Recomenda-se:

Netscope

Monday, December 15, 2014

Quando as mulheres chatas pegam num conto de Fadas, dá nisto.


Há algum tempo que eu desejava ver Maleficent, para avaliar se o sururu quanto à história às avessas tinha razão de ser e porque, como já vos disse, A Bela Adormecida é um dos meus contos (e filmes da Disney) preferidos. A escolha de Angelina Jolie para o papel também me agradou, até pela belíssima maquilhagem da MAC. Quanto à Aurora em versão adolescente eu estava preparada de antemão...e a contar com um príncipe igualmente pirralho. Já lá vamos.

 *Alerta SPOILERS!: se ainda não viram Maleficent  parem de ler aqui, porque eu vou contar o final e depois não quero cá reclamações.*


Vamos deixar uma coisa clara antes de mais: eu não tenho propriamente nada contra saber-se a versão do suposto vilão da história. Primeiro, porque os anti heróis e as personagens dúbias são sempre interessantes, depois porque a verdade tem quase sempre várias faces e aquilo que parece uma grande malfeitoria pode não passar de um assinalável mal entendido. É certo que me desagrada a elasticidade moral que se tem visto nos últimos tempos, em que se relativiza tudo e já não há fronteiras entre o Bem e o Mal, mas às vezes pode ser razoável mostrar os dois lados.


 Dito isto, gostei imenso do filme até à última parte. Cenários mágicos, lindo figurino, efeitos e fotografia, tudo como manda a Disney. Que houvesse um romance entre a Fada Má e o Rei Stefan, pai da Princesa? Fantástico, só foi pena não o terem mostrado mais claramente, que mais parecia amizade que outra coisa (e aqui começamos a interrogar-nos sobre a misandria do conto). O Rei Stefan saiu um bom alpinista social, que parte o coração da Maléfica**. Rouba-lhe as asas para ganhar o Trono.

(**só não percebi porque se chamava ela Maléfica se até então era uma fada amorosa que não tinha feito uma maldadezinha na vida, mas convenci-me de que em pequena seria um terrorzinho e não fiz mais caso do assunto)


 Disso das asas cortadas eu já sabia, até porque não faltaram feministas a gritar pela internet que roubar asas era uma alegoria do abuso e da violência de género, mas adiante: é puxar muito o envelope mas como às vezes há homens mauzinhos que se não roubam asas, fazem bem pior, até aí aguenta-se. E fiquei até ao fim à espera que o Rei se redimisse e o bad romance se resolvesse, até porque o malvado casou com outra mas a Rainha morreu (desprezadinha pelo marido que estava cada vez mais paranóico por causa da Maleficent) logo fazia sentido que se deixassem de amor-ódio e percebessem que eram feitos um para o outro, vivendo felizes para sempre como Rei Virtuoso e Madrasta-Fada boazinha.


 Elle Fanning como Aurora não me convenceu lá muito por parecer...tão nova, e rigorosamente nada com a versão animada. Fofinha, encantadora, sem dúvida. Uma beleza arrasadora como a Aurora de 1959? Ná, a Aurora original tinha mais de Angelina Jolie do que de Elle Fanning, mas talvez não quisessem roubar o protagonismo à heroína (vilã?) da história.

 A forma como a Fada Má se afeiçoa à Princesa que amaldiçoou num momento de raiva e coração partido é plausível, realista e tem muita graça. Foi o que mais me agarrou no enredo. Porém, a partir daí a história escorrega por ali fora.


 O Príncipe Filipe é, como eu contava, um fedelho. Percebo que a moda seja os protagonistas terem cada vez mais ar de Liceu, mas ao menos que lhe dessem um aspecto mais masculino ou vá lá, cara de quem anda no 12º ano, porque aquele Príncipe não podia mesmo salvar o dia, coitadinho. É claro que o beijo dele não acorda ninguém e tem de ser a Maleficent a tratar maternalmente de resolver o caso, quebrando a maldição que ela própria lançou. E aqui fica dada a sentença: Maleficent não acredita no amor verdadeiro. O único amor verdadeiro é o amor maternal. Bonito, hein?

 Então fica explicado: o Rei é um vilão cruel e capaz de tudo, o Príncipe é um rapazito de cueiros, o único ser de calças bom e decente ( além de bem mais bonito e masculino do que  o Príncipe) é o corvo que muda de forma (de homem a dragão, serve para tudo). Ainda contava que ele e a Fada se apaixonassem um pelo outro, ou que fosse o Corvo a casar com a Princesa já que passou a vida a tomar conta dela, mas nada: o pobre nunca é valorizado e passa o conto como criado da Fada. Misandria, novamente?

O único bom rapaz só serve para as tarefas espinhosas

 No final há um confronto entre a Fada e o Rei Stefan; mas como nesta história Menino não entra, ele continua a ser mau até ao último momento (nem para pai serve) e cai do castelo abaixo ao melhor estilo Disney; a Fada recupera as Asas, Aurora governa o Reino (em parceria com a Fada!) o Príncipe vem à Festa mas não casa com ela (com aquelas carinhas de infantário também seria estranho, admito) e viva o Matriarcado. 

No entanto,  por muito que se defenda a ideia de uma mulher emocionalmente independente, o amor à primeira vista faz parte destas histórias. E às vezes acontece na vida real também. Uma mulher pode ser completa sem um homem, mas não sejamos irrealistas: a vida com amor é muito mais bonita.  Matar o romantismo nos contos de Fadas parece cruel e desnecessário.



 Contos de Fadas servem para moralizar, mas também para sonhar e dar conforto, esperança. Para mostrar às raparigas que às vezes, só às vezes, quando uma heroína é muito bonita por dentro e por fora, o Príncipe não é um mau rapaz. Pode salvá-la e não há mal nenhum nisso, porque qualquer relação pressupõe ceder e abandonar-se a outra pessoa. Sem entrega não pode haver um relacionamento, e é essa entrega que é riscada do mapa em Maleficent. As duas heroínas ficam orgulhosamente sós porque, segundo o conto, não há um único homem que preste à face do Reino: os homens ou são cruéis, ou efeminados, ou submissos.

 Como se não bastasse a realidade, ainda mais esta.


2 comments:

Ulisses L said...

Para te ser franco, tendo eu uma princesa de 6 anos em casa, podes calcular o quanto estou enjoado de contos de fadas...

...mas comento apenas para dizer que concordo com uma coisa que dizes: O bem e o mal não passam de pontos de vista diferentes!
Aliás, se assim não fosse, o conceito de Deus seria algo muito complicado de digerir...

:)

Imperatriz Sissi said...

Esse aspecto foi interessante. Escusavam era de ter exagerado...

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...