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Saturday, February 15, 2014

Kardashian na Vogue? Não, c´os diabos.


A Vogue, mesmo a Vogue americana, não pode democratizar-se ou antes, banalizar-se. Essa parece ser a opinião dominante entre os leitores *sensatos* que se manifestaram aqui, ameaçando deixar de assinar a revista caso Anna Wintour (tão snobe que ela era, tanto que embirrava com a menina, que bicho lhe mordeu?) não desista da ideia de colocar a estrela de reality TV na capa. Espero sinceramente que a todo poderosa editora recue como aconteceu no caso de Miley Cyrus.

 Haverá decerto argumentos a favor desta flagrante descida de padrões: primeiro, mal ou bem Kim e companhia representam o status quo (um péssimo status quo, mas pronto) da cultura americana - que pela positiva ou pela negativa acaba sempre por contagiar o resto do planeta -  e do culto às celebridades.  


Depois, há toda essa questão da história "rags to riches";  a mudança de visual de vestidos bandage e cabelo preto-graxa estilo stripper para casacos Max Mara, que em termos de jornalismo de moda poderá lá ter o seu interesse - mas vamos com calma. Antes de nada, para capa não, senhores! Misericórdia. Um artigozito a analisar o caso ainda vá, mas capa não. Além disso (e eu própria já mencionei por aqui certas fatiotas ladylike que lhe ficam lindamente, quando ela decide ter juízo)  a meu ver, desde que se juntou a Kanye West as peças que veste têm melhor ar, mas o styling piorou. Ou seja, até pode vestir roupas melhores, mas nem por isso as veste melhor, insistindo em usar trapinhos cool (golas altas, casacos masculinos) que vão tão mal à sua silhueta voluptuosa como os vestidos de lycra que usava antes. 


Terceiro Rihanna, que é a Rihanna, já foi capa mais do que uma vez e temos de viver com isso. Mas goste-se ou não da cantora e da influência que representa, Rihanna não se tornou famosa por não fazer coisa nenhuma. E por muito impróprios que os seus videoclips sejam, não são a mesma coisa que ter uma "carreira" iniciada pela divulgação "acidental" de uma sex tape caseira.

Em última análise, nada disso justifica que a vulgaridade se torne aceitável a pontos de assaltar um dos últimos redutos da exclusividade. 
 Ou como alguém comentou, se uma mulher que se expôs para todo o mundo ver em nome da fama  faz capa da Vogue, já nada é sagrado. "High horses were made for a reason", acrescentou outro leitor. 

 Na capa da Vogue quer-se graça, classe, sofisticação: padrões. Modelos de topo, a crème de la crème de Hollywood,  ícones da música,  fashionistas de boa sociedade e  mulheres glamourosas que  se destaquem na literatura, na ciência ou na política. Porque a Vogue era, ainda assim, um porto seguro de modelos de conduta a que as raparigas podiam aspirar. Ponto. Não importa quanta roupa grátis Kim Kardashian receba de designers emergentes e directores criativos de grandes casas fora de si, não importa o quão simpática ou até bonita ela seja, isto é um imenso momento "there goes the neighbourhood". Oscar Wilde disse "todos os santos têm um passado e todos os pecadores têm um futuro". De acordo. Mas na Vogue não, por favor.



    Uma maldição só nossa?‏


    And even though I taught my daughter the opposite, still she came out the same way!
     Maybe it is because she was born to me and she was born a girl. 
    And I was born to my mother and I was born a girl. 
    All of us are like stairs, one step after another, going up and down, but all going the same way. 

                                                                 Amy Tan, The Joy Luck Club 



    Já vos falei aqui deste livro, que me marcou bastante.

    E o excerto acima sempre me fez pensar.

    Serão as mulheres da mesma família degraus que sobem e descem, ao longo de gerações, levando sempre ao mesmo destino?

    Por vezes parece. É incrível como olhando para as peripécias tristes e alegres das minhas antepassadas e parentes, não só há qualidades e defeitos que se repetem, como desafios, desgostos,  triunfos e oponentes que se desenrolam uma e outra vez. Com outros protagonistas e vilões, com outra época, com outro cenário, mas exactamente o mesmo enredo. É como se um feitiço precisasse de ser quebrado. Por vezes parece que os obstáculos que nos atrapalham, o tipo de pessoas que surgem na nossa vida ou os padrões  que se instalaram não começaram connosco. A Némesis não é só nossa. É algo mais antigo, ancestral, que se iniciou muito tempo antes e é muito maior do que nós. Como se destrói tal coisa? E mais importante, qual é a mensagem disto tudo? 

    Quando na dúvida, decotes.



    Por muitas inovações que os designers imponham à passadeira encarnada, um clássico é um clássico. Os decotes amplos fizeram sucesso na Roma Antiga, na Renascença, na corte de Maria Antonieta, atravessaram incólumes a rigidez vitoriana e estavam presentes quando o Titanic se afundou. E para quem foi abençoada com um busto de escultura, ombros elegantes e cintura estreita, esconder o colo é quase pecar. Não é preciso, claro, ir tão longe como Scarlett Johansson - destapar a clavícula, para o dia, e um pouco mais, para a noite, já causa efeito suficiente.

    Impõe-se, obviamente, o bom senso: reservar os modelos mais chamativos (leia-se, descobertos) para eventos depois do pôr do sol que não sejam revestidos de grande seriedade ou solenidade; escolher bons tecidos e uma excelente execução, para que o conjunto resulte sofisticado e de qualidade, nunca vulgar; cobrir o resto do corpo e de não exagerar nas jóias (por vezes, com décolletage maior o efeito é mais dramático sem nada) e acima de tudo, investir em roupa interior que mantenha tudo no lugar certo sem ser vista. 

    Mas sejam Queen Anne, barco, quadrados, camponesa ou shoulder- to-shoulder como este magnífico Atelier Versace espartilhado que a actriz usou em Veneza, são a mais bela moldura para um rosto bonito e um pescoço de cisne. Básico, elementar, e garantia de agradar a *quase* todas as audiências. Ou a todas, se considerarmos a inveja uma manifestação de sucesso.

    Friday, February 14, 2014

    De todas as hipocrisias de S.Valentim possíveis, esta é a pior de todas.


    Fazer *mais uma* cena de ciúmes da Noite de S. Valentim, daquelas de acordar os vizinhos. Assassinar a namorada a tiro. E precisamente um ano depois, sem que tenha sido feita justiça, ir às redes sociais dizer que se lamenta muito, que ela era tão linda e que sente tanto a falta dela e blá blá blá, tão fofinho e inocente que eu sou, não me sei comportar nem brincar com armas, coitadinho de mim. Lá diz o povo, quem mais jura é quem mais mente...e bem avisam as mulheres da minha família: desconfia sempre de um homem que chora muito.

    Fartos de citações hipócritas sobre "ugly is the new pretty"?


    E de ver campanhas sobre "mulheres reais" a apelar à mediania deprimente? Ora aqui ficam algumas ideias refrescantes, para sacudir a cabeça de tanta patranha politicamente correcta. Afinal, se ser "feio" fosse desejável os salões de beleza já tinham todos falido há muito tempo, o que não se vê acontecer nem por sombras apesar desta crise desgraçada. E nem a Dove vendia cremes anti rugas e body milks para a firmeza- contem-me estórias, contem. Cansadinha de wishful thinking, de sem noção e de ouvir argumentos do tipo "ugly is the new pretty" ou "é feia mas está na moda" decidi reunir algumas citações mazinhas, mas brutalmente honestas e muitíssimo partilháveis sobre o assunto. Um bocadinho de niilismo uma vez por outra não mata ninguém, eu acho...




    Toda a gente precisa de beleza na sua vida, mas todos parecem apostados em divulgar mensagens do estilo "raposa que não conseguiu chegar às uvas", disfarçando a inveja sob a capa da profundidade. Que aconteceu à capacidade superior de reconhecermos a beleza nos outros?


    É verdade que a beleza atrai problemas, daí o ditado espanhol " la suerte de la fea, la bonita la desea"....




    Mas isso, lá está, é também um argumento de consolação, porque as mulheres são *um bocadinho* obcecadas com o assunto e aquelas a quem não se gaba a formosura têm de se desdobrar para agradar.



    Por vezes temos de ser mesmo sinceros e rir-nos um bocadinho, porque sendo certo que é difícil haver beleza exterior que transpareça sem um interior apresentável (serenidade, carisma, espírito, gentileza são tudo coisas que passam para fora) também é não é mentira que a apresentação, a harmonia e a simetria contam.  Parece que até saiu um estudo que afirma que a beleza é tão viciante para o cérebro como a heroína. E apesar de a beleza ser relativa, de haver tipos diferentes de beleza sem contar com o charme que tem um peso considerável na apreciação do todo, é inquestionável que...



    ...e que muitas tretas do género "só o interior é que conta" foram inventadas por pura delicadeza ou por recalcamento, como disse este grande filósofo:


    Mas há que reconhecer que a fealdade, mais do que universal, tem a virtude de ser como as baratas. E Serge Gainsbourg lá devia saber, ele que não devia nada à beleza (mas tinha encanto) e sempre se rodeou de mulheres lindíssimas como Jane Birkin e a divina Brigitte Bardot:


    Mas em boa verdade, feio, feio, só quem é feio por fora e por dentro: desagradável à vista, de traços irregulares - coisa que ainda se disfarça - mas também atrevido, burrinho, sem elegância, sem carisma, sem decência, sem espírito, sem bondade. Só a casos desses se aplicam citações malvadas, e ainda sabe a pouco:

















    Thursday, February 13, 2014

    O complexo "Alma Boa de Szechwan"

    Com alguma pena e por razões que não vêm agora ao caso, não sou exactamente uma aficionada de Teatro - adoro Shakespeare e Gil Vicente, e não resisto se estiver em cena uma adaptação de um dos meus livros preferidos ou uma peça intemporal como "As preciosas ridículas" mas pouco mais. 

    Porém, A Alma Boa de Szechwan, de Bertolt Brecht, marcou-me bastante. Para quem não está recordado ou nunca viu (recomenda-se) a história passa-se na China e segue as desventuras de uma jovem de coração de ouro, Shen Te, que é a única pessoa bondosa naquela terra de miseráveis. Os deuses decidem recompensá-la pela sua caridade e dão-lhe os meios para abrir um pequeno negócio. 

     Mas a boa fortuna dura pouco porque os amigos, os vizinhos e o namorado malandro que arranja entretanto não tardam a abusar da excessiva gentileza da pobre coitada, que não sabe dizer "não" por muito prejudicada que fique. Indefesa perante tanto descaramento, Shen Te decide arranjar um alter ego - disfarça-se de homem, põe umas andas e faz-se passar por um primo grande  e carrancudo que aparece para a livrar de apuros: saldar dívidas, expulsar os aproveitadores e trabalhinhos do género.
    Claro que isso movimenta o enredo, causando uma série de confusões e a certa altura, deixa a protagonista confusa perante a sua personalidade dividida, lançando à plateia a pergunta "pode uma pessoa boa ter sorte na vida com o mundo como está, se for sempre boazinha?".

     Ora a mim, que não sou exactamente uma "banana" ou uma "mosquinha" como a Shen Te, e que até me defendo bem, por vezes calhava-me bem um primo carrancudo que se atrevesse a dizer e a fazer certas coisas. Todas temos aqueles momentos Scarlett O´Hara, em que se pensa "se eu não fosse uma senhora, o que não dizia agora".

    Acho que um primo desses, bastante mafioso, dava jeito a toda a gente. E queiramos ou não, às vezes é preciso puxar dele, embora não assumindo de forma tão óbvia outra identidade.

    É que na maior parte das situações será complicado mudar de roupa, calçar uns sapatões e colar um bigode postiço em segundos para impor o devido respeito: o "primo" está dentro de nós, e temos de saber chamá-lo quando necessário, sem deixar que nos domine.

    Catherine Howard: o pior S. Valentim de todos os tempos.


    Se acham que o vosso Dia dos Namorados não corre como desejado - a ideia de jantarinhos a martelo em restaurantes atafulhados de corações de papel é algo deprimente mesmo no melhor dos cenários- então lembrem-se da pobre Rainha Catherine Howard, que foi decapitada há precisamente 472 anos, por *suposto* adultério e por não ser o querubim que o Rei tinha imaginado (post dedicado a ela aqui).

     Isso sim, é o  fim de romance mais dramático que se pode imaginar e uma véspera de S.Valentim do piorio. Coitada, passou a noite a ensaiar a forma mais digna de assentar a ruiva cabecinha no cepo e se considerarmos que a data começou a ser assinalada no sec. XIV, imaginem o estado de espírito dela com tal "presente" do marido amantíssimo.

     Por outro lado, há dias encontrei a frase seguinte:

    "Unless is mad, passionate, extraordinary love, it´s a waste of time. There are too many mediocre things in life - love should not be one of them".

    Embora não aprecie particularmente citações de autores demasiado recentes ou desconhecidos, tenho de concordar com esta. É preferível que uma mulher desperte paixões excessivas, que tire do sério o homem que a amou, a inspirar amizade ou condescendência. A raiva é, apesar de tudo, paixão. O amor verdadeiro dificilmente arrefece para se transformar em amizade desinteressada - ou mais indigno ainda, em amizade colorida e modernaça.

     Haja respeito pelo amor que se partilhou, e que tudo não acabe "em arnica", reles e chinfrim, como dizia o João da Ega de Os Maias. Um romance digno de ser escrito merece um início intenso e se tiver fim, que seja a condizer: as paixões que começaram porque "calhou", porque a mulher se chegou à frente e estava a jeito, nem sequer contam. Só uma mulher que foi conquistada, a mulher por quem um homem se esforçou, que agiu como se fosse morrer se não ficasse com ela, que sofreu por ela (e isso do sofrimento costuma ser bilateral) sabem o que é ser - ou ter sido- verdadeiramente amadas. Mas do amor apaixonado ao ódio vai um passo, e Henrique VIII era de facto um homem de paixões fortes e com demasiado poder nas mãos. Catherine Howard é um exemplo real de personagens arquetípicas e trágicas como a 
      Carmen, de Bizet - adoradas até à loucura, amadas por homens possessivos e castigadas pelas emoções fortes que despertam.

    Escusado será dizer que entre os comuns mortais dos nossos dias convém que os romances rocambolescos ocorram - se reduzirmos o romantismo a ursinhos e luz das velas torna-se tudo uma xaropada sem tamanho - mas sem rolar de cabeças nem o final da ópera, porque na ópera a heroína morre sempre e isso não convém lá muito.

    Wednesday, February 12, 2014

    Alucinação do dia




    Estava à varanda e vejo passar lá em baixo uma senhora de guarda chuva lilás e galochas a condizer. Não sei porquê, mas vista de cima lembrou-me um cogumelo mágico. Ou uma boneca daquela série/franchising dos Docinhos de Morango, ou Moranguinho (como é que se chama mesmo?). Fiquei à espera de ver passar o resto da colecção - a Uvinha, a Laranjinha e as outras que inventam consoante as necessidades de vender mais bonecas - mas não tive sorte.
     Onde as pessoas normais vêem uma mulher a passar com um chapéu, a mim dá-me para ver bonecos. Lindo.
    Preciso de parar de reparar tanto nas fatiotas alheias e de imaginar coisas ou ainda começo a alucinar. Ou isso, ou é efeito dos antigripes.

                                                                           

    RIP Lady Jane Grey‏


    Avisa o Madame Guillotine que hoje faz anos da execução da pobre Lady Jane Grey, em 1554. Se não forem estes blogs e outras publicações super organizadas nunca me lembro das datas, é um facto. Para quem já não se recorda da triste história da jovem "Rainha dos 9 dias" empurrada para o trono (e daí para o cadafalso) por parentes ambiciosos e desmiolados, aqui deixo o link para o meu  post sobre o assunto. Esta é uma história que me ocorre muitas vezes quando vejo pessoas gananciosas, que querem subir depressa e a todo o custo, que dão passos maiores do que a perna, que sacrificam tudo - honra, amor, dignidade, princípios, ética, moral - por um suposto lugar ao sol esquecendo que o sol se põe logo a seguir - easy comes, easy goes. E quando quem age assim é jovem e bonito mas deita as suas qualidades a perder à conta desse "sentimento de inferioridade que origina todos os pecados", como descreveu Cesare Pavese, mais triste se torna.

    "Por grande e digno que seja o ideal a que se aspira, quem se vale de meios miseráveis para o alcançar é sempre um miserável. " 
    Henri Lacordaire

    Notícia CREDO do dia


    A televisão serve-me para ver filmes, séries e documentários e há-de ser on demand, porque não tenho tempo a perder com tolices. Programas generalistas, só sei o que são graças aos feeds de revistas e jornais que me vão mantendo actualizada quanto às últimas pérolas, quase sempre de meter dó. 

    Quanto aos "concursos de talentos", esses, na realidade portuguesa só têm o valor do entretenimento; apenas são úteis para os canais de TV/produtoras e para o público, que se diverte a votar e a torcer por este ou aquele candidato que depois o mercado dificilmente tem condições para acolher. Se ainda vai havendo carreiras músicais em Portugal - com muita mochila às costas, muita estrada, muitos back vocals e outras coisas horrivelmente maçadoras que matam a inspiração artística a qualquer um para pagar as contas - não é nos concursos que se fazem.

    Dito isto - porque em Portugal copiam-se os formatos que dão jeito, mesmo que a sua aplicabilidade à vida real seja nula - também não é preciso achincalhar. 
    Pelo menos na Televisão do Estado (ou deixou de o ser e eu, super distraída, não dei por nada?).

    E isto, ladies and gentlemen, esta ideia peregrina de pôr um elemento da família Carreira a ser mentor de um concurso de talentos, não lembra ao mais pintado. 
    Ainda bem que não vejo televisão, porque tremo só de pensar no que vai ensinar aos pobres desgraçados. E nem quero ver os aspirantes a cantores-com-idade-para-ter-juízo a ser treinados ou avaliados por este menino. Se o sonho de cantar acaba com um Carreira a dar palpites é melhor matá-lo à nascença, trancafiá-lo numa arca e deitar fora a chave. 

    É mil vezes preferível (e muito mais respeitável) "mostrar o seu talento" em casa, para os amigos, como a Tia Teresinha de Noronha que só se tornou uma estrela de rádio com muita, muita insistência. 
    E que Rui Reininho, responsável por uma das minhas canções preferidas e por encher os ouvidos dos portugueses com algumas das mais rasgadas e negras letras da sua história recente, se sujeite a ombrear com uma coisa destas... diz muita coisa. Músico sofre mesmo. A não ser que se esteja a preparar, secretamente, para um ataque de Bellevue em directo, no melhor espírito noir. De certeza que não previa isto quando cantou que gostava de coisas tão disparatadas como "cágados de pernas para o ar". Venham os cágados, mil vezes.


      

    Tuesday, February 11, 2014

    Namorei contigo e não sabia.


    No outro dia deparei-me com a história desta rapariga que me deu que pensar. 

    Long story short, a autora foi convidada várias vezes para sair pelo mesmo rapaz, mas ele sempre lhe deu mixed signals. Ou seja, estavam sempre juntos mas não se percebia o que ele queria: não tentava uma aproximação física, cada um pagava a sua despesa apesar de ser ele a convidar (atitude típica de compincha) enfim, num momento parecia todo interessado, noutro tratava-a como se ela fosse um rapaz. Ela acabou por não fazer caso e como andava ocupada, deixou de lhe telefonar. Quando se lembrou de lhe voltar a ligar para irem ao cinema, eis que o mocinho lhe respondeu furioso a perguntar se era dessa forma casual que se tratava "uma pessoa com quem se tinha namorado". E a rapariga ficou admiradíssima, claro, porque o seu conceito de "namoro" era um bocadinho diferente. 

     Ainda estou para entender estes Rapazes Tofu que se acham com direitos, que não se explicam e depois ainda reclamam. Vejo isto acontecer tanto em namoros que estão para começar como em processos de reconciliação assaz enigmáticos que dão para o torto porque o cavalheiro se põe com tentativas de aproximação esquisitas e potencialmente enfurecedoras, estilo "ia a passar pelas redondezas e lembrei-me de te cumprimentar" . Má receita.

     E não me venham com o fanado argumento da timidez, porque não há paciência. Nunca ouviram que é a falar que a gente se entende? E se não sabem falar mandem flores, é a única indirecta que qualquer uma compreende e se houver uma rejeição ao menos não é cara-a-cara e o vosso ego masculino consegue aguentar, eu acho. 

    Para atitudes destas, só há um punhado de explicações possíveis:

    - Não estão certos do que querem (e aí concordo, mais vale estar calado)
    - Pensam que as mulheres mordem.
    - Pensam que as mulheres têm de fazer o trabalho deles (e se pensarem tal, não interessam mesmo).
    - Pensam que as mulheres adivinham.

    Cada uma...

    Há modas mesmo feias, irra!

                                   

    Disse o meu adorado Oscar Wilde que a moda era uma coisa tão feia, mas tão feia, que precisava de mudar a cada seis meses. É verdade que a obsessão pelas tendências é má e que se deve considerar a máxima de Chanel: as modas passam, o estilo permanece. Sendo um esteta empedernido, Wilde era uma daquelas pessoas com tão bom gosto e tanto espírito crítico que não precisam de se guiar pelas opiniões de meia dúzia de iluminados.
     Bom, eu que me atenho aos clássicos com a introdução pontual de uma ou outra novidade, de algumas actualizações e sobretudo, de novas formas de styling
    considero-me, apesar de tudo, tolerante com certas extravagâncias que saem da passerelle para as ruas. Há muitas coisas que, com bom senso e um grão de sal, primeiro se estranham e depois se entranham: é o caso das ugly sweaters, por exemplo.



     Mas há maluquices que são feias de doer e por muito bom gosto, bom ar, boa cara e boa figura que se tenha não há como lhes dar a volta: é o caso destes penteados apresentados pela Marni.  Quando se trata de Moda não costumo dizer nunca e hesito em classificar algo como medonho ou horroroso - já que tudo é um bocadinho subjectivo e nas passerelles exagera-se de propósito - mas aqui me estreio: este penteado de elfa do Senhor dos Anéis que deu em hippie e não lava o cabelo há três semanas mete medo ao mais afoito.
    Eis outro caso que prova que o gel havia de ser um produto racionado porque serve para fazer cristas à pintas, estilo Cristiano Ronaldo, e agora mais esta. Não sei o que estão a tentar demonstrar, mas suspeito que tenha alguma coisa a ver com o Movimento Anti Champô que anda para aí a atentar as almas.
     E isto é o resultado em modelos super simétricas, super bem vestidas e perfeitinhas. Imaginem agora o pavor em raparigas mal enjorcadas. Com sorte, é demasiado "alternativo" para pegar. Fingers crossed.

    Monday, February 10, 2014

    Do fim do sofrimento, essa coisa auto imposta.

    Jessica Lange

    "Well, I've never been one for love, true or otherwise.

    I live in a floating world, you know? Always two steps ahead of heartbreak".

    O sofrimento pode ser assustador (ou melhor, a antecipação de um sofrimento longo é assustadora). Mais do que isso, é acabrunhante. Dizem os budistas que o sofrimento é auto-imposto - e em alguns casos acredito que seja, porque sofrer sem propósito é estúpido. Há o sofrimento útil, como fazer sacrifícios para chegar a um objectivo, há o sofrimento que supostamente serve para ensinar alguma lição e aquele que só pode ser expiação ou estupidez. De qualquer modo, se o desgosto é sério persegue o hospedeiro como uma sombra, tolda-lhe a vista, tinge-lhe os dias, limita-lhe os movimentos, ora com uma chaga viva ora com uma dor morta. E se dura, quando se atinge o limite já quase não se dá por ele. Até ao dia em que se percebe que já não se sente nada, que o motivo está cada vez mais difuso, que se calhar se continua a sofrer com medo do que virá a seguir se se abrir mão dele.
    E esse é precisamente o momento mais aterrador - quando deixa de importar. Quando não se sente rigorosamente nada, não sobra nada para lamentar, nada para reconstruir, nada por que lutar e todas as opções estão em aberto. Como um homem que esteve agrilhoado durante muitos anos e uma vez livre, não sabe o que fazer com os braços. Ou um soldado que após uma década de guerra, não sabe o que fazer consigo mesmo em tempo de paz.  
     A prova de que o sofrimento não serve, afinal, para coisa nenhuma, é que até quando está para desamparar a loja causa estragos. Com todo o respeito por Buda, prefiro mil vezes a máxima "afasta de mim esse cálice".

    Se saíres sem vestido, vais presa?






    Sempre achei a tira acima uma das mais memoráveis da Mafalda (porque será?). Só é pena ter o scanner avariado e não pôr aqui a tradução portuguesa, muito mais incisiva. Utilizo muitas vezes o estribilho "é muito triste bater em quem tem razão" e penso igualmente muitas vezes que é de facto criminoso sair por aí toda bem vestida sem cultura nenhuma ou vá, sem educação nenhuma, porque a cultura (ou antes, um diploma manhoso) ainda se pode comprar mas a educação está quieto, como diz a vox populi. Por outro lado acho um bocadito impossível ser burrinha de todo e vestir realmente bem porque o bom gosto precisa de exemplos, de referências, de conhecimento, de prática e a não ser que se tenha um personal stylist/shopper fantástico mas tão inflexível como um sargento...é uma tarefa espinhosa.

     Uma rapariga que seja, enfim, um tanto rústica, a tender para o básico, pode usar roupas muito caras mas dificilmente estará elegante. O mais certo é acompanhar o vestido que viu na apresentadora de Domingo à noite com umas lycras aqui, uma carteira falsa ali, uns sapatões com tachas acolá e rematar tudo com umas unhacas de gel...estão a imaginar o filme.


    Da mesma maneira, sempre me pareceu digno de cadeia arvorar-se em muito culto - ressalve-se que para muita gente, "culto" significa ler o último best seller light, exibir um brutal anel de curso, publicar poesia reles, citar autores a condizer e visitar as exposições da moda - e não ligar nenhuma à apresentação. Que se seja descontraído é uma coisa, meter medo ao susto é falta de respeito por si e pelos outros.

     Isto para dizer que tanto a Susaninha como a Mafalda tinham razão: são precisos vestidos, e é preciso ter cultura. Devia haver uma Polícia da Moda para dar cacetadas em quem julga que leggings são calças, abusa dos sintéticos e comete outros atentados à estética e uma Polícia da Cultura para pôr atrás das grades quem diz "deve de ser", escreve "fizes-te", acha que uma carteira é uma "mala", partilha autores de pornochanchada no Facebook e se entretém a ver A Casa dos Segredos - e quanto maior o grau de instrução do infractor mais dura seria a pena, porque quem não foi à escola ainda tem atenuantes, embora a escola, sozinha, não sirva de grande coisa. Claro que a Polícia do Gosto e a Brigada dos Bons Costumes também podiam entrar para deslindar as áreas cinzentas no meio disso tudo...

     Certo é - e agora numa nota mais leve - que há mulheres que não passam sem vestidos (eu! eu! eu!) e outras que não gostam lá muito. Pessoalmente acho-os a coisa mais prática à face da terra - põe-se uma peça só e fica a toilette quase feita - e são muito democráticos, porque os modelos clássicos favorecem quase toda a gente.   
     Mas todas as raparigas devem ter pelo menos dois modelos versáteis no armário: um preto e um colorido, de preferência sheath dress. E este Prada da colecção F/W 2013/14 usado por Giovanna Battaglia é um exemplo perfeito: alfaiataria impecável e um tecido espesso, mas fresco q.b, que permite usá-lo todo o ano. Acompanhe-se com o sapato certo e alguma actividade cerebral e pode ir-se para toda a parte sem medo de acabar no xilindró.

     
        


    Sunday, February 9, 2014

    O Império dos Lamechas


    Por estes dias, o Facebook -  esse mal necessário da vida - decidiu comemorar o seu aniversário oferecendo aos utilizadores a possibilidade de criar automaticamente um duvidoso videozinho bom para passar em velórios de mau gosto. Não faltava mesmo a musiquinha de fazer chorar as pedras da calçada, enquanto mostrava imagens de, literalmente, a nossa vida a andar para trás. O mais giro foi ver que as postagens mais populares de algumas pessoas tinham erros ortográficos, no melhor modo "teu passado te condena". Eu que tenho pavor a efemérides achei aquilo sinistro todos os dias mas não resisti a espreitar o meu, para não dizerem que falo sem saber. Arrepiei-me toda no mau sentido e não o partilhei com ninguém - porque havia a opção de não divulgar a obra prima. Então, porque é que meio mundo se divertiu a passar adiante uma coisa tão pirosa?

    Porque, meus amigos, vivemos num autêntico império da lamechice, do politicamente correcto, da lágrima fácil e nada melhor para o demonstrar do que partilhar coisinhas "comoventes" nas redes sociais, como já apontei por aqui.

    Mas as redes sociais são um mero reflexo do fenómeno. O pavor de ofender, a necessidade imperiosa de agradar a toda a gente, de desculpar tudo, de provar "eu não sou superficial", "eu importo-me com os outros" de uma maneira que não dá trabalho nem requer envolvimento algum (afinal, fazer um clique não custa nada, diz que somos bonzinhos e alivia a consciência) atinge níveis paranóicos. De repente, com o mundo como está, não há preocupações mais sérias do que provar, ipso facto, que as modelos que vemos nas revistas são um produto de photoshop para que as raparigas "feias" se sintam menos mal, discutir ad nauseam o que é plus size e o que não é para não ofender as mulheres "gordas" nem chamar "rechonchuda" a quem calha só ter curvas, para não falar nas suspeitas de racismo a cada esquina e na quantidade de palavras que já não se podem dizer para não melindrar ninguém.



    Faz-se isto tudo como se não bastasse, para sermos seres humanos decentes, tratar toda a gente com respeito: não, temos de ser paternalistas e condescendentes com quem é mais gordo, mais feio, mais bonito ("pobrezinha, devem ter-te obrigado a fazer plásticas") ou mais magro ("coitadinha, deves ser anoréctica!) do que nós. Ou, caso a outra pessoa tenha uma cor de pele diferente, falar com muito cuidado não vá ela ressentir-se, como se fosse algum bicho raro.

     E o público delira com estas coisas, acha muito inspirador:

    - O vídeo da rapariga que foi chamada a mais feia do mundo e deu a volta por cima, que sucesso! Quantas pessoas não o partilharam, com comentários "isto mudou a minha vida?" ou "és a rapariga mais linda do mundo?". Se no meio de tanto elogio a moça foi pedida em casamento por quem  vê a sua beleza, fantástico. Mas acredito que a maioria esquecesse o assunto logo a seguir.

    - Muito partilhado também foi o vídeo (com musiquinha triste) do artista que criou manequins de montra a partir de pessoas com deficiência física (é este o termo politicamente correcto? É que já não sei) para afirmar que ninguém é perfeito, e que a beleza é para todos. Não sei o que acham vocês, mas não será isso apontar a "diferença" de uma forma muito mais estigmatizante? Porque reparem: os manequins são apenas um standard, de roupa apertada com alfinetes. Não há manequins para pessoas mais baixas, com mais peito, com figura de ampulheta, de pêra, de trapézio- porque deveria haver para os outros? É óbvio que a moda é para todos, todos temos de vestir alguma coisa diariamente. A não ser que estejamos a falar de roupa adequada às necessidades específicas do problema de saúde em causa, será necessário esse freak show velado, como quem diz "olhem para eles'"?

    - Uma rapariga lembrou-se de fazer uma petição à Disney para criar uma Princesa gordinha. Porque já há princesas de todas as "minorias" mas dessa ainda não, e  TODA A GENTE tem de estar representada, até num Conto de Fadas e ainda por cima em desenhos animados, que é suposto serem tudo menos realistas. Não sei se é boa ideia ou má ideia, mas a discussão que gerou levanta alguns pontos válidos.

    - Mais recentemente, a Dove lançou OUTRA (mais uma, senhores!) campanha para "mulheres reais" - termo que tem o condão de me tirar do sério - para provar que as mulheres se acham mais feias do que são na realidade, como se todas fôssemos umas inseguras de primeira. E chora-se no vídeo, claro. E o video tem uma musiquinha comovente, claro.

    A verdade é que os criadores desses conteúdos politicamente correctos estão tão obcecados pela beleza exterior - ou pela falta dela- como o mais paranóico dos editores de moda em busca da perfeição. Há tanta futilidade numa atitude como na outra - tudo são aparências - mas a busca pela perfeição tem a virtude de apesar de tudo ser mais honesta.

    Há dias uma amiga minha, giríssima, disse-me: "continuo a achar-me bonita, mas quando tinha a tua idade achava-me mesmo a mulher mais linda do mundo".
     Apeteceu-me abraçá-la: alguém que é sincero, para variar.

    Quem sai aos seus não degenera.


    Eu não sou exactamente uma fã de Beyoncé Knowles. Agradeço-lhe os bons momentos passados com as minhas amigas ao som das Destiny´s Child (ladies leave your men at home and the club is jumping-jumping, etc, etc...) gosto de algumas canções dela ("All the single ladies" é uma sátira fenomenal) e quanto ao estilo, acho admirável a forma como consegue quase sempre estar na fronteira exacta entre o sexy e o vulgar, entre o chic e o trashy sem desastres de maior. Se por causa dela vemos montes de raparigas-da-coxa-grossa semi despidas na rua, em figuras tristes de alternadeira ...bom, a culpa não é da Beyoncé - eu diria que será mais de Rihannas e Ritas Oras e outras, porque há coisas com que só Beyoncé consegue escapar ilesa. E se as pessoas não têm noção de que há roupas que são para usar em palco e não na vida real, então temos pena.


     Mas há um facto incontestável: Beyoncé Knowles é muito bonita, com a pele dourada, a estrutura óssea impecável e o ar altivo tão típico das french creoules. É que a sua família materna era de Nova Orleães, uma bela mistura de franceses, africanos e nativos americanos.
     O que eu ainda não tinha reparado é que a cantora não tem mesmo a quem sair feia. A mãe, Tina Knowles, é encantadora, com traços finos, uma silhueta poderosa e impressionantes olhos verdes rasgados. 



     Além disso, tanto a avó como a mãe eram modistas - o que explica outras coisas, como o afamado sentido de estilo da irmã, Solange Knowles
     Realmente, a genética determina *quase* tudo, como dizia o outro.

    Bela e com miolos.


    A brilhante artista, arquitecta e designer Neri Oxman é a prova provada de que uma mulher pode mostrar excelência em diversas áreas, ser absolutamente deslumbrante e mais do que isso, não precisar de disfarçar minimamente o quão bonita é para conseguir o respeito dos seus pares: este Lírio de Israel (ela tem nacionalidade Israelita e Americana) foi recentemente votada a mulher mais bela da Terra Santa, deixando para trás celebridades como Natalie Portman e Bar Rafaeli.


    Neri não recorre a roupas sem forma, carrapitos desleixados e ausência de maquilhagem para ser levada a sério. Em vez disso, a investigadora - reconhecida internacionalmente por inovações na área da impressão 3D (como uma cadeira que se move de acordo com as características físicas do utilizador) - mistura arte e ciência com beleza, miolos, sentido prático e ainda por cima, sentido de estilo.

     As ideias da professora universitária de Artes e Ciências dos Média estão a ser consideradas por algumas das maiores Casas de moda, e Neri produziu mesmo um coordenado de Alta Costura em parceria com a designer preferida de Lady Gaga, Iris Van Herpen, para a Semana de Moda de Paris. Afinal, nada é tão próximo do conceito de couture como roupa que acompanha cada traço e movimento do corpo de quem a veste...

     Exemplos destes devem ser mesmo chatos de ver para as que arvoram a bandeira "não preciso de ser bonita, tenho um curso superior pós- Bolonha" e a bandeira pior de que é futilidade pensar em moda e ter um aspecto soberbo quando se pode "fazer coisas mais importantes". Há mulheres que têm mesmo tudo. Take that and deal with it.









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