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Saturday, March 8, 2014

E Deus criou a Mulher...


...depois inventaram o Dia da Mulher. As frases xaropentas para partilhar no Facebook para inglês ver (mesmo quando quem partilha é, na realidade, um marido/namorado da treta). 

Os concertos do Dia da Mulher - convidado especial, David Carreira - em discotecas de aldeia (juro que vi o cartaz hoje). E os jantarinhos com strippers brasileiros besuntados de óleo que são porteiros nas horas vagas, porque andar aos guinchos e ler romances light com laivos histéricos é o supra sumo do feminismo. 

Isso, ou no outro extremo, pregar contra a ditadura da beleza e da magreza e insistir que o macharedo é o inimigo. E as mulheres trabalham que se fartam. E casam com alguns cavalheiros que esperam que a mulher tenha um ordenado que pague luxos de classe média (porque a figura do Pater Familias era opressora) e ainda trate da casa como nos anos 50, quando havia Pater Familias e as senhoras não tinham mais nada em que ocupar o tempo.

 E as mulheres devoram revistas a explicar como conquistar um homem (esforça-te, infeliz! desunha-te! é que eles são atadinhos, tolhidinhos, coitadinhos) e as 100 acrobacias sensuais nunca vistas que vão fazer o desgraçado pedi-las em casamento no primeiro encontro, sem mesmo avaliar se ele dará um bom marido ou se é um Barba Azul que guarda as ex namoradas na arca congeladora do T3 . E depois queixam-se, de uma maneira moderna, muito Sei Lá, que o malandro nunca mais telefonou.

E as mulheres correm atrás deles como se houvesse racionamento. Nas horas vagas aprendem kizomba e dança do varão, porque Deus nos livre que uma mulher não saiba pendurar-se da cabeça para baixo; que homem é que casa com uma rapariga tão pouco prendada?

 Dizem-se muito feministas, muito desempoeiradas mas no segundo encontro, quando há segundo encontro (hurra! tragam os confetti!)  desdobram-se para lhes fazer um jantarinho à luz de velas e já estão a imaginar o Tomás, a Madalena e o Manel que vão ter olhos azuis como  o completo estranho que acabaram de trazer para casa depois de horas a tentar chamar-lhe a atenção no bar, enquanto ele olhava para o telemóvel e falava de gajas (sic) carros e futebol com os amigos, sem arredar pé. 

 Chamar-lhes geishas será pouco, porque as geishas eram pagas para cantar, dançar e fazer
 companhia - e fora preparar o chá, não mexiam um dedo em casa, nem apanhavam o metro ou filas de trânsito para se esfalfarem no escritório. Espertas, as preguiçosas das geishas, que não precisavam de andar meio despidas para dar nas vistas.

Depois, se finalmente invertem as Leis da Natureza desde que o Mundo é Mundo e arrastam um homem para a caverna- perdão, Quinta-das-couves-verdes, casamentos e baptizados, orçamentos grátis - cansadíssimas, esfalfadas de puxar pelos cabelos um marmanjo de 90 quilos a gritar que quer voltar para casa da mamã - e o obrigam a assentar com mil artes e manhas, vão todas contentes passear em público com um véu de tule cor de rosa e um símbolo de fertilidade de borracha super indecente na cabeça. Para um dia educar a futura Madalena no sentido de uma licenciatura, sim senhora, mas também de ler resmas de romances sensuais - e light, não vá a rapariga desencaminhar-se -  nas horas vagas, a ver se aprende. Assim, quando crescer  também usará uma coisa de borracha no alto da pinha, em público, e será felicitada por isso, acabando a festa com uma grande bebedeira e a mãe a impar de orgulho. Lindo.

Mas se o casório dá para o torto porque o rapaz se viu encurralado e não sabia em que Inferno se estava a meter, não há crise:  choram no ombro das amigas que as consolam com citações profundas do Pedro Chagas Freitas ou se o caso for mesmo preto, do Oysho ou do Paulo Coelho ( há que apelar para os milagres!) daquelas que dizem que se um homem não está interessado a persistência é a chave do sucesso - e a seguir, como é Dia da Mulher, vão todas festejar a libertação que as faz trabalhar o triplo e  em grupinhos, aos pulinhos no último sapatucho da Zara ver o Sei Lá

E como não podia deixar de ser, acabar a noite com uma grande bebedeira e uma maratona das 50 Shades of Grey ou pior ainda, da Anatomia de Grey, para gritarem da varanda que querem uma massagem dada por um homem bêbedo ou lá o que é (desculpem mas isto é demais para as minhas capacidades) mas que os homens são umas bestas que se aproveitam delas,  o inimigo, mas pronto, querem um homem na mesma para a massagem bêbeda - e os homens da vizinhança a chamar a polícia para mandar calar aquele bando de taradas, não necessariamente por esta ordem. Quando a Polícia chega, as malucas pensam que são os strippers vestidos de Polícia que tinham encomendado no auge da animação, ao som do Piri Piri Piradinha ou qualquer brejeirice assim.

 Minhas senhoras e minhas meninas: poupem-me.

Já eu, que não percebo nada disto? Celebrei o dia mais ou menos como celebro os outros se me apetecer,  comprando um vestido Ann Taylor que queria há imenso tempo, mais o Eugenia Grandet que estava na minha lista de livros a trazer para casa e é capaz de ser mais giro do que as 50 Faces. Também se sofre por amor e tudo, eu juro. E se calhar, Balzac escreveu  umas frases sobre as mulheres mais engraçadinhas e menos pretensiosas que também dão para partilhar no Facebook e não rebaixam quem as partilha a qualquer coisa pouco lisonjeira. Chatíssimo, diriam algumas mulheres. A essas, um bom dia. Às outras, que não precisam de efemérides, boa sorte.







Friday, March 7, 2014

Visto hoje: das peneiras, e da desconfiança cega



As peneiras literais estão num desuso cada vez maior; poucos lares ainda as utilizam. 

Já as de sentido figurado cada um tem as suas: há as péssimas (a afectação, o deslumbramento de quem está habituado a servir e mal dá um passo em frente trata de pisar quem o serve, ou o encher-se de vento por coisa nenhuma são exemplos de más peneiras) e as boas ( por vezes é benéfico ser-se demasiado peneirento para fazer certas coisas menos edificantes).

 Porém, ter uma peneira à frente dos olhos - que não tapa a luz, mas confunde a vista - é muito mau, porque impede as pessoas de ver a verdade diante do seu nariz.

 Há quem seja inseguro e desconfiado por natureza: desconfia da sombra, das pessoas que ama, do seu próprio julgamento. Se lhe dizem preto acreditam que é mas é branco, porque lhes parece demasiado bom para ser verdade segundo o medo, a escuridão, o ciúme ou o complexo de inferioridade que lhes vai na alma. Vêem perfídia e maroteira nas intenções mais honestas. 

Por muito que queiram agir bem, a peneira baralha tudo.

E como se não bastasse, ainda tratam de sujar a peneira contando aqui, ouvindo dali, recolhendo informações (quase sempre tendenciosas, mal intencionadas ou no mínimo, de quem está de fora e portanto, não sabe metade da missa) para confirmar os seus próprios receios, ter ombro para chorar, receber palmadinhas nas costas. 

Pessoas com uma peneira à frente não vêem pelos próprios olhos, não pensam pela sua cabeça, ouvem mais os mexericos dos infelizes e desocupados do que a própria consciência, o próprio instinto ou as palavras de quem lhes quer bem.

E depois queixam-se, como não podia deixar de ser.





Thursday, March 6, 2014

Não queria ter visto este filme. De todo.




Estava eu a tentar descansar no hotel após um dia a correr todas as capelinhas, quando tenho a *brilhante* ideia de ligar a televisão, a ver o que aparecia. E eis que começou este filme (imagem de cima) sobre este caso medonho (imagem de baixo) que fez correr rios de tinta nos Estados Unidos mas que eu desconhecia completamente.

 Resultado: não consegui parar de ver e depois fiquei tão indisposta que não dormi nada que se aproveitasse. 

 A história impressionou-me não só pela brutalidade do homicídio (porque é uma daquelas que acabam da pior maneira) mas pela relação totalmente disfuncional entre os protagonistas - prova provada de que qualquer um está sujeito a tropeçar num doido (ou neste caso concreto, numa louca varrida) mas também de que são precisos dois para dançar o tango.
 Long story short, Jodi Arias arrisca a pena de morte no Arizona por assassinar o ex namorado, Travis Alexander, com quase 30 facadas e um tiro, degolando-o a seguir - isto enquanto fotografava tudo. Limito-me a colocar aqui o último instantâneo do rapazinho, porque as imagens da cena do crime são mesmo chocantes.

Jodi e Travis mantiveram uma relação semi oficial - e acrescente-se, sobretudo física- durante cinco meses. Importa acrescentar que os dois se conheceram em Las Vegas numa conferência de um qualquer esquema de pirâmide, onde Travis era orador motivacional. Esquemas "enriqueça rápido" e seitas que tais são arrepiantes para começo de conversa, mas adiante. 

 A mocinha - carente, atiradiça, uma autêntica mulher da luta - tratou de tomar todas as iniciativas e mais algumas, fazendo aquilo que certas raparigas fazem quando estão desesperadas por alguém; quase sempre alguém que não está lá muito interessado nelas: era ela que telefonava, que guiava centenas de quilómetros para lhe suplicar uns minutos de atenção, que se auto intitulava "namorada" enquanto ele a escondia de toda a gente, que tentou mudar-se lá para casa, que não dava espaço nem respeitava o espaço dos outros, o costume.

Quanto a ele, mórmon convicto, usava Jodi, a-rapariga-que-estava-a-jeito, para fazer tudo o que um fariseu de gravata não deve fazer enquanto namoriscava as raparigas da igreja. Vendo isso, ela continuou a rebaixar-se e a anular-se completamente para agradar (ou marcar território): chegou a converter-se, seguia-o para toda a parte como um cãozinho fiel. O comportamento invasivo de Jodi não passou despercebido aos amigos dele e após uma cena de ciúmes da parte dela, foi cada um para seu lado.
 A rapariga, do tipo que não aceita um não como resposta e não percebe que mais vale ser desejada do que aborrecida, pensou então noutro plano: mudou-se para a cidade onde ele vivia (sinal de alarme) e tentava tudo para se cruzar com ele. Vendo-se rejeitada, entrou num frenesi de rasgar pneus, deixar ameaças, hackear a conta de e-mail dele, enfiar-se pela gateira para se esconder debaixo da árvore de Natal (facto) e tentar seduzi-lo a cada oportunidade.

 Qualquer pessoa sensata ficaria intimidada, mas Travis, que nunca se queria zangar com ninguém, que se achava um grande conquistador apesar de ser mórmon e que gostava da massagem ao ego da assustadora rapariga-tapete, deixou andar. Não a procurava, mas ia apreciando as atenções e enrolando. Os próprios amigos lhe diziam que ela frágil e que lá à sua maneira gostava mesmo dele; avisaram-no para não brincar com os sentimentos dela, não só porque isso era feio mas porque a jovem tinha um olhar que metia medo. Avisaram-na também a ela, recomendando-lhe que tivesse um bocadinho de dignidade. Nenhum deles quis ouvir.


 Finalmente, Travis aceitou - nota bene, aceitou - que ela, como estava sem emprego, passasse a limpar-lhe a casa: de namorada não oficial a criada/amiga colorida. 

Jodi adoptou então o pior comportamento que uma mulher pode ter: o amiguchismo. Sabem, quando uma ex namorada (o) finge que fica amiga (ou amiga com benefícios) do (a) ex , sem compromisso, na dolorosa e patética tentativa de o (a) reconquistar. Poucas coisas são mais tristes, mais desonestas de parte a parte ou conduzem tanto a cenas desagradáveis. Ela queria casar com ele, ele queria manter o caso em segredo e que ela se contentasse com a "amizade" que tinham combinado, enquanto ele assumia outras relações. Claro que ela se contentava tanto com amizade como ser freira.

. E num dia em que Jodi mostrou as suas verdadeiras intenções, que não queria ser amiga dele coisíssima nenhuma, foi tarde demais para recuar e o pobre teve um fim que ninguém merece. 

Sem - felizmente - chegar a tais extremos, vejo tantos casos de contornos parecidos, tanta gente a relacionar-se (ou a tentar relacionar-se) em moldes assim, que não sei se diga que o mundo está cheio de malucos, ou cheio de gente que engole muitos sapos e muito Valium. 

Com dignidade,  honestidade e o bom e velho decoro evitavam-se muitos dissabores, acho eu. Isso e fugir assim que uma pessoa dá mostras de precisar de...bom, tomar as gotas.







Máxima do dia: agitar as águas


"You can only fish for so long before you've gotta throw a stick of dynamite in the water"

Ouvi este sábio conselho na série Big Bang Theory, da qual sou uma grande fã - talvez porque tenho algo de nerd (rato de biblioteca toda a vida) e uma pitada de Penny (a rapariga com muita roupa e pouco espaço, capaz de grandes sacrifícios por umas botas vintage de camurça).

 Nunca pesquei na vida, se excluir a vez que em pequena quis, porque quis e quis um camaroeiro para andar nas rochas à cata de camaritas, lapas e burriés (rasgou-se rapidamente e não me compraram mais nenhum). Acho a pesca desportiva uma maçada e uma crueldade, mas subscrevo totalmente a parábola. Pescar à linha (ou com camaroeiro) é uma questão de paciência, de impassibilidade zen, de se fundir com o cenário para agarrar a oportunidade.

 E na vida, uma pessoa pode ter uma paciência de Job (eu) um sangue frio à prova de muita coisa (acuso-me) uma capacidade de adaptação genial e imensa tolerância às manias de cada um, ou à forma como as circunstâncias que nos ultrapassam são geridas.

 Em geral defendo que quando alguém se quer atirar a um poço é deixá-lo, porque impedir a asneira é quase impossível: quanto mais se tenta segurar o maluco pela roupa mais ele corre, no firme propósito de partir a cabeça e aborrecer os outros. 
 Se mais depressa agir à sua vontade mais depressa aprende, end of story. Foi o modus operandi da mãe do Sheldon neste episódio: esperar que a birra passe e que as coisas vão ao sítio normalmente...até ao basta.

E aí entra a estória do dinamite.

Em tudo na vida é preciso um basta,pum, basta; se as águas estagnaram e não se vê evolução  ser zen,  ficar tranquilo à espera que os peixes acabem o que estão a fazer, não resolve nada. Há que meter um bom terror aos peixes, por assim dizer. 

Por outro lado, às vezes o melhor dinamite é mesmo deixar as pessoas (ou as situações, ou as peixeiradas) baterem em cheio no poço. Depois disso, só se pode mesmo voltar para cima - e cria-se agitação suficiente para libertar a energia estagnada.
 
 

Wednesday, March 5, 2014

Sabem onde fica o triângulo das Bermudas, sabem?


É em Leiria. Sem ofensa, a sério. De cada vez que passo por aquela terra acontece algo com a sinalização que me faz perder horas esquecidas que ninguém me devolve, precioso combustível e paciência às voltas. 
Há qualquer coisa de estranho naquelas placas que faz com que eu não encontre a A1 nem por amor, nem com dinheiro. E acrescente-se que conheço relativamente bem a área. Deve haver ali um vórtex sobrenatural qualquer, resquício de algum fenómeno do Entroncamento empurrado pela brisa - e que adensa conforme a noite avança, imaginem o medinho - que embirra comigo e me confunde o *habitualmente apuradíssimo* sentido de orientação.
 Digo-vos isto do alto da sabedoria das minhas cruzes, massacradas de estar sentada tanto tempo. Como diria uma criatura que eu conheci, oh sorte.

Tuesday, March 4, 2014

Condessa de Gencé ensina: para as desesperadas.


"A caça ao marido, por parte da menina casadoira ou de sua mãe, é tão antipática como a caça ao dote por parte do homem (...).  As mães (...) devem dar às raparigas a maior soma possível de conhecimentos (...) que lhes imprimam individualidade, que lhes mostre quanto é humilhante a caça ao marido. Muitas e muitas mães, ao verem um rapaz falar com a filha (...) procuram por todos os meios facilitar a aproximação, convidando-o ou fazendo-o convidar (...) para todos os passeios. Este facto é deplorável.
 A rapariga deve abster-se, quanto possível, de supor enamorados dos seus encantos todos aqueles que com ela se demorem conversando."

                              Condessa de Gencé, Manual de Civilidade e Etiqueta, 1895


É impressionante como uma obra escrita em finais do sec. XIX tem tanto a ensinar actualmente. É que - embora menos formalmente, pela natureza aberta das relações sociais dos nossos dias -  continua a ver-se muito do descrito acima: entre mulheres desesperadas para caçar um marido,tratando cada potencial pretendente com um servilismo absurdo, raparigas dispostas às maiores abjecções para "conquistar" um homem, nem que o rapaz nunca tenha pensado em tal e familiares sem noção que tentam fazer arranjinhos ou "armar laços" com qualquer pretexto esfarrapado, a pobre "Condessa" (nom de plume; tanto quanto sei, o título era postiço) que escreveu o "Guia das Raparigas Casadoiras" muitos fanicos teria se cá viesse outra vez. 

 O mais curioso é que a autora - que fez a primeira tradução de "Pinóquio" de italiano para francês - recomendava às mulheres a instrução formal e a independência financeira como "remédio" para a falta de decoro e de modéstia, defendendo contra as regras do tempo que uma rapariga não  devia ser educada "para casar" nem receber somente conhecimentos "superficiais e frívolos, que servirão apenas para iludir aquele que tiver a desgraça de lhes cair no laço". 

No seu entender, a mulher devia sê-lo "em toda a nobre acepção desta palavra: cônscia dos seus deveres e dos seus direitos, apta para ganhar a vida, apta para ser a companheira do homem (...)".
 "Não faças do homem o objectivo da tua vida: estuda, aprende, para seres independente, para poderes escolher, livremente, o homem que deve ser companheiro da tua vida".

  Neste aspecto a Senhora bem se enganou: muitas mulheres receberam, se não educação, porque isso vem de casa e nada a fazer, pelo menos instrução; conseguiram uma certa independência, trabalham, mas continuam tão desmioladas e com tanta falta de dignidade como quando não tinham tantas opções. São instruídas, mas continuam a, como dizia Eça de Queiroz, "encher a cachimónia" de romances melosos - de Pedro Chagas Freitas a Margarida Rebelo Pinto passando pelas 50 Shades of Grey, temos a prova evidente de que a instrução, sozinha, dá nisto.

 E estamos pior ainda pois à carência febril que sempre foi apontada às mulheres, se soma a liberdade de costumes e uma "igualdade" que não ajuda ninguém. Que candura a da escritora, achar que o remédio estava nos compêndios...


Monday, March 3, 2014

Acabo de ver uma que só visto, mesmo.


Estava eu com o cursor para cima e para baixo nessa fonte inesgotável de disparates que é o Facebook, quando tropeço no feed do irmão mais novo de uma amiga, que tinha aprovado a selfie - e que selfie-  de uma desmiolada qualquer.

Então imaginem isto, já que por questões de privacidade não posso partilhar o instantâneo digníssimo de registo (e que se situava entre centenas de outras poses com crop tops reles, leggings, calções a mostrar as abundâncias, línguas de fora à Miley Cyrus, e pior ainda). 

 A mocinha entendeu que a melhor maneira de irritar o defunto, o falecido (Credo!) enfim, o ex,  era deitar-se na cama com um decote mais ou menos como o da imagem acima, colocar a câmara por baixo dos Himalaias que Deus lhe deu e fazer beicinho. Classy, sem dúvida... mas se fosse só por isso a alfinetada até podia resultar e só se estragava uma casa.

 Não, minha gente: o detalhe de mestre residia no ardil magistral da mensagem, na legenda que estava por baixo do retrato:  "Eu sorrio para ele ver o que perdeu".

 É que é mesmo assim que uma mulher mostra que se está nas tintas, feliz da vida, pronta para outra, etc. You go, girl! Ou o rapaz é burrinho de todo e precisa de um desenho para captar que perdeu uma grandessíssima cabeça de alho chocho ou então não percebo a técnica. 

 A julgar por isto, só posso recomendar cuidado: quem fizer as coisas com um mínimo de subtileza nos dias que correm arrisca-se a ser mal compreendido...





Há quem não precise do Entrudo para nada.


E porquê, digo eu que até costumo ser muito foliona? Simples. É que as criaturas que se insiram numa ou mais das categorias abaixo, ou seja que:

- São pantomineiras todo o ano;

- Andam por aí com umas carantonhas de meter medo ao mais afoito, mas acham-se lindas e com o direito de meter a narigueta em toda a parte;

- São autênticas matrafonas;

- Fazem de palhacitos nos outros 362 dias;

- Se vestem como se vivessem num permanente Carnaval do Rio;

- Agem como as meninas do bairro francês em Nova Orleães em pleno Mardi Gras...seja Natal, Páscoa ou Queima das Fitas (não ponho links, procurem por vossa conta e risco)

- Escondem mais artimanhas debaixo da capa do que um Medico della Peste no Carnaval de Veneza;

- Pregam partidas a toda a gente todos os dias da semana;

- São mais cabeçudas do que os cabeçudos e os gigantones de Torres Vedras todos juntos;

- Têm comportamentos endemoninhados, capazes de envergonhar os caretos de Podence e mais além...

...deviam estar dispensadas da canseira de arranjar uma indumentária e trajar-se a rigor. A sério, acho que o mínimo era descansarem de tanta palhaçada junta por três dias. O Carnaval não deve ter graça nem novidade para estas pobres pessoas. 


Sunday, March 2, 2014

Charlotte e Leopold: amantes condenados

                           

Ela era a Princesa bem amada de Gales, e destinada ao Trono do Reino Unido. Os ingleses, que antipatizavam com o seu pai, o futuro Rei George IV, e avô, George III, viam na bela e irrequieta Charlotte Augusta uma esperança para o futuro. 
 Depois de uma série de flirts inconsequentes, a princesa rebelde conheceu o deslumbrante - mas empobrecido -  Príncipe Leopold de Saxe-Coburg-Saalfeld, que viria a ser Rei da Bélgica

O primeiro encontro de Charlotte e Leopold

 Apaixonaram-se. Para casar com ele teve de romper o noivado com William, Príncipe de Orange, de enfrentar o pai furioso e mesmo de fugir de casa - com o apoio do resto da família e da opinião pública, que se enternecia com o romantismo da linda herdeira do Trono e com o tratamento rígido que o progenitor lhe dava.


                                   
 O sogro, no entanto, acabaria por ceder, impressionado pelas boas qualidades de Leopold e pela influência calmante que ele exercia em Charlotte. Perto dele ela mostrava-se serena, feliz e "vestia-se apenas com roupas discretas e de bom gosto". 



Quando via a noiva nos seus frenesis habituais, ele dizia-lhe apenas "doucement, cheri" (gentilmente, querida) e ela, para lhe agradar, moderava-se imediatamente. Por causa disso, Charlotte passou a tratá-lo por "meu doucement".

A alegria foi geral quando casaram, com grande pompa - a noiva levava um vestido de dez mil libras e o cortejo mal conseguia circular nas ruas, tantos eram os populares em festa. Dizem que a única gaffe aconteceu quando a princesa, sempre espontânea,  ouviu o noivo jurar na Igreja que lhe daria "todos os seus bens terrenos" e não pode conter o riso, pois sabia que o coitado estava completamente falido...

 Porém, nada disso impediu que fossem loucamente felizes, com Charlotte a declarar que nunca houvera princesa mais afortunada no casamento nem amante mais perfeito que Leopold.

Mas como em tantos casos de casais perfeitos, a felicidade seria breve: um ano depois a Princesa morreu de parto em 1817, deixando o marido destroçado e a nação tomada pelo desgosto. Tinha 21 anos e a sua morte prematura levaria a que, pelas sempre intrincadas regras de sucessão, mais tarde a incontornável Rainha Victoria nascesse e viesse a reinar...com Leopold, seu tio, por conselheiro.


Extravagância engenhosa do dia: botas que se...vestem.



Já vos contei que ando em busca de cuissardes perfeitas para completar a minha colecção. E é escusado repetir a quem me acompanha a minha implicância com leggings, essas coisas fininhas e mal amanhadas, mas a minha tolerância às recomendáveis riding pants, skinnies, jeggings e outras calças (calças!) de malha ou pele justas e indetectáveis.

Ora, já aqui se falou que uma das melhores e mais discretas formas de usar cuissardes - vulgo botas thigh high ou overknee extra compridas - é optar por umas legging boots

Funcionam como se fossem calças, não enrugam tanto e usadas sob um vestido ou saia curta, escondem tudo (evitando o efeito demasiado sexy). Também não "cortam" a figura, pois traçam uma linha única que alonga a silhueta. 

Ainda as vimos pouco: embora as botas longas tenham estado presentes na maioria das colecções de há dois anos para cá - se bem que ainda não tanto nas lojas -  Stella McCartney e Margiela foram as Casas que interpretaram o conceito de forma mais literal. Acredito que daqui a um ano haja abundância destes modelos por toda a parte, mas entretanto há que investir mais e procurar.

E no meio disso tudo, Tamara Mellon lembrou-se de uma invenção estranha, mas muitíssimo engenhosa: legging boots que se vestem, em vez de se calçar. Ou seja, usam-se exactamente como umas calças. Calças com pés e saltos altos q.b. Dão pelo bonito nome de Sweet Revenge boots e têm esgotado por toda a parte.

                                       

Parece uma esquisitice e a manutenção de uma peça destas há-de ter os seus quês, mas imaginem as vantagens (que só quem usa botas compridas percebe): não saem do lugar, não descaem, não precisam de collants por baixo.

Escusado será dizer que para estas botas se seguem as regras das outras:

- Levam um vestido ou saia por cima, ou é a desgraça na mesma;
- Há que usá-las com um casaco mais comprido, ou...idem.
- Tweeds, peças com aspecto colegial, XL ou masculino são essenciais para lhes dar o ar bem comportado que se pretende. 
- Precisa-se de uma figura para o esguio de modo a terem o ar certo. 

É que a intenção não é mesmo ser provocante, mas ter uma silhueta longa e sofisticada.....

Eu cá não sou de extravagâncias nem de usar coisas que dêem nas vistas, mas isto 
parece-me muito funcional. E tudo o que apela ao meu sentido prático tende a conquistar a minha simpatia.

Quer-me parecer que esta é uma engenhoca para a minha wish list. A considerar.






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