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Wednesday, December 24, 2014

Consideração Natalícia (e 7 canções de Natal nada insuportáveis)


O Natal é uma Festa complexa -simultaneamente emocionante, enternecedora, poderosa, íntima e um bocadinho melancólica (um pouco porque sabemos as circunstâncias em que o Menino Jesus nasceu e as dores humanas que teria de passar neste Mundo, um pouco porque é suposto toda a gente  estar feliz mas sabemos que por mais que se faça, isso não é possível). 

 Em pequena ficava muitas vezes angustiada nesta altura do ano por me lembrar de quem não tinha tanta sorte como eu, o que me estragava um pouco a alegria dos presentes e a magia inexplicável (porque ainda hoje não a consigo explicar bem a mim mesma) da quadra. Quando ouço dizer que a solidariedade não é só no Natal, não posso deixar de pensar que embora isso seja verdade, ela é especialmente necessária no Natal, para que menos pessoas sejam deixadas de fora, à porta do presépio. Esta é uma época para dar graças pelo que temos e contar as bênçãos, mas se ficarmos completamente contentes no Natal, não estamos a vivê-lo verdadeiramente.

  A boa Irmã Piedade, Freira velhinha que me dava Catequese e que nunca esquecerei por mais anos que viva, contou-me uma história cuja moral era mais ou menos isto "temos de construir no nosso coração um Presépio para  menino Jesus: as tábuas são a entreajuda, o chão é a bondade e o telhado é a coragem; se tivermos medo, o vento levará o telhado e o Menino Jesus ficará ao frio".


 Se colocamos luzes nas árvores e na rua - e este ano nem parece Natal, porque tantas autarquias cortaram tristemente na iluminação, prova provada de que não se pode servir a Deus e ao dinheiro- é porque isso já se fazia desde a noite dos tempos, quando os antigos davam as boas vindas ao regresso do Sol que depois de 21 de Dezembro começava aos poucos a durar mais. Celtas, persas e mais tarde os romanos, por influência dos Gregos que tinham trazido a devoção a Mitra da Pérsia e comemoravam o Deus Sol Invictus Mithras, associando-o às Festas de Saturno, entre outros, todos assinalavam o renascimento de um Deus que vem iluminar a Terra.

 Mas a vinda do Menino Jesus fez mais do que selar a universalidade do mito ou corresponder às ânsias do inconsciente colectivo: se antigamente o Deus vivia, morria e renascia num plano distante, não se sabia onde nem quando, sempre coroado de uma divindade óbvia, o Menino Jesus foi um de nós- especial, divino, mas nem por isso menos vulnerável. A sua vida tem data, local, rostos e nomes; andou entre os homens sofrendo e passando trabalhos como os mais. Começou logo por nascer num estábulo porque pese embora a sua linhagem real, a família não possuía muito, descender do Rei David não era moeda e sucedeu vir ao mundo longe de casa, no meio de uma burocracia desgraçada, com as estalagens todas lotadas - como tantos bebés que nascem no momento menos confortável.  

Preocupou os pais como todos os filhos, foi incompreendido, injustiçado e de vez em quando, zangava-se. Deus e Rei sim, mas capaz de emoções, e, independentemente (ou precisamente por causa) da sua missão de salvar a Humanidade ingrata, conhecedor da complexidade e sofrimento dos homens.

 Pensando nisto, o materialismo do Natal é reduzido apenas ao assinalar da tradição com presentes: trocamo-los porque o Menino Jesus foi presenteado no primeiro baby shower de que há memória, mas não são o mais importante. 

 E isto também se aplica, que o raciocínio já vai longo, às canções de Natal: é impossível tratar das compras sem ser assaltado por versões mais ou menos disparatadas de cantigas modernas sobre o Pai Natal, a dar com uma pessoa em doida. Eu continuo a preferir as que remetem para a magia e Majestade escondida no Presépio, com a Estrela, os anjos, os Santos Reis e a Sagrada Família. 

Ficam as sete magníficas:


1 - Adeste Fideles (c. 1640)


Chamada "O Hino Português" porque embora a sua autoria seja disputada, muitos a atribuem ao Senhor D. João IV, o Rei Músico. Para mim, a mais imponente canção de Natal - desperta-me boas memórias porque era costume cantá-la na versão original na vila dos meus antepassados, logo a avó sabia-a de cor. Impossível ouvi-la sem me arrepiar.

2- Gloria in Excelcis Deo (tradicional francês/popularizada no sec. XIX)
Curiosamente, a única versão respeitável que consegui encontrar na internet foi a de Andrea Bocelli, mas...quem fica indiferente ao poderoso refrão Glo-o-o-o-o-o-O-o-o-o-o-o-O-o-o-o-o-o-O-ri-a in Ex-cel-sis De-o! ?


3 - Do you hear what I hear? (1962)

Criada para ser um apelo de paz durante a crise dos Mísseis de Cuba, e porque o autor queria escrever uma canção de Natal menos materialista. Há imensas versões bonitas, mas a exemplo deixo a de Órla Fallon e Méav Ní Mhaolchatha (Celtic Woman).


4- The Little Drummer Boy (1941)

É um encanto tanto pela música como pela letra, que conta a história de um rapazinho que não tendo presente para dar ao Menino Jesus, usa o seu tambor para guiar os visitantes até à Gruta de Belém e lhe oferece a sua música. O vídeo é do filme homónimo da Rankin/Bass (1976) - um daqueles filmes mágicos que passavam antigamente e que já não se fazem.


5 -God rest ye merry, gentlemen (popular inglês -1833)


A música é fabulosa e  das poucas canções de Natal a dizer coisas do género "To save our poor souls from Satan's power". A minha versão preferida é a de Loreena McKennitt, mas há muitas interessantes por aí.


6 - Oh Holy Night (Placide Capeau - 1847)


Composta por um mercador de vinhos (?!) e poeta francês, foi adaptada para inglês oito anos depois. Fala na redenção da Humanidade, é um dos temas de Natal mais belos e felizmente, menos desfigurados em incontáveis versões. Por estranho que pareça, adoro a de Christina Aguilera.


7 - O Little Town of Bethlehem (Elvis Presley - 1957)



Eis a prova de que uma canção pop/rock pode tornar-se tão respeitável  - e majestosa - como um clássico. 



Um Santo e Feliz Natal a todos!


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