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Saturday, December 27, 2014

A problemática da "cool girl"



No filme/livro Gone Girl, há uma infame passagem, muito discutida pela internet nos últimos dias, em que a protagonista descreve a complexa figura da "cool girl" - um híbrido de rapariga bonita que come, age, fala e faz ordinarices como um rapaz sem engordar nem se queixar, que se desdobra para agradar ao homem da sua vida em todos os campos, que gosta de tudo o que ele gosta e que não se deixa afectar por nenhuma das maldades que costumam passar por "rapaziadas" ou "coisas de homem".

 Sendo aparentemente um ícone feminista com tudo o que isso tem de pior (e em muitas coisas, uma Maria Rapaz) a Cool Girl tem, ainda assim, alguns traços da mulher perfeita mais tradicional: ela não faz cenas, não se melindra com qualquer coisa,  finge-se indiferente e  - regra número um de uma mulher que se preza, mas que em tal figura parece contraditória - nunca, jamais, diz 
"amo-te" antes dele, nem que "o amor que sente a esteja a comer viva".

 Podemos quase aqui separar dois tipos distintos de Cool girl: primeiro a Rapariga Fixe (Credo) descrita no livro, quase uma mulher da luta mas com beleza de modelo e peito feito às balas que memoriza os truques ordinarecos aja-como-uma-meretriz que vêem nas revistas, não tem tabus, calça ténis, faz de conta que não precisa de maquilhagem, não se choca com nada e finge gostar de futebol, dá graxa aos amigos grosseirões dele e diz palavrões - uma mistura entre amiga arrapazada e namorada que atura tudo, portanto - e que geralmente, a despeito de representar ter em casa tudo o que *certos* homens sonham, é enganada, pisada e eventualmente trocada mais tarde por outra rapariga igualmente ansiosa por agradar - easy comes, easy goes.



Depois, há a Pequena Impecável que é mais bem comportada e que nunca agradaria ao tipo de homem que gosta de "uma rapariga fixe". A mulher perfeita, a esposa perfeita que nunca diz uma asneira, que Deus a livre de gostar de futebol, que é mais tímida, recatada que não aprecia ordinarices nem brejeirices e que se tiver alguma explosão de qualquer tipo, será em privado. A Rapariga Fixe é o tipo que um Peter Pan da vida gostaria de apresentar aos amigos; a Pequena Impecável é a que um homem que se pretende elegante e mundano gostaria de apresentar aos pais - eventualmente depois depois de passear, sem nunca assumir, algumas Raparigas Fixes.

  A Pequena Impecável está para a Rapariga Fixe como Cameron Diaz está para Grace Kelly.

Pequena Impecável tem mais classe, é mais feminina, menos divertida, mais difícil de conquistar, porque teve provavelmente outro tipo de educação. Nunca a verão dar o primeiro passo, nunca atende o telefone ansiosamente nem responde a mensagens a correr,  e sabe deixar a um homem o seu papel biológico de caçador. Terá uma carreira, o mais certo é que tenha, mas é amorosa, boa dona de casa, cozinhará bem, mantém-se bela nas maiores crises, nunca se apresenta com uma toilette inadequada, é culta, pode levar-se a toda a parte, tem um gosto irrepreensível, é lida e sabe conversar mas também sabe quando estar calada para deixar aos homens a ilusão da sua supremacia, nunca o contradiz em público, tem um comportamento irrepreensível, é uma bonequinha.

 E - única coisa que tem em comum com a Rapariga Fixe - não se deixa afectar, não faz cenas inúteis, não se melindra por tudo e por nada e jamais diz "amo-te" primeiro.

 Ambas, porém, partilham o mesmo problema: ambas fingem que coisas que não são aceitáveis passem ao lado, em nome de uma imagem imbeliscável. 




A Rapariga Fixe vai fingir que não se importa que o relacionamento "não seja uma coisa muito séria"; já a Pequena Impecável nunca entraria numa relação casual, mas vai fingir que não viu que ele está a ser indelicado, ou mentiroso, ou autoritário, ou ciumento.

Afinal, uma mulher ideal não faz cenas; não mostra que se importa porque no momento em que mostrar a sua vulnerabilidade, está condenada: ou porque lhe apanham o ponto fraco, porque isso seria atropelar a velha regra "se ele percebe que gostas muito dele, faz de ti o que quer", porque vai passar por uma necessitada que está a tentar caçá-lo, ou porque o relacionamento ainda está a começar e não seria próprio dizer "não me sinto confortável com isto" ou "este comportamento é suspeito".

 Tanto as mulheres mais modernas como as mais tradicionais precisam de perceber uma coisa: as regras da coquetterie, ou da feminilidade, só as levam até certo ponto. Há questões em que a estratégia não se aplica e em que a única saída é ser honesta, nem que seja para por fim a algo que se anuncia não ir pelo bom caminho.

 Há uma linha que separa ser difícil ou indiferente de deixar que brinquem com a sua pessoa; e por vezes, fingir-se imperturbável não adianta muito: por mais que se finja, o facto de uma rapariga aturar e ficar já diz tudo. E uma mulher está condenada na mesma. Aliás, está condenada a partir do momento em que engole coisas que a ferem profundamente na tentativa de agradar

Devem seguir-se apenas as regras pessoais que preservam a dignidade feminina de cada uma: mais do que isso é tornar-se um robot, abafar a própria personalidade, e quando se vai a ver, o próprio homem já não reconhece a rapariga por quem se apaixonou.
 Pior ainda - a rapariga já não se reconhece ao espelho.






  

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