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Saturday, March 1, 2014

Mais vale um letreiro a dizer " a chuva só pára quando lhe der na real gana".


Não estou para escrever isto de uma forma bonita: afinal, mandei uma carta toda amável ao S. Pedro e foi tão inútil como um requerimento na secretaria mofenta de uma faculdade pública. Burocracia, burocracia, burocracia. 

 Fui educada para nunca maldizer o tempo, que é pecado. Mas IRRA, macacos me mordam, não será possível desligar as torneiras só por um bocadinho?

 Nunca cancelei tantos passeios, nunca me aborreci tanto com o que hei-de vestir, nunca dei tanto uso a galochas, Carnaval estou para ver como vai ser que isto nem os Caretos aguentam; se abre o sol como ontem, que esteve uma tarde gloriosa e a prometer um fim de semana remotamente decente zás, na manhã seguinte tratam logo de me desfazer as ilusões.

 Queria ir ao mercado comprar umas alfaces e não há mercado. Queria ir passear e é um perigo andar na estrada. Queria estrear umas botas de camurça que estão ali a luzir para mim e se tenho gosto nelas, é melhor nem tentar. Isto é deprimente, deprimente, deprimente.

E o que se vai fazer a tanta água? Que me lembre, a chuva do Dilúvio durou 40 dias. Por aqui, já chove sem parar há mais de dois meses. Isto não é chuva, é uma monção. De extensão mais do que Bíblica. Parece a Indochina, em versão fria. Nem Noé teria paciência.

Este feeling de "não me tragam mais" faz-me lembrar uma situação que passei há uns anos. Na altura caí na asneira de morar num prédio todo snob de que já vos faleihabitado maioritariamente por gente doida, e ...comodidade das comodidades, apesar de termos uma padaria do outro lado da rua os vizinhos passaram a receber o pão à porta todas as madrugadas.

 Achámos boa ideia e decidimos aceitar também os serviços da padeira, sem pensar que se os vizinhos eram quase todos loucos a padeira não seria muito melhor.

 Como éramos só três pessoas, e pessoas pouco consumidoras de farináceos, combinámos com a senhora receber o mínimo, uns cinco pães por dia.

Na primeira semana correu tudo bem. Depois foi a desgraça. A mulherzinha começou por deixar  oito pães por dia, e nós "deve ter-se enganado". Dali a pouco já eram doze. E nós já sem saber o que fazer a tanto pão junto, deixámos recado na porta com o dinheiro, a lembrar que o acordo não era esse. Foi o mesmo que nada. Tentámos ligar e ninguém atendeu. Pusemos mais bilhetes, e o mesmo: uma dúzia de pães ou mais, e a arca congeladora (que era das verticais, como convinha num apartamento) a abarrotar de papo-secos. Uma autêntica estratégia de guerrilha. Extorsão panificadora nunca vista. Em desespero, removemos o saco para o pão da porta - ela pôs lá outro. E aí eu comecei a ouvir a banda sonora do Psycho na minha cabeça, palavra. 


Perdi a conta aos bilhetes que deixámos, que para o fim já eram bastante agressivos, tipo "NÃO QUEREMOS PÃO!!!"...e o pão lá aparecia. Ficámos a pensar se a senhora não saberia ler, era simplesmente teimosa, ou uma psicopata fugida do manicómio. 

Acho que cheguei mesmo a acordar cedíssimo a ver se a apanhava para lhe dizer das boas, mas a padeira bêbeda (não sei se era, mas só podia) tinha artes de se escapulir.

Como as tentativas de cancelar o "serviço" foram inúteis o remédio, lamento dizê-lo,  foi parar de lhe deixar dinheiro. Mesmo assim não desistiu logo. 

É como esta chuva, tal e qual. O pior é que o mau tempo é grátis...





Sorry seems to be the hardest word, MAS...


É preciso coragem e honra para pedir desculpa. Porque "perdoa-me" é um grande palavrão e difícil de dizer, principalmente quando é sincero e quando não se sabe como a outra parte vai reagir, que feridas se vão reabrir com a conversa ou que paz periclitante se vai quebrar com isso.

 Mas "desculpa", palavrão ou não, ainda é só uma palavra, ruído, verbo, letras juntas, uma manifestação, uma expressão de boas intenções, e todos sabemos como (e onde) as intenções podem acabar.

Dizer "desculpa se te atirei um ovo" com o cesto dos ovos junto à cara do outro não transmite grande confiança, pois não?

 A palavra mais difícil não é desculpa até porque lá diz o cliché, "amar significa nunca ter de pedir desculpa".  O verdadeiro desafio está  no contrato verbal que se espera que venha com isso, se o arrependimento é honesto; ou seja, o errei-e-vou-remediar-o-problema-para-que-nunca-mais-nos-incomode. E a acção que se segue. Depressa, se possível, para que se mude de assunto, porque ninguém gosta de bater num cavalo morto.

Não se trata tanto de compensar, mas de eliminar a causa para que não volte a suceder o mesmo. É irrealista prometer que não se voltará a cometer um disparate nunca em tempo algum, que tudo será irrepreensível e perfeito - porque a vida em si mesma é imperfeita, porque a culpa nunca morre solteira -  mas o mínimo é que aquela causa específica, que provocou todos os sintomas, não tenha mais chances de se repetir.

 Só com o " ego te absolvo, MAS não voltes a pecar" há cura, remédio, coisas novas, a construção de memórias melhores para substituir as lembranças desagradáveis. É preciso encaminhar o cavalo morto para o seu lugar de descanso e comprar um cavalo novo para seguir viagem sem obstáculos, sem acusações e acima de tudo,  sem mais do mesmo.

Friday, February 28, 2014

Casal lindo, lindo, lindo do dia.


É verdade que raramente acho piada às celebridades, a não ser que sejam:

a) Ícones vivos, estilo David Bowie ou Christopher Lee.

b) Ícones mortos e enterrados  (ou já se retiraram) que são intemporais e não desiludem ninguém, como Bruce Lee, Oscar Wilde ou Grace Kelly.

c) Pessoas de elevadíssima categoria e com aquele je-ne-sais-quois do tempo da outra senhora que já não se fabrica, como Marisa Berenson.

d) Almas de um rasgo extraordinário, de espírito e talento que sejam simultaneamente enfant terribles: Karl Lagerfeld ou o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, em duas áreas inteiramente distintas, possuem essa qualidade rara.

e) Algumas fashionistas a que presto atenção por causa das roupas, como Joanna Hillman.

ou...


f) Criaturas extraordinariamente belas.

E se duas pessoas assim se apaixonam, tanto melhor. 

Já tenho comentado que poucas coisas me dão tanta esperança no futuro da Humanidade como casais bonitos. Um casal belo é o reviver do ideal clássico, uma promessa do que resta de romance, de harmonia e de perfeição neste mundo cada vez mais desencantado e sem graça - para não falar da propagação de genes excelentes para povoar o planeta de algum sentido estético.
 Sempre achei que a Jackie e o Kelso tinham de ficar juntos. Ele é uma estampa (um bocado cabeça no ar, mas parece bom rapaz; espero que tenha juízo) ela uma das caras mais bonitas a agraciar as telas. 

 Agora só resta torcer para que nenhuma carantonha intrometida apareça a estragar tudo, como no caso da Monica Bellucci. 

 A beleza e o romantismo não podem sofrer sempre. Espero.


Thursday, February 27, 2014

True style and true love never fade.


Há ícones de estilo que nunca se desvanecem. E é curioso que as minhas referências dos bancos de escola se mantêm: entre outras, Grace Kelly, Brigitte Bardot, Marilyn Monroe, Kate Moss, Gwyneth Paltrow, Liz Taylor, Jackie Kennedy e a sua nora, Carolyn Bessette Kennedy .

 Já a mencionei por aqui e quero dedicar-lhe um post integral em breve, porque as imagens inspiradoras que nos proporcionou durante a sua breve existência são imensas, e merecem uma selecção rigorosa.

 Carolyn era perfeita, pelo menos pelos meus critérios: elegante, refinada, com uma beleza muito particular e mais do que beleza, porte, um ar racé. Com a sua pele imaculada de porcelana, a simplicidade rigorosa do seu estilo, o bâton encarnado e as madeixas louro-branco mais invejadas do planeta, encarnava na perfeição o minimalismo chic daqueles tempos. E no entanto, nada do que usava parece datado - tal como a maior parte das toilettes de Jackie. A beleza, a simplicidade elegante, a qualidade e a classe são intemporais. E Carolyn tinha classe, daquela que vem de berço, que não se ensina. Era uma mulher de sucesso, com  modos de princesa. 

 E que casou - numa relação apaixonada, mas tempestuosa - com o que os americanos têm de mais parecido com um príncipe, o filho do bem amado Presidente JFK. 
Juntos, formavam um dos casais mais belos de sempre. Amavam-se muito, dizem, apesar dos tumultos que desgastavam a relação. 
 Foi, aliás, para não criar atritos no casamento que Carolyn acedeu a acompanhar o marido na fatídica viagem. E a tragédia abateu-se sobre eles - como acontece tantas vezes com os casais mais bonitos e afortunados. Sem os separar, no entanto. 

Já disse em tempos,

"Não importa que a beleza seja destruída. Por muita alegria que os detractores tenham na sua derrocada,ou muita pena que as almas sensíveis sintam por vê-la desaparecer, têm de viver com a amarga certeza interior (ou a nostálgica noção) de que ela um dia existiu, e essa imagem fica para sempre- a inspirar, a atormentar almas, ou a queimar sonhos".


O estilo verdadeiro nunca desbota. E o amor verdadeiro tão pouco. Facto.


Brilhantes considerações do dia: prozac e egoísmo


1- Comentava eu com uma amiga que não sou grande crente em gotas e pirulitos, salvo nos casos realmente graves em que não se funciona sem isso ou em situações temporárias em que se precisa de equilibrar o cérebro para lidar com as vicissitudes de forma mais serena.
 E diz ela, ainda mais desencantada dos milagres da psiquiatria do que eu, que "uma pílula do dinheiro e/ou do emprego é que era bom". 
 Pois bem, a ser assim também havia de se inventar uma pílula anti-desastre social ou sentimental. 

Teria mais ou menos o efeito da pílula anti concepcional, mas com o poder de repelir criaturas estranhas: aquelas que, essas sim só funcionam  (ou só deviam sair à rua ) com um enormíssimo receituário a correr nas veias. Uma pessoa tomava a panaceia e ficava descansada, porque os maluquinhos, os complicados, os egomaníacos, as pessoas com mau gosto e maus costumes, os desonestos e enfim, as almas desagradáveis de modo geral nem davam por nós.

 Bem dizia a avó que eu devia ter sido cientista, ido para química...foi uma pena ter tão pouca paciência para a Matemática.

2- Serei a única pessoa que, às pressas pela manhã, fica para morrer se vai para fechar o elevador e há umas almas descansadas que decidem entrar também, nas calmas, 
fazendo-me perder minutos preciosos? É por isso que não moro em apartamentos mas quando tenho de partilhar certas coisas com o resto da Humanidade, ou com a parte sem noção da humanidade, fico chateada que só visto. Dá-me vontade de lhes fechar a porta na cara e gritar "so long, suckers!" . Depois pergunto a mim própria se não serei uma tremenda egoísta, se não terei um lado anti social e antipático. Just wondering.

Wednesday, February 26, 2014

Momento "shame on me" do dia.


Cenário: computador encravadinho, encravadinho de todo de há uns dias para cá, em modo publicar-qualquer-coisinha-é-um-calvário.

Vendo que o Do It Yourself não estava a resultar, trato de levar a engenhoca ao dótor ( viagem que tem sido adiada porque apesar de ter um sistema operativo que está a dar comigo em doida o PC é novo e fico com preguiça só de pensar em formatar, levar, trazer, etc). 

 Deixa-se  a geringonça com o técnico idóneo e responsável, que foi cavalheiro o suficiente para não me passar um sermão por o anti vírus não ser à prova de bala, nem pela falta de actualizações, nem nada disso.

Entretanto o senhor, que é uma simpatia, liga a perguntar uma informação que faltou. E deste lado, muito naturalmente, indaga-se como está a correr e quanto tempo vai demorar. Resposta dele:

"Vá descansada que ainda só estou a meio e já apanhei 25 vírus!"

Vinte e cinco? Seriously? Como é que um portátil que mal sai à rua, não é ligado a redes públicas, não frequenta sites duvidosos, um laptop criadinho em casa que nem em bibliotecas socializa com outros da sua espécie, apanha bicharadas dessas?



Ave, Miroslava‏!


Representante das cinturinhas pequenininhas pelas fashion weeks deste mundo de Deus. E isto interessa ao Menino Jesus porquê? Bom,porque se é verdade que as it girls influenciam os designers, pode ser que com exemplos de styling assim continuemos a ver diminuir gradualmente o flagelo das saias que não se seguram de maneira nenhuma.





Diz-se à boca pequena que as Russas não conhecem meio termo: ou têm um estilo magnífico ou são terrivelmente espaventosas, com um certo ar nouveau riche, no mínimo. Miroslava, sem procurar ser perfeita nem dar (demasiado) nas vistas destaca-se pela sua noção das proporções e pela escolha de peças invariavelmente requintadas.

Também isso nos remete para a esplendorosa tradição da sua terra: vejam-se alguns destes vestidos das últimas czarinas, perfeitamente elegíveis para uma passadeira encarnada ou ocasião formal. A boa alfaiataria, o respeito pelas formas da Mulher e os materiais de qualidade são realmente uma tradição que nunca desbota. Não percebo porque é que às vezes as marcas se afastam tanto disso...
































As desavergonhadas das bonecas vão de mal a pior.




Ontem, num giro pelo supermercado, perdi algum tempo a olhar para as bonecas (salvo seja...) e voltei de lá algo confusa, a pensar se tinha visto bem: não sei se já repararam, mas nem o pobre Pequeno Pónei escapou à febre de "fashionização e teenagerização" (perdoem a liberdade criativa) dos brinquedos. Pois é, meninos e meninas, os últimos Pequenos Póneis são...humanoides. 

Mutantes adolescentes serigaitas com pernas humanas, cascos escondidos em botifarras, mini saias curtíssimas, focinho de cavalo,orelhas a condizer,  cauda e tudo! Sinistro, não? Ou confuso, no mínimo. 

Fiquei ali um bocado, apatetada, a ver se tinha percebido bem. Tinha. 
E felizmente, parece que não está tudo maluco (só mesmo os brinquedos e quem os fabrica)  pois já houve mais gente - e jornais - a indignar-se com a brincadeira.

Não sei de onde tiraram a ideia de que para que um brinquedo venda actualmente, tem de parecer teenager - seja uma fashion Doll tipo Barbie, ou um Nenuco - ter olhos gigantescos estilo manga, pernas de girafa, grandes sapatões, meias de rede, cabelo enorme e às cores tipo street style japonês e trapos demasiado sexy, à la Spice-Girl-em-casa-de-mau-viver. 

Olha-se para as bonecas e o ruído visual é tanto que uma pessoa pensa se a ideia é inspirar as meninas a  tornar-se strippers ou a juntar-se ao circo.

Começou com a  introdução das Bratz cabeçudas e meio despidas; a Barbie lançou a linha My Scene (um pouco menos cabeçudas, mas igualmente desengonçadas) para fazer concorrência, depois vieram flausinas bruxas, flausinas fadas, Monstros sexy, as filhas das personagens dos contos de fadas que agora andam no liceu e são muito rebeldes,  e entendeu-se que tinha de ser tudo a condizer: já deram cabo dos Pinipons, da Polly Pocket, das Barriguitas (que estão muito menos barrigudas) é tudo féxion, minha gente.

Só lhes faltam carteiras Chanel falsas - ou "malas" Channel  - como as de algumas bloggers de moda da treta que vejo por aí. 

Citando Eça de Queiroz, até as desavergonhadas das bonecas. Que se seguirá?

Tuesday, February 25, 2014

Que disse eu sobre mochilas...





...recentemente?

Ah, pois. Zás, Chanel(Bem feiinha, acho eu que sou de gostos clássicos,  e muitíssimo identificável  logo sujeita a ser roubada/falsificada até à exaustão,  mas...percebem a ideia).

Monday, February 24, 2014

Mulheres destas fazem-me sentir muito pequenina.


Esta semana está a passar no canal AXN White um filme que eu já tencionava ver há bastante tempo: The Courageous Heart of Irena Sendler. Se não conhecem a história desta enfermeira bonitinha e frágil que antes de fazer 30 anos salvou cerca de 2500 crianças do gueto de Varsóvia (e que foi presa, torturada e quase fuzilada pela sua coragem) aconselho vivamente que accionem a "maquineta do tempo" da vossa televisão. 


 Irena era uma rapariga como tantas outras: estudou, tinha uma carreira e uma vida amorosa menos que perfeita (divorciou-se duas vezes). 
 O que a tornou diferente foi a sua capacidade de seguir a sua consciência, com os meios à disposição e arriscando tudo, quando a tragédia e a violência rebentaram à sua volta. 

 Mulheres assim - que agiram sem arvorar bandeiras de igualdade - é que a meu ver provam que o heroísmo não conhece sexos.
Mas acima de tudo, põem-me a pensar. No pouco que se calhar fazemos pelo nosso semelhante. E no que seríamos capazes de fazer (ou não) perante um cenário dantesco daqueles. É fácil dizer "eu ajudava" mas creio que até o indivíduo mais corajoso teria medo. 

 Eu que raramente me receio de alguma coisa, lamento reconhecer que naquelas circunstâncias me veria num dilema - não pela minha segurança, porque se dependesse só disso a impulsividade levaria decerto a melhor;  mas pelas pessoas queridas, já que ajudar um fugitivo equivalia a pena de morte para todo o agregado familiar.

Creio que é impossível imaginar tal coisa; a Divina Providência lá sabe quem guarda para as situações em que são precisas pessoas extraordinárias, e muitas vezes é nos momentos extremos que os corações realmente corajosos revelam do que são capazes. A própria Irena (que morreu já velhinha, rodeada do carinho das famílias que salvou) não pensou em heroísmos quando fez o que fez: "cada criança resgatada por mim e por outros maravilhosos mensageiros é a justificação da minha existência na Terra, não um título de glória; nós, que salvámos aquelas crianças, não fomos heróis; continuo a ter remorsos de ter feito tão pouco". 

 Com todo o respeito... tão pouco, avozinha? Quando vejo coisas assim fico a sentir-me pequenina e egoísta que não fazem ideia...

 

"Eu não te mereço" - podes crer que não mereces, não.



Tenho acompanhado (um pouco a reboque e aos trambolhões) a versão americana de Shameless. É um daqueles programas que deprimem, mas não se consegue evitar olhar para eles.  Ao início custou-me ver Emmy Rossum - que é tão linda e tem tão bom ar - no papel de uma rapariga do gueto, mas já me acostumei e acho que está bastante convincente.


Para quem não conhece, a série trata de uma família completamente disfuncional. Não é que os Gallagher sejam exactamente más pessoas: são apenas reles, coitados. Uma família de malcriadões que é unida lá à sua maneira e tenta sobreviver como pode (nem sempre de forma honesta) .

Fiona, a filha mais velha, é uma das poucas pessoas ajuizadas naquela casa. Como o pai é um bêbedo inveterado e a mãe anda sempre em parte incerta ela toma a seu cargo (com muitas peripécias e empregos precários pelo meio) o sustento e tutela dos irmãos. 

No fundo, é boa rapariga; mas a falta de educação, de bússula moral e estabilidade com que cresceu (lares de acolhimento, falta de limites, desconforto) acabam por assombrar os seus melhores esforços.

Às páginas tantas, Fiona é bafejada pela sorte: encontra um bom emprego e o patrão apaixona-se por ela. Mike, assim se chama o rapaz, é perfeito: bonito, bem nascido, educado, bem sucedido, bondoso, rico. Ama-a exactamente como ela é; podia escolher qualquer bom partido, mas é Fiona que ele quer e o seu background duvidoso não lhe interessa para nada. 

Mas Fiona, que não sabe estar bem, estraga o cenário idílico ao envolver-se com o irmão do namorado, o bad boy de serviço.

E a explicação dela para a sua auto sabotagem é simples: como muita gente, Fiona QUER coisas melhores mas no fundo, acha que não é digna delas.

 Que não as merece. De forma inconsciente, só se sente bem no caos a que foi habituada. Só está confortável no ambiente de que tenta fugir, com as pessoas danificadas e pouco recomendáveis que lhe são familiares. Mais do que não merecer, ela faz tudo para provar que de facto, não merece amor e estabilidade. 

É esquisito mas há muitas pessoas como ela, que agem exactamente da mesma forma. Querem coisas melhores, ambicionam isto e aquilo, fazem por conseguir o que desejam mas depois não conseguem estar à altura. São viciadas na desordem e no sofrimento. 

Cada um tem os seus fantasmas - podiam era não envolver pessoas honestas nas suas crises de identidade.

Sunday, February 23, 2014

Em termos de moda, sou como a formiga...

...que armazenava no Verão para ter o suficiente para o Inverno. Só que eu vou um bocadinho mais longe: acompanho as novas colecções com a devida antecedência, vejo o que há de novo (ou o que pode ser adaptado ) e no Verão já começo a compor as aquisições + arrumações de Inverno, e vice-versa. 

Embora ainda esteja a rezar aos santos todos para o tempo não aquecer cedo demais (afinal, com esta chuva não pude levar à rua boa parte das minhas botas, sapatos e casacos) como o calçado para os meses quentes é sempre mais complicado, quanto mais cedo souber o que vou usar, melhor. Ora bem, de acordo com as novas tendências- e a bem dos meus pés sensíveis, que implicam com a maior parte das sandálias - vou usar bastante disto, já mencionado aqui....é que os mules são ao mesmo tempo demasiado confortáveis e elegantes para serem ignorados.

                                                  
E disto, o mais possível: encontrar sandálias com saltos sensatos como os block heels, não é tarefa simples mas vale o esforço porque não há nada melhor para aguentar a correria diária com alguma elegância:




Outra forma de suportar com classe o calor e o stress sem sofrer muito com tiras a apertar os dedos são os sapatos abertos e os peep toes: sejam kitten heel, compensados, clássicos...foram o meu salva vidas no ano passado e neste, tenciono não os largar:

                                                      



Mas é claro que nenhuma rapariga com uma colecção apreciável e algum espírito de sacrifício vive sem saltos mais...impressionantes. Por isso, não vou dispensar os stilettos clássicos, para as ocasiões (ou para quando me sentir mais corajosa e menos atarefada).


E vou ainda guardar alguns chunky heels  (para certas saias e calças boca de sino, por exemplo) e plataformas porque Dolce & Gabbanna demonstrou que ainda estão para durar. Pelo meio ainda há uns quantos pares rasos (ou quase) de confiança e muito elegantes, daqueles que são-baixos-mas-parecem-altos.

E as meninas, já estão a pensar no calçado para a Primavera, ou nem por isso?















A Princesa arrependida: nos contos, como nas relações....


A minha leitura para este fim de semana (consumida em duas assentadas) foi uma curiosa antologia de contos compilada por um dos pais da Antropologia em Portugal, Consiglieri Pedroso.  

 A minha predilecção pelas versões cruas, originais (e rocambolescas)  dos folk tales já foi abordada por aqui: e há sempre variantes do mesmo conto, sendo a maior parte deles fortemente influenciada pela mitologia pagã e pela superstição.

É muito curioso ver como os mesmos contos eram relatados, com ligeiras diferenças, de país para país, e de versão para versão. A maior parte está mesmo organizada pelos folcloristas em tipologias

 São ordinariamente histórias  brutais, nada adequadas a crianças, pois ao maravilhoso popular juntam a reflexão da cruel realidade em que se vivia naquele tempo. Serviam para alertar quanto aos perigos da vida, para exorcizar medos e explicar fenómenos hoje analisados pela Psicologia, mas também para entreter os adultos ao final de um dia de trabalho - muitas vezes, de forma assustadora ou maliciosa.

 Ora, um dos meus géneros preferidos é o conto baseado no mito romano Cupido e Psique: A Bela e o Monstro é a adaptação mais famosa; mas existem inúmeras variantes (incluindo portuguesas) e a mais completa será Hans my Hedgehog, dos irmãos Grimm:


A história repete-se sempre: uma donzela, geralmente uma princesa, é raptada ou atraída a um castelo onde não lhe falta nada e é servida por vozes invisíveis. Durante a noite, um marido misterioso vem fazer-lhe companhia e ela acaba apaixonada por ele, receando ao mesmo tempo que ele seja um monstro horrível.
 Querendo quebrar-lhe o encanto, a princesa faz alguma coisa ( como por exemplo, acender a luz) que deita tudo a perder. O belo Príncipe (pois estava-se mesmo a ver que era um príncipe encantado) grita-lhe que ela estragou tudo, que por causa da sua curiosidade e impaciência lhe dobrou o encanto (ou seja, ele vai ficar mais tempo preso/ na forma de monstro/ouriço/bicho horrível) e que a não ser que ela faça uma série de sacrifícios impossíveis, não lhe voltará a pôr a vista em cima.


A nossa heroína fica desesperada e, como qualquer mulher apaixonada, decide fazer o que for preciso para que tudo volte ao seu lugar. Em muitas versões, o sacrifício consiste em andar em sapatos de ferro até os gastar - só nessa altura encontrará a solução. (Ainda estou para descobrir a relação entre contos de fadas e sapatos, mas isso é assunto para outro dia).
 E qual é a moral destas estórias? Que em cada homem há um lado animalesco que uma mulher pode domar quando ele está mais vulnerável ou seja, na intimidade? (Naquele tempo as mulheres não tinham mesmo outro remédio, mas continua a haver alguma verdade genética/tradicional na matéria). 

 Pessoalmente, sempre achei que a ideia de "calçar sapatos de ferro" e gastá-los com grande sofrimento pela pessoa de quem se gosta é algo que alguém, especialmente uma mulher, só deve fazer se errou da pior maneira, se fez uma asneira monumental tal como a Princesa. Se o Príncipe desapareceu por culpa dela, então é justo que ela, mulher ou não, vá atrás dele, expie o seu pecado e tente remediar o mal feito.

 Em qualquer outro caso, é ridículo calçá-los. Nunca percebi as pessoas que são ofendidas e têm tanto receio de perder tudo que pedem desculpas pelo que o outro fez, e ainda muito obrigada por cima.

Admiro as princesas que quando cometem um erro, são capazes de pôr esses sapatos feios e desconfortáveis  pelo tempo que for preciso, sofrer as passas do Algarve por amor, virar mundos e fundos. O amor verdadeiro não anda por aí aos pontapés;
 há que conservá-lo. Afinal, "quem estragou que arranje". 

 Mas quando uma pessoa - neste caso a princesa -  tem razão, então há que deixar
esfumar-se o palácio, dobrar-se o encanto, cair a casa - não se pode, a bem da dignidade, do amor próprio e da justiça, calçar sapatos de ferro, palmilhar milhas e lutar por um príncipe/monstro caprichoso e cabeçudo que não sabe lidar com o lado selvagem que existe em todos nós. Era só o que faltava. Qualquer rapariga que tenha lido a sua parte de Contos de Fadas sabe disso. Ou não?




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