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Thursday, November 13, 2014

Síndroma de Othello, e 3 males femininos: Sindroma de Desdémona, Madame Butterfly e Helena de Tróia

Laurence Olivier e Maggie Smith, Othello (1965)

Há quem chame - muito adequadamente - Síndroma de Otelo a esse mal terrível que é o ciúme compulsivo. 
 Othello é uma das minhas obras preferidas, e acho que Shakespeare não caricaturou nem um bocadinho, não exagerou numa vírgula: basta ter convivido de perto com um ciumento para ver os pormenores da peça a desenrolar-se com tal realismo que parece o Laurence Olivier a desempenhar o papel e tudo: há as suspeitas absurdas, o ouvido leve a qualquer intriga disparatada, a angústia de cortar à faca (que faz por sua vez com que a Desdémona tenha pena do Othello e vá aturando) e as cóleras perigosas. 

Já para assistir ao desfecho da tragédia tim-tim-por-tim-tim, sem pagar bilhete e em versão vida real, basta ler jornais...infelizmente.

Não é que não haja mulheres a sofrer de Síndroma de Otelo que fazem a vida negra aos companheiros, mas no masculino é mais perigoso. Repito o que escrevi em tempos por aqui:


"O ciúme masculino vem da posse e da imaginação. Uma vez implantado um cenário mental, seja qual for o motivo, um homem ciumento não abre mão dele, por mais provas que tenha do inverso. O ciúme masculino procura confirmações onde elas não existem, se for necessário recorre a calúnias de estranhos para se alimentar, devassa o passado e transporta-o para o presente (...)
 Os homens julgam-nos sempre mais ardilosas do que somos, com uma estratégia militar de fazer corar os romanos.  A suspeita basta-lhes, e essa suspeita masoquista é fatal.  Dizem que as mulheres são emocionais e eles racionais - talvez por isso o ciúme deles, nascendo no seio do método, do raciocínio, da posse, é infindável, e mata aos bocadinhos. Recordemos que Othello leva uma peça inteira a ouvir intrigas, e como prova para o desfecho, um lenço mentiroso lhe basta...se fosse Desdémona a ter ciúmes confrontaria Othello, chamava a suposta rival à tábua, deitava o palácio abaixo - mas dificilmente o drama seria uma tragédia. Os homens só complicam".

 Isto leva-me a pensar que não faltam por ai mulheres a sofrer de Síndroma de Desdémona: ou seja, que toleram tudo isto. São as que vêm nos jornais, e as que aturam ensaios de Othello entre quatro paredes.

  Muitas ainda, padecem do Complexo de Helena de Tróia: a beleza só faz com que atraiam Otelos (ou mais apropriadamente, Menelaus) para a sua vida, ora a disputá-las como um prémio ora a fazer-lhes a vida num inferno com cenas de ciúmes. Casos em que a beleza não dá mesmo felicidade...a não ser que venha acompanhada de uma personalidade forte para pôr cobro à brincadeira.


  Mas os Síndromas de Desdémona e Helena de Tróia têm raízes mais profundas; vêm da terrível mania de suportar muito, de um mal mais grave: o Síndroma de Madame Butterfly. Na ópera de Puccini (bem mais trágica do que o conto que a inspirou... mas bem, é Ópera) a geisha Cho Cho San abandona a sua religião, é deserdada pela família, espera três anos por quem não prometeu de vir, fica a ver navios na versão japonesa do Alto de Santa Catarina e por fim suicida-se, tudo por um homem que não merecia tanta dedicação.

 As mulheres deviam ver, ler e ouvir mais os clássicos, para não copiarem as personagens que acabam mal. Mas é uma daquelas coisas mais fáceis de dizer que de fazer...






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