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Wednesday, December 3, 2014

Maquiavel para mulheres em 10 passos



O Príncipe fascinou-me desde tão cedo que não me lembro quando o interesse começou nem porquê - talvez fosse pelo título, pelos Borgias ou pela época. Quando finalmente lhe deitei a mão para uma primeira leitura, teria uns doze anos (fase em que explorei algumas obras primas que ainda hoje tenho à cabeceira..) fiquei algo desapontada.

Tinha ouvido cobras e lagartos de Maquiavel e do Príncipe e esperava um livro proibido, emocionante e sumarento, daqueles que se lêem a olhar por cima do ombro, um Necronomicon da intriga palaciana com páginas a pegar fogo, um manual passo-a-passo para todas as diabruras... e não algo tão simples e tão pragmático. 

 Porém, depressa me apaixonei por aquela visão objectiva e desencantada da realidade: nunca tinha lido nada mais lúcido, e isso foi mais cativante do que o livro endiabrado que eu imaginara.

Maquiavel desenhado por Milo Manara, na série Borgia


A fórmula de observar fria e racionalmente as lições da História para as aplicar no presente e prever o comportamento humano ( lá dizia Confúcio, "se queres adivinhar o futuro, estuda o passado") não podia agradar-me mais, pois nunca gostei de surpresas.

 Dito isto, eu - que não sou de perto nem de longe uma estudiosa de Maquiavel, mas uma mera admiradora do seu trabalho - não creio que O Príncipe seja um "guia para o sucesso"...o seu autor morreu, afinal, na obscuridade, por muitos TANTO NOMINI NULLUM PAR ELOGIUM que agora lhe dêem. Mas é decerto um manual para evitar uns quantos desapontamentos e uma mão cheia de dissabores...


"Nenhum elogio está à altura de tal nome"
  Quem tenha de lidar com pessoas encontra em O Príncipe sempre alguma coisa de novo e interessante, por mais vezes que o tenha lido. E embora Maquiavel não escrevesse propriamente para as mulheres (que à excepção de algumas como Caterina Sforza, detinham pouco poder oficial) nos nossos tempos o caso mudou de figura e a maioria pode tirar daí algumas lições.

Ser "uma mulher maquiavélica" tem pior reputação do que merece, e não é com certeza assumir o papel de vilã de telenovela, sempre a tecer intrigas pelos cantos. Agir de modo lúcido, saber antecipar-se aos acontecimentos e ser corajosa quando é preciso nunca fez mal a ninguém. 


Aqui ficam algumas das ideias mais úteis:

1 - Não se deixe surpreender por nada

Dentro do possível, vá. Toda a vida ouvi que conhecimento é poder. Maquiavel defendia que os homens, como a Natureza, estão sujeitos a leis imutáveis, todos se assemelham e todos são animados pelas mesmas *geralmente ruins* paixões, que conduzem fatalmente ao mesmo resultado. Logo, estudar o comportamento humano é sempre um bom ponto de partida: só um idealista crê que não haja pessoas gananciosas, vira casacas e dissimuladas por aí; não há nada de errado em contar com isso, pelo sim pelo não, e em levar as coisas com calma e um grão de sal. Nunca se arrependeu de confiar cegamente em alguém? Pois. Quem não espera demasiado nunca cai das nuvens.


2 - A sorte sorri aos audazes...

O Príncipe aconselha menos vacilação e uma adopção ousada das medidas exigidas pela natureza dos acontecimentos. Segundo Maquiavel, a Fortuna é uma mulher -  gosta de quem a arrebata valentemente e zomba dos fracos. Se as condições são favoráveis e tem de facto as qualidades para ocupar o lugar que almeja (aqui exige-se uma forte capacidade de auto análise, claro) Avé Maria e avante. Trate as oportunidades como gostaria que um pretendente a conquistasse a si, portanto.

3- ...mas escolha as suas batalhas

"Apenas o Príncipe que tem um poder militar forte consegue manter o seu domínio". Não entre em empreitadas nem se anime a enfrentar situações que não tem capacidade, meios ou aliados para vencer. As máximas do "tudo é possível a  quem acredita em si mesmo" são fonte de muitos desenganos e frustrações. Por vezes é mais inteligente ser realista. Não há vergonha em passar a outro objectivo ou em fazer um recuo estratégico para reunir os recursos necessários. Antes isso do que enfrentar um fracasso retumbante ou o ridículo, que é ainda pior. Não possui fundos para começar um negócio? Não invista sozinha. A sua conta está uma desgraça? Fuja do Net-a-Porter.
 Falta-lhe a formação, a prática ou as qualidades para ocupar um determinado posto? Vá adquiri-las, ou candidate-se a um mais apropriado que com certeza terá mais a ver consigo. E escusado será dizer que se for atacada na rua por um grupo de meliantes ou por um só com capacidade física claramente superior à sua, é suicida armar em heroína, nem que seja cinturão negro - a coisa sensata a fazer é escapar e gritar por ajuda. Mesmo Bruce Lee dizia que o confronto físico é sempre um último recurso. Não aja sem chamar a cavalaria quando isso é obviamente desvantajoso, ou o momento é desfavorável. 

4- Seja adaptável

Para Maquiavel, "virtude" significa coragem, talento, aptidão - mas acima de tudo, uma escolha inteligente dos meios. O Príncipe precisa de se ajustar às pessoas e circunstâncias com quem tem de lidar...e nós também. Hoje, como em 1513, aplica-se o ditado "em Roma, sê romano" em relação a dress codes, condutas, procedimentos...
 Se recusa conformar-se com a norma de um grupo ou empresa ou utiliza a mesma estratégia para lidar com situações muito diversas, think again. É mais fácil mudar de emprego ou mudar de namorado do que tentar mudar "o sistema" ou mais complicado ainda, mudar o namorado que se porta mal, tentando moldá-lo àquilo que gostaria que ele fosse. A vida é demasiado curta para perder tempo a lamuriar contra a injustiça ou a ensinar cabeçudos - ambos inutilmente! Decida mais e idealize menos, que no mínimo avança mais depressa.

5 - Defina uma estratégia e mantenha-a

Tomar decisões é sempre difícil, mas se analisou o caso por todos os ângulos, pesou os prós e os contras e foi pelo caminho que o seu instinto lhe ditou, não volte atrás uma vez definida a sua "política". Seja ela profissional (aceitar o convite da empresa Y em vez da segurança do local onde trabalha há anos) ou pessoal (sair de uma relação tóxica, gerir uma crise familiar...) aplique-a sem hesitação e não se desvie dela, por muito que amigos e parentes bem intencionados a tentem fazer mudar de ideias quando a procissão já vai a meio. "A hesitação é uma falsa prudência". Recuar constantemente ao sabor dos ventos e cabeças alheias...dá asneira.


6 - Metade Sorte, metade Esforço

A virtude maquiavélica consiste em saber usar os 50% (salvo seja) que o acaso (Fortuna) oferece. Não podemos controlar a sorte ou os acontecimentos que nos ultrapassam (como as tempestades, os terremotos ou as tolices dos outros), apenas agir conforme as janelas de oportunidade e dar o nosso melhor. O sentido de oportunidade e a tenacidade podem dar algum trabalho a desenvolver (em algumas pessoas é um dom inato, noutras nem tanto) mas é crucial. Quando uma chance se apresenta claramente, é melhor actuar agora que mais tarde: amanhã os ventos podem mudar, a oportunidade desaparecer, ou você ter perdido o impulso. Aproveite os seus assomos de coragem!


7- Faça você mesma

"Os príncipes devem instalar-se nas províncias que acabam de conquistar". Saber delegar é uma qualidade de liderança, mas frequentemente aplica-se a máxima "se queres uma coisa bem feita, trata disso tu mesma" e ainda o velho "nunca mandes um homem fazer o trabalho de uma mulher". Isto é especialmente verdade em projectos frágeis ou que estão de fresco. Se algo lhe interessa muito, envolva-se e vigie de perto. Ninguém tem tanto os seus melhores interesses em mente como você.

8- Faça-se respeitar...e nunca subestime ninguém

"É mais fácil manter o poder que assenta no apoio do povo do que o poder que assenta no apoio dos grandes, pois o povo só deseja não ser oprimido". Em quaisquer circunstâncias é um erro (para não falar numa grandessíssima prova de falta de chá) bajular quem está numa posição de destaque, ignorando ou maltratando quem está abaixo. Todos os envolvidos numa organização ou projecto podem ser aliados valiosos - ou revelar-se adversários complicados se as coisas azedarem. Uma das ideias mais célebres de Maquiavel é a conhecida "é melhor ser-se ao mesmo tempo temido e amado, quando isso é possível; se não se puder ter as duas coisas, é preferível ser-se temido do que amado; mas evite-se causar ódio e desprezo nos outros". 
 Nem toda a gente pode ser nossa amiga, é um facto- mas o respeito dá-se até ao pior inimigo se ele se mostrar digno disso. Imponha-se quando necessário, sem recorrer a golpes baixos e atitudes mesquinhas ou crueldades escusadas.

9- Cuidado com a adulação...e os intrometidos

 Maquiavel avisa ainda que para manter o respeito é preciso evitar os bajuladores - segundo ele, são uma peste de que pouca gente se defende, pois a maioria adora ser elogiada (...). Muitas mulheres, propensas à insegurança, caem facilmente nessa armadilha, principalmente se lhes elogiarem a beleza ou tocarem em algum ponto sensível. . Erro crasso.  "O Príncipe prudente deve escolher homens sábios, que dele tenham a permissão de dizer a verdade, mas somente a respeito daquilo que lhes é perguntado. (...)  deve aconselhar-se sempre, mas somente quando deseje e não quando os outros queiram". Shakespeare dizia que "é frágil a cabeça que usa a coroa". Em suma, tenha atenção às pessoas a quem permite pôr e tirar nos seus assuntos - principalmente se essas pessoas têm o hábito de aplaudir tudo o que faz, nem que seja a pior parvoíce. Gente assim não defende senão os próprios interesses.

10 - O bem sempre que possível, o mal sempre que necessário

Esta foi a máxima que estragou tudo e deu a Maquiavel uma reputação dúbia, no mínimo.
 Quando alguém quer insultar um adversário de maquiavélico (e logo, vilão) atira-lhe "para si, os fins justificam os meios!". Mas calma. O autor, muito influenciado pelas sangrentas disputas que assolavam Itália no seu tempo, diz com certa razão que "esforçar-se por ser bom quando todos são maus é procurar a própria ruína".
 Perante pessoas mesmo malvadas a gentileza ou o desprezo podem não funcionar e evitá-las de todo pode não ser uma opção (ou justo!). Por isso, às vezes há que falar com elas na única linguagem que entendem ou mesmo antecipar-se às suas maldades. Por vezes é preciso aplicar o lema da minha santa avozinha "para maroto, maroto e meio" - ou, no dizer de Maquiavel. "faz aos outros o que eles gostariam de te fazer, mas sê mais rápido do que eles". Isto é simples auto defesa, porque não vivemos num mundo justo e bonitinho.
 Quando uma situação de abuso ou opressão cresce, o melhor é enfrentá-la e quanto mais cedo, melhor: uma guerra não pode ser evitada; só adiada com vantagem para o inimigo.
 Afinal, "é melhor ser compassivo do que cruel, mas a clemência nunca deve ser mal utilizada". 


Isto não é ser mau, é ter amor próprio, eu acho...










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