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Monday, December 8, 2014

O "sense of entitlement" é o mal de muita gente.


Ando mortinha para encontrar uma tradução adequada para "sense (ou feeling) of entitlement", mas ainda não me ocorreu nenhuma. Vi por aí uma tentativa brasileira de traduzir o termo para "regalista" (alguém que espera regalias, acho) mas pareceu-me confuso demais.

Alguém que sofre de "sense of entitlement"  é, basicamente, uma pessoa que acha que o mundo lhe deve tudo.




Isto pode tomar várias formas, umas mais perigosas do que outras mas todas irritantes - do alpinista social com traços de sociopata ao ressabiado, passando pelo queixinhas de serviço que não faz senão lamuriar-se que não tem sorte nenhuma e que a sociedade tem culpa dos seus desaires. Mas todos adoram atenção e palmadinhas nas costas. Todos sofrem de uma atroz falta de noção, considerando-se muito acima das suas reais capacidades. E sem excepção, acham que têm direitos (ou melhor, privilégios) mas muito poucos deveres.




 Um indivíduo com "sense of entitlement" beira quase sempre o ridículo. É a interesseira (ou interesseiro) que vendo a oportunidade de privar com um círculo mais exclusivo, age como se estivesse em sua casa, pasmado todos com o seu atrevimento e arrivismo.



 É o cantor que teve um sucesso (vulgo one hit wonder) há vinte anos atrás e continua pateticamente a recusar-se a fazer outra coisa na vida, publicitando uma versão fanada e acabada de si próprio. Prefere fazer espectáculos em estábulos nos confins da província, banalizando-se, a deixar de ser considerado "um artista"...por muito que isso ponha em causa a sua dignidade e não pague as contas. Ou que não cante tão bem como isso e que o seu êxito tenha sido fruto de um conjunto de circunstâncias, obrigada pelos 15 minutos de fama e agora passemos a coisas realmente importantes


É o "suposto geniozinho" que não encaixa em nenhuma escola, não faz nada da vida, não cumpre as regras e trabalha menos que os colegas mas proclama a toda a hora a sua incompreendida "superioridade intelectual" com palavras caras que não fazem sentido nenhum.



 É o rapaz "supostamente bonzinho" que acha que lá porque não trai, não maltrata e não faz coisas realmente aberrantes, já é o melhor do mundo e todas as mulheres devem dar graças pela sua presença com medo de arranjar pior. E se dá para o torto, desata numa campanha de difamação contra a ex ou suposta namorada em potencial que afinal só o via como amigo, porque, diz ele, "as mulheres só gostam é dos crápulas".



É a rapariga desengraçada que, não encontrando quem olhe para ela duas vezes, decide apaixonar-se pelo amigo bonitão e comprometido que lhe dá dois dedos de conversa - perseguindo-o e  arranjando-lhe problemas com a legítima, porque afinal, se lhe prestou alguma atenção já lhe pertence e nem vê o casal mal arranjado que iam fazer, no melhor modo erotomania. Ela é que é inteligente, ela é que sabe fazer um homem feliz, ela é que...não tem espelhos em casa, nem recato!



É o triste que nunca manteve um emprego nem namorada certa, não segue os conselhos de quem o quer ajudar, vive no mundo dos sonhos onde é rico e famoso e como não se chega lá com ilusões, culpa todo o mundo e ataca todo o mundo.

Estes são apenas alguns exemplos mais óbvios, mas haverá muitos mais que por aí andam a enganar-se, a aborrecer quem passa e - consoante o grau de falta de estrutura moral - a causar problemas a quem tem o azar de se cruzar com eles, a tecer intrigas, a espalhar confusão. Na melhor das hipóteses são pessoas que cansam, enervam e sugam a energia alheia.




Newsflash, minha gente: o mundo não vos deve porcaria nenhuma - para não dizer uma asneira. Mesmo quem herdou tem de fazer por manter, porque neste planeta do Senhor não há almoços grátis e a não ser que tenham algo de extraordinário a oferecer (ou mesmo no caso de golpes de sorte, que se faça uma gestão muito eficaz do talento, momento e oportunidade) ninguém vos vai fazer vénias. E por muito trabalho ou esforço que haja em alguns casos, até assim é preciso conhecer o seu lugar, os seus limites e ter noção de certas fronteiras. 

Além disso às vezes não dá mesmo - you can´t always get what you want, lá dizia o outro - mas quem tem realmente valor arranja sempre outro caminho por onde se expandir, em vez de se lamuriar contra A, B ou C. Ou de conspirar a toda a hora, enroladinho num buraco, no melhor modo Gollum do Senhor dos Anéis, consumido-se num misto de ganância, inveja e obsessão pelo que já lá vai. Presunção e água benta...





2 comments:

Krystel said...

A-d-o-r-e-i este post. Ainda no outro dia estava a ouvir uma pessoa dessas e a meio o do que ela me dizia/lamuriava desliguei e dei por mim a pensar isso mesmo: o mundo não te deve porra nenhuma, miúda!

Ri-me a ler isto e fez bem. Bolas, não há paciência! ;)

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Imperatriz Sissi said...

Obrigada :D
Deve ter sabido tão bem cortar o discurso à chata!

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