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Friday, December 5, 2014

A nobre arte de saber estar sozinha



Por muito que o mundo tenha mudado e que as mulheres tenham conquistado alguma independência formalmente falando, há aspectos culturais que não se alteraram.
 Um dos paradoxos que enfrentamos, e de que já falei aqui, é a complicada - e estreita - janela que separa a idade de ser muito-nova-para-um-compromisso-tem-é-de-estudar-construir-uma-carreira-viajar-e-aproveitar-a-vida do momento, quase imediato, em que todo o mundo começa a perguntar quando é que se casa, quando é que vai ter filhos...sem que às vezes se esteja preparada para isso, ou com vontade de arriscar uma empreitada tão séria. Pressãozinha confusa?

Se os homens são acusados, muitas vezes injustamente, de quererem uma "mulher troféu" ou pressionados a encontrar uma, as mulheres não estão muito melhor num departamento semelhante: a dada altura, em qualquer fase da sua vida, pode haver a saudável necessidade de ter um tempo para si própria, ou de aplicar a velha fórmula "antes só do que mal acompanhada". E isso nem sempre cai bem.


 O mundo é como é e gostemos disso ou não, as pessoas não nasceram para estar entregues a si próprias, além de haver infinitas situações em que ter um cavalheiro ao lado facilita tudo. Uma mulher sozinha, ainda que temporariamente, é percebida como estando um pouco desamparada, quanto mais não seja se precisar de fazer frente a um valentão no trânsito. Perdi a conta às vezes em que vi mulheres a precisar de chamar a cavalaria (pai, irmão, cara metade) para pôr no lugar alguém que achava que com mulheres não se trata de negócios (empreiteiro, canalizador, ou coisa desse jaez). Um advogado brutamontes, com um vozeirão e cara de poucos amigos pode ser o acessório mais importante na vida de uma mulher empreendedora. Alguns livros de gestão defendem mesmo que quando uma mulher alcança uma posição de certo poder na carreira, nada confirma isso como contratar um assistente que use calças, em vez de uma secretária.  Por muito que algumas não queiram admitir, a presença masculina é simbolicamente importante.



Tudo isso pode ser verdadeiro, antropologicamente (embora não politicamente) correcto (mas o politicamente correcto nunca resolveu nada na vida de ninguém, por isso adiante). No entanto, é um erro ceder à pressão social quando se trata de algo que deve ser tão sério e profundo como as relações afectivas.

 Não tenho propriamente nada contra a máxima "um amor cura o outro" per se, mas essa "distracção" é a causa de muitas relações desastrosas e arrependimentos.

 Uma mulher pode, ou deve, querer estar sozinha por uma série de razões. Ou entrar apressadamente num relacionamento por outras tantas, e nenhuma delas boa.

É curioso observar, nos tristes casos de violência doméstica que chegam aos jornais, quantas das vítimas tinham vivido com mais do que um parceiro...sendo maltratadas por todos eles. Não é só uma questão de "má pontaria", nem de demografia: qualquer agressor fareja a insegurança a quilómetros. Estar disposta a entrar numa relação por medo de ficar sozinha é (além de reduzir a selectividade da mesma forma que ir ao supermercado antes de jantar aumenta a capacidade de comprar tudo o que faz mal à saúde) um íman para indivíduos que se aproveitam das fraquezas alheias.

A solidão e a necessidade de aumentar a auto confiança nunca devem ser motivos para interagir forçadamente com outro ser humano.



 Entrar numa relação depois de ter saído de um romance tóxico - por solidão ou para fazer "ferro" ao ex - é um erro crasso: primeiro, porque se está absolutamente confusa e carente. Depois, porque qualquer um que corresponda minimamente ao tipo da mulher em causa e que seja menos mau do que o anterior vai parecer uma maravilha. E quem quer um namorado só porque é menos mau do que o ex que veio do inferno? Grande avaria!

 Outra péssimo motivo para namoriscar inconsequentemente é a ideia moderna temos os mesmos direitos que os homens, é um desperdício estar só quando se é nova e bonita...isto enquanto se critica o sexo masculino por pensar com as hormonas e não com a cabeça. Aqui vou puxar da cartada de bota de elástico e dizer como a avó sempre disse: uma mulher tem de ser uma senhora. E uma senhora tem auto domínio (ou é superior a essas coisas)



No tempo da outra senhora, literalmente, uma viúva podia passar o resto da vida sozinha sem que isso lhe fizesse mossa. Não digo que tenha de se chegar a tais extremos, mas entrar na dança "homem é como biscoito, vai um, vem dezoito"  pode convidar sarilhos...além de não ser lá muito próprio nem bom para a reputação, por muitas modernices que se invoquem.


Ser "virtuosa" pode estar fora de moda ou ser um valor oficialmente  importante apenas para uma fatia reduzida da sociedade, mas nem é preciso experiência própria (basta ver séries como "Sex and the City" ou observar os exemplos de conhecidas nossas) para perceber que por cada momento de diversão, há 50% de dores de cabeça e remorsos.

 Estar entregue a si própria pode não ser o mais divertido, mas é a melhor forma de ganhar forças, de pôr as coisas em perspectiva, de perceber o que se quer e não quer, de definir os limites de cada uma. Depois de passar algum tempo a ser dona absoluta das suas horas,  sem ninguém para atrapalhar, ninguém para dizer que quer assim e assado, uma mulher torna-se muito mais exigente, pois não está disposta a abrir mão da sua liberdade por meia dúzia de feijões e promessas vãs. Já descobriu que é perfeitamente capaz de se bastar a si mesma, sabe o que vale e não desiste disso em troca da companhia de um cavalheiro bem apessoado, a não ser que ele prove realmente valer a pena, que seja uma pessoa bondosa, íntegra e fantástica em mais do que um sentido.

 Tem muito mais valor uma mulher que tendo pretendentes- e qualquer mulher solteira e bonita atrai automaticamente interessados, nada de transcendente aí -  os recusa por não serem o que quer para a sua vida do que outra que enfim, segue a corrente só para se sentir querida. A vaidade é a mãe de muitos desgostos!


 E por fim, quase se torna desnecessário mencionar o disparate que é flirtar ou namorar quando se está separada da pessoa de quem se gosta realmente, numa tentativa de superar a situação ou pior, de arreliar o mais que tudo. Ele não vai deixar de ser o mais que tudo por um bom tempo, talvez para sempre.

A verdade é que não se sabe e até ter a certeza, mais vale ficar quieta e aproveitar a independência. Primeiro, porque homem nenhum merece ser usado para "esquecer" outro; depois porque, por muito impecável que seja o senhor que se segue, vai perder na comparação - é como tentar substituir o vestido Dolce & Gabbana que a acompanhou anos a fio mas se rasgou por um modelo parecido da Zara. É muito bonito, serve o propósito, mas o investimento e o envolvimento emocional nunca será o mesmo.

 O amor é uma coisa muito complicada e cheia de tentáculos,que não se arranca e substitui meramente pela presença física de outra pessoa, por muito atraente e adequada que ela seja.


 Terceiro, porque caso as coisas venham a compor-se com a outra pessoa, o ciúme destrói tudo. E quarto, porque não há nada pior do que perder tempo com uma pessoa desejando a cada momento estar ao lado de outra.

 A serenidade e a temperança, ao contrário da vaidade, geram as relações equilibradas ou, quanto mais não seja, são sempre sinónimo de classe e saber estar. Os chineses diziam que o amor se decide no céu e cito novamente a avó "o que tiver de ser nosso tem muita força". Tanto faz correr como saltar ou olhar para o lado a ver quem aparece.

Em última análise, uma mulher que não seja completa sozinha não é atraente para ninguém - ninguém de jeito! Repete-se a velha máxima italiana "uma mulher é a pasta - um homem é a almôndega. Pasta sem almôndega não deixa de ser pasta".




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