Embora se tenha convencionado (graças à banalização de muito pensamento motivacional e de auto ajuda) que o nosso futuro/ realidade/sorte na raspadinha é determinado pela forma como pensamos, sentimos, ou pelas ilusões mais malucas (o fanado "querer é poder") eu acho essa ideia um pouco desanimadora. Para não dizer assustadora...
Não é que considere a teoria totalmente falsa - há muita coisa que a ciência ainda não explica e uma atitude vencedora ajuda sempre - mas é preciso moderação para não cair em figuras ridículas.
Primeiro, porque é impossível controlar a 100% tudo o que se pensa ou sente e ter um domínio completo sobre os acontecimentos. Quem tenta pode acabar paranóico, com medo que cada "pensamento negativo" que lhe ocorre influencie a realidade (e daí para "ver coisas" não deve faltar tudo). Ou pior ainda, transformar-se num pateta alegre espiritual, uma Pollyanna que finge que acredita que tudo está bem, que todos são fofinhos e que não é preciso defender-se nem na iminência de um desastre estilo 1929.
Segundo, porque embora cada um possa - e deva - tomar as rédeas e assumir a responsabilidade pela sua vida (em vez de deitar a culpa à sociedade, ao patriarcado, às cunhas dos outros ou aos gambuzinos) nem tudo o que sucede é culpa ou mérito nosso. Acreditar que a boa ou a má sorte depende exclusivamente de nós - sem intervenção do acaso, dos elementos ou dos deuses - deixa-nos terrivelmente sozinhos e com um grande fardo nos ombros.
Lá volto a Maquiavel, o ideal é 50% de Fortuna, 50% de Virtude...
Porém, há realmente aspectos que podemos controlar, escolhas que dependem só de nós e sofrimentos auto impostos...que são 100% facultativos!
1 - A forma como nos apresentamos todos os dias
"Conhecimento é poder"...desde que possa usar essa informação a seu favor, ou agir de acordo com o que ouviu. Em todos os outros casos, a máxima "ignorância é uma bênção" é bem mais sensata.
A ideia de "manter os amigos perto e os inimigos mais perto" pode fazer sentido para os políticos ou se você for um Don Corleone dos tempos modernos (só faltava essa), mas para o resto das pessoas, saber demasiado faz mais mal do que bem. Precisa mesmo de ouvir mexericos sobre as pessoas com quem antipatiza, acompanhar as notícias da empresa que a (o) despediu injustamente, esgatafunhar as páginas dos seus desafectos nas redes sociais a ver se alguém fala mal de si ou - o clássico dos nossos dias - perseguir o (a) ex no facebook, num movimento totalmente masoquista?
Eventualmente, vai tropeçar em coisas que irritem ou magoem. Mesmo que não haja nada, como é um assunto sensível o mais certo é interpretar da pior maneira o que leu, viu ou ouviu. E a parte pior? É que não vai poder dar vazão à sua fúria de maneira legítima, por isso o mais certo é perder as estribeiras e dizer/fazer algum disparate que lhe caia mal. Se for uma pessoa discreta, vai ficar a roer-se por dentro. E se a discrição não for o seu forte, quase de certeza vai dar-lhe para, por sua vez, publicar algo velado, mordaz, ressabiado e indiscutivelmente pindérico nas redes sociais, fazendo todo o mundo perceber que alguma coisa de mau se passa consigo. Por isso, just don´t.
Abstenha-se disso e proíba os seus amigos de lhe trazerem ecos desses. See no evil, hear no evil, speak no evil. Discipline-se, que diabo.
3- Dar atenção a pessoas tóxicas
Fazer mais um favor ao falso amigo que não retribui a sua lealdade; ouvir as conversas acabrunhantes daquele conhecido que espalha rumores sobre toda a gente (e provavelmente sobre si, logo que vira as costas); escutar pela milionésima vez as lamúrias daquela sua amiga que não acerta uma, não ouve os conselhos de ninguém e inevitavelmente a (o) arrasta para as suas confusões; responder a *outra* mensagem do (a) ex que veio do inferno porque "ainda lhas tem guardadas e precisa de tirar isso cá para fora"; ceder aos convites de última hora daquele cavalheiro caprichoso que só enrola, esperando que da próxima as coisas atem ou desatem; fazer a vontade, pela enésima vez, àquela rapariga por quem está apaixonadíssimo há anos, mas que só lhe telefona quando precisa de ajuda para qualquer coisa...ou seja, permitir que façam de si paspalho (a) é inteiramente OPCIONAL.
Se já sabe o enredo de trás para a frente, ao menos tente mudar o fim do filme. Sempre varia um bocadinho e deixa de alimentar um padrão que não lhe acrescenta nada. De bom.
4 - Cansar-se de forma pouco produtiva
Fazer constantemente horas extraordinárias, praticamente inúteis (e não pagas) graças à desorganização alheia sem sequer discutir o assunto; manter clientes exigentes e forretas, que regateiam tudo ao máximo e exigem prazos disparatados; deixar que lhe atirem trabalho extra para cima dos ombros, sem realçar o quanto se esforça nem negociar a sua posição; fazer fretes sociais desnecessários, porque não aprendeu a apressar as pessoas nem a dizer que não; tentar corrigir maus hábitos de quem não quer aprender...
O empenho, a disponibilidade e a diplomacia são muito importantes, mas se não os distribuir estrategicamente nem considerar o "custo benefício" (ou neste caso, a relação entre o esforço e a vantagem) acabará por lhe faltar energia para tarefas prioritárias.
Ninguém é imenso e acima de tudo, tempo é dinheiro: não o desperdice levianamente.
5 - Enervar-se com muito entusiasmo
Lá porque uma discussão familiar estalou, não é preciso que vá em crescendo e se prolongue por horas a fio; se deu de caras com um ódio de estimação que olhou para si de lado, dê ao caso a importância que merece e não comente o assunto todo o santo dia; se sente frustração e precisa de chorar força, vá para um cantinho e desabafe, mas pare logo que se sinta melhor; se receia que a depressão se aproxime, vá ao médico quanto antes para tratar o problema, mas não passe a si mesmo (a) o atestado de pessoa depressiva.
Não se trata de esconder a cabeça na areia ou fingir que não se passa nada, mas de relativizar - de impor limites de tempo e intensidade àquilo que o (a) incomoda.
E esses limites só dependem de cada um...





