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Saturday, February 1, 2014

Detesto meios termos da treta. Detesto.


Ainda não vi o final de American Horror Story: Coven, mas como não tenho paciência para  surpresas já sei de cor e salteado os resumos dos episódios que me faltam. E como dizia a outra, I´m not happy.

 De vez em quando há um formato (filme, série, livro) que tem a coragem de criar um anti herói - ou neste caso, anti heroína - no melhor espírito Evil is Cool. Sabem, aquelas personagens com estilo à patada, que são go-getters, que tomam decisões difíceis com as quais dificilmente concordaríamos na vida real mas que no contexto fazem sentido, que são brutalmente honestas no seu modus operandi os-fins-justificam-os-meios e que têm também um lado humano, bom e vulnerável. E claro, fica-se a torcer pelo protagonista, neste caso a bruxa de Chanel que bem vistas as coisas, acaba por fazer maldades menos graves (e mais compreensíveis) do que os supostos "bonzinhos" politicamente correctos da estória.

Mas no fim os produtores arrependem-se e decidem que o suposto mauzinho tem de ser castigado, por muito over the edge e risqué que o programa/filme/livro seja.  E é o bonzinho sem graça, mas que também está farto de fazer quantas tropelias há pelas costas (embora com cara de anjo, ar paternalista e a julgar toda  a gente) que triunfa. Pior ainda, é suposto nós gostarmos desse final.

 Como prefiro pessoas genuínas - ainda que sejam um bocadinho arrogantes ou sarcásticas à superfície  - e não posso com fachadas de bondade e santidade nem com molho de tomate, não consigo achar piada, desculpem. Tanta coisa, tanta coisa e afinal ficamo-nos com um final chocho, vulgo " o Mal foi derrotado e o Bem vence" mesmo que o bem seja falso e de segunda categoria. Falta de coragem e de frontalidade, é o que é. 

Love, love, love


Já vos tenho contado que no que toca à maquilhagem, é muito raro fugir ao intemporal - preocupo-me mais com o aspecto da pele e sobrancelhas do que propriamente em variar as "pinturas".  Um smokey eye aqui, jogos de sombras  acoli, máscara de pestanas quase sempre, cat eye com um bâton marcante noutro dia, e quanto a estes, raramente escapo à sagrada paleta de nudes e encarnados. Ocasionalmente lá me deixo tentar por um tom de camélia, mas é difícil encontrar a nuance exacta de camélia vibrante ligeiramente mate que pareça mais geisha moderna e menos vampiresca. 

Calha bem que alguns clássicos, como o bâton encarnado verdadeiro (não gloss - já chegava de tanto gloss) agora são tendência e podemos usá-los à vontade sem dar demasiado nas vistas ou parecer que temos um look vintage total.

 Quando os escarlates -alaranjados se tornaram moda eu habituei-me rapidamente. Afinal era mais um tom a juntar às cores de sangue, cereja e por aí fora mais ou menos translúcidas (para o dia) ou opacas ( para depois do pôr do sol) com mais brilho ou menos brilho. Mas demorei um bocadinho mais a aceitar o laranja a sério, ou o tangerina, ou qualquer coisa que se repare que não é encarnado, mas laranja sem se aproximar das cores de tijolo (que só ficam bem em raparigas morenas). 

 No entanto, é um daqueles casos em que só se estranha até experimentar e foi amor à primeira tentativa. Primeiro, porque quanto mais clara a pele, mais pálido pode ser o tom de laranja (ou clementina) sem correr o risco de parecer demasiado maquilhada. Por estranho que pareça, em peles de porcelana os laranjas são mais democráticos do que os encarnados, que exigem alguma cautela. Segundo, porque reflectem o tom do meu cabelo, logo dão luminosidade ao rosto sem grande trabalho e sem contrastar exageradamente. 

Descobri alguns  truques online para as mais relutantes, mas posso dizer que é só encontrar a textura certa (eu devo ter uns três bâtons diferentes neste momento, que encontrei por mero acaso) e aplicá-lo displicentemente depois da rotina BB Cream + Máscara de pestanas para ficar com boa cara em menos de um fósforo.

É visível o suficiente para dar um ar sofisticado, mas discreto q.b; trendy que chegue para andar à moda, mas tão clássico que ninguém pode dizer que é trendy. Não se pode pedir mais, certo?





Friday, January 31, 2014

O cabelo: razão de Estado



Veronica Lake, a lendária Deusa das telas que imortalizou o penteado peek-a-boo (e que ficou conhecida não só pela beleza delicada, mas pela bipolaridade que lhe destruiu a carreira, os relacionamentos e a existência) quis contribuir para o esforço de guerra no início dos anos 40. 
 As mulheres estavam a tomar o lugar dos homens nas fábricas, e ao tentarem imitar-lhe o visual de longas ondas a tapar um dos olhos, comprometiam a produtividade e pior- arriscavam-se a prender o cabelo na maquinaria, causando acidentes graves.

 Não querendo ser responsável por tal coisa, num assomo de patriotismo a adorável actriz gravou o vídeo abaixo para convencer as mulheres a imitá-la mais uma vez - adoptando um estilo glamouroso, mas seguro.

A necessidade obriga e as meninas aderiram. Ironicamente, a imagem de Veronica nunca recuperaria da mudança de visual, embora o seu temperamento difícil tivesse provavelmente mais culpas no cartório.

  Em todo o caso, o clip institucional é uma delícia e vale bem uma espreitadela, nem que seja pelo canto do olho: afinal, o peek-a-boo tem estado na ordem do dia, em tudo quanto é passadeira encarnada. 



B-I-T-C-H. No mau sentido.


Como por estes dias se celebrou o Holocaust Remembrance Day,  tive acesso a uma versão do documentário realizado por Hitchcock sobre a libertação dos campos e dei por mim a reler alguma da minha bibliografia sobre o assunto, acompanhando também outros filmes e peças mais ou menos informativas que invariavelmente aparecem nestas ocasiões.

 É que por muito que se leia ou se estude, nunca se abarcará a dimensão da tragédia. São demasiadas histórias, todas terríveis mas com lampejos de dignidade, esperança, ternura e até de humor, porque a ironia é uma grande tábua de salvação mesmo nas piores circunstâncias.

 E neste exercício lembrei-me que na adolescência, as entrevistas a protagonistas e sobreviventes foram um sério contributo para que me passasse pela cabeça ser jornalista. Descobrir testemunhos daqueles, relatos tão extraordinários que muita gente - com boas ou más intenções e menos ou mais lucidez- se questiona se terá sido verdade ou como é possível que tenha acontecido, que o Inferno tivesse passado pela Terra. Ter sido filmado, fotografado, documentado até à exaustão ou transformado em Museu, aparentemente não chega. Há sempre a tentação de pensar que talvez não tivesse sido bem assim. Porque é  desconfortável conformar-se com o facto de tal coisa se ter passado.

Mas eu não me atreveria a escrever sobre o Holocausto: é demasiado avassalador e entra-se em discussões que não desejo começar. Creio mesmo que é só através dos heróis e dos vilões que se consegue perceber alguma coisa ou tornar os acontecimentos tangíveis. E as histórias das mulheres no Holocausto, vilãs, heroínas ou sobreviventes, sempre me fascinaram até porque não estavam, até há pouco tempo, tão bem documentadas como isso. Muitos episódios horrendos, pungentes e humilhantes só mais recentemente vieram a público, por compreensível vergonha das mulheres que se viram atacadas na sua dignidade e intimidade. É inevitável pensar "o que faria eu naquela situação?".

Ora, uma personagem que me marcou, verdadeira matéria para pesadelos, foi Irma Grese.



A menina, que ganhou alcunhas tão lisonjeiras como "a cadela de Belsen", "o Anjo Louro de Auschwitz", "a Bela Besta" e "a Hiena de Belsen" era tão boa ou tão má que o próprio pai, membro do Partido Nazi, a pôs fora de casa. Aos catorze anos deixou a escola por pouco aproveitamento, bullying dos colegas ( durante o seu julgamento, a irmã relatou que Irma era a primeira a esconder-se se estalava um desacato) e por se encontrar obcecada, contra a vontade paterna, com as suas actividades "patrióticas"  na Bund Deutscher Mädel (Liga das Raparigas Alemãs). Tentou várias carreiras, incluindo a de enfermeira, sem grande sucesso. Sonhava ser actriz de cinema, mas em 1942 foi colocada como guarda no Campo de Concentração de Ravensbrück - e no final de 1943 já era a segunda mulher mais importante em Auschwitz, tendo debaixo da sua bota - literalmente - cerca de 30 mil desventuradas.

  Os relatos das suas atrocidades (espancamentos até à morte, atiçar cães esfomeados contra prisioneiros, execuções sumárias, só para nomear algumas) e desgovernos amorosos com homens de todas as categorias nos campos são imensos; conta-se que bastava saber-se que ela estava presente para o terror se instalar. A carta de uma ex prisioneira quando Irma já estava encarcerada, depois da libertação, explica perfeitamente o terror e ódio que inspirava. 

  Mas talvez o maior toque de requinte sádico fosse a sua obsessão por modas e elegâncias, citada em numerosos testemunhos, nomeadamente pela antiga prisioneira e escritora húngara Olga Lengyel. A "Bela Besta" não só fazia questão de andar impecavelmente arranjada, com botas bem engraxadas que usava para espancar os infelizes sob o seu jugo, como abusava do perfume - mais uma forma de desmoralizar as prisioneiras imundas, esfarrapadas e cobertas de piolhos. Mais do que isso, era a primeira a escolher o saque (não há outro nome) das malas roubadas às prisioneiras, e à custa disso compunha um belíssimo guarda roupa. Tinha mesmo uma camisola de caxemira branca que usava muitas vezes e que as próprias detidas não podiam negar que "lhe ficava muito bem" antes de o omnipresente chicote as fustigar sem dó. 

  O sentido de estilo da cruel ladra de roupa alheia não lhe valeu de muito, porém: aos 22 anos foi enforcada por crimes contra a Humanidade. Não se arrependeu minimamente, e foi para o patíbulo com o cabelo cuidadosamente encaracolado: na véspera, tinha arranjado papelotes feitos com trapos. Good riddance, fraulein Grese.




  

Wednesday, January 29, 2014

Antes perdão que permissão.



                       "Men learn how to apply the rubric 

      `It's easier to get forgiveness than to get permission´.‏"


Havia uma mulher que tinha sido criada para ser uma high -achiever. Desde pequena 
tinham-lhe encorajado os talentos, os dons do espírito. Não só a tinha mimado, proporcionando-lhe esmerada educação - recorrendo à sabia combinação de férrea disciplina, responsável auto-gestão, calorosa modéstia e  temperado elogio- como lhe tinham dito sempre que era bonita, e brilhante, e não devia esconder a sua luz interior nem calar as suas opiniões. De um lado a tradição, os hábitos de uma perfeita senhora à moda do antigamente, do outro a crença "esta rapariga consegue fazer tudo!", a independência. 

 E a rapariga-de-quem-se-esperava-muito,de quem os professores diziam, de olhos em alvo,  "you´re going places!" um livro na mão e outro em cima da cabeça, uma revista de moda no pé e o ballet e o piano e o francês, começou a alcançar coisas por si própria- seria a high achiever perfeita não fosse a mania de se prender só ao que lhe apetecia, de dizer o que lhe passava pela cabeça, de fazer, imbuída de um certo conhecimento do mundo e de um desprezo pelas convenções, só o que lhe parecia bem.

  Quando já tinha conseguido sozinha um número considerável de coisas, acumulado os diplomas, os troféus e um armário bastante impressionante, apaixonou-se. Não pelo aventureiro que normalmente entra nestas histórias para estragar tudo, mas pelo homem poderoso e perfeito, que tinha a vida perfeita e precisava da consorte perfeita. E cansada de alcançar coisas, de conseguir coisas para si mesma, a rapariga pensou que era bom 
deixar-se guiar para variar, ter onde reclinar a cabeça, entregar-se à protecção de outrem, ser o apoio, a Deusa de bastidores. Ele era como uma propriedade encantada, imensa, em que basta rodar a chave e encontrar a mesa posta, a rotina organizada, e tomar o lugar para que os acontecimentos se desenrolem. Possuía todas as certezas e a intensidade que a fazia prender-se. E essas certezas, juradas com absoluta confiança, não podiam encontrar resistência.

 Com o hábito velho que trazia no código genético transmitido pelas suas avós,ela  tinha tanta facilidade em atrair as atenções sobre si mesma como em aparentar o brilho discreto de uma pérola, que encanta sem ofuscar. Estava feliz por deixar-lhe o protagonismo a ele, por ser a mulher que acompanha fulano de tal, a senhora não sei quantos, a mulher de.

Via, com um sarcasmo habilmente disfarçado, as mesuras, a bajulação, as vénias, os intermináveis fretes de que o cercavam - e ela, que lhe conhecia as fraquezas, os momentos negros, os medos, pensava como é ridículo e óbvio o ser humano, que à vista do ouro ou do poder cai de joelhos, sem pudor. Mas via também - com desagrado - como ele que era brilhante, e forte, e possuía todas as certezas na vida - se sujeitava, sem queixas, ao beija mão, e tolerava por horas intermináveis, deliciado com uma importância que nada devia ter de novo, as pessoas que ridicularizava pelas costas e que podia muito bem despedir ao cabo de breves minutos.

Percebeu ainda, muito cedo, que como sempre ouvira dizer dos homens que são poderosos ou desejam sê-lo, ele achava mais fácil obter o seu perdão do que a sua permissão- e que as juras e certezas absolutas apagavam todas as ofensas, todas as mágoas, todas as afrontas.

    Esta mulher tinha uma amiga que era como uma irmã. Partilhavam tudo. Tinham o mesmo perfil e percurso, a mesma educação, a mesma beleza polida e delicada. Mas a amiga tinha ido por um caminho ligeiramente diferente:apaixonara-se por um homem- que -queria- ser poderoso. Supostamente um rebelde com causas, o self made man que não olhava a meios para atingir os fins- também ele era belo, e forte, e possuía todas as certezas (em relação a ela, pelo menos). Acima de tudo, ele era igualmente crente na máxima de ser melhor pedir perdão do que permissão.

E também ela fazia o papel de Deusa de bastidores: não para o ajudar a manter, mas muito convenientemente, para o ajudar a subir. Muitas vezes os dois casais cruzavam-se nas mesmas festas - mas o consorte da segunda amiga estava entre aqueles que bajulavam, que aplaudiam ruidosamente mas sem vontade, que aclamavam o homem da primeira e os outros homens como ele. E ela pensava como era possível o homem que ela admirava, que a fazia perder a força nas pernas com um olhar apenas, tornar-se tão pequeno.

A diferença entre os dois conhecidos era só uma: no primeiro tudo era natural, garantido, e no segundo tudo era calculado, medido, planeado com um objectivo.

 A primeira mulher estava num lugar que supostamente compensava tudo, até uma prisão dourada; a segunda tinha de lidar com o despeito e a desconfiança do cavalheiro a quem entregara a sua sorte, com o seu orgulho constantemente ferido, com as suas acusações de snobismo e de superioridade que lhe davam muito jeito para os seus propósitos, mas o magoavam nos momentos em que o seu papel de chefe supremo do lar devia levar a melhor. Ela corava, empalidecia, e não dizia nada com medo de uma cena. E do outro lado da sala, a amiga fazia o mesmo e lançava-lhe um olhar de compreensão.

 Em comum, os dois acreditavam que controlavam tudo. E que no que respeitava às suas belas e brilhantes mulheres, que controlavam literalmente tudo, que era mais fácil obter desculpas sinceras depois do mal feito. Com permissão alcança-se muito pouco neste mundo- muito pouco daquilo que vale a pena, pelo menos.





Isto não é uma democracia.


As mulheres são muito educadas para sorrir e anuir. Para serem encantadoras e diplomáticas. Para procurarem soluções de compromisso. É algo subliminar, que passa sem querer;  por vezes nem nos apercebemos de que fazemos tal coisa, com tudo o que isso tem de bom e de mau. Há vantagens nesse comportamento, na subtileza, em ouvir duas vezes e falar uma só, em desviar em vez de confrontar, em fingir que se dá razão e ir por trás e levar a sua avante, em mover os cordelinhos discretamente...quando ele é usado de forma consciente e estratégica. E há desvantagens muito chatas - até se escreveu um livro que aborda esse assunto, entre outras atitudes pouco assertivas, hesitantes e tradicionalmente femininas que são um atraso de vida.
 Ora, se na vida profissional (ou mesmo em certas esferas mais relevantes da vida social) ou com as pessoas que importam - e dão provas de nos fazerem bem - há tudo a ganhar com a diplomacia, o mesmo não se pode dizer de pessoas que interessam muito pouco, amizades de circunstância, frenemies ou relacionamentos que deixam a desejar. Creio que todas as mulheres deviam trazer um pin, ou uma aplicação, ou qualquer lembrete, que tivesse escarrapachado os dizeres:

- Tenho de aturar isto?
- Não me parece.
- Não, estas condições não são negociáveis.
- Não gosto desta pessoa e/ou não tenho de lhe sofrer o mau gosto, as más companhias, as bocas infelizes, os elogios envenenados, as alfinetadas, as faltas de respeito.
- Porque é que eu aturo isto, lembrem-me lá; sou paga para isto? Não sou, pois não?
- Estás a brincar comigo, de certeza.
- Não, não vou a lugares onde estejam pessoas que não são da minha simpatia.
- Ou fulano (a) de tal, ou eu, e mais nada.
- Adeuzinho.
- Pegar ou largar.
- Deixa-me em paz.
- Fora.
-NÃO!!!!


E por aí adiante. Não se deve tolerar na esfera pessoal nenhuma concessão (ou abuso) nenhuma condição menos vantajosa que não se aceitasse num negócio ou numa guerra. Tenho para mim que enquanto algumas pessoas não transformarem a sua vida privada num estado algo totalitário (mas francamente paradisíaco) sem se sentirem culpadas por isso, vão continuar a fazer fretes, a ter relacionamentos sem qualidade e a suportar cenas desagradáveis pela vida fora...






Tuesday, January 28, 2014

Mesmo de fato, um macaco é sempre um macaco.


Quando eu era pequena havia em casa uma linda edição antiga das obras de D. Ana de Castro Osório - do tempo em que os bons livros para crianças ainda eram a norma e não a excepção. Eu e o meu irmão deliciávamo-nos com os contos tão bem narrados, mas o nosso favorito era a sua versão de O Macaco do Rabo Cortado (podem ler a pérola na íntegra aqui):

"Era uma vez um macaco, um bugio figurão como jamais houve igual.

Não se sabe por que boas ou más artes, aprendeu a falar e a fingir de homem. 

certo é que veio viver para terra de gente, e logo deu em macaquear o que é mais fácil e arranchou entre os janotas. Julgava-se uma beleza.

 Todos os dias ia ao barbeiro fazer a barba. Vestia-se a rigor; calçava luvas de pelica; punha chapéu alto, e andava por todas as lojas elegantes, a parolar com os donos e os frequentadores. 

Os garotos, quando o viam passar nas ruas, todo importante, faziam-lhe grande troça, atiravam-lhe pedras e diziam:

— Se não fosse o rabo, era bem lindo este macaco! Assim, que feio é! —Tantas vezes o macaco figurão ouviu aquelas palavras que se convenceu de que era na verdade uma formosura, e se tornaria sem par se conseguisse ver-se livre do seu comprido rabo. Já se vê que não tinha grande juízo, mas... nem só os macacos se deixam levar por mentidos elogios e julgam louvor o que é troça"


A verdade é que conheço muitos humanos que fazem as mesmas figuras: acham-se uns grandes cavalheiros (ou umas grandes damas, de resto...) só porque vestem um fato, ou tiram um curso, macaqueiram lugares comuns para atrair aplauso ou fazem pela vida e eventualmente, na tentativa de brilhar em sociedade, se põem, com grande brado, a defender causas sociais. Na maior parte das vezes o fato nem é grande coisa, nem de grande gosto ou grande tecido, mas basta uma gravata para lhes dar a ilusão de uma superioridade que lhes falta. Noutros casos a fatiota até pode ser italiana, mas lá reza o vetusto ditado " um vestido veneziano não faz uma mulher veneziana". 

Só que no fundo a macacada está lá, bem patente: vestem o fato, mas gostam mesmo é de umas boas calcinhas de fato de treino; escolhem uma mulher que se imponha nos salões, mas o que lhes aconchega a alma é uma camponesa brejeira, roliça e grosseirona, estilo Casa dos Segredos, que desperte a cobiça dos seguranças de discoteca; afirmam aos quatro ventos gostar de caviar, mas nada os faz tão felizes como tremoços e chouriço assado (nada contra, sou totalmente a favor do belo tremoço, o que me faz espécie é o postiço); defendem os pobres e oprimidos, são muito socialistas e queridinhos, mas só porque invejam quem tem mais do que eles; mostram-se muito cultos ,muito politicamente correctos mas à primeira irritação lá lhes estala o verniz e salta palavrão e baixaria de fazer corar um carroceiro.

 E como macacos que são, têm pouquíssimo miolo: mudam de ideias, de ideologia, de planos, quebram juras, conforme os elogios que recebem ou o que lhes dá mais jeito. Têm um ego tão exacerbado, mas tão frágil (os egos são sempre de vidro) que qualquer bajulação, mesmo que venha de um caixote do lixo ou de um bêbedo deitado no meio da rua, os deixa no céu.

  Claro que ainda há aqueles que são piores: os que não tendo obrigação para macacadas se comportam como tal, deitando a perder os seus dotes naturais por conviver com primatas não sapiens- é que é muito fácil tornar-se desmiolado, dependente do elogio, um verdadeiro estarola. E quando é assim, não há camisa de seda nem agasalho de caxemira tecida na Escócia que disfarce o mal feito, nem a cauda retorcida. Ou mesmo que se corte a cauda...bem.

*Cada vez mais me parece que isto da condição humana não é um dado adquirido, mas algo que é preciso fazer por manter...*






Foi por pouco, Primark.


A Primark revelou o seu look book para a Primavera e eu, num momento de ócio, pus-me a dar uma espreitadela. 

Deparei-me com esta imagem e julguei que a marca irlandesa tinha tido um daqueles momentos fast fashion com cara de couture - já comentei aqui que, à semelhança de algumas marcas britânicas, a Primark se sai, de vez em quando, com vestidos muito bem modelados; daqueles que basta juntar-lhes um sapato griffé e uma carteirita boa e ninguém acredita que foi baratinho, baratinho. Olhei para isto e pensei bem, um vestido espampanante a valer, mas giro e criativo que deve fazer uma vista enorme com uns peep toes italianos que eu conheço. É que os do catálogo têm a sua piada mas esta toilette pede um styling completamente diferente.

 De qualquer modo, já me estava a imaginar a esgueirar-me para a Primark num dia útil, à francesa, de manhãzinha, quando a loja está *milagre* quase vazia e sem confusão, aproveitando de caminho para trazer umas toalhitas, escovas e rolos de limpar a roupa que me estão a fazer falta, quando reparei que afinal é uma blusa e uma saia. 
 Não é que a versão saia seja feia - embora me arrepie ao pensar nas meninas "popozudas" que se vão enfiar nela e passear por aí like its nobody´s business - mas o meu entusiasmo desapareceu. É que se é para misturar padrões doidos, mais vale que seja num vestido. Bate mais certo, de uma maneira estranha. 

 Whatever- lá diz o povo, muito se poupa por não haver. Nem que seja ao não trazer para casa um vestido tão ousado *palavra da senhora minha mãe: horrível e piroso!*  que mais vale ser barato e logo, sem grande compromisso.


Monday, January 27, 2014

Alegoria do dia: pessoas que são como a má maquilhagem‏.



Se de há uns anos para cá encetei uma operação "organizar armário" (já era exigente quanto à qualidade, mas tornei-me mais intolerante no bom sentido do termo) em relação à maquilhagem passa-se o mesmo: não há paciência para tralha e para tanta nova palette, primer, CC cream e sabe-se lá o que mais se lembram de inventar, a entrar-nos pelos olhos dentro todos os dias, apregoada na blogosfera como se fosse *mais uma* pedra filosofal. 

Nem tempo para usar tudo até porque ao contrário da roupa, a maquilhagem tem prazo de validade. Se calhar é melhor investir em bons pincéis do que em outra caixa de sombras - mais uma - quando as que temos ainda estão longe de acabar. Conheço-me demasiado bem, conheço demasiado os meus gostos e hábitos para acrescentar mais entulho à minha vida.

 Tempos houve em que se um bâton, ou uma sombra ou um pó me saía um grande barrete, um grande verbo de encher, eu insistia em guardá-lo ou dar-lhe outro uso. E para lá ficavam as coisas a ganhar pó. A dada altura, decidi não dar mais segundas oportunidades. Aconteceu-me poucas vezes porque refreio as compras por impulso, mas vezes suficientes para certo dia agarrar e atirar para o caixote do lixo todos os cosméticos que se provou esborratarem, desiludirem ou não servirem rigorosamente para nada.

Assim devia ser com as pessoas - porque meu Deus, há pessoas que são exactamente como um mau lápis dos olhos. Fazem chorar, esborratam, são pegajosas, a fórmula não presta. Mas pensamos que com outro primer, outro pincel, ou usando-o de maneira diferente, não vai dar problemas. Ou que fomos nós que não soubemos aplicar aquilo bem. Erro crasso: se à terceira tentativa continua a dar asneira, há que deitar fora sem dó. Vamos esperar por uma alergia daquelas para fazer alguma coisa? I think not. Quem faz uma faz um cento, lá diz o povo. A culpa não é nossa; é mesmo má qualidade do produto.

Oscar Wilde dixit: o tipo (muito) errado de amor



"The sorrow you should have shared you have doubled, the

 pain you should have sought to lighten you have quickened 

to anguish".


                                  In De Profundis


É que há quem ame com todo o ímpeto da sua natureza, se calhar o melhor que pode, mas não seja capaz de amar realmente senão a si próprio, e mesmo assim mal. E depois o resultado é o voar de estilhaços por toda a parte, retalhando a pele aos dois oponentes; continuando a citar Wilde, é mais ou menos isto:

Suffering is one very long moment. (...)We can only record its moods, and chronicle their return.  (...) It revolves. It seems to circle round one centre of pain....
There is nothing that stirs in the whole world of thought to which sorrow does not vibrate in terrible and exquisite pulsation....It is a wound that bleeds when any hand but that of love touches it, and even then must bleed again (...)
E esses seres que amam mal, que até quando amam bem intimidam porque se adivinha o que vem a seguir, por vezes tentam reparar o erro e dividir as mágoas. Mas quando o fazem - na melhor das intenções, ou simplesmente pelo impulso egoísta de não suportar o seu próprio sofrimento - acabam por  deitar sal nas feridas e acrescentar danos irreparáveis, aumentar as brechas num espelho que já não está inteiro e que nunca mais será o mesmo. 
Mas de quem é a culpa? Do apaixonado perigoso, ou do que atraiu o perigo para si mesmo? O semelhante atrai o semelhante, o abismo atrai o abismo. Não se chama a si uma pessoa danificada sem que haja um dano interior que precisa de compreensão ou identificação. Ambos precisam um do outro, com merecimento ou sem ele. 
Oscar Wilde também disse que ninguém é digno de ser amado - e que o sacramento do amor devia ser tomado de joelhos. Verdade, verdade, tudo verdade...


Sunday, January 26, 2014

Man repeller, ma non troppo‏


Leandra Medine - em modo pouco Man Repeller


“man re.pell.er [mahn-ree-peller] —noun: outfitting oneself in a sartorially offensive way that will result in repelling members of the opposite sex. Such garments include but are not limited to harem pants, boyfriend jeans, overalls (see: human repelling), shoulder pads, full-length jumpsuits, jewelry that resembles violent weaponry and clogs.” 

O termo "Man repeller" (acima) foi criado pela famosa autora do blog homónimo, Leandra Medine, para definir aquelas escolhas fashionistas que as mulheres adoram, mas os homens não podem ver à frente. Volta-se sempre à velha questão: há roupas que as mulheres vestem para agradar ao sexo oposto e fatiotas que usam para mostrar umas às outras? Conseguir o equilíbrio não é tão difícil como isso: há toilettes que são agradáveis aos olhos masculinos, mas que nunca nos cansam. Falo de outfits simples como trench coats justinhos com uns bons saltos altos, um belo sheath dress que mostre as curvas sem revelar demasiado (pensem em Marilyn Monroe, Monica Bellucci e Dolce & Gabbanna) ou a velha combinação jeans-que-assentem-bem + saltos confortáveis que acentuem as formas + t-shirt que acompanhe o corpo.

Tudo o que realce a silhueta sem ser óbvio e não seja demasiado "estranho" cai bem a ambos os sexos, regra básica. Mas é certo também que:

a) as mulheres gostam de ser criativas e às não resistem ao apelo de experimentar uma nova tendência, ou um brilhinho, ou um frufru por mais sleek, cool, bon chic bon genre e discreto que seja o seu estilo pessoal;

b) a maior parte dos homens é um pouco despistada e simplória nestas coisas, e se fôssemos pela vontade deles ou andávamos sempre na mesma ou, a dar ouvidos a certos brutamontes, todas as mulheres vestiam só leggings, mini saias, mini calções e mini vestidos (o que equivale a atrair um perfeito trolha, sem desrespeito a quem carrega baldes de cimento, ou o tipo errado de atenção/relacionamento: porque um rapaz que acompanha com uma mulher pouco vestida dificilmente a apresentará à família ou se apresenta, há algo muito errado com ele ou com a família...adiante!).

 Considerando isto, como usar algumas tendências mais exóticas sem pôr a fugir o público masculino? Há maneira de agradar a gregos e troianos?

Dei uma olhadela à lista das  fatiotas mais "man repelling" citada por Leandra Medine para pensar em formas de lhes dar a volta. Bom, àquelas a que é possível dar a volta.

1- Calças harem e sarouel
São muito cool, muito confortáveis, mas nunca conheci um rapaz que simpatizasse com elas. Afinal, escondem totalmente as ancas e para a mente masculina não faz muito sentido usar os fundilhos perto dos joelhos, pronto. As calças palazzo, reminiscentes dos anos 70, também são do mais chic que se pode mas não reúnem muitos admiradores. O ideal é guardá-las - principalmente se forem de seda - para a praia. Sobre um bikini dão um ar muito  jet-setter (principalmente se tiver abdominais a condizer) e aí ninguém se queixa, juro. Na cidade o melhor é evitá-las.


 2 - Boyfriend jeans 
Aqui tenho de ressalvar que há boyfriend jeans e boyfriend jeans, silhuetas e silhuetas e que tudo depende do styling que se faz com eles. Este tipo de jeans assenta melhor em raparigas algo esguias, para não parecerem uns sacos de batatas. Também não convém coordená-los com tops demasiado largos, para não esconder totalmente a figura: se for assim, as mulheres com peito e cintura parecem muito mais gordas e as mais magrinhas desaparecem por completo. Mas se as calças não forem exageradamente largas e o top não esconder tudo, acrescentem-se uns scarpins de salto fino e pronto: tornam-se perfeitamente femininas. Tried and true.

3 - Jardineiras e jumpsuits

how to wear a jumpsuit

Pessoalmente sou uma grande fã do jumpsuit, mas uma anti jardineira extremista. É que um macacão bem escolhido alonga a silhueta, pode ter um decote vertiginoso q.b que é indiscutivelmente sexy e se incluir um cinto, nem se nota que estamos a usar uma peça só. Pelo menos, garanto que a maior parte da assistência masculina não dá por isso. Ao escolher um, deve procurar-se um modelo que lembre os anos 70, de linhas estreitas, que seja de um tecido de qualidade, bem cortado para não flutuar e que mostre alguma - não demasiada - pele. É chic e sensual ao mesmo tempo, algo que não se pode dizer das jardineiras de ganga. Quanto a essas, lamento mas tenho de concordar com os rapazes: podem usar-se para pintar a casa, mas lembram muito Chucky, o Boneco Assassino. Com sorte, podem ajudar a atrair um namorado hipster - mas esse é um público muito específico.
 Para quê arriscar? Mas se querem mesmo experimentar evitem os ténis e os sapatos rasos. Esta dica também vale para os jumpsuits.


3 - Tamancos, plataformas e outro calçado "confuso"











O stiletto (ou qualquer salto clássico e "normal" que acentue as curvas) é inegavelmente um favorito masculino. Quanto a modelos mais elaborados - chunky heels, plataformas, e por aí - há quem não se importe, há quem não goste mesmo. E não falemos dos ugly shoes que têm estado na moda ultimamente. Porém,  qual é a mulher que resiste ao apelo de uns sapatos altos, mas confortáveis? Aqui o único conselho que posso dar é mesmo a moderação: se o salto é extravagante, então que o material não dê muito nas vistas e o resto da toilette seja sóbria, mas sensual e feminina. Basicamente, eles não gostam de nada que pareça "esquisito"- mas se a esquisitice for discreta e o conjunto for bonito, está tudo bem.


4 - Ombreiras

As fashionistas mais empedernidas - e corajosas - têm arriscado levar à rua estas reminiscências dos anos 80, mas é preciso ser sensata. Ombreiras como as da imagem acima elevam os ombros e dão melhor corte ao casaco; são pequenas que chegue para cumprir essa função sem aumentar propriamente os ombros. Eu mal dou por elas, por isso duvido que algum cavalheiro se queixe. Mas se falarmos numa versão mais chamativa (abaixo)...não creio que fique bonito, nem feminino.


 O que importa é não arruinar a silhueta: convém sempre que ombros e ancas tenham, dentro do possível, a mesma medida. E é claro que a forma de cada uma também conta: uma rapariga alta e grande, ou mais gordinha, vai parecer um jogador de rugby com um look assim. Pouco apelativo, decerto...


5 - Faux fur... tigresse

Em relação às peles, verdadeiras ou falsas, também se impõe o bom senso. Se um casaco é muito grandalhão, muito fofo, e ainda por cima tem bolinhas e pintinhas, bom...é capaz de se parecer demasiado com um peluche. E os peluches não são propriamente sexy, a não ser para pessoas com manias muito estranhas. Há que evitar tudo o que lembre peles de brincar ou acessórios de Carnaval. Quem quiser usar um casaco de peles inspire-se em Kate Moss, uma verdadeira artista na matéria: com jeans skinny e botas compridas ou scarpins de salto alto, duvido que alguém se queixe. Nunca vi, a sério. 






6 - Adornos para a cabeça

















Relativamente a isto, depende: de que adornos estamos a falar? Chapéus? Os chapéus russos de pêlo são um favorito masculino, posso responder por isso. O mesmo para os capuzes. Não sei porquê, mas há algo neles que é magnético. Barretes de lã fofinhos também não reúnem queixas, fiz a pesquisa entre os meus amigos e sei. Bandelettes? São inofensivas desde que não achatem o cabelo. Quanto ao resto...aconselho que se reservem os fascinators para casamentos formais. Nenhum cavalheiro se queixa de levar uma rapariga a um evento do género se ela usar um bonito fascinator, a não ser que ele seja tão espampanante que atraia todas as atenções ou tape a vista aos outros convidados. O mesmo vale para as tiaras: só para ocasiões em que elas são exigidas ou feiras medievais. Já turbantes, flores grandes, ou tudo o que lembre a Lady Gaga...pode ser muito fashion, muito trendy, mas não é a coisa mais sexy, não. Só a Carmen Miranda se safava com isso, mas ela era a Carmen Miranda e creio que só usava essas coisas em palco. Quem fizer muita questão de usar um turbante, convém usá-lo com cabelo solto, aos caracóis. Sempre compõe o ramo.

7 - Bâton encarnado
Desde que voltou às ruas há uns anitos atrás, esta tendência levanta alguma controvérsia. Eu pecadora me confesso - nunca vivi sem ele, mas passei a atrever-me a tons um bocadinho mais opacos para o dia. Afinal, nada dá um ar tão polido e luminoso em tão pouco tempo. Na ala masculina, há quem adore, há quem deteste. Mais uma vez, no meio está a virtude: não abusar das camadas (à luz do sol, pelo menos) e manter o resto da maquilhagem natural q.b. é um compromisso que não custa muito.


8- Roupas andróginas

O smoking, o power suit, o blazer, as calças de trabalho, os sobretudos, as camisas roubadas ao armário do namorado...a tendência (ou será antes o clássico?) borrowed from the boys não podia ser mais cool. Nem mais prática. E é inegavelmente elegante. O que não convém é que ao dar um toque "arrapazado" à roupa, se fique também com um ar de Maria Rapaz. Um oversized coat fica esplêndido sobre um vestido decotado. As camisas largas são excelentes para usar sobre calções curtos ou skinny jeans - em suma, se se cobre a parte de cima, realcem-se as pernas. Ou abram-se os dois primeiros botões. Se usarmos um fato de corte masculino, que seja bem modelado para não se perder de vista a cintura, e que a camisa ou o top permitam entrever que está uma mulher dentro do fatoSe não se resiste aos loafers, então que as calças sejam justas. E aqui está uma boa ocasião para usar o bâton encarnado descrito acima. Uns saltos matadores também são um truque infalível. O que se pretende é uma feminilidade subtil que é provocadora, sem ser demasiado óbvia. Pense-se na mítica secretária sexy (mas com bom gosto, por favor) ou em Marlene Dietrich. Alguém lhe chamaria Man Repeller? Duvido.



*Em suma, tudo isto é uma questão de equilíbrio, noção das proporções e elementar bom senso. Considerando, é claro, que existem tantos gostos como pessoas...e que quando um homem gosta mesmo de uma mulher, não vai importar-se se ela lhe aparecer de jardineira enquanto pinta a casa, ou com um caftan uma vez por outra. Se calhar, até acha isso amoroso*. 

Momento de pânico da semana



Aquele em que se conclui que alguém que - embora as suas asneiras já não surpreendam - escondeu de forma brilhante que fez precisamente, à vontade e como se não fosse nada, a única coisa que jamais se esperava dessa pessoa. É o mesmo que descobrir que o Calígula era, sei lá, travesti nas horas vagas.  Do Calígula não se conta com nada de bom, mas não se espera isso. Não condiz com o perfil. Que mais falta, então, descortinar? Que mais escapou?  Todas as decisões, todos os erros, todas as vitórias, cada pequenino acontecimento que levou até ao momento é passado em revista, todos os actores são mentalmente interrogados e observados à lupa, com  uma lente muito feia.
 Como é que se fica? Um bocadinho sem chão, porque se é assim, se alguém foi capaz de esconder uma coisa dessas e de súbito revelá-la com a maior naturalidade ( basta um bluff bem feito ou um momento de cólera,) abrem-se as possibilidades mais estrambólicas do planeta, as probabilidades mais assustadoras. Lembra-me aquela cena d´Os Maias em que o Carlos descobre o passado pouco recomendável da Maria Eduarda:

" Se ela mentia- onde havia então a verdade? Se ela o traía assim, com aqueles olhos claros, o universo podia ser então todo uma imensa traição muda. Punha-se um molho de rosas num vaso, exalava-se dele a peste! Caminhava-se para uma relva fresca, ela escondia um lamaçal!".

Lá dizia o autor: tudo na vida é aparência e engano. Que época esta, em que se maquilha tudo, se põe photoshop em tudo, até em coisas sérias.


Com um nome destes, só podia.

De todas as jovens "cabeças coroadas" da Europa (pelo menos entre as raparigas-comuns-que-casaram-com-um-príncipe-e-se-viram-a-braços-com-uma-responsabilidade-inimaginável) a Rainha Máxima dos Países Baixos é a minha preferida. Também gosto muito do estilo e elegância da Princesa Mary da Dinamarca, mas Máxima é majestosa; faz justiça ao nome de Baptismo que lhe puseram, que por acaso é adorável. *Tenho um certo fraquinho com os nomes Máxima, Máximo ou Maximus: gosto do som, gosto do significado e ainda por cima não podia ser mais auspicioso!* 
Talvez não seja a mais convencionalmente "perfeitinha", a mais esguia, a mais jovem, mas tem um porte e uma tranquilidade que compensam perfeitamente isso tudo. É uma mulher que ilumina uma sala, uma radiosa Rainha para um povo (vivi entre eles, e sei) comunicativo e alegre como ela. Há pessoas naturalmente sorridentes, que parecem estar mais preocupadas com o bem estar de quem as rodeia do que em aparecer perfeitas. É uma qualidade rara, nada fácil, mas ideal para uma Rainha que necessita de se apresentar impecavelmente sem que se sonhe que isso é a sua prioridade. Nela nada parece forçado, e consegue ainda por cima o equilíbrio milimétrico entre exuberância, discrição e sofisticação, o que é um feito em si mesmo. Há o estar vestida para o papel que lhe compete  e há o ir um bocadinho mais além... e as toilettes de Máxima prendem-me invariavelmente a atenção. Convém que uma Rainha seja próxima das pessoas, mas que se perceba quem ela é assim que dá um ar da sua graça. E esse é um dom que não se aprende. Brava. Regina!


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