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Saturday, May 3, 2014

As regras da casa.


Em certas famílias sempre se viveu de acordo com algumas regras de honra não formalmente escritas, mas repetidas vezes suficientes para se entranharem no carácter: "liberdade com responsabilidade senão o mal é só teu", "uma senhora é uma senhora em todas as ocasiões", "dinheiro e problemas não se discutem na rua porque é vulgar e o que não se resolve em família ninguém nos resolve" (no melhor espírito siciliano da omertà), " porta-te com orgulho e dignidade, sem servilismo nem arrogância", "se estás mal não o demonstres"... e as duas máximas, ou mantras, velhas como as barbas do Senhor D. Afonso Henriques:

" Junta-te aos bons, serás como eles; junta-te aos maus, serás pior que eles".

"Basta uma maçã podre para contaminar o cesto".

 As outras ainda se compreende que sejam mais privadas, e/ou que nestes tempos de grande abertura (ou de grande descaramento, para não dizer crise de valores) andem um bocadinho obsoletas, esquecidas, vá. Mas as duas últimas? Por amor da santa, são mera sabedoria popular e bom senso. 

É espantoso ver alminhas de Deus - que o Senhor lhes acuda e as ilumine - que chamam snob, peneirento ou com a mania da superioridade a quem, por uma questão de dignidade pessoal e para preservar a sua integridade (moral, estética, emocional ou outra) se recusa a tolerar presenças indesejáveis e companhias que não interessam ao Menino Jesus... e por conseguinte, as pessoas que se sentem bem em tais convívios.

 Basta uma maçã podre para levar o cesto atrás; mas é igualmente perigosa a maçã sofrível que seja amiga de maçãs bichadas. Uma ou todas, valem o mesmo...

 Não se pede a toda a gente que tenha tomado chá em pequenino por uma colher de prata; mas há os mínimos que separam a gente de bem dos selvagens. Snob, agora. Coitadinhos dos bichos da maçã, que são olhados com sobranceria. Ou das maçãs que não prestam. São mesmo más e altivas as pessoas que torcem o nariz a maçãs estragadas. Com a mania das grandezas. Insuportáveis. (Sim, é sarcasmo, para que não restem dúvidas...one can never be too careful...).



Há direito?


Aconselho-vos a evitar viver numa casa onde as pessoas têm a mania que são morcegos, a não ser que se trate da vossa família -  se assim for só posso recomendar-vos que façam como na canção e vão à farmácia comprar Paciência. E uns óculos de visão nocturna ou vá, um daqueles capacetes de mineiro com uma lanterninha na testa. 

Não há pachorra para quem faz questão de pôr tudo às escuras, com a mania de fazer maratonas de filmes em ambiente cinema em casa. Se já o cinema é o que é, uma claustrofobia e escuridão desgraçada...

 ...ver um filme com morcegos em casa é uma experiência aterradora. Os morcegos não admitem que se acenda a luz, nem que seja preciso ir procurar alguma coisa (muitas vezes, que eles próprios requisitaram) na sala de estar mergulhada em trevas. Nem para mudar de canal, ir à casinha ou aumentar/reduzir o volume a seu pedido, porque ainda por cima são trapalhões com os comandos- afinal,  às escuras não se aprende a usar o controlo remoto -  logo, encarregam o não-morcego mais próximo de o fazer. E ainda ficam muito admirados se uma pessoa não muda imediatamente o canal, ou tropeça e parte alguma coisa,  ou refila porque não vê nadinha, nadinha.

 Resultado? Chega-se ao ridículo de ter uma lanterna junto ao sofá, para circular pela sala e mudar de canal ou passar à frente os intervalos, etc, etc. E os morceguinhos, que são uns fofos, lá dizem "ooh, coitadinha, acende lá a luz" mas depois volta-se ao mesmo. 

 A morceguice, já que é de família, podia chegar a todos, não? Ou ter como contrapartida que o elemento não morcego, para compensar a falta desse super poder, possuísse olhos de gato para ver no escuro.


Friday, May 2, 2014

Mules, como usar?


Há uns meses atrás falei no regresso dos mules, que já se vinha adivinhando, sem esperar que houvesse uma adesão tão grande. Abertos, fechados, minimalistas, delicados, desportivos, boho, com aplicações, vertiginosos, baixos, médios, de stiletto, de plataforma, chunky heel, kitten heel, estilo chinela ou tamanco, com ou sem fivela no calcanhar...as maiores Casas de moda criaram versões para todos os gostos e horas do dia.

                                  


 Não é difícil perceber a paixão de profissionais de moda, bloggers e figuras públicas por estes sapatinhos: são práticos, fáceis de calçar e se bem escolhidos, podem ser muito elegantes e confortáveis.
 Tenho vários pares de estilos diferentes e não sei se vou resistir à vontadinha de comprar uns assim para o dia-a-dia.


 No entanto, o mule não é um tipo de calçado que se possa usar com qualquer coisa, sem pensar duas vezes. Ou antes, isso é possível (são mesmo uns sapatos potencialmente viciantes, porque a tentação de estar bem calçada em segundos, sem a canseira de apertar tiras e fivelas é grande) mas requer alguma prática e golpe de vista, para não resultar num visual desleixado nem desfavorecer as pernas.

 1-  Fórmula instantânea






A receita mais fácil para usar mules sem errar nas proporções é combiná-los com calças cigarrete curtas, pretas de preferência. A altura da bainha é ideal para realçar o sapato sem mostrar demasiada pele, além de criar uma figura longuilínea. Qualquer tipo de mule funcionará aqui, mas a minha aposta vai para os mais simples, clássicos - abertos ou fechados, com salto médio a alto.







2- Fórmula para saias


 A melhor companheira de um mule de salto alto e fino é a saia a 3/4, lápis ou
 ligeiramente rodada.



3- Jeans e calças a direito

São ideais para usar os modelos de salto mais largo.


4- E com saias acima do joelho, pode-se?


Não é a opção mais segura, porque ao deixar o calcanhar descoberto há o risco de um ar vulgar ou algo trapalhão, mal acabado. Para quem não resiste a experimentar, há duas opções: mules de salto chunky para os looks casuais (e bainhas mais curtas) e modelos delicados, pontiagudos de preferência, para vestidos sofisticados  acima do joelho - uma receita aconselhável para quem tem pernas longas e esguias. Evitem-se, no entanto, os saltos  excessivamente altos e finos.


   



A nobre arte de ser...careta.


O cabeçalho deste blog diz tudo: é um salão old fashioned. Bota-de-elástico. Vintage, se preferirem. Sombrio mas bonito, apoiado por uma governanta velha como os montes de espanador em punho que me ajuda a limpar o pó e a arejar os reposteiros que se não tivermos cautela acabam comidos pela traça - paciência, toda a gente sabe que as traças são como eu, não gostam de poliéster, só de tecidos bons. 

   Na minha imaginação essa senhora, de touca na cabeça como nos desenhos animados, é sempre a Senhora Molelas, a housekeeper que havia em casa da avó (nesse tempo ainda não se chamavam nomes feios como técnica de superfícies ) uma velhota (na sua infinita sabedoria, a avó sempre me avisou que uma mulher de bom senso nunca contrata raparigas novas para o serviço doméstico) sem papas na língua que governava a casa com mão de ferro e mandava quem a aborrecesse ir dançar com um porco que tivesse as pernas coxas.

 Nunca conheci a Senhora Molelas, mas tenho um carinho especial por essa senhora beirã, tão espirituosa, que muito aturou...por isso, convidei-a a fazer parte disto. 

 E bem vistas as coisas, um blog careta também seria um belo título aqui para o Imperatriz. Não fiz benchmarking mas tenho cá uma desconfiança que há-de estar entre os blogs mais caretas e mais embirrentos do Reino de Portugal (eu mando neste espaço e para mim Portugal ainda é um reino, porque quanto mais não seja é muito mais bonito dizer  Reino de Portugal do que República Portuguesa... ).

Embirrento com orgulho, porque embirrar com boa disposição é preciso; se deixamos passar tudo, se somos complacentes com tudo, instala-se uma relaxaria total. Não há critérios, não há brio, não há exigência, não há beleza, moralidade, elevação nem atenção ao detalhe e não me canso de dizer que o diabo está nos detalhes

Sendo certo que um dos melhores conselhos que já recebi foi "se os outros quiserem andar com os pés no ar e as mãos no chão, deixá-los" e que uma certa dose de laissez faire laissez passer é determinante para a sanidade mental (tudo bem, desde que não andem de pés no ar e mãos no chão em minha casa ou a interferir nos meus assuntos: a única excepção foi  a minha prima que era uma macaquinha em pequena e tinha a mania que havia de ser artista de circo, logo andava de mãos no chão corredor fora...) como citei aqui, com a crise de valores que por aí vai mais vale ser conservador, preservar alguns valores e tentar passá-los de geração em geração. 

Foi assim que fui educada; e como o mínimo que se espera de uma pessoa de bem é deixar o Mundo um bocadinho melhor do que o encontrou, é assim que tenciono influenciar quem me diga respeito. Os outros, de facto, é deixá-los porque só aprende quem quer e só se porta bem quem está para isso, ou nasceu para isso...

  Cada um é como é: eu cá, Sissi de minha graça, sou um bocadinho careta, digo-o sem reservas. A época em que vivemos tem grandes comodidades: o acesso a imensas coisas, a informação e comércio online, os cuidados de saúde e beleza, a facilidade em viajar, certos direitos e liberdades individuais, a evolução científica, e assim por diante. Mas também é feita de muito artifício, de muita confusão, de muita misturada, de excessiva rapidez, de alguma má qualidade. 

Porque at the end of the day, qual é a vantagem de ser muito moderno, muito open minded?

 Não precisamos de gostar de tudo, experimentar tudo, aderir a tudo, ir com a multidão, pensar pela cabeça do populacho sem ver se isso nos convém.  Menos é mais, elegância é recusa. 

Procure-se uma certa exclusividade, própria de quem é mundano, mas de princípios firmes.

Posso gostar de ir ao Mc Donald´s, mas nada supera os pratos tradicionais. Pode ser divertido comprar uma peça passageira na Zara, mas a qualidade de uma roupa griffé e/ou provada à medida é insubstituível.  Até posso perceber que algumas mulheres se comportem de uma forma que vai contra a ordem biológica e social das coisas e que nos embaraça a todas, mas nunca acharei isso bem.
Posso e devo respeitar toda a gente, mas não sou obrigada a dar-me com toda a gente, a permitir confianças a pessoas que não partilham os meus valores só porque se convencionou que é feio não ser amiguinho de todos. Somos todos filhos de Deus, todos iguais perante a Lei com iguais direitos e deveres, um estranho é um amigo que ainda não conheces, blá blá blá, mas com as pessoas, como com os sapatos, há que ser selectivo para evitar incómodos.

Ignorar ou respeitar a conduta de cada um é uma coisa, não ter opinião ou dar aprovação é inteiramente outra. 

Afinal, quem é amigo de todos não é amigo de ninguém e a neutralidade em tempos de crise conduz ao inferno, lá dizia Dante.

Se ser conservador significa melhores valores,  requinte, sobriedade, melhores comportamentos, comida e roupa de maior qualidade, aperfeiçoamento interior, melhores relacionamentos...então só posso mesmo que concluir que existe uma Nobre Arte de ser Careta

Thursday, May 1, 2014

Look at the flowers, look at the flowers.


Ontem lembrei o conselho do Imperador Aurélio: não nos amofinemos por nada. Mas hoje repito um que funciona comigo. Sabem na série The Walking Dead, quando aquela menina pírulas começava a alucinar e toda a gente lhe dizia "olha para as flores, olha para as flores" a ver se ela se acalmava?
 Pois bem, perante coisas que vos façam aquela urticária insuportável, pessoas que não partilham as vossas aversões - logo, nem vale a pena conversar -e outras situações chatas e incompreensíveis, o melhor é olhar para as flores. Fixar os olhos, olhar para as flores como se não houvesse amanhã até que tudo fique sereno outra vez.
 Quem diz olhar para as flores diz pensar fixamente noutra coisa (naquela pessoa especial, em roupa e sapatos griffé, no vosso gato, no vosso santo de devoção).
 Pode ser uma parvoíce qualquer, importa é afastar o pensamento de tanto disparate, tirar os pés do lodo, mudar a frequência, canalizar a energia noutra direcção nem que seja à força, transportar-se a um sítio (ou memória, ou desejo, ou tolice) feliz. É um lugar comum, mas resulta.

Wednesday, April 30, 2014

O Imperador- filósofo dixit: evitemos as amofinações, faz favor.



Nem só de imperatrizes vive o Imperatrix; é preciso deixar falar os imperadores uma vez por outra. 

E o muito sábio Marco Aurélio (121 d.C.-180 d.C.), aliás Marcus Aurelius Antoninus Augustus, que dirigiu os destinos de Roma durante quase 20 anos, era um homem sensato, que sabia viver. 
 Ficou conhecido como o mais sábio dos governantes da Antiguidade Ocidental  e o meu adorado Maquiavel chamou-lhe "o último dos cinco bons imperadores".

Bondoso, valente, ponderado e bem sucedido, diz-se que a sua morte assinalou o fim da Pax Romana e o declínio de Roma - Cómodo, o filho que lhe sucedeu ( o tal que Joaquin Phoenix interpreta em Gladiador, nem mais) era amalucado e egocêntrico, prova que quem sai aos seus às vezes degenera.

  Além de tudo o Imperador, adepto da corrente do estoicismo, também cultivava um certo espírito blasé e nonchalant, uma impassibilidade superior que eu muito aprecio: ou seja, procurava não se afligir, enervar nem deslumbrar com nada. 

Nas suas Meditações , o  governante cita Eurípedes:

     " Não fica bem enfuriar-nos contra as coisas. Elas não se importam com isso".


 Marco Aurélio acreditava que os outros, ou as circunstâncias que não podemos controlar, só podem ferir-nos se permitirmos que nos emocionem e nos afectem:

"Tens uma excelente maneira de te defenderes deles: evita ser-lhes semelhante".

Ou seja, o Imperador fez o favor de nos deixar uma receita fabulosa para lidar com gente esquisita e incómoda, ou com desaires que levam uma pessoa ao feio estado de se sassaricar ou descabelar. A fórmula só pode ser boa - pois se lhe serviu também é boa para nós, que lidamos com incómodos bem mais pequenos que os dele:

"Cá por mim cumpro o meu dever. O resto não me amofina, que o resto ou são objectos inanimados, ou seres privados de razão ou transviados que não sabem ver o caminho".

Palavra de Imperator. E de homem de bom senso.


Eu nunca li Nicholas Sparks.


Nem Danielle Steele, nem O Diário de Bridget Jones (franquia que merece um valente "Eu embirro com..." aqui no IS, quando eu tiver tempo para elaborar os porquês, que são consideráveis) nem os escritores light portugueses que me matam neurónios só de chegar perto e deixam as mulheres tolas, desesperadas e atrevidas pior do que já são, se é que tal coisa é cientificamente possível ("escritores"esses que já têm sido apupados que chegue por aqui, logo não vou bater mais no ceguinho) nem o Fifty Shades of Grey (Vade Retro Satanás) e basicamente, nada que venha sugerido com insistência em certas revistas femininas.

 Eu diria mesmo: se certas revistas (aquelas cuja capa parece um manual para cortesãs em potência, tantos são os truques mirabolantes que prometem ensinar como se fosse a coisa mais corriqueira do mundo) recomendam um romance-daqueles-escritos-para- agradar-a-mulheres-românticas ou - eu abomino o termo, mas como também não sou fã de eufemismos, cá vai - um livro de g*** ou o respectivo filme de g***, FUJAM. 

Corram a bom correr, procurem as barricadas ou um abrigo anti-atómico, peçam santuário no Templo mais próximo nem que seja uma igreja evangélica daquelas onde se põe o demónio fora aos gritos e se berra "Aleluia Irmão" porque isso pode ser apesar de tudo uma experiência antropologicamente interessante e os danos para a alma não hão-de ser permanentes que a alma é uma coisa com certas capacidades auto-regenerativas; é só fazerem ouvidos moucos e não há-de ser nada, já quanto a neurónios mortos não há remédio.

 Quem lê livros de g*** arrisca transformar-se nisso mesmo, numa g***. E certo, vocês até podem dizer que isso é uma designação carinhosa sem mal nenhum, cada um sabe de si, mas vamos cá ao dicionário:

Significado de Gaja
sf (fem de gajo) pop 1 Mulher reles. 2 Qualquer mulher.
1. [Informal]  Qualquer pessoa cujo nome se desconhece ou quer omitir. = FULANOTIPO
2. [Depreciativo]  Indivíduo considerado de baixa reputação. = ORDINÁRIOSÚCIO
adjectivo e substantivo masculino
3. [Depreciativo]  Que ou quem é trapaceirovelhaco. = ESPERTALHÃOFINÓRIOMALANDRO
   Podemos caracterizar rapidamente essa espécie: uma g*** é uma sujeita desmiolada, por muitos cursos que tenha. Estudou umas coisas porque os pais, coitados, esperavam uma certa afirmação social ao ter uma dótora na família e queriam tirar um retrato baboso na Queima das Fitas para mais tarde recordar, ou porque a rapariga tem aspirações culturais, artísticas ou literárias pouco acompanhadas de talento e agudeza de espírito. 

Pretensões intelectuais baratas são uma coisa terrível em ambos os sexos - pior do que ser ignorante, só ser-se burro como um urso e ter a mania da cultura -  mas numa mulher pior um pouco porque as mulheres não-lá-muito-espertas são mais chatas na forma como se expressam do que os homens pseudo intelectuais que já de si são a coisa mais chata à face da terra: partilham clichés ocos e presumidos nas redes sociais, falam alto no Impressionismo a ver se alguém as ouve, estão sempre prontas para o debate (que é uma forma polida de refilar) e, desgraça das desgraças, mascaram as suas ideias indecentes e  lamechas com princípios modernaços. 

 Uma g*** acha sempre que é como a Samantha do Sexo e a Cidade (uma predadora com alma masculina, muito desprendida, muito confiante) mas depois fica a chorar no ombro das amigas porque o desconhecido que praticamente raptou na noite anterior não lhe telefonou. E chama nomes feios de gado caprino tamanho XL ao homem porque imaginem, quem é que não quereria levar ao altar uma g*** como elas, que faz a papinha toda, que toma a iniciativa toda, que sem o conhecer de lado nenhum o recebeu com vinho e luz de velas e citou frases tão profundas, tão sentidas, como "é muito menos doloroso morrer do que estar vivo com vontade de morrer” (volte Lili Caneças que está perdoadíssima e uma senhora é sempre uma senhora, mesmo quando se atrapalha ao falar em público e ao menos não se põe a escrever romances supostamente muito sérios).

 Incompreensível, não é?

 E por isso a g***, que secretamente já escolheu a quinta para casar com o primeiro que apareça e já tem o vestido guardado no armário mas se faz muito independente, pela-se por Nicholas Sparks e outros que tais, porque nesses folhetins o herói é sempre lindo e romântico e diz coisas parvas mas muito filosóficas, e não desiste do amor por mais idiota que a rapariga seja e por mais que andem à bofetada. 

As relações disfuncionais têm sempre um final feliz e a rapariga rica fica sempre com o rapaz pobre  (o que é  um bocadinho hipócrita já que nestas histórias toda a gente janta nos restaurantes da moda, tem casas com vista para o mar e empregos muito fashion, mas pronto...) porque invariavelmente, nos livros/filmes de g*** o rapaz rico e sofisticado, que não tem culpa de ter nascido assim, coitadito,  ou é mau como as cobras ou desinteressante como uma batata crua.

 O rapaz pobre diz-lhe que a odeia e até lhe dá uns safanões mas isso não é ser mau, é ser romântico porque se apaixonaram à primeira vista e toda a gente sabe que o amor à primeira vista não pode estar errado.
 
Isto para dizer que ontem, num assomo de curiosidade mórbida e porque a história se passa no Sul durante a Segunda Guerra Mundial, lá espreitei o filme The Notebook. Afinal, o que é desastroso em livro, na versão cinematográfica pode escapar com bons actores, fotografia, cenários, banda sonora razoável e companhia limitada. É verdade, escapa. Uma história bonitinha com protagonistas bonitinhos pode consumir-se sem danos de maior, se ignorarmos a maior parte das falas - conversas banais de namorados a pretender rivalizar com, sei lá, Shakespeare: 

Volto a dizer, em filme é sofrível. Mas em papel, nem quero imaginar a chachada completa. Seriously, se querem romantismo desbragado, coisinhas comoventes, histórias-de-amor-que-não-fazem-sentido-nenhum mas resultam, leiam O Noivado do Sepulcro que é mesmo de morte, ou Romeu e Julieta (também se apaixonaram irremediavelmente à primeira vista e não viviam um sem o outro, ora) ou A Dama das Camélias (em que ela escolhe o rapaz pobre, salvo seja). Há que evitar os sucedâneos e mais sucedâneo que folhetins destes, não concebo...







D. Francisco Manuel de Melo dixit: conselhos aos casais...e às mulheres.


Estava eu a analisar alguns volumes que tinha trazido para casa, quando um que me pareceu familiar me saltou à vista. Tratava-se da Carta de Guia de Casados, do ilustre (e solteiro) fidalgo D. Francisco Manuel de Melo.

 Folheei, folheei e embora estivesse certa de conhecer a obra de nome e de não me ser estranha a biografia do autor, não atinava onde já teria lido ou ouvido aqueles conselhos que ligavam tão bem - deitando-lhes um grão de sal e dando desconto à época em que foi escrito, escusado será dizer - com certas coisas na minha maneira de pensar (sou careta, não me macem que eu aviso ali no cabeçalho que o Imperatrix é um blog é old fashioned) e mais do que isso, com coisas que a minha querida avó me martelou logo que tive entendimento (e como comecei a falar cedo, podem imaginar quando principiaram  tais recomendações...).


 A senhora minha mãe lá me fez luz, dizendo que o delicioso livrinho (manual de costumes mesmo perfeito para a minha colecção) costumava andar lá por casa quando ela era pequena, que ela o tinha lido e que a avó o lia também - se bem que, digo eu,  a avó bem podia, vivesse ela no século XVII, ter servido de modelo a D. Francisco, tão sensata era.

 Parafraseando o próprio, "aquele que pede bons conselhos já parece que deles não necessita". 

   Antes de prosseguir, ressalvo que a leitora dos nossos dias, imbuída de ideias de igualdade, tão instruída como qualquer homem (se bem que muito já foi dito, por aqui, quanto à superficialidade de certa educação formal...) e com a cabeça, por muito ponderada que seja, moldada por directrizes panfletárias distribuídas por certas publicações femininas para quem a mulher ideal é uma overachiever com as habilidades íntimas de uma cocotte, se zangará muito com o autor - se não souber interpretar o que diz com a necessária subtileza e o humor que é apanágio das pessoas de bem e de espírito.

 Tenho dito mil vezes que as mulheres sempre governaram, porque se sabiam governar e pôr quem governava a governar por elas...somente, se fazia tudo com jogo de cintura, suavidade e de forma menos evidente. Quem disser que Lívia, Catarina de Medici, Isabel a Católica, Iolanda de Aragão ou Isabel I ou II são exemplos de mulheres oprimidas, pode ir dar uma voltinha a uma certa parte. Uma mulher realmente inteligente não precisa de se armar em espertalhona, nem de mártir num mundo de homens porque não ganha nada com isso.

 Logo, quem não sabe ler nuances é melhor passar bem longe deste Guia de Casados para evitar aneurismas e chiliques.

Adiante, e vamos aos conselhos do nobre autor, que muito podem aproveitar a gente de bom senso.

                                                           Das mulheres belas...e da vaidade:

"De umas que se prezam de formosas, não para há que nos descuidemos. Que a mulher se conheça não é vício (...) devemos tanto conhecer o bem, se o há em nós, como o mal, quando o haja. Desejo que da formosura se use como  da nobreza; folgue cada um de a ter, mas não que a mostre".

Aqui se enterra o detestável adágio " o que é bonito é para se ver" sendo verdade que quem muito exibe muitas vezes pouca beleza tem...
A formosura não precisa de ser espaventosa para ser notada, e por muito grande que seja, a modéstia é um belo adorno...

Sobre a reputação:

"A honra da mulher comparo eu à conta do algarismo...tanto erra quem errou em um, como quem errou em mil..."

"A reputação é espelho cristalino; qualquer toque o quebra, qualquer bafo o empana. Elas, quando são muito seguras em seus procedimentos, se aventuram (...) a tratar com as que não o são. O vulgo, sempre cego, não sabe distinguir, ou não o quer, o bom do mau. Assim os maldizentes, indo acusar uma pessoa, não acertam logo; e por ventura infamam as que andam junto dela (...) uma só gota de tinta que caia em água claríssima basta e sobeja para a tornar turva; e para aclarar uma redoma de tinta, não basta uma pipa de água clara. Assim é a boa e a má fama".



 Sobre as mulheres mandonas e regateiras, que fazem do marido gato sapato:

 " (...) são as que menos cura têm, porque até da temperança do marido (...) tomam causa de se demasiarem; sendo já antigo que o soberbo se faz mais insolente à vista da humildade e o bravo se enfurece diante da mansidão..."


Ai acham exagero? Tive uma vizinha assim, que alcunhei de Rainha do Sabá. Pobre marido e  pobres vizinhos, que a megera não deixava parar ninguém...olhem a solução que D. Francisco aconselha a quem tem a desgraça de casar com uma hárpia:

" Aconselharia a quem tal sucedesse que se apartasse o possível de viver nas cortes e grandes lugares. Quem grita no despovoado é menos ouvido; não se ficará sendo fábula do povo...".


 *Aplauso* Se calhar vou mandar esta ao meu antigo vizinho...


   Acerca das mulheres ciumentas, e como curar os ciúmes:

" (...) aquela que com razão se sente, não chamo eu ciosa [ciumenta]; a ciosa é aquela que sem causa se queixa; e estas são as trabalhosas. Porque emendar cada um as suas fraquezas (...) não é impossível; mas emendar as alheias (...) é impossível. 
 Contra as ciosas com razão, curando-se o marido da leviandade, fica a mulher curada do ciúme. Para desconfianças leves, que um discreto chamava sarna do amor, que faz doer e gostar juntamente, digo eu que como se satisfizeram as damas se satisfarão as esposas. Aquele amor desordenado mais furioso é, e mais veementes os seus ciúmes (como é do melhor vinho o melhor vinagre). Quem soube (...) desmentir os ciúmes de sua dama (...) por esse mesmo modo desminta os de sua mulher."

All you need is love, pois. E juizinho.


                                                    Sobre a discrição e a compostura

"Fale a mulher discreta o necessário, brando, a tempo, com tom que baste para ser ouvida da pessoa com quem fala, e não das outras (...). Uma das terríveis coisas que há na mulher é usar de meneios descompostos (...) nem todas podem ser airosas; mas graves, todas o podem ser (...) longe estou de persuadir à mulher que seja melancólica; alegre-se e ria-se em sua casa, à sua mesa (...)"

 Bem dizia a avó que é feio uma menina ou senhora sorrir com espalhafato e rir histericamente, à maneira das hienas...


 Dos romances light e outras palermices:

"Outras são mortas por livros de novelas (...) aqui é mais perigosa a afeição que o uso. Bem vejo que se lhes pode permitir esse desenfado; mas seja com a maior cautela àquelas que excessivamente se lhe entregarem, visto que podemos temer se ama neles antes a semelhança do pensamento que a variedade da lição..."

O excelente cavalheiro morria outra vez se visse os disparates que as mulheres andam a ler, e levantaria as mãos para o céu por se ter finado antes que certos autores que me dão urticária  viessem ao mundo para encher a cabeça do mulherio com Sei Lás e outros descalabros...se bem que quem gosta de ler e partilhar tais coisas não pode estar muito certa da sua virtude ou do seu intelecto para começar, eu acho.


Desafio as mais corajosas que ainda não leram a 
demorar-se um pouco sobre a obra -  não venham é dizer que não avisei e gritar que isto é um blog pouco feminista, que não me dão novidade nenhuma e eu não tenho paciência para mulheres atreitas a fanicos... 


Tuesday, April 29, 2014

Os Príncipes "William e Catherine" dos anos 30...e a outra Princesa.


Desde esta madrugada que as revistas do coração (e não só)  se desdobram a assinalar os três anos de matrimónio dos Duques de Cambridge com incontáveis artigos, isto depois de dias intermináveis a dar conta de cada passo do simpático casal pela Oceania. 
O entusiasmo dos média pelas idas e vindas do Príncipe William e a sua consorte faz-me sempre pensar que a História se repete sem que muita gente se lembre de que o enredo não é novo. Os  folcloristas podiam mesmo pensar em inserir uma nova tipologia, mito-tipo dos nossos tempos, na classificação dos contos de fadas: o jovem casal de príncipes apaixonados que enternece o público, move multidões e faz correr rios de tinta. Mudam-se os tempos e os protagonistas, mas a receita é semelhante, nem sempre com final feliz...casos trágicos em que se passa do conto de fadas ao mito.
  E se nos anos 50 Grace Kelly, a actriz americana de origem irlandesa-alemã e sangue aristocrático feita Princesa preencheu lindamente o lugar, na década de 30 esse papel pertencia ao jovem e belo Príncipe (e depois Rei) Leopold da Bélgica e à sua encantadora mulher, a Princesa Astrid da Suécia.


 Foi uma história de amor clássica: a conselho da Rainha sua mãe, o Príncipe corria a Europa para procurar uma esposa adequada. Já tinha contactado várias candidatas, sem que nenhuma lhe despertasse interesse. Finalmente, durante um baile, conheceu a Princesa Astrid, da Casa de Bernadotte: pelo lado paterno a linda jovem  era sobrinha do Reis Gustavo V da Suécia, irmão do seu pai; a sua mãe, a Princesa Ingeborg, era irmã do Rei Christian X da Dinamarca e do Rei Haakon VII da Noruega.

 Os dois apaixonaram-se à primeira vista e, no melhor espírito das histórias de encantar, dançaram toda a noite. A Astrid não faltava mesmo, apesar de princesa de sangue, o seu quê de Cinderela: sendo somente sobrinha do Rei, em casa dos pais podia dar-se ao luxo de viver com uma simplicidade despretensiosa, tão típica dos seus conterrâneos: muitas vezes a própria família cozinhava as refeições. Astrid gostava de trabalhar com crianças e de passear à vontade pelos bosques da propriedade da família.

  O seu à vontade, figura angelical, a sua sincera conversão ao Catolicismo por amor do marido e a paixão óbvia entre os dois príncipes conquistaram de imediato o povo belga, que se comovia com a forma como os dois andavam de mãos dadas, mesmo em actos oficiais. 
 Ao receber a noiva na sua nova pátria, o Príncipe abraçou-a calorosamente (acima) para alegria de todos. A festa foi, porém, tingida por uma desgraça que muitos tomaram por mau agouro: o entusiasmo da população foi tal que algumas pessoas morreram esmagadas.
 Apesar disto seguiu-se um período de felicidade perfeita, não perturbada pelos hábitos espartanos de Astrid, que causaram alguma estranheza no Palácio: a Princesa não era dada ao protocolo e tinha o costume de passear os três filhos que entretanto nasceram sem escolta, como "qualquer mãe" - particularidades que a tornavam ainda mais querida aos olhos dos belgas.
 Esta paz doméstica, porém, não durou: a morte inesperada do pai de Leopold  juntou o terrível desgosto (já que o Príncipe e o Rei eram muito chegados) à responsabilidade de reinar. Astrid tornava-se assim Rainha consorte da Bélgica - função que cumpriria por menos de um ano.
 A jovem, bela e adorada Rainha foi vitimada por um acidente de automóvel no dia 29 de Agosto de 1935, morrendo nos braços do marido. O povo e a família real foram mergulhados numa profunda tristeza, a que acrescia a preocupação pela situação política europeia devido à ascensão de Hitler ao poder.
 Aos 33 anos de idade, Leopold enfrentava os desafios do destino do país, de três filhos traumatizados pela morte da mãe a que era preciso atender e de um clima de tensão e instabilidade. Em 1940, a Alemanha invadiu a Bélgica e apesar de ser virtualmente um prisioneiro e dos seus esforços para minorar o sofrimento do povo às mãos do opressor, foi acusado por muitos de cobardia e colaboração com o inimigo. Tudo isto foi agravado pelo seu seu casamento secreto, um ano depois, com a bonita plebeia que viria a ser conhecida como Lilian, Princesa de Réthy: Mary Lilian Baels.

Filha de um eminente político e homem de negócios, Lilian recebera uma esmerada educação. Era ao mesmo tempo semelhante a Astrid e muito diferente dela: ambas eram mulheres lindas e elegantes; Astrid era loura, Lilian morena;  enquanto Astrid era doce e discreta, amiga das alegrias do lar,Lilian gostava de desporto, de arte, de literatura. 
Se não nascera Princesa, Lilian provou que sabia comportar-se como uma, nunca tentando usurpar o lugar da sua antecessora e fazendo tudo o que estava ao seu alcance para a felicidade do marido, dos enteados e dos filhos que nasceram (que se convencionou nunca poderem subir ao trono, apesar de lhes ser conferido o título de Alteza Real).

No entanto, mesmo tendo a união tendo sido incentivada pela Rainha-Mãe e bem aceite pelos filhos da malograda Astrid que mantiveram sempre as melhores relações com a madrasta,  não se pode competir com uma lenda: o povo nunca perdoou a "traição" à memória da primeira mulher, o que contribuiria para a abdicação do Rei Leopold, em 1951, a favor do Príncipe herdeiro, Baudouin.


Apesar de um afastamento temporário por ocasião do casamento deste, a família permaneceu unida; Leopoldo e Lilian , porém, passaram a levar uma vida retirada a partir de 1958, dedicando-se a obras de caridade. 
 No meio das suas tragédias, o Rei Leopold foi um homem de sorte - amado sinceramente por duas princesas belas e notáveis, cada uma à sua maneira...não será um Happy Ever After, mas na vida real não se pode pedir muito mais.


Monday, April 28, 2014

As coisas que eu ouço: coitado do Marquês!


No café onde me conhecem desde que eu ia de cueiros, ou quase, para os meus pais me obrigarem a comer um croissant de chocolate a ver se eu não caía para o lado (fui uma daquelas crianças chatas que torcem o nariz à comida...) todos os empregados me tratam com grande simpatia. 
 E um deles, que é daquelas pessoas extraordinárias que andam sempre tão contentes que dá gosto, vira-se para nós e diz:

"Sabem que fugiu um leão em Lisboa? Mas não foi do jardim zoológico...foi o do Marquês de Pombal. Com a festa benfiquista pôs-se a andar e deixou o Marquês sozinho...coitado do homem!".

Eu nem gosto de piadas de futebol até porque não entendo a maior parte, mas achei a maior das graças...não há que censurar o leão, com tamanha algazarra e com o vandalismo que fizeram à estátua. 

 É daquelas situações: se eu pudesse ir aí abaixo, queria ver se tinham o mesmo atrevimento...

É muito fácil torturar quem já não se pode defender, nem mandar gente incómoda para o cadafalso. Brutos.

Momento Manelinho da semana.


  
Talvez vocês desconheçam o que seja um Momento Manelinho, mas eu explico: é aquele em que a minha franja está  de tal maneira a dar comigo em doida que sou obrigada a reconhecer que preciso de ir ao cabeleireiro. E vou contrariada, tal como o Manelinho ia ao barbeiro.

 A tradução portuguesa desta tira é muito mais expressiva, convenhamos: não sei por que carga de diabos vou ao barbeiro tem outra graça; porém, só encontrei a versão brasileira e confesso, tive preguiça de a digitalizar do meu exemplar de  Toda a Mafalda, que é bem volumoso...mas percebem o feeling da coisa. 

Creio que já vos contei que prefiro investir em bons produtos e modeladores para usar em casa a entrar numa dependência de cabeleireiro; assim que aprendi os truques necessários para sobreviver sozinha livrei-me dessa imposição várias vezes por semana e só lá vou quando é mesmo preciso,  pois o que para outras mulheres é divertido, para mim é a cadeira da tortura...

Entre o marcar vez, a espera, a imobilidade, as dores no pescoço, a gola que fica molhada por mais que se faca, o "não, não quero cá mais produtos" o "sim, já conheço o texturizador/tratamento/tónico milagroso a preço de um anel de brilhantes que dá exactamente o mesmo resultado que os outros, obrigada mas passo" e o "ai Jesus espero que ela seja meiga com a tesoura" não há massagens no cabelo nem brushing certinho que me convençam, até porque acabo por sair de lá mais ou menos na mesma.

 Um bocadinho mais penteada se tudo correr pelo melhor, mas bastante mais stressada, umas dezenas de euros mais leve e em modo "uma rica tarde da minha vida que ninguém me devolve". Volto a dizer: as opções e manias de cada um são um direito inalienável...resta o consolo de um corte de cabelo capaz poupar meses de chatice, é só manter e pronto, mas que é um sacrifício...isso é.

Sunday, April 27, 2014

Sobre as bênçãos disfarçadas.


Não sou muito de citar contos do estilo auto ajuda, mas lembro-me frequentemente daquele provérbio chinês do homem que perdeu o seu cavalo: para um português, o equivalente será Deus escreve direito por linhas tortas.

 Ou seja, nunca sabemos se a Sorte é  presente envenenado e se um aparente azar dos Távoras, uma enorme contrariedade daquelas graves que deitam uma pessoa abaixo e a deixam à beira do colapso não vai, por caminhos caprichosos, conduzir a uma alegria maior que fará esquecer todas as mágoas passadas. 

Acredito no adágio cuidado com o que pedes, podes vir a recebê-lo. O que nos pode escapar são as voltas que são precisas para realizar esse desejo. Sabemos o que queremos, mas o como...é um mistério.

O Universo, esse malandro, move as peças no tabuleiro de uma maneira que só ele entende. Para preparar o terreno para algo muito bom, pode precisar de abrir fundações à marretada, rebentar tudo a dinamite, levar tudo à frente - e fá-lo sem aviso, deixando um Cristão (ou qualquer outro) a perguntar se está o céu a cair, se o mundo está a desabar à sua volta sem uma simples notificação. 

   Num ano apenas, tive provas de que a Sorte pode ser Azar e o Azar pode ser Sorte. Há males que vêm por bem, e bens que nunca haviam de existir.

  Vi celebrar-se um empreendimento muito bom, espectacular mesmo, mas gerido por uma pessoa tão complicada que acabou por trazer pouco mais do que dores de cabeça. Parecia perfeito...mas era como um bolo de aniversário que uma vez, com a melhor das intenções,  comprámos para o meu irmão - coitado.

 Como ele adorava - e adora ainda - carros, encomendou-se um bolo soberbo: grande e em forma de Ferrari. Toda a gente se admirou, porque na altura o conceito de cake art ainda não estava na moda...

Pois bem, a sorte é que o meu irmão nunca gostou de bolos e o desaire não lhe fez mossa (era só para os convidados, mesmo) porque nunca provei nada tão horrível. Não estava estragado ou coisa assim, mas alguém se esqueceu do açúcar e... por dentro e por fora, da massapão ao miolo, aquela porcaria sabia mais ou menos a plasticina (quem nunca provou, acidentalmente ou não, plasticina em pequeno, que atire a primeira pedra...).

 E na outra face da moeda, algo que foi  inacreditavelmente mau, uma versão instantânea do Inferno de Dante (sim, há por aí Infernos de Dante em pó, não imaginam...) provou ser uma bênção disfarçada. Devolveu coisas e trouxe outras melhores. Como um bolo torto que não perde o gosto, ou uma casa velha que se deita abaixo para descobrir um tesouro.

 Já disse por aqui que não compro a teoria de aprender com o sofrimento (acho que isso é um prémio de consolação, algo que se diz porque enfim, é preciso dizer alguma coisa...) mas é verdade que as provações às vezes trazem recompensas.

 No fundo nunca se sabe, logo é preciso serenidade e temperança- aceitar as alegrias com certa calma até se abrir de facto o embrulho, e não se descabelar à primeira contrariedade.

 De qualquer modo, sempre achei muito feio tanto o deslumbramento e a euforia, como o desespero e a histeria...como dizia o avô, que era um grande filósofo, o que é preciso é ter muita calminha. 

Sabem o que seria genial, sabem?

Descobrir-se que o Eça tinha escrito uma data de apontamentos com todas as aventuras da Maria Monforte, nomeadamente o seu passado que no livro é só sugerido em pinceladas largas (já sei que faz parte do mistério da personagem, mas sonhar não paga imposto).

 Assim estilo romance paralelo ou self fan fiction. Se Tolkien o fez, Eça também o pode ter feito (a "Tragédia da Rua das Flores" é muito agradável, mas não conta) e ter perdido o caderno lá pela Terra Santa ou coisa assim.

 A estouvada beldade fatal  é uma das minhas personagens preferidas - tem tudo para uma pessoa antipatizar com ela mas também qualidades redentoras, como a generosidade e a abnegação, que a distinguem das mulheres do seu género. É uma tonta e uma sentimental, merecia chicote, mas eu gostava de ver mais das suas toilettes e namoricos, de saber de onde saíra "assim, tão loira e bela? quem fora a mamã?" e também não se me dava de saber mais detalhes sobre o Tancredo, o belo Príncipe italiano exilado e condenado à morte que lançou a desgraça na Casa dos Maias.

 Gostava mesmo que isso acontecesse mas tinha de ser uma coisa autêntica, porque palavra de honra, havia de se fazer auto de fé com as "sequelas" que alguns autores portugueses se lembraram de rascunhar. Respeitinho pelas coisas sagradas é muito lindo.

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