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Tuesday, November 18, 2014

Não sei o que é mais perturbador...



...se é o mulherio ir todo em romaria ver essa coisa deslavadinha das 50 Shades of Grey, se é o filme estrear no Dia de S.Valentim.

 Há dias, as senhoras do costume foram aos arames (nada de novo: elas vão aos arames por tudo e por nada) porque um cientista que trabalha para o bem da Humanidade vestiu uma camisola com figuras de bonecas feita por uma amiga dele. E fizeram o pobre coitado pedir DESCULPA em lágrimas pelo facto, prova de que o "cada um veste o que quer" só se aplica às serigaitas que gostam de andar pouco vestidas na rua e receber louvores por isso.

Aqui D´El Rei que a camisa, camisinha, camisola ou camisolão (nem se vê bem o que era, para ser franca) era objectificante e pior, que uma mulher costurar uma camisola para um homem é voltar aos tempos das cavernas, que o mundo da ciência já é complicado que chegue para as mulheres, etc...



 Conheço umas quantas na área e nenhuma se queixou...portanto acho que era complicado para Madame Curie que trabalhou um bocadinho demais, mas isso foi uma opção individual. Não faço a mínima ideia se Madame Curie tricotava camisolas para a cara metade, creio que não tinha vagar para tal...mas se tricotasse, isso não tirava nem punha às suas descobertas.

   Enfim: se embirrassem porque a camisa era feia ainda se entendia, mas não; ora, a sorte delas é que eu infelizmente não sei costurar ou tricotar nem para salvar a minha vida, senão ia fazer uma data de camisolas para quem me apetecesse só para as arreliar à brava, era certo.

  Mas as mesmas senhoras não disseram nada da tentativa de Kim Kardashain de avariar a internet (ou de ferir os nossos olhos) e aposto, vão todas contentes assistir às 50 Sombras porque acham que é...romântico.



   Já vos disse que 50 Shades of Grey me perturba mais por ser má literatura (e ao pouco que vi, uma seca monumental) do que por qualquer outro motivo. É outro romance de cordel a meter caraminholas na cabeça das desmioladas -  mas se não fossem desmioladas para começar ninguém conseguia pôr disparates lá dentro, por isso mais tolice menos tolice.

  Só é curioso observar a contradição que já detalhei aqui e aqui: estas mulheres criaram (e estão empenhadas em continuar a criar) um mundo em que um homem quase tem de pedir desculpa pela sua existência, quanto mais agir como um.

 Os recursos para isso vão de uma cultura de medo generalizada e pouco razoável (que em vez de criar uma consciência do que é correcto e decente para ambos os sexos coloca qualquer ser de calças como um agressor em potencial) à boa e velha atitude da mulher predadora, que toma todas as iniciativas,detesta o cavalheirismo e tem  mais truques na manga (aprendidos nas revistas) do que uma cortesã de gabarito.



 Fizeram (ou deram o seu melhor para fazer) dos homens uns autênticos bananas, uns efeminados de primeira. Não admira agora que andem exaustas e suspirem pelo mesmo "homem Alfa e super dominante" que tanto condenam, capaz de lhes tirar algum trabalho dos ombros para variar, de as levar no seu cavalo branco (neste caso, cinzento) e fazê-las desmaiar de emoção como nos filmes antigos.

 Mas como chegámos aos extremos mais ridículos, o Rhett Buttler de outros tempos - masculino, assertivo, despachado - tornou-se num Mr. Grey.


Passámos disto...a isto. 


 Ou seja, um macho Alfa encapotado e doentio com cara de bebé que, incapaz de agir como um Homem em plena luz do dia, se faz muito santinho e só consegue soltar os seus demónios numa masmorra secreta. Na companhia de mulheres inseguras, apagadas, sem uma migalha de auto estima (não esqueçamos que as 50 Sombras começaram por ser uma fanfiction de Crepúsculo, franchising com a heroína mais enjoada de todos os tempos).

  Ora, o que cada um faz em privado (desde que não prejudique nem incomode ninguém e não obrigue os outros a saber dos seus pecadilhos que eu não gosto de gente indiscreta) não são contas do meu rosário, mas atenção: se um cavalheiro jovem, bem parecido e aparentemente escorreito SÓ consegue relacionar-se de uma ÚNICA maneira e essa maneira envolve chicotes e masmorras dia sim dia sim, isso não tem nada de romântico: é SINISTRO.

 Mr. Grey devia ver um terapeuta, no mínimo, em vez de andar por aí a passear-se como o epíteto de homem ideal. Then again, quem suspira por Mr. Grey é que anda mal - ou tem as prioridades um bocadinho trocadas.






8 comments:

Géraldine said...

Recuso-me a ler esta "pornochachada" e muito menos a ver o filme!

Ulisses L said...

Acerca do 50 shades posso dizer-te o seguinte:

Claro que, assim que soube do furor que fazia li os três de seguida em inglês, porque ainda não tinham sido editados cá!
Não sei como estão as traduções para português, mas espero que tenham limado as arestas à escrita, porque aquilo está muito, mas muito mal escrito, chega a haver repetições da mesma frase dentro de um paragrafo!

Aparte estes pormenores que, diga-se, me irritaram solenemente durante a leitura, o resto é uma longa charopada ultra romantica e seria igual a tanta outra coisa que por aí anda pelo mundo, não fora o facto de continuar onde o resto da literatura de cordel pára: às portas do quarto... Ou da Sala... Ou da masmorra... ou da casa de banho... ou whatever!
No fundo é uma revisitação de meninas-boas-gostam-é-de-rapazes-maus-e-no-fim-salvam-no-e-são-felizes-para-sempre, ou seja, como diria um amigo meu enquanto desfazia um pedaço de caldo knorr para dentro de um cigarro: - Não dá moca mas distrai!
Se eu já fui incapaz de ler a saga crepusculo, porque vampiros e lobisómens deveriam, a bem da literatura, ser declarados património da Anne Rice, devia ter-me abstido de ler este deserto intelectual onde nem as cenas de sexo se aproveitam.
Mas, como tu, não deixo de achar piada a que as feministas da praça, que se ofendem se um homem lhes abrir a porta, tivessem andado coradinhas nos transportes enquanto liam os livros com as capas tapadas (dava para disfarçar o livro, mas não o rubor) e andassem a suspirar pelos cantos por um gajo a sério que não só lhes mostrasse o que é um homem, mas que as fizesse sentir mulheres!

Posso dizer-te que não percebo esta contradição...!

No entanto, cada vez que me deparo com uma contradição destas lembro-me sempre de uma coisa. Há muitos anos atrás, numa livraria que já nem sei onde era, dei com dois livres de psicologia do mesmo autor. Um era a psicologia masculina, com uma capa azul, como convém, e com cerca de cem páginas. O outro tinha a capa exactamente igual, excepto pela cor, que era encarnado deslavado (como convém também) e pelo volume, uma vez que tinha perto de 400 páginas.
E acho que basta isto para explicar (quase) tudo!

:)

Ulisses L said...

Ah, e esqueci-me, quanto à camisola, se fosse eu estampava uma com uma foto de uma dessas actrizes e cantoras que se afirmam tão feministas mas depois posam para revistas masculinas como a GQ ou a Playboy à procura de fama no principio da carreira e aparecia a fazer um pedido de desculpas irónico com ela...
...só para ver qual era a reacção...

(seria só o que me faltava ter de responder pelo que visto a um grupo de gajas que no sec. XIX teriam sido diagnosticadas com histerismo e a quem era receitado um vibrador como cura...)

:)

Imperatriz Sissi said...

Ler não consigo. Se o filme passar na televisão sou capaz de espreitar, por mera curiosidade antropológica.

Imperatriz Sissi said...

Ulisses, disseste tudo. No século XIX havia uma explicação mais simples para estas coisas porque as mulheres eram demasiado ignorantes...hoje em dia a explicação é que sabem demasiado, já nada é especial e tentam forçar-se a um papel que não é o seu. Depois claro, querem alguém que as faça sentir-se mulheres, como dizes. Mas numa versão extrema e caricaturada. Triste!

Susana Correia Dos Santos said...

É isso mesmo... o mal não está no Mr Grey, está em quem precisa de fantasiar com ele para ter algum prazer. São casamentos falhados? Desconhecimento do próprio corpo? Falta de confiança em si? Que raio se passa nas cabeças destas mulheres para precisarem disto para sentirem alguma coisa?

Sérgio S said...

Mesmo em dia de namorados prefiro ir ver filmes com naves espaciais e cenas. Filmes lamechas em que o mulherio passa o tempo todo a chorar não é a minha vocação. Na realidade o que gosto mesmo é de uma boa refeição. Pena os restaurantes nesse dia estarem apinhados. Quando saiu o Código da Vinci, como toda a gente falava na historia, eu ia ouvindo um pouco aqui, outra parte acolá e no final acabei por conseguir compor a história. Deste livro é mais dificil: as pessoas não falam tão abertamente. Parece que há um tabu. Deve ser uma onda muito intelectual...

Imperatriz Sissi said...

@Susana, eu diria que é falta de conhecer um homem realmente masculino e, num ciclo vicioso, uma mania frenética da independência ou seja, não deixar um homem ser um homem...querem ser mais ousadas do que na realidade são, depois o sistema frita e dá-lhes para ler disparates que caricaturam os papéis naturais de género!

@ Sérgio, não é tabu nem nada de intelectual...é um livro parvo para o mulherio desesperado. Eu cá embirro com o S.Valentim; a intenção é boa mas nunca gostei dos restaurantes com coraçõezinhos e artifícios desses...até porque a comida costuma ser feita em modo expresso nesse dia. O Código da Vinci não é um livro mau de todo (é um "triângulo Jota" para adultos) só foi ridículo tratarem o que lá vinha como uma grande novidade, e ser mais uma pedrada no charco para atacar a Santa Madre Igreja só porque sim.

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