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Sunday, November 9, 2014

Frau Merkel, detesto dar-lhe razão.



Vamos deixar aqui claríssimo que eu tenho a minha embirraçãozinha - como boa parte da Europa- com Frau  Merkel. 

Primeiro, porque depois de tantas tropelias acho incrível como permitem aos Alemães mandar em alguma coisa. Não acredito que haja ali imparcialidade alguma ao decidir os destinos desse mal necessário que é a UE: é vê-la toda contente a puxar pela glória (ou a brasa à sardinha) do Reich, salvo seja. Pelo menos é essa a impressão que eu tenho e se Frau Merkel tem o direito de dizer o que entende, eu não posso fazer grande coisa quanto à minha imaginação.

 Segundo, porque para Dama de Ferro falta-lhe muita coisa, nomeadamente a classe e encanto da Baronesa Thatcher: Frau Merkel pode ser uma cientista (tal como Thatcher) pode ser a segunda pessoa mais poderosa do Mundo segundo o Forbes e a primeira mulher a ter alcançado tanto poder, mas não nos confundamos.

Margaret Thatcher tinha um porte que provava que há mulheres capazes de ocupar grandes cargos em tempo de crise sem fanicos e sem ceder às emoções (vê-la trabalhar em equipa com Sua Majestade a Rainha Isabel II deve ter sido glorioso). Margaret Thatcher não puxava da cartada irritante nem da atitude da "mulher poderosa" - aliás, referia-se ao feminismo como "um veneno". Margaret Thatcher não seria apanhada nem morta com um decote monstruoso como Angela Merkel (acima). Nem com tailleurs estilo saco de batatas, idem.  I rest my case.

  Mas - a César o que é de César ou mais apropriadamente e em modo licença poética, a Kaiserin o que é de Kaiserin - concordo com o Público quando diz que Frau Merkel não deixou de ter uma certa razão ao afirmar na última semana que Portugal tem licenciados a mais (independentemente da intenção com que o possa ter dito).

 Podemos não gostar do discurso, podemos até argumentar que a senhora gostaria era de manter os portuguesitos humildes e ignorantes de todo, mas factos são factos: se não tivéssemos licenciados a mais, não andaríamos a "exportá-los". Infelizmente, basta olharmos para o nosso círculo de amigos e antigos colegas e fazer a contas a quantos estão a trabalhar no estrangeiro; não porque lhes apetece ou por espírito de aventura bué da jovem, mas por ser tão difícil evoluir na carreira, ter um ordenado decente ou pensar em constituir família em solo pátrio.

 Se a Alemanha pecou por uma aposta excessiva na qualificação de profissionais intermédios (e agora tem de vir "pescar" os licenciados que lhe faltam aos países do Sul da Europa) Portugal errou por ter feito o oposto.

 Só um cego é que não vê que após o 25/4 houve uma reviravolta no sentido de oferecer às famílias o "sonho português": ou seja, filhos doutores. 

Esta pequena vaidade - mistura de remorso, complexo de inferioridade e mania das grandezas -  foi levada tão a sério que se massificou o ensino (o que teria sido bom se feito de forma adequada) sem olhar à realidade das necessidades do país, nem à capacidade do mercado para acolher tantos diplomas. A isso juntou-se a ganância de muitas instituições, que criaram cursos cósmicos e fenomenais - para quem se pode dar ao luxo de estudar por carolice e desafio intelectual  - mas perfeitamente inúteis para quem pretende trabalhar e ter uma carreira estável na sua área de formação.

 As palavras de Frau Merkel podem ser escusadas e desagradáveis como as suas fatiotas - mas tal como estas, são um facto. Desagradável, mas facto.

5 comments:

Joana said...

Mas a grande diferença é que enquanto em Portugal estava rodeada na minha equipa por licenciados no Reino Unido na minha equipa não há bem um para além de mim embora eu faça exactamente o que fazia em Portugal. Em Portugal se não tiveres um curso dificilmente conseguirás um emprego um pouco melhor do que "caixa do continente", com todo o respeito por quem exerce essa profissão.

Imperatriz Sissi said...

Verdade, Joana, embora a maioria dos ordenados não sejam muito diferentes dos das caixas...
Para não falar nas recusas de CVs excessivamente qualificados. Tenho ouvido falar em inúmeros casos! é uma confusão.

Krystel said...

Pois são um facto. E bem dito. Como já disse em outros blogs, Portugal tem um problema a nível universitário e de ensino superior. Sem falar das dezenas de cursos fantasmas (que não têm saídas profissionais mas que continuam a existir para alimentar fundos e subsídios), Portugal tem demasiados licenciados comparando com o mercado de trabalho e exploração dessa mesma mão-de-obra. No entanto, a Merkel na entrevista falou nisso dizendo que não se dá a devida importância ao ensino vocacional em Portugal, comparando Portugal com a Alemanha. O que ela se esquece é que a Alemanha é um país maioritariamente industrial (ou onde a indústria tem um peso importante) e que é normal que o ensino vocacional/profissional/técnico tenha uma importância e valorização maior. Portugal tem que fazer uma reforma no ensino superior para profissionalizar o que dali saiam para não serem, como tu bem dizes, licenciados só porque sim e não porque são bons.

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Sérgio S said...

Nós, há uma serie de anos que não criamos emprego qualificado. Se vires bem, os setores que tem crescido são coisas tipo call centers e afins. A moda que agora existe em Lisboa das startups é fixe, mas praticamente não cria emprego. Acima de tudo existem muitos preconceitos afinal a maior parte das pessoas mais velhas que trabalham nas empresas tem menos qualificações que os que estagiários que entram agora no mercado de trabalho.

Imperatriz Sissi said...

@Krystel, verdade- o modelo alemão não resultaria se aplicado literalmente em Portugal. Mas por cá temos esse facilitismo dos "doutores a martelo" que não ajuda ninguém a não ser vaidades ocas.

@Sérgio, essas startups "jovens e dinâmicas" são um case study de morrer a rir, às vezes.

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