percurso num cenário tão exigente como acidentado, Sissi teria de jogar segundo as regras: quando uma família lida com desafios públicos e políticos, é egoísmo adicionar-lhes dramas privados.

                                    

A sua sogra, a autoritária Arquiduquesa Sofia, seria decerto uma força formidável a enfrentar (não lhe chamavam "o único homem da Corte" por nada).

 No entanto, embora tenha sido pintada de forma algo assustadora por certos historiadores (como é costume quando se trata de sogras) também era uma mulher admirável; uma mulher do seu tempo e do seu meio, claro, mas com quem uma jovem prestes a assumir um papel de destaque teria muito a aprender...e uma senhora que estava simplesmente a fazer o seu trabalho de preparar  a nora para um terreno no mínimo delicado.


 A resposta natural seria aceitar docilmente a orientação até dominar as exigências do papel, mas Sissi, habituada a um clima familiar informal e afectuoso, rebelou-se - um erro que faz lembrar o de outras jovens na mesma situação, como Maria Antonieta ou Diana de Gales, que foi amiúde comparada a Sissi.

 Como Imperatriz, tinha o dever de manter uma vida ocupada - mas se muitas vezes agiu, visitando um hospital em plena epidemia de cólera ou pedindo ao marido que criasse um asilo para doentes mentais em vez de lhe oferecer um qualquer presente caro - na maior parte do tempo escolheu focar-se em si mesma, isolar-se do Imperador Francisco José (que seria seu papel apoiar)  e da vida na corte, o que resultou em depressões e doenças psicossomáticas. Só Deus sabe o que lhe iria na alma, mas uma Rainha ou Imperatriz não pertence a si própria, pertence ao povo que representa; e é por isso que os Tronos pesam...



Desprezava  a etiqueta que não podia dar-se ao luxo de ignorar, e entristecia-se por não lhe permitirem o impossível: libertar-se da máquina da qual fazia parte. Muitas vezes recusou compromissos oficiais, quando a sua beleza e graça podiam contribuir para fazer a sua família amada pelos súbditos.

 Pior um pouco, a beleza de que era dotada (e a vaidade que vinha com ela) foi mais uma fonte de tristezas: esgotava-se para conservar um peso baixíssimo para  a sua altura, gastava três horas a pentear-se, abandonava os seus deveres para se isolar em longas viagens, sofria por questões mesquinhas - como os concursos de beleza não opcionais que as damas da Corte inventavam para a melindrar, não a elegendo como a mais bonita. Cabia-lhe impor-se e estar acima de coisas tão indignas dela, mas sofria muito com isso.



  É sabido que a sogra a afastou dos filhos e se referia a ela diante deles como "a vossa tola mãe", mas Sissi terá escrito no seu diário que "os filhos são a maldição de uma mulher, pois privam-na da maior dádiva dos Deuses - a beleza". A vontade de evitar mais crianças para manter a sua figura esbelta terá sido uma das razões para se afastar do leito conjugal e mesmo após a morte da sogra, completamente livre da sua influência, não terá feito muito para se aproximar da sua prole. Atribuíam-lhe amantes, o que será no mínimo contraditório e permanece envolto em algum mistério... certo é que o seu narcisismo, aliado a várias tragédias pessoais (como a morte de dois filhos e dos seus pais, algumas no mesmo ano) a levou a  afundar-se na sua angústia e a desdenhar quem precisava dela.


  A Imperatriz Sissi foi, em suma, um ícone - uma mulher linda, culta e inteligente, que gostava de escrever e estudar poetas gregos, uma Rainha Consorte com invejável sentido de estilo que lançava modas, uma amazona de renome internacional e com um grande coração para certas causas (como os animais e as doenças do foro mental, cujo estudo ainda estava em desenvolvimento) mas não amorosa. Não feliz. E uma prova incontestável de que beleza, amor e fortuna não garantem as melhores alegrias da vida...a não ser que se faça um bocadinho por isso- sendo que a receita é muitas vezes uma mulher 
esquecer-se de si própria para se doar aos outros. Nada é perfeito se não puder ser partilhado...

2 comments:

Virgínia Brasil said...

Que linda história! Ela parece ter sido uma mulher e tanto durante toda a vida. Adorei conhecer a Imperatriz Sissi. Abraços, http://blogfloreando.blogspot.com.br/

Imperatriz Sissi said...

Olá Virgínia! Obrigada, espero que volte. Beijinho

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