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Saturday, March 29, 2014

Preconceito ou sensatez?


Facto da vida: existem tantos modelos de roupa como tipos de silhueta. Mais do que nunca, hoje fabricam-se peças adequadas a toda a gente (pode ser complicado encontrar tamanhos muito pequenos ou muito grandes mas conhecendo bem as marcas, onde comprar o quê e tendo uma costureira capaz tudo se arranja). Porém, não há uma chave mestra, um modelo universal;  nem tudo fica bem a todas. Nem a mais esguia das it girls parece perfeita com toda e qualquer fatiota; tenho-o dito aqui vezes sem conta que mais do que o tamanho ou o peso, importa conhecer o tipo de corpo que se tem.

As mulheres mais elegantes - modelos, actrizes, ícones de moda - não dependem só dos seus dons naturais, de uma disciplina de beleza severa ou de toilettes luxuosas para brilhar. Todas elas sabem (ou pagam a quem sabe) exactamente o que as favorece e o que devem evitar. Usam apenas o que lhes cai maravilhosamente e deixam de parte o que assenta "assim assim".

Na minha modesta opinião, esse é um dos conselhos de estilo mais preciosos: pode-se variar e acompanhar as tendências, certo; mas sem nunca perder de vista as proporções, o fitting, a estrutura, os tecidos, a silhueta e os comprimentos mais lisonjeiros, rejeitando categoricamente os outros.

 Simplificando, cada uma deve abster-se de usar aquilo que não é ideal para si.  A roupa deve favorecer e adaptar-se a quem a  veste; não é quem veste que tem de se adaptar à roupa.

O que cai "mais ou menos" ou "não fica mal de todo" não faz falta nenhuma, por mais que seja bonito ou esteja na moda: lá dizia Coco Chanel, 

"Elegância é recusa".

Não lhe fica a matar? Evite, esconjure, venda, doe. O seu roupeiro agradece e o seu visual também!

  Mas actualmente - e vejo estas discussões a aparecer a toda a hora em certas publicações e blogs de moda internacionais - parece haver uma pressão generalizada para que se aplaudam as raparigas "plus size" que se "atrevam" a vestir coisas habitualmente consideradas impróprias para quem é mais gordinho. Ser "fashion victim"  - ou seja, usar o que está na berra mesmo que assente mal - está a deixar de ser apontado como negativo e é louvado como um acto de coragem, sob a bandeira "abaixo o body shaming" e "as raparigas rechonchudas podem usar tudo, até mini saias e crop tops, porque ninguém deve ter vergonha do próprio corpo". 

Foi o caso do visual acima, que gerou acesas discussões na página de Facebook do site Refinery 29 a propósito deste (assaz tendencioso) artigo. A actriz na imagem foi aplaudida pelo autor do texto porque, sendo "baixinha e cheiinha", com uma barriga menos perfeita, se atreveu a usar um crop top. Grande festa- as "rechonchudas" podem usar crop tops sim senhora, anunciaram deleitados. Uma leitora/blogger secundou logo o argumento, sugerindo este visual de fugir:


Pessoalmente, o look da actriz não me agride, mas era escusado ou podia, se tinha mesmo de ser, ter levado outra volta: é demasiado apertado, esborracha-lhe os braços e os ombros, não faz grande coisa por ela. Quanto à blogger em causa, é uma rapariga bonita - qual é a necessidade de expor precisamente as partes do corpo que devia disfarçar, de atropelar as proporções e de se pôr mais mal feita  do que é na realidade só para mostrar que "também pode"? O que é que a beleza ou a auto estima de alguém ganham com esta "democratização forçada"?

A meu ver, nada. Sou completamente a favor do regresso das curvas com classe, mas há maneiras de tanto as "curvilíneas magras" como as "curvilíneas rechonchudas" tirarem o maior partido das suas formas. As "rechonchudas" não podem (ou não devem) usar TUDO, tal como as magrinhas com mais ou menos curvas, ou as altas, ou as baixinhas, não podem ou não devem usar tudo o que os designers se lembram de inventar. Não se trata de "vergonha" ou de chamar gordo a ninguém; trata-se de não ser preciso vestir o que fica mal (ou menos bem) quando há tanto por onde escolher, só para combater um alegado preconceito ou para alinhar cegamente com a moda vulgar dos "grandes traseiros, grandes coxas e venha lá seu compadre que o que é abundante é para se ver" iniciada por Kardashians e companhia. 

 Quando se trata de estilo, como em tantas outras coisas, não convém que o politicamente correcto tolde o elementar bom senso e o sentido estético. Ou, como eu não mando nada, "vistam lá o que quiserem mas depois não se queixem".


Uma coisa pode ser perfeita e terrível ao mesmo tempo?


Pode pois!

E eu tenho a prova provada, irrefutável e inegável. 

Então não é que o Pingo Doce se lembrou de fazer uma coisa que eu à primeira vista tomei por pastéis de nata esturricados e que afinal se trata de...pastéis de nata com chocolate?

Passe a publicidade que eu não estou a ser paga de maneira nenhuma para dizer isto, muito menos - graças aos Céus - em guloseimas.

 Ora, eu cá não sou propriamente gulosa e tenho mais olhos que barriga, mas sofro de uma certa curiosidade quando vejo uma coisa nova. E dado que:

- Gosto de pastéis de nata, que além disso são (opinião confirmada por um médico meu amigo) dos doces menos nocivos que se podem comer, já que têm poucos hidratos de carbono (perfeito para quem prefere apostar nas proteínas, como eu);

- Doces com chocolate são, a par com os doces de ovos ou de amêndoa, dos poucos que me tentam;

- No fim de semana há sempre mais gente cá em casa e convém ter mais opções para o pequeno almoço...

 ...lá arrisquei, esperando que saíssem uma grande porcaria porque o que não falta para aí é bolo de chocolate que sabe a borracha. Qual quê! Há muito tempo que eu não experimentava um doce tão delicado. Uma delícia. Ou seja, são maravilhosos porque sabem bem e terríveis porque podem viciar.

 Como tenho a sorte de ser disciplinada (e de má raça) o caso não é grave, mas deixo aqui o aviso aos incautos: quem está de dieta ou perde o auto domínio perante "natas" ou chocolate, fuja de tal superfície comercial, ou vá vendado e a rezar para não cair em tentações dessas. Lavo daí as minhas mãos como Pilatos...

Friday, March 28, 2014

Danke schön , Herr Lagerfeld‏

                           
                         "Life is not a beauty contest, some [ugly people] are great. 
                                                What I hate is nasty, ugly people". 

Nem sempre o que o Kaiser diz bate certo com o que já afirmou antes (que diabo, um homem tem o direito a contradizer-se e só os obtusos nunca mudam de ideias) por vezes exagera, diz coisas que não cabem na cabeça de ninguém e fala sem necessidade, mas temos pena: ele tem génio, obra feita, provas dadas e espírito que chegue. Ele pode. E age de acordo, porque tem essa rara e preciosa característica de não precisar de aprovação.

"Be politically correct, but please don’t bother other people with conversation about being politically correct, because that’s the end of everything. You want to create boredom? Be politically correct in your conversation".

 Não precisa de ir com a carneirada,  pode muito bem borrifar-se para a cortesia aburguesada. Uma vez que Eça, Wilde, Byron, Baudelaire  e outros capazes de dizer umas verdades já não caminham entre nós, ao menos que se vão estimando os últimos moicanos. Há que guardar as suas citações e espalhar a palavra, porque em breve todos os opinion makers vão ser certinhos, fofinhos, politicamente correctos, saudáveis, "iguais ao comum dos mortais", supostamente acessíveis,  burguesinhos, postiços e chatos, dolorosamente chatos. Duvidam? É que já começou: Jennifer Lawrence, romances light, sumos detox logo pela manhã, Lena Dunham, publicidade da beleza real, filmes "românticos" baseados em obras do Nicholas Sparks: mediocridade, chatice, "ugly is the new pretty", inclusão a martelo, tudo muito democrático, tudo muito child-friendly, tudo muito tupperware.

Eu cá vou aproveitar enquanto dura, armazenar enquanto há, para preservar o testemunho de quando a humanidade era normal - cometia pequenos excessos com classe, não se ralava de dizer o que pensava, de ser desconcertante (mas sem esforço; não há nada pior do que o attention whoring). Vou preservar o conhecimento precioso da nossa civilização, leia-se, como ele era antes do 11 de Setembro que deixou toda a gente paranóica, antes da crise, antes da UE, do exagero das leis anti fumo, anti sal, anti açúcar, anti glucose,  anti sabor, do acordo ortográfico, da mania da saúde, das crianças serem obrigadas a  andar de cadeirinha no carro até à puberdade, da ASAE, de se descobrirem os supostos podres  no mundo da moda e começarem campanhas contra a beleza artificial e o photoshop, antes dos romances  que até para a Harlequin são maus passarem a ser confundidos com leitura respeitável, antes do Facebook.
 Por vezes não tenho paciência para os excêntricos - mas por favor, tolero mil vezes melhor um excêntrico que sabe rir de si mesmo do que uma pessoa convencional, terrivelmente consensual, maçadorazinha. Até porque só é excêntrico quem pode, e só os excêntricos  a sério têm audiência- os palhacitos com pretensões a ficam normalmente na obscuridade, e ninguém faz citações deles. Danke schön , Herr Lagerfeld.

      "Everything I say is a joke. I am a joke myself".

Thursday, March 27, 2014

Kizomba? Estão a fazer pouco de mim, está visto.


Sabem aqueles momentos em que sentem que o Mundo está contra vocês e mortinho por vos apanhar?
 Bom, foi o que senti de manhã ao receber esta granada na minha caixa de email, enviada por um desses sites de "experiências" com desconto que obviamente não fazem segmentação de espécie nenhuma. Mandar-me isto, a mim? Ainda dizem que os nossos gostos e preferências são vendidos a bases de dados de comportamento do consumidor-tretas.

Então vamos lá ver: o número de almas neste país que se dedica às kizombadas -  geralmente ataviadas com o aparato aqui descrito (vulgo nail art de meio metro com brilhinhos, leggings de lycra, tops de spandex baratinhos, bandage dresses do chinês a mostrar derrièrres XXL, coxas grossas e piercings em barrigas rechonchudinhas, gel no cabelo ou espuma efeito molhado em madeixas ranhosas ou pintadas de preto graxa no Salão Tilita Glamour, nails e extensões do subúrbio social, rabos de cavalo à ghetto a "disfarçar" o cabelo oleoso e outros tiques de gente muito respeitável que se dedica a dar sopapos em bêbedos,  puxar ferros em ginásios duvidosos, partilhar retratos estilo anúncio do Correio da Manhã e receber centenas de likes de trogloditas que gostam de ver mulheres rubicundas em trapos de poliéster reduzidos,  ir para a bailação enquanto deixa "a menina" com os avós porque o companheiro/pai da criança deu à sola e foi para França onde se envolveu com uma alternadeira de Terras de Vera Cruz para não mais ser visto e disputar os amplexos "gostosos" (blheeeeeeeec, morri) da Silvana, da Suzi, do Rúben ou do Carlão lá no ginásio num enredo de Dirty Dancing barato, e olhem que os bailarinos do mítico filme já eram gente reles que chegasse...por alguma razão o pai da Baby não a queria tão mal acompanhada) é tal que justifica um FESTIVAL DE KIZOMBA. 

De resto, e porque não quero ofender as honradas pessoas africanas que por aqui passam,  recordo que a maior parte dos angolanos que conheço, que são alguns e tudo gente de família que se recomende, juram aos pés juntos que a kizomba verdadeira não tem nada a ver com a pornochanchada que se convencionou por cá -  desculpa para habitués de "estúdios de dança" e danceterias de beira de estrada partilharem entusiasticamente os eflúvios das suas fatiotas sintéticas e para se agarrarem  (para não usar um verbo mais expressivo, que isto a baixaria não pode ser contagiosa) uns aos outros freneticamente, divulgando depois o enlevo nas redes sociais com legendas poéticas como "a dança fala mais alto...salsa e pimenta e merengue". BLHEC!

Depois de ir buscar um saquito de papel a ver se parava de hiperventilar com a afronta (uma coisa é inventarem festas da selva desse calibre e irem desconchavar o pobre do Campo Pequeno, outra é terem a lata de o anunciar no email de gente sossegada) e de fazer todos os exercícios de meditação que me lembrei a  ver se realinhava os meus ultrajados chakras...acho que chegou o momento de arrumar as malas e retirar-me para um sítio onde não seja incomodada. É melhor que um Bom Samaritano me empreste um bunker depressa porque o trash está por todo o lado; daqui a nada kizombam até minha casa e eu, que nunca tive medo de nada, acho que não tenho poder de encaixe (nem munições de ovos e tomates podres suficientes) para fazer frente a isto. Se tudo correr sem baixas, passarei a escrever-vos bem calafetada, até que a ameaça passe. Estais prevenidos e esclarecidos, pois eu não quero que andem para aí a dizer "a Sissi ensandeceu e fechou-se num abrigo anti atómico sem motivo aparente".

Wednesday, March 26, 2014

Alguém acuda aos norte-coreanos, pelas alminhas.




É que não há direito que um povo seja tão martirizado. Para começar, vivem num inferno comunista - e eu que em pequenina tinha a mania de deitar a mão a livros e revistas sobre a Guerra Fria e assuntos semelhantes ganhei uma fobia a isso que não imaginam; creio mesmo que não pode haver destino pior. Recordo-me de adormecer a chorar por ter lido a história de uma menina chinesa que tinha sido retirada aos pais, ambos professores, e que não lhes podia falar quando os via no campo, de enxada na mão de manhã à noite para serem "reeducados".

Lembro-me sempre dos Romanovs assassinados, dos palácios expropriados e vandalizados, do Dr. Zhivago com a sua linda casa invadida por revolucionários a dizer "olhem para isto! Cabiam aqui não sei quantas famílias!" (Credo- se me entrassem casa dentro e pusessem gente que eu não conhecia de lado nenhum a morar comigo, mais valia fuzilarem-me logo) do Mao que punia as pessoas por olharem de soslaio para o seu reflexo numa montra ou por gostarem de estar sozinhas (de novo, mais valia limparem-me imediatamente o sarampo) e que obrigava toda a gente a ser camponesa, ou a fingir que produzia um porco de 500 kg que na realidade era um porco de papelão mas toda a gente fingia que acreditava, etc, etc, etc.

Podem vir com os argumentos que quiserem: que em Cuba a educação é excelente (serve-lhes de muito) que na ex URSS as pessoas tinham férias grátis em ex-estâncias paradisíacas transformadas em colónias de recreio para o povo, tudo muito lindo: a verdade é que nunca se viu alguém a tentar saltar o muro de Berlim para passar para o lado Oriental, certo? Que me lembre não, e olhem que fui confirmar e tudo. I rest my case.

Além de ser impensável para mim uma ideologia que nivela tudo por baixo e que se baseia na invejinha pura e dura ("ódio de classe" diz tudo, e mais nada) sempre achei que noutra ditadura qualquer ainda se vai vivendo desde que uma pessoa não se envolva em política, mas numa ditadura comunista, nada a fazer: os sacanas intrometem-se em tudo. Todos têm de "ir com o povo", "fazer a revolução" (mas quando é que a revolução acaba? será como as obras de Santa Engrácia? E em última análise, quem é o povo e o que é exactamente a revolução?) dedicar-se a actividades colectivas com grande alegria (ou seja, nada de momentos de introversão nem instantes anti -sociais daqueles que eu aprecio tanto) nada de família, romance,  roupas bonitas, nada de liberdades individuais, nada de confortos nem de luxos nem livre pensamento ou espiritualidade. Com a excepção das paradas é a morte de tudo o que é bonito, e eu abomino coisas feias.

E na Coreia do Norte pior um bocadinho, já que todos têm de fingir que adoram um líder lindo como o sol, com cara de bolacha e mau como as cobras. 

 Ora, parece que a última invenção desse menino para torturar um pouco mais as pobres pessoas que não pediram para nascer ali foi decretar que todos os homens têm de usar o seu fabuloso e único penteado à Jersey Shore. Nada de revolucionário, passe o trocadilho: os infelizes só podem, actualmente, escolher entre uma vintena de penteados seleccionados pelo regime - cada um mais parolo que o outro, acrescente-se. Urge mandar uns stylists competentes àquelas pobres almas.


 Mas que o líder se queira impor como it boy, como ícone de estilo (quem não arranca elogios espontâneos gaba-se a si próprio, já se sabe) e obrigue todo um país a copiar os seus fashion faux pas, já é abuso. Trata-se aqui de obrigar inocentes a ter mau gosto - e isso é criminoso.

A grande dúvida é como é que os carecas vão conseguir esse efeito escova de arame, mas nada que não se resolva com uns capachinhos aprovados pelo glorioso Partido.

Tratando-se de notícias dessas paragens é tudo tão exótico, tão estrambólico que uma pessoa toma sempre as coisas com um grão de sal, mas maluco para isso é o menino Kim ele e para muito mais.

 Quando pessoas feias de meter medo não têm espelhos em casa, metem na cabeça que são lindas e arranjam quem lhes apare as manias, dá nisto.

Lupita é cá das minhas.

Lupita Nyong´o, o mais recente ai -Jesus das passadeiras encarnadas - e da indústria de moda- conseguiu o raro feito de ser constantemente elogiada pelo visual nas suas aparições públicas-  o que, adicionado a uma prestação de sucesso, é actualmente a fórmula mais rápida para o estrelato. 

 Quem quiser começar uma carreira fulgurante mas de forma respeitável, o melhor que tem a fazer é vestir muito, muito bem, e ter um estilo original que seja reproduzido e comentado até à exaustão nas publicações online de moda e nas redes sociais.

 Se a isso se juntar uma carinha de boneca e boa figura zás, nasceu uma estrela. Espero que a simpática actriz consiga manter uma carreira à altura das expectativas criadas (eu cá desconfio sempre de óscares prematuros) mas no quesito elegância, eu arriscaria dizer que é uma das responsáveis por devolver um certo glamour às red carpets, às red carpets americanas pelo menos, que andavam muito sem graça com vestido após vestido de cai cai em tom nude. Nada contra o nude, adoro-o e sou toda pela discrição e romantismo dos tons pálidos, mas o que é em excesso cansa. 

 Ora, Lupita parece dominar invulgarmente bem uma das minhas técnicas preferidas: formatos clássicos (que nunca desiludem) em cores ricas. Pessoalmente, não vario muito nos modelos: prefiro aqueles que já sei que me favorecem e que são mais confortáveis para a minha silhueta (como os sheath dresses, os espartilhados, linhas de deusa grega, as saias balão ou lápis, os decotes amplos, etc, tudo com alguma estrutura). 

E uma vez que também sou muito esquisitinha com padrões e aplicações  (há desenhos e bordados maravilhosos, mas é preciso escolhê-los criteriosamente, sempre em bons tecidos, porque podem poluir o visual e dar mau ar, má cara ou dor de cabeça, sendo uma opção mais trabalhosa e arriscada) a minha primeira escolha quando quero fugir ao imprescindível preto é quase sempre uma cor só, uma cor de jóia, num material de excelente qualidade. Pode ser mais viva ou mais suave, mas uma cor vibrante (principalmente quando se tem uma pele muito clara, como eu, ou muito escura, como a actriz) é meio caminho andado para iluminar o rosto e brilhar sem muito esforço. Verde água, amarelo, tangerina, topázio, esmeralda, safira, camélia, azul-real, azul pó, púrpura, turquesa, verde jade, rubi ou mesmo tons improváveis como o antracite ou o pérola (realçado por um bâton vivo) tornam um vestido único, memorável, atraem os olhares e dispensam grandes jóias. 
  
Claro está que quanto mais colorido o vestido, melhor qualidade deve ter - porque há coisas que só o preto disfarça. Um vestido em tons vivos que pareça perfeito é porque é realmente uma obra prima. Por isso, os modelos de Lupita brilham quase sem ajuda- só ela, alfaiataria impecável, uma cara bonita e um bocadinho de maquilhagem. Less is more.

Tuesday, March 25, 2014

A propósito da embirração do dia: cada qual no seu lugar.


E pronto, a Kim (ou como o meu irmão lhe chama, a Kardashona) e seu partenaire lá conseguiram o objectivo de deitar a Vogue abaixo, aliás, de fazer a capa da Vogue americana. Sobre o ultraje que está a fazer correr rios de tinta e a virar do avesso blogosfera, redes sociais e afins (e a fazer seguidores de longa data cancelar assinaturas em catadupa) eu já disse o que tinha a dizer. Reforço apenas que descreio para sempre de Anna Wintour - como é que uma mulher tão inteligente, com classe a rodos, tão bem nascida, tão tudo se rebaixa a isto... ultrapassa-me. Não há controvérsia, não há "discussão sobre os novos paradigmas dos média e os novos ícones" que justifique um trambolhão destes ou, para falar em bom português, uma barracada destas. 
 Enfim, uma revista que ainda hoje chamou ícone de moda a Rihanna no Facebook só pode estar desarranjada e mal governada. Valha-nos que há outras edições da Vogue bem mais sensatas (como a espanhola e a italiana) e outras publicações respeitáveis que podemos continuar a ler sem corar. 
 É o que digo sempre: isto de ser muito tolerante, muito inclusivo, muito moralmente elástico e de não julgar ninguém (coitadinha da menina, só ficou famosa à conta de um vídeo indecente, que mal é que isso tem?) descamba invariavelmente em relaxaria. E vai-se por aí abaixo. 

É o que temos - embora haja certos redutos e certos sítios onde ainda não cabe toda a gente. Nisso, há que tirar o chapéu aos britânicos, que não se acanham de barrar a entrada a "famosas" deste gabarito em determinadas circunstâncias por muito que se diga que isso é de um elitismo atroz, de um snobismo politicamente incorrecto: sem desculpas. Não corresponde aos padrões da marca, organização ou revista? É persona non grata e caso arrumado.

Mas para isso, é preciso firmeza.

 Este disparate corresponde vagamente a um péssimo hábito doméstico que anda para aí: o de chamar "princesa" e "príncipes" a tudo nas redes sociais, especialmente a pessoas que nada têm de principesco. Uma criança super malcriada? Ai, a minha princesa. Namorados mal enjorcados a caminho de uma festa da associação recreativa e desportiva de Rabanetes de Cima? Que príncipes!   A sério, moderem lá o entusiasmo. Como diria um grande filósofo que eu bem conheço, "se chama princesa a isto é porque nunca conheceu nenhuma". E assim se vai banalizando tudo, miserável e insuportavelmente...



Penteados que não são para meninas.


Embora eu leve as rotinas de beleza a sério, tenho os meus calcanhares de Aquiles. A maquilhagem guarda poucos segredos para mim e desembaraço-me bastante bem a tratar/ esticar/encaracolar o cabelo (o que, considerando que mais coisa menos coisa é o que uso quase sempre, supre a maior parte das minhas necessidades). Mas quando toca a grandes manicures (não porque seja totalmente desprovida de jeito, mas porque não gosto muito e tenho zero paciência) e penteados apanhados, o caso muda de figura.

 No caso das unhas, ainda ando a tentar entender-me com um desgraçado de um forninho que o Menino Jesus me trouxe num momento  odeio unhas de gel mas não digo que não a um verniz que dura dez dias sem chatices para quando me apetece e sem pôr os pés num salão de nails, Credo, Vade Retro

E quanto aos penteados...bom, digamos que à parte uns totós com esta maquineta, tranças e uns truques com aquelas almofadinhas para tufar o cabelo à Brigitte Bardot... não sou grande artista, não. Primeiro porque prefiro o cabelo solto, ou quase; depois porque isso é daquelas coisas para as quais eu, a menina do-it-yourself, preciso mesmo da ajuda de uma amiga habilidosa, de uma cabeleireira inspirada ou - num cenário perfeito - de uma criada de quarto à antiga, pronta para tudo.

Mas as aias são um luxo nos dias que correm; ainda por cima, na semana passada veio-me parar às mãos o vestido de cerimónia mais fabuloso que vi em muito tempo (couture, vintage, perfeito de cortar a respiração, digno de um retrato de Madame X). 

E ao experimentá-lo (perfeito, perfeito, perfeito) percebi que ficava melhor ainda com um penteado que destapasse ligeiramente o pescoço. 

Por vezes é preciso um vestido especial para nos sacudir os paradigmas.

Ora, eu já me conheço e sei que quando vou a algum lado a correria é tanta que dificilmente sobra tempo para cabeleireiros, a não ser que haja um stylist de plantão para acudir às senhoras no local do evento (um bom hábito de outros tempos que vai sendo cada vez mais raro). E se se desmancha? Lá fica o visual estragado. Mal ou bem, prefiro saber como se faz.

E então lembrei-me dos tutoriais de penteados que algumas das minhas publicações online preferidas andam sempre a tentar impingir-me, e cujas sugestões nunca são tão fáceis nem tão rápidas como parecem, mas pronto. Agora é ponto de honra, hei-de aprender a fazer uns quantos. Entre mortos e feridos, hei-de encontrar uns ou outros tão fáceis que até eu seja capaz de fazer.  Afinal, se tenho o cabelo tão comprido para alguma coisa há-de ser, não é? E nem sempre nem nunca, às vezes é bom variar. A ver vamos se me sai alguma coisa que não pareça completamente despenteada.





Cuidado, muito cuidado... com Pessoas-Nabo.



Há quem diga que eu tenho a mania de estereotipar o meu semelhante - acusação que além de ser parva, não me podia ralar menos. Prefiro o termo classificar, etiquetar ou engavetar.

Primeiro, porque não há necessariamente algo de insultuoso ou mal intencionado em traçar o perfil às pessoas com base em meia dúzia de indícios que de resto, raramente me enganam; segundo, porque isso se prova quase sempre muito útil; e terceiro, porque tenho tanta culpa de ser observadora como os outros de oferecerem estudos antropológicos com pernas a quem passa. Por fim, como a maioria das pessoas não sabe se eu as classifico assim ou assado - e se calhar, sabendo, se estaria bem marimbando para o que penso ou deixo de pensar delas- uma vez que eu não ando por aí a ofendê-las e a insultá-las na cara (o que não faz de todo o meu estilo) não vem daí mal ao Mundo.

 Se eu espontaneamente exerço as minhas habilidades, mais ou menos bem apanhadas, de profiler em relação aos outros, os outros só têm a exercer o seu direito de (desde que lá com os seus botões e sem me incomodar) me julgarem por sua vez, de me categorizarem como acharem melhor ou de escreverem nos seus blogs posts a troçar das pessoas como eu, que isto da Democracia e de cada um pensar como entende tem estas vantagens.
 É esta liberdade maravilhosa que me permite, num Estado de Direito (olhó palavrão) fazer pouco, aliás, estudar respeitosamente, seres tão exóticos e fascinantes como o Homem Tofu, a Mulher da Luta, a Pessoa Míssil, a Pessoa Coca Cola ou...a Pessoa-Nabo.

 E o que vem a ser a Pessoa-Nabo, perguntam vocês a ver que vem aí mais um disparate dos meus?

Bom, é tal qual o nome indica: um nabo, insulto que o povo convencionou atribuir a quem não adianta grande coisa, não tem grande préstimo; isto porque o legume, apesar de útil (e bastante nutritivo, pouco calórico, rico em cálcio e celulose e excelente para substituir as batatas que fazem sono e engordam) era de fácil cultivo e não tinha propriamente grande sabor. Além disso, demora imenso a arrefecer, daí o ditado caldo de nabos foi pelo rio abaixo três dias e ainda foi escaldar o diabo. Os fidalgos e os ricos evitavam-no pela sua banalidade e os camponeses, se tivessem outra coisa para comer, preferiam dá-lo à criação.

Pessoas nabo são exactamente assim: lá terão a sua missão na vida porque todos somos filhos de Deus, mas não se percebe bem como são ou o que querem; não se explicam, são uns atrasos de vida e uns empatas, uns Timex que não atrasam nem adiantam. Tal como os nabos, servem de base para qualquer coisa mas não completam nada do que começam. Imaginem uma sopa feita só de nabos - ficava uma porcaria. Uma relação ou negócio com uma Pessoa-Nabo é a mesma coisa: o seu valor é nulo e a experiência nada tem de agradável.  Sabem aqueles indivíduos que marcam um jantar, convidam uma data de pessoas e na véspera não ligam a confirmar e desaparecem, deixando toda a gente pendurada? Pessoas Nabo.

 Ou aquelas que fazem os outros perder tempo em reuniões para um projecto qualquer, depois mudam de ideias e não avisam, nem atendem o telefone? Pimba, Pessoas Nabo. Ou ainda os que clamam aos quatro ventos gosto tanto de ti, entram e saem da vida dos outros conforme lhes apetece, interferem, metem o nariz onde não são chamadas,  prometem mundos e fundos mas depois nunca se vê nada em concreto? Nabos dos grandes.

 E qualquer Pessoa Nabo, além de ser irritante como tudo, tem o potencial para provocar grandes escaldões a quem, metaforicamente falando, lhes der uma dentadinha.

 Claro que dentro do maravilhoso mundo das Pessoas-Nabo há subtipos: os que são uma desgraça tão grande que nem chegam ao estatuto de Nabiça (geralmente menos perigosos, porque não enganam ninguém, coitados) e ainda os que têm pretensão a Rabanete, que é o parente bem do Nabo. Uma espécie de Nabo de classe alta, que sabe praticamente ao mesmo mas é cheio de peneiras e caríssimo não se percebe porquê -  só por ser fofinho, bonitinho, porque dá para comer cru (o que fica lindamente em saladas e pratos gourmet) mas na prática, pouco mais faz do que enfeitar. Toda a gente acha os Rabanetes muito engraçados, mas quem é que efectivamente consome tal coisa?

 E com gente Nabo, Nabiça ou Rabanete, a atitude deve ser precisamente essa- um convívio moderado, ocasional, estilo conheço-te mas não quero cá proximidades. Lá dizia a minha avozinha que só gostava daquilo que dava resultado, e é bem verdade...




Sunday, March 23, 2014

Uma festa com História (s)


Tendo em conta que por aqui se fala muito de História, com todas as estórias e curiosos episódios que daí advêm; que esta menina que vos escreve é uma aficionada da matéria e só não se dedicou a ela a tempo inteiro (ex aequo com Antropologia) porque a família achou que esse era um percurso enfim, menos sensato para quem gosta de certos confortos e de saber com que linhas se cose (e com alguma razão, convenhamos: penar por bolsas de de investigação, torrar ao sol em escavações, vender a alma para deitar mão a arquivos poeirentos e correr o risco de ser desterrada para Vale de Nenhures, na sagrada missão de ensinar História a meninos que "não querem saber disso porque já lá vai há muito tempo e assim como assim já não vão conhecer ninguém daquela gente" não corresponde, de facto, à minha ideia romântica do tema, ao melhor estilo Indiana Jones) enfim, pesando tudo isso, fiquei muito contente com o convite do Canal História para celebrar o seu 15º aniversário.



 Para assinalar a data a organização recriou, no Hotel Ritz Four Seasons, o mítico Black and White Ball de Truman Capote - festa que, em 1966, foi considerada "o auge da história social americana", e...granjeou ao autor um número considerável de inimigos, já que as personalidades que não entraram na lista nunca lhe perdoaram. Diz-se mesmo que quem não foi convidado se sentiu na obrigação de sair de Nova Iorque durante uns tempos, para fugir à desfeita. 

 O sucesso do baile de máscaras, onde todas as senhoras e cavalheiros
vestiram de preto e/ou branco (Capote inspirou-se na cena de Ascot, de "My Fair Lady", para traçar o dress code)  foi tal que de tempos a tempos, o evento é recriado. 

E em Lisboa não foi diferente: a festa reuniu convidados ligados à História e aos Museus, assim como personalidades do mundo do espectáculo, da moda, da blogosfera, da melhor sociedade e da imprensa. 
  Quanto a mim, iniciei o serão com um jantar numa sala também ela cheia de História. Como a versão lisboeta do Baile pedia um traje um bocadinho mais descontraído do que o original e o minimalismo está de volta, optei por um cocktail dress espartilhado de estimação (Mango com cara de Dolce& Gabbanna, amor à primeira vista) uma clutch bordada a contas  que já era antiga no tempo de Truman Capote (tinha de usar algo branco, certo?) um bolero de veludo também vintage e sapatos Pollini - arruinei-lhes as capas com tanta animação, mas lá dizem os americanos, "se não deste cabo dos sapatos, é porque a festa não valeu a pena". Enough said. 

Deu-me para ser bebé, agora... querem ver? (Das mantinhas)


Cada um tem as suas manias, mas arrisco-me a dizer que poucas coisas encerram tantas particularidades como a maneira individual de dormir. Para essa função tão natural, tão inevitável e comum desde que o mundo é mundo, o ser humano reserva-se as maiores esquisitices. Uns só dormem de janela aberta, outros precisam da ajuda de soporíferos, outros têm de descansar com a cabeça voltada para uma direcção qualquer - podia mesmo falar-vos de uma actriz muito conhecida da nossa praça, não digo nomes porque sou uma pessoa do mais discreto que há e era só o que faltava, que depois de uma festa se virou para os presentes com o ar mais desamparado deste mundo e se mostrou muito espantada por o manager encarregado da organização do evento não lhe ter designado companheira de quarto para essa noite, tendo-lhe sido reservado um quarto single.

Entreolhámo-nos todos e ninguém pensou mais no caso até à manhã seguinte - quando se percebeu que nada havia de pouco decente ou excêntrico no estranho pedido da menina. Tratava-se apenas de um medo horrível do escuro - o que a obrigava  a deslocar-se sempre com dama de companhia (ou a desencantar uma onde fosse possível) fazendo de cada passeio uma festa do pijama. A gaffe da produção teve como resultado a pobre coitada não pregar olho.

Há mesmo quem fique angustiado antes de viajar, porque não consegue conciliar o sono sem ser na sua própria cama, o que sempre me pareceu esquisitíssimo porque poucas coisas são tão agradáveis como as almofadas e os lençóis de um bom hotel, tornados mais macios por tanta lavagem industrial. Se forem de algodãozinho egípcio melhor ainda mas a novidade, a cama pensada e feita por profissionais e o simples facto de estar num sítio diferente - e geralmente com a perspectiva de alguma coisa divertida para o dia seguinte - são mais que suficientes, a meu ver, para convidar a um sono reparador.

Isto SE - e tinha de haver aqui um "se", estava-se mesmo a ver - a cama incluir uma colcha bem fofinha mas mais do que fofinha, espessa e pesada, daquelas de deixar uma pessoa presa lá debaixo. Pronto, aqui está a minha esquisitice. Não tenho problemas se o colchão ou o quarto é mais assim ou mais assado, por uma vez está tudo bem, mas se as mantas forem leves (independentemente da temperatura que estiver) não sou capaz de dormir decentemente. A minha ideia de sono reparador é fazer de mim própria um crepe ou uma múmia. Posso estar a cair de sono - de carro, de comboio, de avião - mas se não me puder embrulhar em alguma coisa, e de tecido consistente, prefiro fazer directa.

Eu explico: é que quando eu era pequena a minha avozinha, sempre com medo das constipações, atabafava-nos ( a mim e às minhas primas) com quantos cobertores havia, e punha mais duas ou três mantas de algodão por cima, rematando o trabalho com uma deliciosa colcha de retalhos, sem se esquecer de "trancar" a cama com não sei quantas almofadas e travesseiros. Sempre que fazíamos sleep overs lá em casa, dormíamos nesta espécie de fortaleza. E eu que não era menina de sestas dormia que nem um anjinho, para terror da mãe que achava que íamos mas era morrer sufocadas. Ficou a mania e em parte por isso, em parte porque gosto de colchas vintage decorativas, já tenho uma bela colecção de cobertas-cobertor em veludo, cetim e pêlo à moda de Dorian Gray, daquelas em cores delicadas e padrões que aparecem nas obras- primas italianas, espalhadas pelo chão:



"As the door closed, Dorian put the key in his pocket and looked round the room. His eye fell on a large, purple satin coverlet heavily embroidered with gold, a splendid piece of late seventeenth-century Venetian work that his grandfather had found in a convent near Bologna (...)"


 Oscar Wilde, Picture of Dorian Gray, cap. X


 E à medida que os hábitos se vão solidificando, já dei por mim a recomendar mantas extra à recepção quando vou a alguma parte. Pelo andar da carruagem, porque não há que fiar nas roupas de cama super leves dos hotéis climatizados, tenho de começar a fazer como os bebés e andar por aí com a minha própria mantinha. Há quem carregue peluches, a mim dá-me para isto. Enfim, o ridículo de cada um é o ridículo de cada um, direito inalienável e inatacável...


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