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Saturday, April 12, 2014

Site internacional considera as mulheres portuguesas "pouco sexy". E então?


Diz que anda para aí í um site a colocar mal as portuguesas no ranking do sex appeal. Isto dá-me que pensar, em termos de análise antropológica - ou sociológica. Só por isso, garanto-vos - pois não há piropo pior do que ouvir "és muito sensual". É daquelas coisas que fazem encaracolar o sangue; demais a mais, um país estar no topo da sensualidade é assim uma coisa que me leva a fazer associações de ideias pouco agradáveis;  se estivesse a beleza ou a elegância em causa ainda vá que não vá...mas "o país mais sexy" lembra-me logo algo do tipo "as raparigas desse país devem ter, no mínimo, um bocadinho de má fama" ou "que andarão eles a exportar?".

Considerando ainda que:

- Existem poucas coisas tão parvas como um ranking "mais sexy"; estamos a falar de formosura, de perfeição, de estilo ou... de vulgaridade? Porque disso há cá que chegue, mas se ainda não se sabe do facto lá fora, levantemos as mãos para o céu.

- Geneticamente até sou pouco portuguesa, por isso não me sinto pessoalmente atingida, mas de qualquer modo remeto para o que foi dito atrás. Cruz Credo. 

- Que estes "estudos" valem o que valem; 

- Que este em particular deixou de parte belezas de encanto clássico como as espanholas, as italianas (como é possível?) as russas, as rosas inglesas ( Liz Taylor, Vivien Leigh, Kate Moss, anyone?) ou as alemãs (país que nos deu Claudia Schiffer) para não falar nas americanas (e os EUA são pátria de beldades como Cindy Crawford, Brooke Shields, Ava Gardner)...

Ainda assim, olhando para as minhas conterrâneas, fico a pensar se não haverá alguma verdade no assunto. Já analisei por aqui os vícios de estilo das portuguesas, mas basta uma voltinha pela rua para perceber que boa parte ou:

a) não se esforça de todo, deixando-se andar num desleixo de meter dó;
b) esforça-se demasiado, abusando de trapos provocantes, extensões, e outros artifícios de influência brasileira, esquecendo que muita pele à mostra não compensa a falta de outros predicados e até piora o quadro;
c) faz as duas coisas ao mesmo tempo. 

  Essas meninas continuem assim, continuem, que nem a sexy chegam - e olhem que ser too sexy em tais termos já é insulto que baste. Jesus, Mary, Joseph.

Friday, April 11, 2014

Cuidado, Sissi. Cuidado. (E...a pergunta do dia).

Jesus, o que eu ando a perder...snif, snif.

Pessoas minhas amigas: a Sissi tem de morder a língua, de refrear o vício jornalístico/de profiler social/a vocação para antropóloga, de controlar essa compulsão que lhe dá para fazer pouco da roupa reles, da literatura para  mulheres desesperadas, das unhacas, das danças, das bimbalhices de ginásio e coisas assim. Qualquer dia ainda se zangam, e ai ai...

Eu, muito divertida com a ideia: E o que é que eles podem fazer? 
Declarar-me persona non grata, inimiga pública número 1 e colar o meu  retrato (assim com ar culpado e compungido) à porta de cada nails corner, de cada entrega de prémios do Correio da Manhã ou da TV 7 Dias, das sessões de autógrafos do Pedro Chagas Freitas, de cada estúdio de dança Passion & Salsa não sei quê, de cada ginásio fique-em-forma-e-arranje-simultaneamente- um grande-traseiro-umas-coxas- tamanho-gladiador-para-usar -com-calções-de-ganga-baratuxos- e-ainda-o-romance-da-sua-vida-com-o-Carlão, de cada jantarinho de mulheres com direito a strippers oleosos, de cada lojinha onde se vendam carteiras contrafeitas e vestidinhos de lycra tamanho cueca, de tudo quanto é reduto de seita onde se impingem batidos milagrosos e salões de cabeleireiro onde se fazem extensões de meio metro e alisamentos a cilindro, com letras encarnadas a dizer:

 "ESTA RAPARIGA NÃO É BEM VINDA", como se faz aos batoteiros nos casinos?

É isso? Ai que desgosto. Como é que eu vou viver sem essas coisas? Coitadinha de mim, ´tão a imaginar

E eu que já vos ia perguntar, toda contente, se vocês saberão tirar-me uma dúvida de cariz científico: qual será a relação misteriosa entre as raparigas assim para o...bom, pouco recomendável, para o barraqueiro, ghetto trash...e o cabelo pintado de preto graxa?

 É que não se percebe. Se não são madeixas mal feitas e oleosas com ondas fixadas à custa de espuma plástica, é cabelo preto alcatrão, esticadinho, igualmente oleoso que dá lindamente com a pele mal tratada. Se calhar têm medo que sem isso, não as reconheçam. Que passem por alguém remotamente decente, o que seria péssimo. Ou que, tal como o Sansão, sem o cabelo percam os super poderes de galdeirice.

 Mas pronto, já não pergunto nada. Não quero sujeitar-me a uma condenação social dessas. Mea culpa, mea culpa, sou uma péssima pessoa (NOT!).

Sarah Michelle Gellar é uma snob. Daquelas para glorificar de pé, Igreja!


Nunca achei piadinha nenhuma a Buffy, Caçadora de Vampiros. Tão pouco às produções de terror juvenil em que Sarah Michelle Gellar entrava. 

 O único momento em que ela me disse alguma coisa foi na adaptação, bastante razoável aliás, de Les Liaisons Dangereuses, Cruel Intentions, um dos poucos teen movies de que gostei. Aí a actriz interpretava, para quem não se lembra, a versão nova iorquina da Marquesa de Merteuil: cruel, cínica, com classe a rodos e um guarda roupa griffé de perder a transmontana. 

 Aqui vos digo, para quem não reparou, que não há nada de original em Gossip Girl- a história de intriga literalmente palaciana data do século XVIII e quem nunca leu a novela nem viu o filme não sabe o que anda a fazer no mundo.

 Pois bem, ignore-se que Sarah Michelle Gellar, tão americana como se pode e cuja carreira já viu melhores dias, não é exactamente uma arquiduquesa  da Rússia - o que faz dela, tendo dito o que vou explicar a seguir, um bocadinho snob da pior maneira. Mas há snobismos, mesmo snobismos maus, que se desculpam.

 Perante a famigerada capa Kanye- Kardashian na Vogue, Ms. Gellar twittou o seguinte:



E não foi tudo: antes, a Merteuil dos nossos dias já tinha vendido a sua casa em Bel Air só para não estar perto da "tacky nouveau riche McMansion," do casal. Não foi a única vizinha a fugir, mas é uma prova de bom senso mesmo assim.

 Numa época em que as publicações de prestígio (as americanas pelo menos) vão pelas ruas da amargura, com a Vogue a fazer isto e a Elle a fazer muito pior, publicando o impublicável, desculpando o indesculpável, promovendo o que devia ser ostracizado com um gigante franzir de nariz... qualquer assomo de elitismo, classismo ou outro ismo que ponha juízo na cabeça das pessoas é refrescante.

 Se a actriz foi possuída pelo espírito da malvada Marquesa de Merteuil, fantástico. Como ouvi a uma pessoa minha conhecida, "isto na vida é preciso ser senhor". Ou senhora.  Em tempos de crise de gosto generalizada, pelo menos.





Thursday, April 10, 2014

Mais do mesmo.


Gostar de Angelina Jolie antes de ela se tornar mainstream, quando me fascinava pela beleza estranha e aura gótica, foi um dos poucos momentos hipster da minha vida. Bem, se não considerarmos a minha fase de trendsetter - usei corsários antes de toda a gente sonhar  que isso era e causou cá um rebuliço!- ou que cheguei a achar uma certa piada ao tofu (shame on me) antes de ser moda, para não falar do sushi mas bem, creio que qualquer pessoa minimamente informada gostava de sushi ou pelo menos sabia o que isso era antes de se tornar de rigueur.

 Depois a menina começou a fazer filmes de acção, a adoptar tudo quanto era piqueno, a perder a rebeldia, a ser super fofinha e assentou com Brad Pitt (nada contra ele) numa união de facto pejada de paz doméstica e burguesa. Digo burguesa porque actualmente viver "em pecado", salvo seja, não indica rebeldia nenhuma, nem novidade nenhuma.

Acho mesmo que há nada mais banal, mais conformista,  mais nhê... do que viver junto sem casar. Os rebeldes à séria casam ou ficam charmosamente solteiros, para quem não sabe...enfim, achei tudo aquilo um pouco chinfrim. 

Então comecei a pensar que se a actriz antes exagerava na polémica entretanto o frenesi tinha virado para o lado oposto -  o que significava que algo sempre tinha andado fora dos eixos por ali, só estava agora canalizado para as boas acções.

 Assim como assim, já havia muita copiona a imitar-lhe o estilo subversivo e acredito que ser obscura tivesse perdido a graça. Salvava-se, e continua a salvar-se, a sua elegância e sentido de moda, sempre irrepreensível.

Depois puseram-lhes, disso não tiveram eles culpa,uma alcunha medonha dessas que se arranjam para as celebridades, Brangelina. E acabou-se. Petit noms desses são do mais tupperware que pode haver, ponto.

  E agora que finalmente vão dar o nó, também já parecia mal, lembram-se de fazer o piorio do pioro: uma tatuagem (mais uma!) a assinalar o facto

 Se eu gosto de tatuagens (não desgosto, mas perderam a graça e acho que a pele de uma mulher é mais bonita sem nada) não é para aqui chamado.

   Também não interessa se Angelina tinha tatuagens antes de toda a gente, se quando começou a fazê-las era uma radical de primeira que não sonhava andar pelo mundo a promover a Boa Vontade, ou se pôs as tatuagens tão na moda, mas tão na moda, que os seus clones mais tudo quanto é dona de casa suburbana, mãe divorciada de quatro filhos, bimba de ginásio, cabeleireira, manicura e padeira as desatou a fazer também. 

 O que importa é que uma pessoa de gosto não persiste em modismos fanados. Mesmo quando foi responsável por começar o modismo em primeiro lugar.
 Regra de ouro, nem mais nem menos.

 Daqui a nada ficamos a saber que faz bricolage, ouve Toni Carreira e se entretém com o crochet, querem ver?



Um bocadinho de cultura, uma série portuguesa fantástica e...uma maquilhagem para copiar.


De vez em quando surgem assuntos que permitem fazer um post-3-em-1
 Imaginem o meu entusiasmo, eu que sou uma apaixonada pela Mitologia Grega desde pequenina, quando soube que uma produção europeia sobre as aventuras de Ulisses tinha sido integralmente gravada em Portugal (mais concretamente em Setúbal, e juro que ao ver aquilo ninguém percebe que não se trata da verdadeira Ítaca da Ilíada).  

 Cresci com o pai a contar-me os ardis de Ulisses (a minha parte preferida era quando ele engana o ciclope dizendo que se chama "Ninguém", e estando o malvado monstro cheio de dores com uma estaca enfiada no olho, berra aos outros ciclopes que « "ninguém" o havia cegado, e fossem lá apanhá-lo"» e os outros  a pensarem que ele tinha enlouquecido enquanto o herói fugia a bom fugir -  um espertalhão, o Ulisses). 

É claro que não ia perder esta série conduzida pela RTP, que não só conta com vários actores e produtores lusos como tem uma Penélope lindíssima, exactamente como eu sempre imaginei (a bela Bond Girl italiana Caterina Murino) e um Telémaco que parece saído de um vaso grego.


Odysseus é chamada em português "A Odisseia de Homero"  - o que até aqui não me parece muito certo já que a série foca só em parte o enredo da Odisseia, deixando à imaginação  os amores e festins do herói com a feiticeira Circe, a ninfa Calipso (sendo que só esta última é mencionada) e omitindo peripécias como a das Sereias ou a do ciclope Polifemo (havia de ser bonito e barato fazer o Polifemo, logo desculpa-se). 

Pelo meio ainda ficamos a saber que a pobre Helena de Tróia pagou bem caro o adultério: não só vive atormentada pela culpa de ter arrastado os melhores homens da Grécia para a morte e ter feito cair a poderosa Tróia como o marido desonrado, o espartano Menelau (interpretado pelo português Victor Gonçalves) a vigia como um falcão e a enche de nódoas negras dia sim, dia sim, maus tratos esses que amachucaram a sua divina beleza. 

 Quanto a mim, é lógico - sempre me pareceu que um marido, Rei e espartano ainda por cima, não a receberia em casa todo contente como se nada fosse, apesar de já estar vingado...

Também Ulisses, por intrigas, começa a duvidar a lendária fidelidade de Penélope: o que se compreende pois esteve fora vinte anos e ela continua linda de morrer, mas não é assim muito justo quando ele próprio, por força das circunstâncias, viveu com duas deusas. Vá-se lá andar a tecer mortalhas e a destecer mortalhas, a empatar, para manter um homem contente. Não se duvida da lealdade de Penélope, ou se se duvida, não se pode humanamente confiar em mulher nenhuma, eu acho...

Mas perdoam-se as licenças poéticas e estes detalhes que até enriquecem a história pelo figurino (fabuloso) pela fotografia, pela caracterização, pelo todo e - valha-me Zeus -  pelo esforço.


Ponto um: como é que uma série assim não é capa de revista, não é mencionada nas redes sociais, não tem sequer direito a uns outdoors como se faz com a porcaria das telenovelas e Casas dos Segredos da vida? Realiza-se em Portugal, com profissionais portugueses, um trabalho sério, de prestígio,  que permite aos nossos actores desempenhar papéis que jeito tenham em vez de fazerem de riquinhos ou pobrezinhos nos folhetins da TVI, e ninguém diz nada***

E não é porque o público seja *assim tão* estúpido, decerto.

 Se os portugueses consumiram Spartacus como pãezinhos quentes, podem muito bem ver a Odisseia de Homero sem morrer de sono. Também tem sangue, violência e mulheres nuas. E é mesmo uma obrigação moral, num País cuja capital já se chamou Olissipo, que foi, segundo a lenda, fundada por Ulisses em pessoa... saber um bocadinho destas coisas. O público pode muito bem ser educado, desde que lhe dêem aquilo que ele quer com um conteúdo melhorzito.

Ponto dois: a nobre beleza da fidelíssima Penélope só podia ser italiana, desculpem aqui o assomo de brasa à sardinha. Mas a caracterização ajuda muito, com vestidos que apetece roubar para o Verão e uma maquilhagem que eu não descanso enquanto não reproduzir na íntegra, muito aconselhável às meninas de olhos grandes e rasgados. Ora reparem neste cat eye fantástico:


Em resumo, é necessário ver isto. Ao menos para se dizer que alguém viu. Dão os Deuses nozes a quem não tem dentes, será possível?


( *** para os interessados, Odysseus passa aos Domingos, na RTP2, por volta das 10 da noite).






Wednesday, April 9, 2014

E zás, os nossos jornalistas nem Sua Majestade respeitam.


Se ainda não vão por mim quando protesto por aqui que ser aceite numa faculdade ávida de propinas não dá polimento, quanto mais educação a quem não vem educado de casa (e/ou não se esforça um bocadinho) coisíssima nenhuma, aqui fica mais uma pérola dos nossos queridos jornalistas, desta feita na SIC Notícias. BBC, CNN, reparem nesta qualidade e roam-se de inveja. Decerto por aí não há estagiários parolinhos às fornadas, nem editores igualmente parolinhos que não distinguem as asneiras, quanto mais corrigi-las. É daquelas coisas que só acontecem num País ultra democrático como o nosso, desesperado por mostrar em Bruxelas que educa as massas, que tem as massas mais qualificadas da Zona Euro, que isto é uma fábrica de massa do melhorio que pode haver.

Ora reparem: 

Her Majesty the Queen recebeu, no passado dia 8, o actual  vice-primeiro-ministro da Irlanda do Norte,  Martin McGuinness - ex-líder do IRA e o ex inimigo público número 1 de Inglaterra -  no Palácio de Windsor, encerrando definitivamente as hostilidades num evento sumptuoso, magnífico, daqueles que vão rareando nestes tempos tão sem graça.

 E com o encanto que a caracteriza, a Rainha Elizabeth II, que venham as Duquesas que vierem continua a ser o ícone daquela Casa (porque se não nasceu preparada para reinar nasceu pelo menos uma Rainha dos pés à cabeça e encarou o pesado fardo com brilhantismo não deixando, pelo caminho, de ser uma mulher elegantíssima)  teve no seu discurso um dito espirituoso, aludindo ao vídeo em que participou ao lado de James Bond para a abertura dos Jogos Olímpicos: 

              "It took someone of Irish descent, Danny Boyle,

                   to get me to jump from a helicopter"

E como é que se traduziu isto, como? Assim: "foi preciso um homem de DESCENDÊNCIA irlandesa para me fazer saltar de um helicóptero". 

Isto nem se pode desculpar com tradução literal nem nada, já que "descent" se traduz por "ascendência", que é descender de fulano de tal, e não por descendência.

Ter descendência irlandesa era se a jornalista que fez este lindo trabalho fosse trabalhar para a Irlanda como vai tanta gente, conhecesse lá um deslumbrante irish lad que não percebesse no que se estava a meter, por lá casasse, por lá ficasse e tivesse uma data de pequerruchos ruivos e sardentos nascidos e criados na Irlanda. Aí sim, teria uma prole - ou DESCENDÊNCIA - irlandesa. 

 Pois bem, eu enquanto pessoa de ASCENDÊNCIA irlandesa, não achei graça nenhuma, não. Vejo este erro de palmatória constantemente nos jornais, mas num canal noticioso não esperava. Já que não se preocupam com o próprio prestígio podiam tentar não desrespeitar a Rainha, que não merece coisas de mau gosto deste género. Mas é o Sistema que temos - quando se lá entra saloio,  sai-se de lá exactamente na mesma 

Cuidado com os kiwis. São uns perigosos e uns ganda malucos.



Não, não se descobriu que os kiwis fazem mal à saúde, ou andam contaminados, ou coisa que se pareça. Mas consta que, não digam que fui eu que disse, podem causar um crash tecnológico que leve ao caos em menos de um fósforo.
 Então vejam: estava eu em casa, muito descansadinha minding my own business, quando uma pessoa de família me liga pior que uma barata, a queixar-se que ficou sem net, sem telefone fixo e praticamente sem luz porque andou uma maquineta a desgraçar tudo nas imediações para que se possa lá instalar...uma plantação de kiwis. Não um pomar com macieiras, cerejeiras e outras árvores de fruto sem intenções terroristas, mas uma plantação de kiwis, que pelos vistos precisam de esburacar consideravelmente tudo à sua volta para se sentirem confortáveis.
 Não sei quanto a vocês, mas eu cá achei muito suspeito. Estou de olho neles a partir de agora. Com aquela carinha inocente e pele fofinha bem me enganaram. Not anymore.

Dos sumos detox, e outras modas papalvas.



Dizia Eça de Queiroz que certos médicos literários se dedicam a inventar doenças de que a humanidade papalva se presta logo a morrer

Veritas est;  mas nos tempos que correm, a par com os pânicos generalizados que basta uma notícia sensacionalista para desencadear (um estudo que é abandonado logo a seguir afirma com autoridade que o adoçante, os grelhados a carvão, o açúcar branco ou qualquer outra coisa perfeitamente corriqueira faz mal...e toda a gente jura aos pés juntos que nunca consumiu ou, se for honesta, que jamais consumirá tal coisa outra vez) a populaça, sempre crédula e ávida de manias novas para se mostrar muito moderna e informada (já os romanos resmungavam com desdém que  "a multidão é impressionável") está mais sensível do que nunca a tais invenções.

E não é só as doenças (ai o amianto, ai o fumo passivo que vem da esplanada do outro lado da rua,  ai a doença das vacas ou das galinhas doidas, nunca-mais-como-bife nem peito-de frango, Cruz Credo).

Papa-se, literalmente, tudo quanto cheire a cura, remédio preventivo ou patacoada New Age (este texto num conhecido blog da nossa praça ilustra isso lindamente) que se possa não só aplicar às maleitas, mas partilhar nas redes sociais ou na blogosfera como a última panaceia que remediará tudo, desde a tendência- genética- para bater-as-botas-cedo à celulite (causada, creio firmemente, pela poluição, comezaina e enfardanço de remédios que mexem nas hormonas -  porque o sistema endócrino, coitado, é sempre desprezado no meio disto tudo; é mais fácil e muito mais fashion deitar as culpas ao bicho papão do momento).

Juro que noutro dia vi, numa famosa superfície comercial que vende quantas guloseimas há, o "menu biológico infantil": há que criar as florzinhas de estufa afectadas, enjoadas e sem a mínima resistência às bactérias desde logo, pois claro. A seguir arrefinfa-se um bollicao e está pago o dízimo fashion sem desnutrir o petiz que berra que não quer nada comer esparguete hippie.

 Depois do culto à Bimby (que apesar de engenhoca complexa, lá terá a sua utilidade) da mania do sushi-gostemos-ou -finjamos-que-sim -senão-não somos-cosmopolitas (eu cá adoro, mas se não gostasse berrava já aqui que o sushi é uma grande porcaria e 
estava-me marimbando para o ostracismo social que se havia de seguir, porque socializar com burguesices dessas é-me igual ao litro) dos maccarons e dos cupcakes, viraram-se para a comida super saudável. Comida super saudável essa que garanta alguma elevação social...postiça, como é óbvio.

  Neste momento a cura para tudo, o remédio super vitaminado e que fica muito giro no Instagram, são os sumos detox - ou antes, a juicing craze! há que tratar as coisas pelo nome técnico - e as papas saudáveis ao pequeno almoço. "Delícias" inesperadas num país que nem tem o saudável hábito do breakfast, que era até há pouco, para a maioria, um iogurte engolido no elevador, ou um pastel de nata e um expresso no café da esquina, remediando-se o ventre engarrafado com um daqueles iogurtes que fazem o organismo funcionar como um relógio. Isso até descobrirem  brunch de Domingo de que entretanto nunca mais ninguém falou porque não desintoxica e não é saudável, mas não me façam ir por aí.

Eu Sissi que não resisto a fazer pouco de tanta vaidade (ou como se dizia na terra da avó, "tanta prosa")  eu que deixei de acreditar em disparates que surjam do nada e causem romarias automáticas há muito tempo, tenho para mim que metade desses pequenos almoços super ecológicos, todos light, politicamente correctos e bonitos de partilhar com os amigos, essas "deliciosas" papas de linhaça com goji engolidas a tapar o nariz enquanto se abafa um grande blhec- atenção, carneirinhos, que a linhaça engorda muito boa gente, estais avisados, não quero que digam que eu não preveni - e 50% desses suminhos tão verdes, tão fashion de espinafres, cenoura e rabanetes, acabam discretamente no jacó do lixo ou pela pia abaixo logo que se guarda o telemóvel bem guardadinho. E que a seguir, momento "missão saudável" cumprido perante os seguidores, se vai engolir uma senhora Bola de Berlim porque já ninguém se lembra de comprar cupcakes, bonitinhos mas passé.

 Não sei quanto terei de gastar para fazer isso, mas ando tentadíssima a subornar um desses médicos literários que inventam rumores - para divulgar por aí o boato de que a Bimby é o demónio e os sumos detox engordam que se fartam e causam enfartes. Tínhamos o pânico. Irra, tínhamos o apocalipse. Sempre queria ver toda a gente a desdizer-se, a queimar o instagram em auto-de-fé, e eu a rir perversamente desse circo todo.

 Não puxem por mim.

Tuesday, April 8, 2014

Duas palavras com que eu embirro solenemente.


Há muitas outras que me arrepiam como unhas a riscar um quadro - assim de repente ocorrem-me algumas que já tenho apontado por aqui, como "o comer", "o (a) menino (a)" - não dito na segunda pessoa mas na terceira, estilo "cuidado com o meniiiiiiiino!" ou "vai dar o comer à menina", ou menos grave, mas embirração minha, "mala" em vez de carteira"; depois há outras que não têm nada de transcendente mas que se tornaram ridículas pelo uso atamancado que se lhes dá, como "fashion" e "glamour".

 E isto sem falar nas mulheres que tratam as amigas "carinhosamente", e em público,  por nomes de animais de quinta - quem diz tal nem merece ter nascido e já que nasceu, havia de estar trancafiada a lavar pratos numa daquelas cozinhas refundidas de casas antigas estilo Downton Abbey, onde ninguém as ouvia (mas longe da comida, que elas chamam "comer", para não contaminar ninguém) e com os braços enfiados até aos cotovelos em sabão e potassa, a ver se aprendia. 

 Enfim, se vou elaborar um glossário daquilo que não gosto que se diga na minha presença temos um longo serão pela frente, mas atiro aqui duas que me fazem quebras de tensão.


Desgustação - não tem nada de especial, até gosto de ir a uma degustação por outra, mas por modismo e pretensiosismo aburguesado do piorio, agora chama-se degustação a tudo, mesmo à mais elementar e sadia comezaina. É que soa mais chic, julgam os patos bravos que agora descobriram as maravilhas do gourmet (outra palavra que ficou na moda). Por mim até prefiro o sinónimo prova, mas diz que a degustação é assim mais introspectiva e iniciática, estão a ver a ideia. Em todo o caso, na minha terra degusta-se um vinho, uma selecção de doces ou as amostras para o banquete de um casório.
 "Degustar um leitão assado" e coisas semelhantes, como já ouvi, é no mínimo estranho. 

Gostoso - ou gostosão, gostosona, e por aí fora. Primeiro, porque é abrasileirado, segundo porque, como é óbvio, me lembra os anúncios de acompanhantes, que falam sempre em "pecado", "pecado delicioso", ou pior, pior, "pecado gostoso". É uma palavra feia que dói, como elogio é perfeitamente nojento, e como se não bastasse ganhou uma conotação pior ainda graças a estas profissionais da...bom, desavergonhice que gente que não é profissional acha por bem copiar. Por causa de tudo isso, nem sequer consigo empregar o antiquado " aceito gostosamente", por boa educação, de tal maneira me lembra o palavrão. Fico-me pelo "muito gosto" e já é muita cedência.

Já vos aconteceu? (sinto-me tão mazinha, às vezes).‏



Gostar minimamente de uma coisa qualquer (neste caso, uma série).

 Não adorar ou nada que se pareça, mas achar alguma piada.

 Depois vir a saber que alguém com quem não simpatizam nem um bocadinho, e pior (porque há pessoas por quem não tenho especial apreço, mas a quem reconheço um certo estilo) uma pessoa de quem se pode dizer sem injúria que a sua apresentação, intelecto, comportamento, sentido estético e do que é socialmente aceitável  são abaixo de zero (falando em concreto, uma criatura que, para terem uma ideia, representa tudo o que eu costumo desancar por aqui como o cúmulo dos cúmulos dos cúmulos...) bom, virem casualmente a saber que essa alminha de Deus é viciada nessa coisa a que vocês até achavam graça. 

 Jesus, Maria, José - como se já não bastasse coincidências do outro mundo fazerem com que, ó casualidade caprichosa do Universo, os vossos caminhos se cruzassem com uma personagem tão improvável, tão fora de tudo o que é admissível  no vosso microcosmos, ainda vão ter um gosto em comum. 
 E começa-se a pensar em tudo - que se está a perder qualidades, se algo se estragou no vosso ADN  por remoto contágio ou exposição, ainda que muito leve, a ventos brejeiros - algo que vocês preferem não saber que existe e que se vai manifestar mais dia menos dia na tolerância a coisas feias, Deus nos defenda.

E a partir daí, não conseguem, porque não conseguem mesmo, olhar para a coisa em causa - Game of Thrones, nem mais nem menos- sem sentir enjoos e o vosso alarme anti brejeirice a disparar-vos aos ouvidos PERIGO!PERIGO! 

 Imaginem o que tenho sofrido ultimamente, com toda a blogosfera a discutir em peso o regresso de GOT. Que eu nem seguia com muita atenção, mas comecei a ver uma vez por outra por causa do meu  ai-Jesus Sean Bean e era assim uma espécie de Senhor dos Anéis um pouco mais adulto - adjectivo que explica a adoração da criatura pela Saga. Criaturas assim só gostam obviamente de malandrice e sem vergonhice, quanta mais melhor. Porque duvido que tenham capacidade de seguir o enredo e apreciar a fotografia, o figurino ou o guião.

Riscadinho da minha lista, é o que está. 

Monday, April 7, 2014

É oficial: beleza é crime ("olhá magra, olhá top model")


Como tenho barafustado bastante contra este assunto não queria ir por aí, mas a tonteria generalizada não me deixa escolha: a obsessão pela mentalidade de palmadinhas nas costas, contra a "opressão da ditadura da beleza" e outros argumentos lamechas que acusam a indústria da moda e os média de um constante fat shaming sobre as mulheres (argumentos esses que levam ao contrário, ao skinny shaming) está a atingir níveis de paranóia.
 Uns (e não são só uns) querem proibir o Photoshop nos anúncios e nas revistas. 

 Outros entretêm-se a louvar mulheres com problemas de pele que tiveram a "coragem" (coragem porquê?) de mostrar ao mundo como são sem maquilhagem num anúncio de uma companhia de cosméticos.

 Não sei em que é que isso contribui para a felicidade ou auto estima de alguém, sinceramente: segundo a marca, conhecida pela sua maquilhagem de elevada cobertura que disfarça até as imperfeições mais severas, o propósito das "confissões" (que raio de nome - agora ter problemas de pele é crime, querem ver) no anúncio é "provar que todos temos imperfeições e que não é preciso sentir-se menos confiante". Ora, meus senhores, eu que nunca gostei de coisinhas a puxar à lágrima e até sou da área, digo-vos sem pejo: tretas. O que o anúncio faz - e muito bem - é mostrar que a maquilhagem em causa é realmente eficaz (se cobre vitiligo e acne severa, resolve tudo o resto) e ainda comove, fazendo eco nas mulheres inseguras que precisam de pescar elogios. E vai tudo em romaria comprar Dermablend, que é uma marca fofinha e amiguinha das inseguranças de cada uma. É buzz garantido nas redes sociais, polémica barata.

Que necessidade é que há de ver as fraquezas alheias? Em fazer de heroína mostrando fragilidades em público? Como se não se soubesse que toda a gente, mesmo as maiores beldades, tem defeitos e imperfeições, e que alguns até dão mais graça.
 Não há assunto mais cansativozinho, mais chato, mais cheio de caridadezinha. A obsessão pela realidade, por este voyeurismo da falha, pela ditadura do feio ou do normal, não acrescenta nada a não ser - falo por mim - irritação e revirar de olhos. Isto é suposto fazer alguém sentir-se melhor? Ou antes, fazer quem é convencionalmente bonito sentir-se mal? Não compreendo este ataque constante e passivo agressivo à indústria da beleza, ou ao status quo da beleza, esta mudança forçada de paradigma.

 Pois bem: aqui vos digo que estou farta, enojada já, de marcas fofinhas. Se querem iludir as mulheres - ou o público, de resto - com alguma coisa, deixem as pessoas sonhar. A realidade já é feia que chegue, já se vê tanta coisa feia por aí, pessoas que não devem nada à beleza é o que mais se vê todos os dias - se nos tiram a beleza nos écrãs e nas publicações, estou fora.  

 Mal ou bem, o Photoshop é mais honesto. Retoques sempre existiram, ainda o photoshop não estava inventado nem sonhado. Talvez se exagerasse nos últimos tempos (e os exageros são sempre ridículos) mas ninguém é tão estúpido que não saiba que muito do que vemos nas passerelles, na televisão, na imprensa, é smoke and mirrors

 As ilusões (luzes, ângulos especiais, maquilhagem) fazem parte, até porque as câmaras, e na era do digital pior ainda, são coisas tramadas que acrescentam sombras e centímetros onde eles não existem: para o fotógrafo transmitir exactamente o que está  a ver, ou aquilo que imaginou, pode ser necessário ajustar uma coisa ou outra. 
E se até há uns anos as pessoas não sabiam disto, nesta altura já estão carecas de saber que o photoshop existe, que as modelos não são bem assim na realidade, rebebebeu pardais ao cesto. Está tudo informado, agora basta.

E de resto, se tudo for real, onde está o sonho? O romantismo? Se tudo tem de ser real, comece-se o movimento "ir para o trabalho tal como se saiu da cama" e já ninguém fica melindrado.

 Este hábito que se instalou de apontar o dedo a modelos e outras representantes dos detestados "padrões impossíveis" lembra-me aquele spot do Compal (ou Santal?) Light em que a consumidora do mesmo era vaiada por uma data de gordinhos  ("olhá magra, olhá top model", remember?) que não queriam sumos light "porque com menos calorias não conseguiam engordar". E cheira-me a uma falta de desportivismo desgraçada, do estilo " lá porque eu não sou linda, ninguém pode". Ou a inveja, ou falta de imaginação, sabe-se lá. 

 Haverá sempre pessoas mais bonitas - ou com uma beleza diferente - do que toda a gente. Que se promova a diversidade, muito bem: a beleza vem em diferentes formas, cores, tamanhos, em  muitas embalagens. Mas o feio nunca será o novo bonito. E o normal nunca vai inspirar ninguém, só nivelar por baixo. Em última análise, nem tudo tem de estar exposto, muito menos aquilo que é melhor esconder.

Em vez da ditadura do normal, calhava bem a ditadura do decoro e da discrição. Porque defeitos cada um tem os seus, e ninguém tem nada com isso. 


Dois apontamentos do dia.

 Com a quantidade de informação que qualquer fashionista atenta recebe hoje em dia via redes sociais ou e-mail, as coisas bonitas quase se banalizam. Quase, porque uma boa selecção de peças realmente luxuosas e sofisticadas impressiona sempre...e dispõe bem.

 Mas ainda vão surgindo editoriais realmente inspirados, daqueles que apetece guardar, que são compostos pelas nossas referências e griffes favoritas- como este da Harper´s Bazaar, inspirado em Grace Kelly. No meio de tantos designers emergentes,  tendências alucinantes, de tantas liberdades no que toca ao street style, o ladylike é repousante - e Casas como Hermès, Burberry e Bottega Veneta, um valor seguro, pergaminho de qualidade que nunca desbota. 

 E depois há a outra face da moeda, porque nestas coisas sou uma rapariga de extremos. 

Já vos contei qual é a minha abordagem da fast fashion: é um tipo de compra que limito ao essencial, para básicos simples que dão sempre jeito ou para arriscar sem compromisso em certas tendências que surgem à velocidade da luz  Mas de vez em quando, lá aparecem lookbooks que me chamam a atenção por trazerem algo especial.  É o caso deste top da H&M Conscious Collection . Toda a colecção é cheia de tecidos bordados de ar antigo, jacquards, brocado e tons de ouro velho, mas como sofro de um fraquinho gigante por blusas de camponesa que mostram os ombros, esta tem mesmo muito a ver com a minha pessoa:



E os dois statement jackets abaixo (o preto, principalmente) parecem muito bem pensados. Se o material for bom, sou bem capaz de me deixar tentar. E aqui está  a prova de que os prazeres da vida vêem em várias embalagens, para todas as bolsas ou para as bolsas que não se importam de fazer misturas. 








Sunday, April 6, 2014

Coisas rascas e tristes sempre as haverá, gostemos ou não.


Coisas feias, baratuxas, de má qualidade, contrafeitas, mal amanhadas, reles e desagradáveis vão existir sempre, gostemos delas ou não. E quem diz "coisas" diz hábitos, actividades,  comportamentos, ambientes ou convívios. É um facto da vida, como as baratas que resistem a tudo ou a pobreza - que até Nosso Senhor disse que nunca havia de acabar, infelizmente.

 Conviver com, acolher, utilizar, encorajar ou simplesmente tolerar esses incómodos... é outra estória. Porque isso já depende inteiramente da escolha de cada um. 

Ninguém convida as baratas (creio eu) mas só uma pessoa muito desleixada dá conta de ter baratas em casa e não faz nada para se livrar delas. Da mesma maneira que a pobreza sempre andará por aí, a afligir a Humanidade, mas só alguém muito insensível lhe ficará indiferente. Lá porque existe, não quer dizer que se aplauda ou se suporte.

 Aquilo que me desagrada pode existir e estar-se marimbando para o meu erguer de sobrancelhas; mas não preciso, graças a Deus, de ter nada disso por perto. 

  Escolher o que é bom, correcto e de qualidade (relacionamentos, decisões, roupas, linguagem, companhias) ser criterioso e exigente consigo mesmo (sobretudo consigo mesmo) e com os outros não tem nada a ver com arrogância ou snobismo - pode ser-se selectivo e simultaneamente tratar toda a gente com respeito, ser generoso, solidário e genuíno ou até mesmo aconselhar quem precisa de orientação e a pede. Eu diria mesmo que se pode e deve, porque elegância e ares de superioridade não são coisas que andem juntas, e porque é uma obrigação deixar o mundo um bocadito melhor do que o encontrámos.

Não tolerar o que se considera incomodativo ou grosseiro - e manter-se afastado disso -  é uma simples higiene interior que contribui para o aperfeiçoamento.

 Também tem muito pouco a ver com materialismo, peneiras ou mania das grandezas - porque para rejeitar coisas feias ou de má qualidade não é preciso nadar em dinheiro, só ter sensibilidade e algum gosto. 

 Claro que algumas pessoas tiveram mais vantagens (genéticas, de meio, de recursos) do que outras, o que lhes facilita o processo. Mas é possível, se não mudar porque há coisas que não têm remédio, pelo menos polir e aprender tudo, ou quase tudo.

 Um diamante em bruto pode ser lapidado.

Uma gravata de poliéster pode ser substituída por uma de seda.

Um mini vestido de spandex pode servir para acender a lareira e ser trocado por outro com melhor ar.

Maneiras, linguagem, formalismos e protocolos podem aprender-se.

 Mas tudo isso só vale de alguma coisa se o poliéster estiver por fora e não por dentro. Se o poliéster for interior, intrínseco, entranhado, toda a tentativa é inútil. Por muito que se deseje evoluir, o plástico e o petróleo malcheiroso estão lá. Volta-se sempre àquilo de que se tenta fugir, e ainda se acusa quem não gosta da mesma coisa de ter a mania das grandezas.

 Ah, as pessoas que têm poliéster na alma - são outra coisa de que fujo a sete pés. Podem existir, não as podemos fechar num Gulag nem chamar a desinfestação (vêem? as baratas não são assim tão más) temos de tropeçar nelas uma vez por outra, por isso só nos resta manter à distância, muita, toda, intergaláctica. Que remédio.



A Classe e o Ser Selectivo resumidos em poucas palavras.

CZ Guest, Vogue de Abril 1959


A propósito do faux pas que foi a capa da Vogue Americana de Abril (prova provada de que chegámos mesmo ao fim dos tempos e que podemos começar a construir bunkers para evitar a contaminação de mau gosto generalizada) e perante as justificações da revista, que classificou a decisão como um "sinal dos tempos", uma leitora espanhola, com a franqueza e raça de que só as espanholas são capazes, pôs tudo no seu lugar com uma simples frase:

"Excusas. No acertaron con la portada y lo saben. Esa pareja no es de Vogue y si Vogue se siente identificada con ellos, seré yo la que no es de Vogue".

E assim é, ou devia ser, com tudo na vida: não pode haver desculpas para o mau gosto ou para comportamentos menos abonatórios. Se uma publicação que foi por décadas o epíteto da sofisticação e da exclusividade concede fazer-se representar por um rapper arrogante e malcriado e uma reality star que escalou socialmente (salvo seja) à custa de um vídeo para maiores de 18, não vale a pena lamentar o facto: quem está contra, enquanto consumidor traça uma linha e demarca-se. Se a Vogue se identifica com isto, somos nós que já não nos identificamos com a Vogue (com a Vogue americana, pelo menos). Paciência. 

 Em casos assim, vale o velho ditado "os incomodados mudam-se". Ou lembrar a moral do charuto.

 E no quotidiano, nos relacionamentos, nas amizades, nos negócios, passa-se exactamente o mesmo: se alguém, pessoa ou organização, é conivente com atitudes menos elevadas que nos constrangem, se tem atitudes pouco éticas, se se apresenta em figuras (ou com pessoas que fazem figuras) que enchem qualquer alma sensata de vergonha alheia, se não distingue, se tanto lhe faz, se se diverte com isso ou ganha alguma coisa com isso, se, como diz o povo, não se importa de ir de cavalo para burro, então resta concluir que essa pessoa/empresa/clube não tem, deixou de ter ou (o que é mais provável) nunca teve a classe que aparentava, fazer o luto social ou outro da coisa e adeuzinho.

 Porque há coisas que são intoleráveis para quem tem gosto. Intoleráveis e impensáveis. Quem tem a elasticidade moral ou estética de se aproximar delas não pode ser posto num pedestal. Ainda que seja algo tão bonito como uma Vogue. Não podemos controlar as condescendências e liberdades alheias, mas temos o dever de controlar as nossas para que uma maçã podre não contamine o cesto: se te identificas com isso, sou eu que não me identifico contigo.

Dizia Baudelaire que a vantagem do mau gosto é a possibilidade de troçar dele: mas também serve lindamente como sinal de Sentido Proibido, para que se tome o caminho exactamente oposto.



 


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