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Saturday, April 5, 2014

Jeans Fora da Lei.

A cada estação, acontece o mesmo: limpeza e reorganização da minha sempre super populosa estante dos jeans. Desta feita, porém, há pouco que retirar...e muito que priorizar, porque o denim virá em todas as lavagens, cores, formatos, modelos e feitios que podemos alternar com os adorados skinny. Os coitadinhos também merecem descanso!


Não só falo de denim em tudo (camisas oxford, vestidos, saias lápis ou rodadas, calções, coletes, jumpsuits, jardineiras, vestidos, casacos, sandálias (nunca fui grande fã de calçado de ganga, mas mesmo assim não escapei a um par ou dois) casacos e sabe-se lá as outras hipóteses que a gente desconhece.



 A vasta escolha inclui boyfriend jeans ou os mais "maneirinhos"girlfriend jeans, distressed denim ( leia-se, "calças rasgadas"), as lavagens ácidas que viram mesmo para ficar, culottes, calças flare (ok, essas nunca foram realmente embora)  bocas de sino extravagantes que há anos não davam um ar da sua graça, e pior (ou melhor, conforme a perspectiva) a ganga bordada ou desenhada: os chamados Vogue jeans com aplicações ou patchwork.
 E até a rapariga mais clássica (eu!) que há muito já sabe os jeans a usar e as extravagâncias que mais vale evitar, a menina que prefere limitar-se aos skinny e seus parentes para o dia a dia, flare para variar porque o look Jane Birkin nunca amargou, classic jeans e sempre que possível cinturas subidas,  tudo muito escuro ou claro e sem maluquices - com a concessão de vá lá, de vez em quando, uma lavagem ácida, porque é tão vintage e uma mulher não é de ferro...até essa rapariga de gosto ultra organizado fica na dúvida. 




 Ceder à ânsia da estratégia rigorosa, à obsessão costumeira de um visual depurado e
 livrar-se de todos os jeans floridos ou convertidos em peças "diferentes"... ou divertir-se um pouco?

     Sou-vos sincera - com os meus gostos, não iria comprar gangas enfeitadas ou extravagantes de propósito: mas havendo exemplares em casa, fruto de experiências científicas e aventuras sartoriais agora encaixotadas, poderá querer-se, sem medos, dar-lhes uma nova volta - acompanhados de scarpins e um belo casaco, porque não?






 Aconselha-se encontrar um ponto de equilíbrio entre o nosso estilo habitual, as linhas /cores e opções que nos ficam melhor; apostar na qualidade e naquelas peças para as quais temos a desculpa "não resisti"- sendo que essas se devem limitar a quatro ou cinco, no máximo.

 Entendamos aqui um "bem prega Frei Tomás" porque nestas coisas a tentação é sempre grande. Uma coisa é certa: no que toca ao Denim, esta Primavera segue a máxima do bruxo Aleister Crowley - nada é real, tudo é permitido.

Friday, April 4, 2014

O homem errado pode ser muito mau para a economia. Atentem nisto, meninas.


  Em tudo na vida há que ser prática, analítica e escolher as companhias com cuidado: a probabilidade de tropeçar num doidinho hoje em dia é consideravelmente maior do que, digamos, há 100 anos atrás. Não disponho de um estudo rigoroso, mas considerando que:


1- Graças a melhor alimentação e cuidados de saúde, o número de espécimes do sexo oposto potencialmente amalucados que chega à idade adulta actualmente -  ou seja, à idade de fazer a cabeça de alguém em água - é incomparavelmente superior. Ora, numa amostra maior tem logicamente de haver mais taradinhos presentes. 


   Raciocinem comigo: as vossas bisavós tinham a possibilidade de encontrar, no máximo,  uns dois ou três maus rapazes elegíveis no seu  círculo.
 Desde logo, porque as doenças da primeira infância faziam ali uma eugenia limpinha; os mais frágeis (se considerarmos que as desordens mentais eram acompanhadas de alguma debilidade física) iam para os anjinhos enquanto ainda o eram. Depois, os pequenos hiperactivos  apanhavam grandes tareias porque nesse tempo não havia cá contemplações, as birras e as maldades tiravam-se com pau de marmeleiro, o que das duas uma: ou lhes curava a vontade de chatear os outros ou os deixava apoucadinhos e inofensivos.
  E por fim (sem considerar o tifo, a tuberculose e uma data de outras doenças que podiam aparecer para dizimar a população mais ou menos sã de espírito)  quem não jogava com o baralho todo, à solta por aí livre de Prozac, Xanax e pedopsiquiatras, estava mais sujeito a   estatelar-se de uma árvore abaixo, cair a um poço, levar um tiro por andar a roubar fruta ao vizinho ou lutas fatais de pedrada antes da adolescência, tudo isto sem Sistema Nacional de Saúde que se visse, sem tinonis e sem aparelhos de reanimação. 
  Percebem a lógica?

2- Imaginemos que ainda assim, azar dos azares, a coitadinha da vossa bisavó contava na sua comunidade com um número ameaçador de doidinhos que tinham sobrevivido à adolescência sem mazelas de maior: a segurança continuava a ser apreciável porque não havia cá Facebook, nem discotecas, nem liceu misto quanto mais faculdade, as oportunidades de os jovens chegarem à fala uns com os outros eram poucas, monitorizadas, por carta ou à janela e com pau de cabeleira. O mais certo era a donzela não chegar a conhecer 50% desses perigosos.

 Mas vamos complicar mais um pouco o cenário e fazer de conta que havia um ou dois que até não se notava, eram rapazes espadaúdos que - azar dos Távoras! - convinham à família e vinham bem recomendados (que isto da doideira pode andar perdida por gerações e aparecer assim, do nada).
  Mesmo perante essa remota possibilidade a corte, o namoro e o noivado eram tão longos,  tão platónicos, que muito provavelmente a rapariga ia perceber que o mancebo tinha alguma coisa errada antes de haver consequências de maior. 
 Claro que havia desvantagens no sistema: a distância podia iludir e quem casasse mesmo  com o maluquinho, ficava presa a ele para o resto da vida. Cada geração tem os seus problemas.


 Mas hoje, com muito mais pessoas, muito mais interacção entre elas e muitos nomes científicos para justificar, desculpar, controlar ou tratar como se pode os parafusos soltos de cada um, calculem lá o risco que se corre. É tudo muito rápido, muito confuso e com muito maluquinho junto, muita aberração de circo disfarçada de elegível. Por isso, olho vivo e pé ligeiro. É que além do desgosto e do transtorno que dá uma pessoa achar piada a alguém assim, isso não fica nada barato. Calculemos:


    - para recuperar do choque, a incauta começará por gastar algum dinheiro na ervanária: umas valerianas, umas passiflorinas a ver se os chiliques lhe passam. Pimba, 50 euros. 


 - depois, porque as amigas e a família começam a cansar-se de tanta choradeira, lá a desafiam para ir ao cabeleireiro, à massagista, à acupunctura. Estão a fazer contas? Porque eu estou.


-  ainda assim, entre as saudades do doidinho, porque o amor é cego e estúpido que nem uma porta, e os sustos de morte que o doidinho lhe prega ora com boas ou com más intenções mas sempre sem  sentido nenhum, as colegas e aquela tia excêntrica que cá veio de férias convencem-se mesmo de que o caso está preto e que, ou a rapariga atina, ou terão de a levar à bruxa para lhe tirar o mau olhado, ou pior, à Igreja Universal do Reino de Deus se ela já não estiver em acção de estrebuchar - zás, mais umas centenas.


 - vê-se que isso não resulta, e toda a gente entende que tem de se arrastar a pobre coitada a sair, para conhecer pessoas novas - mas a infeliz tem medo de se cruzar com a peste, e torna-se necessário raptá-la para fora da cidade ou do país por uns tempos. E as viagens não são baratas, já se sabe. 


-  por fim, chega-se à conclusão de que a crise não vai lá com reza brava, nem com Pai de Santo, e como a loucura adora companhia a rapariga vai ao médico. Logo, tem de gastar mais não sei quanto em terapia,  ai eu só posso aturar coisas destas por trauma de quando eu era pequenina, isto deve ser qualquer problema freudiano com as figuras masculinas na minha vida, só pode, mais as as gotas e os pirulitos, isto se não for electrochoques, sabe-se lá o que pode acontecer e não me parece que isso seja assim coisa acessível, não pedi orçamento que isto não é nada comigo, Credo.


- Esta despesona toda sem contar com o que entretanto espatifou na Zara ou na Prada (ou numa mistura disso tudo,  conforme a bolsa) em sapatos, roupa e carteiras na tentativa de não apagar por completo, porque já dizia Oscar Wilde, as raparigas sem graça choram, as bonitas vão às compras.


     Como dizem no país irmão eu, hein? Cuidadinho. Há, no entanto, um consolo:








Thursday, April 3, 2014

Ninguém se mete com as redes sociais.



Facto º 1: a Sra. D. Isabel Jonet não terá o dom de falar às massas, mas faz mais pelos necessitados  (e a condição de "necessitado" é, coisa que nos deve envergonhar a todos, cada vez mais abrangente neste país) do que os seus detractores, do que os jornalistas que exploram de forma sensacionalista os seus ditos, do que muita gente que é regiamente paga para que não haja tantos "necessitados" e desempregados, do que aqueles que a insultam levianamente atrás de um ecrã, do que eu e, atrevo-me a adivinhar, do que a maior parte das pessoas que me leia neste momento.

O seu trabalho à frente de uma instituição (instituição essa que é  uma obrigação moral ajudar, porque ninguém merece ter fome) é tão meritório como um mal necessário.

Facto nº2 - Não interessa para o caso se o argumento das redes sociais, tal como a recomendação acerca dos bifes, é correcto ou uma tolice. Isto porque a reacção incendiária que se seguiu não tem tanto a ver com um comentário isolado (que se não é exacto ou brilhante, é pelo menos perfeitamente casual) mas com algo mais profundo e um bocadinho mais complicado. O nosso povo tem as suas virtudes, mas também sofre de defeitos muito feios exacerbados pela crise -a  inveja, o ressabiamento, o snobismo invertido, o complexozinho de inferioridade, o temor reverencial pela frente e o ódio  velado ao "rico"  pelas costas. 

Neste país, os "ricos"  não podem abrir piu. Certo tipo de "ricos", bem entendido. 

Estivesse um self made men/woman bem HUMILDE, vindo do nada, imaginemos Toni Carreira ou a mãe do Cristiano Ronaldo, à frente da instituição, poderia recomendar à vontade que se comesse sardinha com papas (nada contra a sardinha com papas, atenção) sem que isso desse escândalo.
    Porque afinal, o Toni ou a D. Dolores já comeram muita sardinha com papas  na vida (ou deduz-se que sim); o Toni até ia para a escola com uma saca malcheirosa do peixe a fazer de mochila (palavras dele, não minhas). Não só sabem tudo acerca do assunto como, por muitos novos riquismos que mostrem, por muito que, citando o género,  "esfreguem na cara dos pobres" os seus Ferraris, as suas camisas italianas, os seus casarões, estão santificados. Mereceram-no porque já foram pobrezinhos. 

Para ser rico sem ser crucificado em Portugal é preciso ter subido a pulso, mas isso não basta (veja-se o tio Belmiro); é preciso que além de ser trabalhador se tenha "subido na vida" a partir do zero, que se tenha nascido nas palhinhas, saído da lama,  que se tenha comido o pão que o Diabo amassou e nada de bifes. Se além disso tudo se for Republicano e de Esquerda, maravilha: temos um herói popular. Sem isso, nada feito.

Os que não são de Esquerda, nem Republicanos, nem mal nascidos ou malcriados;  os herdeiros, os que nasceram em berço de ouro", ou vá, os que tiveram "berço" (porque ter berço não implica  necessariamente ter dinheiro antes pelo contrário, mas é um estigma desgraçado) e só emigraram quando o pai, que era diplomata, foi destacado para Bogotá ou a mãe que fazia parte dos Médicos sem Fronteiras foi para a Serra Leoa travar epidemias, não têm a mínima hipótese por muito boas pessoas ou trabalhadores que sejam. Isto a não ser que decidam dar tudo o que têm para caridade...e mesmo assim ainda são capazes de ouvir "não faz mais que a sua obrigação de devolver o que roubou".

 O público luso tolera mal  as ladies who lunch ou vá, as "tias" (termo detestável quando usado com maldade, como tem sido) que se dedicam a obras de solidariedade. Ou antes, sente pouca simpatia por senhoras de boa sociedade que tenham o descaramento de aparecer ou dizer alguma coisa, por muito que se estafem a trabalhar para fugir ao rótulo de inútil e de fútil que teimam em lhes pôr. E Isabel Jonet, mais rica ou menos rica, mais tia ou menos tia que ninguém tem nada com isso, aparece aos olhos da plateia como uma lady who lunches

 Facto nº3 O Banco Alimentar é uma instituição que para ter êxito nas suas obras depende da boa vontade do público, logo, do impacto positivo da sua imagem. E é aqui que temos um problema: qualquer marca (e é disso que se trata, nem mais nem menos) deve falar ao seu público-alvo, que neste caso não é exactamente segmentado.  Eu compreendo, palavra que sim, o tipo de discurso da presidente do Banco Alimentar. Conheço muita gente assim, eu própria digo, em certos contextos e círculos, o que me passa pela cabeça.
 Não é por mal - da pilhéria elegante ao desabafo da boca para fora, diz-se muita coisa que não é para tomar a peito. Se não estou em erro, foi Baudelaire que afirmou "viajar num comboio com crianças carece da presença de um estrangulador" e toda a gente se riu da extravagância, e não veio daí mal ao mundo.
 Mas não será muito sensato quem está à frente de uma organização destas, sendo quem é, falar à vontade, como fala com as amigas na pastelaria do costume, a jornalistas esfomeados (passe o trocadilho) ávidos de uma frasezinha que soe insensível ou paternalista para explorar até à exaustão de forma pouco ética. É muita ingenuidade, porque ânsia de protagonismo não posso acreditar que seja.

Facto nº4, e com isto me fico: se o Banco Alimentar precisa de voluntários, encontre-se alguém competente para as Relações Públicas. Nem sempre as boas pessoas se expressam da maneira certa. E não convém que os donativos diminuam por ditos mal recebidos, que soem insensíveis a quem já anda nervoso. Ou que uma Senhora seja coberta de alcatrão e penas só porque falou como sabe, obrigando-nos a assistir circos destes, que só prejudicam quem não tem pão nem circo.



O Amante de Duras - ou dos amores-cicatriz.


“Et puis il le lui avait dit. 
Il lui avait dit que c’était comme avant, qu’il l’aimait encore, qu’il ne pourrait jamais cesser de l’aimer, qu’il l’aimerait jusqu’à sa mort.”

                                                    Marguerite Duras, O Amante


Reparei recentemente num facto curioso: entre os meus autores preferidos, há mais homens que pintam bem as mulheres (assim de repente, a escrita sensual de Jorge Amado é a primeira que me ocorre) do que propriamente  escritoras. Por nenhuma razão em especial, já que tendo a escolher os romances pelo tema e só depois me apaixono. Calhou.

  A explicação talvez se relacione com a minha predilecção por autores bem mortos, do tempo em que as mulheres não tinham tanta liberdade para escrever e quando escreviam, muitas vezes era a esforçar-se demasiado para ser levadas a sério ou a protestar porque não as deixavam trabalhar à vontade.

 Claro que há os monstros sagrados - Emily Brontë, Jane Austen- e autoras como Isabel Allende ou Laura Esquivel, com a sua escrita rumorejante a apelar aos sentidos (isto não será uma questão de género, acho eu; é algo que se desenvolve lá pelo Hemisfério Sul) mais as poetisas (nunca me habituarei a dizer "poeta"; as minhas professoras primárias eram mais de preciosismos que de feminismos, e lá em casa também) e as autoras de contos ou dos livros que me marcaram a infância, como Edith Hamilton ("A Mitologia" mudou-me para sempre) ou Frances Burnett, entre tantas outras. Tive a minha fase de fascínio por Anaïs Nin -  mais pela personagem glamourosa de biografia estonteante do que pela obra em si, sou sincera.

 E depois houve Marguerite Duras, muito responsável por eu me ter encantado pela Língua Francesa no secundário.  Duras que escreveu O Amante e O Amante da China do Norte, obras que ainda hoje não consigo ler sem largar numa choradeira inconsolável, eu que não choro assim com duas coisas. 
 Tal como na Lolita, de Nabokov, em O Amante fala-se de uma paixão que é mais que amor. De um amor sufocante, que fere, marca a ferros e permanece inalterado, cristalizado apesar do tempo, da distância, da ruptura. Mesmo quando a vida avança, a memória remete para aquele período em que duas pessoas foram o mundo uma da outra, e a ferida não sara. 


Dissera-lhe que era como dantes, que ainda a amava, 

que nunca poderia deixar de a amar, que a amaria até à morte.

Há uma janela sempre aberta para a mesma obsessão. Amores destes podem não matar mas também não morrem, não suavizam sequer;  aí reside a sua imortalidade, na dor viva, na voluptuosidade do parece-que-foi-ontem, na capacidade de não esmorecer quando já devia, pela lógica das coisas, o tempo ter feito cinza da brasa, para citar Sérgio Godinho (outro poeta de calças, note-se). 

 Quando muito nova me apaixonei pela obra de Marguerite Duras achei que isto era simultaneamente belo, triste e assustador. Assustador porque não se parecia com as obras clássicas - ninguém morreu (e quando se morre, mal ou bem acaba o sofrimento e fica a história fechada)  ninguém se tornou uma alma penada para assombrar o outro (o que seria, de alguma forma, estar juntos) não houve final feliz. Só uma grande, imensa, inultrapassável e eterna separação. 

 Isto era pavorosamente real. Isto podia acontecer a qualquer uma: tanto amor desperdiçado. Mais do que tanto amor desperdiçado, aquele amor do qual nunca se recupera. 
 E fiquei com medo, muito medo, de me acontecer uma destas, e chegar à terceira idade depois de guerras, revoluções, uma vida inteira, e continuar a  escrever e a chorar sobre o assunto.

 Amanhã Marguerite Duras faria 100 anos. Perdoo-lhe de todo o coração o traumazinho que me causou. Como dizia a outra, "que graça têm as histórias em que o protagonista não sofre?".






Wednesday, April 2, 2014

Isso das provocações...


...é uma coisa muito desagradável. Qualquer pessoa elegante e educada, que saiba estar, deve
abster-se do feio hábito de fazer ferro a fulano ou beltrano, mandar achas, farpas, alfinetadas e trocar galhardetes com criaturas que lhe são antipáticas - ou  criaturas que lhe eram muito simpáticas mas se tornaram, enfim, persona non grata.

 No entanto, pode dizer-se que provocar, afrontar ou como se diz na gíria fazer fosquetas (ou ser alvo disso tudo e consequentemente dar o troco, porque pouca gente é santa) é um pecado a que qualquer um está sujeito.

 A diferença está, como em tudo, no motivo para tal maldade, que não convém ser mesquinho, e mais importante,  na classe com que se executa a brincadeira. Porque até para isso é preciso savoir faire, imaginação, paciência, meio, oportunidade e porte. Uma coisa é a provocação com certo panache, que faz o efeito touché! e arranca no próprio adversário uma exclamação do estilo "é uma besta de marca maior, mas não lhe faltou uma certa classe".

Outra inteiramente diferente é usar o recurso mais à mão, mais chinfrim e mais ranhoso, imitar técnicas, procedimentos ou arranjar protagonistas baratos, ou imitações baratas, para atingir o inimigo no próprio territóriojulgando que se faz grande mossa;  se calhar consegue-se o efeito de ser irritante, de causar alguma repugnância: mas o ridículo está todo do lado de quem se rebaixou a fazer tristes figuras de principiante, de macaquinho de imitação, de palhacinho carenciado.

 Copycats e maçaricos fariam melhor se falassem claro.

Ser vilão ou usar-lhe a pele não é para qualquer um; não é por acaso que nos filmes os maus da fita vestem sempre melhor e têm as linhas mais memoráveis.

O modo "pior do que está não fica"


Eu cá não gosto de surpresas. Sou daquelas pessoas que têm um espírito aventureiro latente, que se desembaraçam lindamente no meio de nenhures em caso de necessidade, mas só se não puderem evitar. 
 Prefiro a estabilidade, como boa nativa de Terra com uma quantidade apreciável de Fogo à mistura. Gosto de planear, de saber com o que conto - ou pelo menos, de assegurar os mínimos para que o resto se desenrole sem percalços. Se viajo posso não programar o itinerário ao milímetro, mas tenho de ter uma lista dos locais a visitar para cumprir, certos confortos, os hotéis marcados, tudo arranjadinho e a bagagem bem composta. Mochila às costas não é para mim - mas se precisar de sobreviver na selva, não fico paralisada de medo.

 Com outras situações na vida, nos negócios e com as pessoas passa-se o mesmo: gosto de saber com o que conto, tudo explicado e delineado preto no  branco. Não é que seja difícil de lidar ou intransigente, mas é muito mais fácil ter um plano, saber o que se espera para poupar desgostos, mal entendidos e condutas irresponsáveis. 

  Num cenário ideal, os acordos seriam cumpridos à risca e os afectos estabelecidos durariam para sempre a partir do momento em que essa vontade é manifestada. Já se sabe que há imprevistos, erro humano, falhas, fragilidades de que ninguém está livre - mas eu tendo a confiar nas promessas, porque nunca prometo em vão - e a trabalhar para as manter. Porque qualquer promessa (promessa de coração e com a cabeça no lugar, entenda-se) dá trabalho. É por isso que "compromisso" é um palavrão tão grande. De boas intenções está o inferno cheio.

 Quando eu era pequena, contava-se a lenda do fantasma da costureira: uma senhora que estando doente, prometeu a um certo Santo oferecer a máquina de costura se se curasse. Com a aflição foi sincera, mas assim que se apanhou boa foi adiando, porque era complicado desfazer-se do seu ganha-pão (algo que se não é de louvar, é compreensível). Numa altura não dava jeito, noutra também não, até que morreu sem pagar a promessa, e por causa disso tornou-se uma alma penada. Quando se falava na "costureira" à noite ouvia-se claramente o barulho da máquina a dar ao pedal e o pousar da tesoura - o que muito nos arrepiava, a mim e aos meus primos. Moral da história? Não se fazem promessas vazias.

 E quando os votos não são honrados, quando as coisas azedam por culpa alheia...então o meu espírito aventureiro, o meu seja-o-que-Deus-quiser, a eles como Santiago aos mouros, remember the Alamo, Jeronimo, Banzai, aqui vai disto entra em acção. Se for preciso deita-se fogo ao telhado, burn mother qualquer coisa, burn. Queimam-se as pontes e fé em Deus. 

É assim uma decisão "pior do que está não fica", sendo que às vezes fica mesmo, mas paciência. 

Morrer na forma, tolerar o intolerável com medo de ficar pior, recear a mudança que pode ser construtiva para evitar saltar do fogo para a frigideira, não dá. E isto sou eu, que não gosto de surpresas nem de mudanças - se puder evitá-las, lá está. A evolução, esse mal necessário.

Tuesday, April 1, 2014

Quando eles dizem uma coisa e ela é outra.


Os cavalheiros - e eu não vou faltar à minha jura de há pouco, é só uma análise e não uma crítica, prometo- são muito como o outro que como não sabe falar, protesta assim

É que a fazer fé nos papéis mais ou menos tradicionais e em alguns estudos neurológicos que se banalizaram por aí, nós, mulheres, temos mais habilidade com as palavras do que eles (eu confesso que não possuo lá muita em situações de tensão desse género; perco o meu habitual sangue frio, enervo-me e das duas uma: ou não digo quase nada ou saem-me meia dúzia de disparates que depois dão uma trabalheira a reparar, mas pronto); é enfim voz corrente que os homens não se expressam lá muito bem.

 E quando se zangam, pior ainda: enquanto nas ocasiões em que deviam abrir a boca e falar como gente racional e crescida não atam coisa com coisa, se lhes toca o ciúme e/ou a fúria é ouvi-los a atirar quantas tolices há: esbracejam, barafustam, ameaçam fazer cair a casa, atiram impropérios de uma pessoa se benzer, isto se forem rapazes bem educados e não fizerem como na cantiga: vou comprar um dicionário que só tenha nomes feios que é para eu te chamar todos até teres os ouvidos cheios.

 Mas lá está: só quem é indiferente, quem não sente nada de nada, é que tem uma calma de morte. E é nas fúrias (isto sem querer defender aqui violências) que muita coisa se revela.

 Basta ver o exemplo do Carlinhos da Maia, lá volto eu aos Maias, quando achou injustamente que tinha sido enganado pela Maria Eduarda, que até então ele julgava pura e perfeita como uma Deusa pisando a Terra:

"(..) queria juntar duas linhas regeladas, impassíveis, que a ferissem mais que o dinheiro; e não encontrava senão frases de grande cólera, revelando um grande amor".

  Aí está, meninas que se queixam do mutismo masculino: por vezes há mais sinceridade e sentimentos mais intensos num homem desesperado, de cabeça perdida, que vocifera "sua ingrata" ou "tu tiras-me do sério!" do que em muitas declarações de amor que não valem o papel em que estão escritas, lançadas da boca para fora...

Aposto com Vossas Mercês...




...que consigo passar uma semana inteirinha sem fazer críticas mordazes nem troçar, subtil ou impiedosamente, de uma alminha, actividade ou trapo que seja. Cross my heart. Não acreditam? Olhem que quando ponho uma ideia na cabeça...
E não, não se passou nada, não fui visitada pelo Espírito do Natal futuro, não passei a gostar de kizomba nem a ser compreensiva com coisas e fatiotas menos elevadas, não me tornei fofinha de repente, só preciso de relaxar um pouco. De vez em quando sabe bem variar as emoções e os estados de espírito.
  Assim, a começar hoje e até à próxima Segunda-feira, 7 de Março, não se abre mais o pio para maldadezinha nenhuma - o que não significa ficar pateta alegre ou elogiar tudo e todos, bem entendido. Place your bets, ladies and gentlemen!

(Nem quero imaginar o que as criaturas pouco fofas e nada respeitáveis vão vai andar a tramar na minha ausência, mas tanto pior-para a semana ajustamos contas).

Mentira do dia: Rachel Zoe, a brincalhona.‏

Unhacas de boa profissional? Ná.


Não restem dúvidas quanto ao talento de Rachel Zoe: o estilo imaculado de Eva Mendes, sua cliente fiel, é a prova perfeita disso. Mas até os melhores profissionais divagam às vezes, principalmente quando se trata de algo tão específico como questões de gosto. 

E hoje a personal stylist pregou-me uma boa peta: então não é que lhe deu para sugerir às leitoras "nail art apropriada para o escritório"?

 Chamem-me chata à vontade, mas eu acho que não existe tal coisa. Isso só pode ser uma coisa assim arraçada de OVNI, desculpem. Haverá nail art adequada para fazer coisas pouco próprias que os adeptos designam na sua língua por soltar a franga, nail art apropriada para andar aos pulos no ginásio e fazer olho ao personal trainer, nail art para ir a jantarinhos de mulherio, nail art para desvirtuar o traje na Queima das Fitas e com muita água benta, mas muita mesmo, nail art remotamente discreta, daquelas que com sorte ninguém dá por isso, e passa.

 Mas nail art apropriada para o escritório, mesmo apropriada para o escritório, tipo " que lindas-unhas-está-contratada", isso acho que não - assim como não existe nail art apropriada para casamentos, baptizados, missas, eventos solenes ou...bem, qualquer situação remotamente séria. (Já não digo nada - um dia destes dá-lhes para inventar nail art própria para o Crisma e ainda acham que o Sr. Prior tem de fazer cara alegre, Vade Retro).

Já me tem acontecido ir ao banco, ser atendida por senhoras com nail art turbo (e ainda por cima, mal mantida) e ficar a olhar para aquilo em vez de reparar no que me estão a dizer. Tudo o que distraia o interlocutor é mau para o negócio. Sempre. É igual à moda nova das pivots de noticiário  de mini saia ou carregadas de berloques: não só é de mau gosto, como desvia a atenção do essencial.

Sem querer ofender ninguém, ainda estou para descobrir uma ocasião a que brilhinhos e bonequinhos nas garras emprestem credibilidade e elegância a alguém. 
 Poderá ter a sua graça (para quem gosta) pode ser muito divertido para meninas de quinze anos, mas em mulheres adultas há que limitar ao mínimo, se não se puder evitar de todo. A não ser que se trabalhe num salão de manicura, ou em certos palcos que não são para aqui chamados. Ó Raquelinha, minha Racaqué, por amor de Deus!

Monday, March 31, 2014

Diz que a moda agora é ser feia (ou antes, preguiçosa).



Joan Rivers, a comentadora espalha brasas de Fashion Police, é outra que se recusa a alinhar com os modismos e as conveniências, o que é assaz refrescante num mundo que anda pejado de Dantas. Para quem não se lembra do Dantas, é só ir aqui reler o fabuloso Manifesto de Almada Negreiros, outro senhor que se arrepiava todo com o politicamente correcto e com as pessoas que, na ânsia de parecer bem, não têm escrúpulos "NEM MORAIS, NEM ARTÍSTICOS, NEM HUMANOS" e andam "CO'AS MODAS, CO'AS POLÍTICAS E CO'AS OPINIÕES".

Goste-se ou não dela, a senhora (não estou certa se Ms. Rivers é realmente uma Senhora, mas há que respeitar os mais velhos) atirou uma pedrada para o charco. Enquanto meio mundo dá graxa a  Lena Dunham só porque ela se acha muito espertinha, muito espirituosa, muito estou-me marimbando para o meu aspecto porque sou demasiado intelectual e feminista mas todos têm de me achar linda   apesar deste meu ar de pudim senão são uns chauvinistas  ao mesmo tempo que aparece na Vogue retocadíssima e toda contente, Joan Rivers soube ser inconveniente q.b...e brutalmente honesta. A idade é um posto, nada a fazer.

 Quando questionada sobre o estilo pouco polido da menina, Ms. Rivers foi peremptória ao apontar a sua falta de noção das proporções. "Como é que ela pode usar vestidos acima do joelho?". 

 Claro que o entrevistador respondeu com a estória fanada "mas ela é a rapariga que tem sucesso porque se está nas tintas para isso. Ela não quer saber" - ao que a apresentadora retorquiu com uma verdade absoluta: "TODAS as mulheres querem saber." Deixo o original, porque na tradução perde-se um bocadinho a veemência:

“How could she wear dresses above the knee?” Stern countered by saying that the thing her audience loves about her is that she doesn’t give a shit, to which Rivers replied, “Oh, every woman gives a shit.”

Claro que não podiam deixar de seguir-se reacções na linha do post de ontem: body shaming, fat shaming, "essa mulher é uma múmia malvada, etc".

Pondo de parte que não é bonito censurar quem critica o aspecto alheio fazendo exactamente o mesmo  (ou seja, chamando múmia a uma senhora com idade para ser avó) ainda estou para conhecer uma mulher que diga que não se rala, que o que conta é a beleza interior e a inteligência e que as rugas e as estrias são lindas porque encerram memórias de dores, lágrimas e sorrisos e sou balofa mas sou feliz e  bonito é aquele que vê beleza nos outros mimimi e tal mas não se esteja a roer por dentro. É o mesmo que dizer que o dinheiro não dá felicidade - não dá, claro que não, mas enfeita e facilita, e com a formosura é o mesmo, enganem-me que eu gosto. Mais vale ser franca, como aquela personagem do Joaquim Monchique que dizia "eu odeio gente mais bonita do que eu". 

Não foi lá muito delicada? Claro que não. Mas é o seu estilo e não deixa de ser estranho que alguém cujo emprego passa por criticar o aspecto de toda e qualquer celebridade sem que ninguém diga nada, seja atacada no momento em que toca no "ai Jesus" do momento, só porque é mais fácil as pessoas preguiçosas identificarem-se com Lena Dunham.

Perante a insistência do interlocutor, que jurava aos pés juntos que Girls era a coisa mais engraçada de sempre, Joan manteve-se na sua: Don’t say it’s OK that other girls can look like this. Try to look better!”

 E eu não podia concordar mais: sem cair no exagero, todos devem procurar dar a melhor imagem de si próprios...e ser mais exigentes consigo mesmos do que são com os outros. Afinal, os "outros" passam e andam, mas todos temos de encarar a nossa pessoa ao espelho a cada dia.

Enfim, assim vai a Humanidade -  mas se os padrões andam tão por baixo  que o melhor a que as raparigas  se permitem aspirar é ser como Lena Dunham, Kim Kardashian ou a boneca Lammily...parem o mundo que eu quero descer.

Sunday, March 30, 2014

O amor é um menino cigano, já dizia a Carmen.


L'amour, l'amour, l'amour, l'amour

L'amour est enfant de boheme

Il n'a jamais jamais connu de lois

Si tu ne m'aimes pas je t'aime

Si je t'aime prend garde a toi!

Ou pelo menos essa foi a tradução mais interessante que já li da ária acima. Um "menino cigano" parece-me expressar melhor a natureza do amor, ou de certos amores, do que "filho da boémia" que me soa mais a malandrice e a coisas pouco sérias.

  A letra também me remete para um filme de que falarei um dia destes, em que uma cortesã reformada, ao ensinar à favorita do Rei todos os truques e estratégias de sedução, a advertia que podia explicar-lhe a teoria e as armadilhas da persuasão, porém, "once the wheels of love are set in motion, remember: there are no rules and no order".

 Quem é capaz de muita sensatez, de muita civilidade, muito cálculo, muito sangue frio, não está verdadeiramente enamorado- é possível manter alguma racionalidade, mal seria (nunca engoli a desculpa de quem faz coisas terríveis e/ou magoa terceiros "por amor", ou porque "se apaixonou" do nada, pois o amor precisa sempre de alimento e de troco para aparecer - ora histórias) mas a calma e a paixão raramente caminham juntas.

 E isso é especialmente verdade na vida das mulheres que sofrem daquilo que eu chamo Complexo Carmen

Para quem não se lembra, a Carmen era uma cigana lindíssima e independente que tirava os homens do sério. 

 Despertava paixões desabridas e o ciúme que vem com isso. E assim é na vida real: 
 uma Mulher Carmen pode ser uma sedutora, uma femme fatale que parte corações em série, mas também pode ser do mais  discreto e bem intencionado que há - num caso ou noutro, a condição de Mulher Carmen implica sempre ser AQUELA MULHER, com o que isso tem de bom (ou romântico) e de mau.

Este tipo de mulher distingue-se pela sua pontaria rara para atrair apaixonados que não lhe resistem, que ficam caidinhos à primeira vista porque sim, que querem e querem e querem ficar com ela como se a sua vida dependesse disso...mas que depois, porque a acha tão irresistível, se convencem de que o resto do mundo acha o mesmo; e de que, sendo a Carmen da sua vida uma mulher de personalidade tão forte, tão segura de si, os pode deixar a qualquer momento pelo primeiro cavaleiro andante que apareça. 

Tal como o D. José são incapazes de confiar, por muitas provas de amor que recebam, ou por mais que, noutras áreas, sejam cavalheiros assertivos e habituados a comandar. Têm sempre medo de que surja algum Escamillo que estrague tudo; e querem por força submeter a Carmen, dominá-la, transformá-la na dócil e apagada Micaela...esquecendo que se a Carmen fosse como a Micaela, não lhe teriam achado graça nenhuma. E do fogo da paixão ao fogo dos infernos é um fósforo.

 Quando finalmente a Carmen se cansa de tanto teatro, e com Escamillo ou sem Escamillo toma a (por vezes dolorosa) decisão de voltar a ser dona do seu destino, é vê-los a inverter culpas; e caso haja Escamillo...não faltam desafios, duelos mais ou menos figurados e muita, muita ópera bufa. E isto sucede sem que se faça de propósito, talvez porque é preciso haver uma Carmen predisposta a apaixonar-se por um Don José, a achar muito românticos os seus exageros, a deixar-se levar pelas brigas, e as reconciliações e os brios feridos, a confundir amor com o hábito de fazerem a cabeça em água um ao outro. A culpa nunca morre solteira.








Subtileza do dia: a propósito de muita coisa que se tem dito por aqui...




Sheldon:
I'm not going to apologize. I didn't say anything that wasn't true.

Mary: Now you listen here. I've been telling you since you were four years old, it's okay to be smarter 
than everybody else but you can't go around pointing it out.

Sheldon: And why not?

Mary: Because people don't like it!

(The Big Bang Theory)

Sem querer cair em contradições, às vezes é preciso o sacrifício de morder a língua, contar até dez, ouvir duas vezes e falar só uma. Porque diz que há uma linha muito ténue entre 
ter-se franqueza, espírito, carisma, um encanto mordaz livre de convencionalismos e
 fazer-se passar *injustamente* por uma downright stuck up bitch ou um grandessíssimo douchebag.

 É uma chatice mas na vida real os Sherlock Holmes, Dr. Houses, Bones, Oscar Wildes, Lord Henries, Viscondes Reinaldos, Joãos da Ega, Sheldon Coopers, Miranda Priestlies,  Karl Lagerfelds, Valmonts, Heathcliffs e as Scarlett O´Haras -  os enfant terribles de quem eu tanto gosto, portanto -  às vezes têm de se moderar, segurar as tiradas que lhes passam pela cabeça,  porque há coisas que os outros não gostam de ouvir. O que se diz superficialmente, da boca para fora e que não vale nada pode ter um efeito granada em quem ouve, vá-se lá saber porquê. Viver em sociedade é uma seca: a Scarlett lamentava "Why does a girl have to be so silly to catch a husband?", mas parece-me que isto se aplica a áreas muito mais abrangentes. 


 É mais fácil do que se pensa passar por indelicado, arrogante, mauzinho ou pior, por nervosinho, porque há sempre quem se ofenda ou seja pouco amigo do sarcasmo ou do humor negro. 


 Eu cá lido bem com esse tipo de carácter e não tomo a peito- talvez porque it takes one to know one, ou  porque não me ensaio de lhes chamar idiota na cara e amigos como dantes - mas há quem se melindre mesmo ou mais chato ainda, fique magoado.
 Na dúvida, as interjeições neutras são um grande aliado. Às vezes o "deal with it" não resulta porque calha dar-se com pessoas com uma sensibilidade diferente - ou, tragédia das tragédias, com uma pessoa de sensibilidade diferente de quem (pouca sorte!) se gosta, ou que não se pode categoricamente mandar passear. E zás, lá tem de se andar com o mantra do "não digas aos outros aquilo que não gostarias que te dissessem a ti", por muito que apeteça mandar a piadinha. Em última análise, de quando em vez, muito de quando em vez, mais vale ser brutal, espirituoso e honesto com os seus botões - e ter uma cara número três para circunstâncias dúbias. Ninguém gosta de um sabe-tudo e muito menos de um fala barato, por muito brilhante que ele seja. Levar esse exercício a cabo, isso já é outra história.


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