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Saturday, May 10, 2014

As pessoas têm cada lógica que valha-me Deus.




Farta de ver o meu feed invadido por notícias do "monstro" que anda por aí a monte e ninguém consegue agarrar, deixei um comentário na página de Facebook do jornal em causa a pedir, por amor à dignidade de imprensa, que parem de nos fazer rir de coisas sérias dando tal alcunha ao homem. E disse " isto é ridículo" - porque não havia outra coisa a dizer, oras.

Vai daí uma senhora, cansada de ver o dinheiro dos contribuintes gasto numa busca que não parece estar a correr lá muito bem mas que não se soube decerto explicar como queria, respondeu-me assim (sic, nota bene que há aqui um erro ortográfico bem giro):

"ridiculo para mim é o dinheiro dos portugueses estar a servir para procurar um creminoso"E eu, em modo mas-porque-é-que-eu-me-dou-ao-trabalho-de-comentar-disparates, não resisti e repliquei que...enfim, não se pode exactamente deixar a pessoa à solta, ou pode? Lá que não se gaste dinheiro noutras coisas é justo, agora isso...

 Ou as pessoas não sabem articular ideias ou interpretar o que lêem, ou andam a nadar na maionese, ou dizem a primeira coisa que lhes passa pela cabeça...

 Ouvem-se tolices tais que perto delas, a "nonsense song" abaixo parece fazer perfeito sentido.



Brilhante carreira que me passou a lado: ilusionista.


Quando era pequena, as minhas duas avós, muito responsáveis por me estimular a imaginação e o interesse pelo maravilhoso popular, tinham perspectivas diferentes quanto às coisas mágicas. Já contei aqui e ali que a minha família é muito criativa o que, adicionado às histórias de fantasmas que corriam nas respectivas terras, formava uma combinação daquelas. 
Para uma, o David Copperfield era um "bruxo" e via-lhe o programa com um misto de interesse e medo; a outra não achava tal, mas fingia que sim e aprendeu mesmo umas ilusões (não me perguntem onde) que fazia à lareira e me fascinavam mas que nunca me ensinou. "Um mágico nunca revela os seus truques!" dizia ela com um ar muito misterioso.

 E não revelou mesmo.

Depois eu via séries ou filmes sobre bruxinhas e magias, lia as revistas do Mandrake, ouvia falar no Houdini e a certa altura, na minha cabeça, crendice, fadas, duendes, feitiçaria (acredite-se nela ou não) ou ilusionismo era tudo a mesma coisa; não separava "poderes mágicos" de magia de palco:  era mágico, era misterioso, logo interessava-me. E comecei a pedir "livros de magia" como presente de aniversário, o que levou toda a gente lá em casa a pensar se eu estaria a variar.

Cheguei a ter um daqueles kits de ilusionismo, que um vizinho me ofereceu, e que a par com o estojo de química  foi alvo de intensa pesquisa e experimentação. É que à magia eu também misturava a química porque se a carreira de bruxa, ilusionista, agente secreta, artista de circo (sim, a dada altura ser acrobata passou-me pela ideia, porque tendo um pai oficial da Força Aérea, ele não se sentia incomodado por eu andar pendurada pelos pés, de cabeça para baixo em cima do balouço do jardim ou a fazer o pino em cima do paciente Charolês nas aulas de equitação; não parti o pescoço, por isso acho que tinha algum talento) podia sempre sair-me bem como alquimista. 

Mas quando começava a ser uma ilusionista de feira razoavelmente capaz, os meus cães deram-me cabo do brinquedo; foi a cartola espatifada pelo jardim, a varinha despedaçada em mil bocadinhos, toda uma parafernália circence em fanicos...e a partir daí deixei-me de tentar essas habilidades. 

 Mais tarde, por volta dos meus dezasseis anos, quando já distinguia bem uma coisa da outra (mal seria) e uma carreira no circo já não me dizia nada, cheguei a conhecer um jovem ilusionista, rapaz deveras enigmático, muito louro, muito pálido, assim com um ar germânico e um sotaque a condizer, que me contou que nem tudo era truque. Supostamente ele sabia de hipnotismo, magnetismo e conseguia partir garrafas só de olhar para elas, o que a ser verdade significava que o moço possuía a habilidade da telecinese, que me daria bastante jeito aprender (imaginam as possibilidades?). 
 No entanto, perdi o contacto dele - ou antes, como bom mágico, desapareceu tão depressa como tinha aparecido.

 Mas agora tenho uma certa pena de não ter aprendido ao menos umas ilusõezitas, ou de não manter a amizade com uns mágicos competentes. Não porque tenha paciência para espectáculos de magia (já não tenho, deixei-me de fantochadas) mas porque...imaginem o jeito que isso não dá. Tudo na vida é ilusão, persuasão e truque, smoke and mirrors.

Sempre achei que por exemplo, os espiões, devem aprender um pouco de ilusionismo nas agências (acrobacias aprendem, isso eu sei). Imaginem as partidas que um mágico não pode pregar a pessoas malvadas que gostam de fazer brincadeiras de mau gosto ou de meter o nariz onde não são chamadas: simular que um jantar está assombrado, com copos e guardanapos a voar; pôr pó de comichão nos incautos sem que eles se apercebam; fazer-lhes aparecer bicharada atrás das orelhas ou coelhos nas calças; plantar-lhes, eu sei lá, plutónio na pasta, fazendo-os ser recambiados para uma repartição secreta da CIA por uns mesinhos...

 Seria divertidíssimo, há pessoas que merecem assim uns sustos e eu gosto muito de rir. Mas porque é que eu desisto das coisas e perco contactos úteis?



Uma mulher, 10 carteiras.

De acordo com a Harper´s Bazaar, estas são as 10 carteiras que todas as mulheres devem ter:



1- Carteira preta clássica de dia, à prova de tendências, estilo Fendi ou Chanel - de mão ou a tiracolo (de preferência, que permita as duas opções).



2- Tote bag de tom neutro, como a Antigona de Givenchy, que dá um ar composto a qualquer toilette.


3- Clutch de dia, para um aspecto polido nos dias em que não apetece trazer a casa às costas...e para aquele almoço de negócios ou chá com as amigas. Num bonito tom de cabedal ou em camurça colorida, se for grandota torna-se tão versátil que é difícil largá-la. Além disso, é muito útil para aqueles momentos "não sei onde pôr as mãos".



4- Minaudière de metal: ok, em relação a esta há que ser realista. Poucas de nós resistirão a ter uma (ou mais) "carteira jóia", daquelas em que não cabe quase nada. São uma alternativa mais requintada à clutch de cerimónia e existem em todos os formatos, dos clássicos aos mais fantasiosos, atingindo por vezes preços exorbitantes. Pessoalmente, sou uma rapariga de clutches para a noite (existem versões de metal que fazem o truque e onde cabe mais do que um lápis e um cartão multibanco) mas tenho um ou outro exemplar de minaudières antigo, verdadeiras relíquias. O truque, já se sabe, está em fugir dos modelos mini mini, porque se as meninas forem como eu só vão servir para enfeitar o closet...



5- Saco a tiracolo: seja um satchel bag, mais estruturado, um modelo maleável ou mesmo o incontornável bucket bag (os da Burberry ou Lancel são imbatíveis)  este tipo de carteira é ideal para manter as mãos livres em eventos com muita gente (feiras, festivais) e confere um aspecto  à moda mantendo a classe e a compostura. 



6- Carteira delicada com corrente a tiracolo: esta é uma das minhas preferidas, por ser multifacetada. É perfeita para saídas à noite, pois permite dançar à vontade; a maior parte delas pode ser usada como clutch, se recolhermos a corrente; e se a escolher de um tamanho razoável e em pele, de uma cor neutra, serve para o dia ou para a noite, podendo mesmo ser usada com looks relativamente casuais.


7- A carteira clássica, herdada e/ou vintage: aqui inserem-se os modelos preciosos e estruturados, sendo a Kelly ou Birkin da Hermès o exemplo mais famoso. Mas o importante é que o exemplar tenha passado o teste do tempo e possua certa patine, um ar conservado mas envelhecido, que a torna especial. A boa marroquinaria quanto mais antiga é, mais bonita fica e transforma o visual mais simples, vulgo jeans e t-shirt branca, em algo muito mais sofisticado.


8- Um exemplar divertido: de uma cor bonita e um pouco mais extravagante, com um toque boémio, todas precisamos daquela carteira que comprámos por nada de especial, só porque...enfim, é linda. 


9- Carteira colorida: convém que seja um modelo simples, numa cor de jóia: encarnado, laranja, turquesa, magenta...para animar um visual clássico, simples ou soturno sem cair em exageros.


10 - O saco de fim-de-semana: para escapadelas descontraídas ou viagens de última hora, convém ter à mão um porta-tralha com verdadeiro estilo. Nada contra as versões de marcas desportivas e alforges, salvo seja, da Hello Kitty ou coisa que o valha; servem o propósito mas chega-se a uma altura em que até para a mais elementar noite fora é aconselhável ter um saco de confiança, de aspecto luxuoso, mas ajustável e macio o suficiente para atirar lá para dentro tudo quanto há -além de discreto q.b. para passar despercebido  no cais de embarque. Quanto mais exclusiva a etiqueta mais especial se torna (há um  prazer perverso em atafulhar uma peça preciosa) mas o importante é que o material e a execução sejam da melhor qualidade e muito resistentes. 


É claro que a lista deixa de fora alguns modelos mais específicos, mas é um bom guia para ter em mente os essenciais em que se deve investir. 

Afinal, com estas 10 carteiras, nunca se está "desarmada";  e quando se pondera gastar mais convém que seja em algo deste tipo, pois dura para sempre. As consumidoras espartanas poderão querer ter uma de cada, outras (aqui me acuso) preferem ir coleccionando, mas para o fazer de forma sensata e que beneficie a utilizadora, não convém afastar-se muito destas opções nem esquecer o mantra "muito ou pouco, mas só da melhor qualidade" para evitar tentações que se estragam logo e vulgarizam o visual.

 E de tempos a tempos é aconselhável seleccionar, reorganizar, arejar e arrumar -  pois mesmo escolhendo só o melhor, o aspecto de um dia de arrumações de parte do acervo pode parecer-se mais ou menos com isto, obra de uma menina que eu conheço:


Capisce?







Friday, May 9, 2014

Os Deuses têm a mania de me mandar três presentes.





Quando estou triste e me porto bem, enviam-me tesourinhos vintage, ou roupas, carteiras e sapatos de designer para a minha colecção, de um modo totalmente inesperado, sob a forma de presente ou bom negócio. Quem se queixa? Eu não. Lá diziam os romanos, prosperam sempre os homens que honram os Deuses. Já que até ver não me saiu o euromilhões, seja!

Mas depois também acham que eu tenho cara de santa e mandam-me tudo quanto é bicharada desamparada. Sobretudo gatos (hoje combinei adoptar um para fazer o jeito a uma pessoa amiga, vulgo gosto tanto do gatinho vai-se lá agora mandar o bichano para casa de estranhos que sabe-se lá o que lhe fazem...e aparece-me uma cria minúscula, porque um embrulho nunca vem só) mas já me tem acontecido de tudo: um corvo, um morceguinho com uma asa partida que passou a viver no sótão, cobras, periquitos, cães... e acho que só não me mandam burros, cabritos, touros e cavalos, com muita pena minha, porque ainda não tenho o espaço ideal para isso. Mas no momento em que tal acontecer, aposto que arranjam meio de me remeter tudo quanto há sem que ninguém encomende o sermão ou que eu manifeste vontade de ter tal coisa.

E por fim, têm o costume de me mandar pessoas que eu adoro, mas que não jogam com o baralho todo, não fecham bem a tampa; quando só lhes dá para a excentricidade, esplêndido -  se o mal de muita gente fosse apenas ser excêntrico, o mundo andaria lindamente. O pior é quando não funcionam lá muito bem, ou confundem gostar das pessoas com torrar-lhes a paciência e fazer maldades. 

  Mas enfim, meditei no assunto e calculo que este último tipo de "embrulho" teime em me aparecer como paga dos momentos em que, não por crueldade mas por carolice ou travessura, me comporto assim, bem...à Diabo da Tasmânia:




Karma is a bitch. Ou em bom português, aguente-se à bomboca, Sissi.


All the small things.



As coisas pequenas são muito complicadas. O diabo está nas pequeninas coisas  - mas os deuses também. Sendo certo que os aspectos grandes e abrangentes dão o pontapé de saída para que haja um início, um clique, para um projecto começar ou para que as pessoas se juntem, os detalhes insignificantes é que compõem a malha, a parede, os pontos, o tecido dessa ligação - ou o fim dela. Os pormenores determinam se a trama é resistente. Os diamantes podem ser a peça mais pequena de uma jóia, mas deles depende boa parte do seu valor. O número de fios num pano de algodão dita a sua qualidade. As térmitas, minúsculas, minam a madeira aos bocadinhos,e se não houver cautela, podem arruinar mobílias e estruturas. Um pequeno buraco de traça basta para perder um vestido precioso. 

O tamanho e localização de uma casa são decisivos para que nos interessemos por ela, mas as especificidades - a vista de uma sala, os armários, o jardim, a atmosfera de um quarto - é que nos fazem pensar "quero mesmo viver aqui". E se nos desapaixonamos da casa, é geralmente por um conjunto de pequenos incómodos que nos leva a tomar a difícil decisão de passar pelas maçadas de uma mudança: o aquecimento que avaria por mais que se faça, a falta de espaço, o fantasma no andar de cima (já ouvi casos desses!) uma divisão que teima em ganhar humidade, aborrecimentos com a canalização, vizinhança chata que vai acabando com a paciência até que tudo o que nos encantava naquele sítio já não compensa os aborrecimentos com que é preciso lidar. 

 Do mesmo modo, as primeiras impressões de uma pessoa (o aspecto, o perfil, o todo) permitem-nos considerá-la como potencialmente importante na nossa vida, dar-lhe uma hipótese, querer saber mais sobre ela, olhar outra vez; mas precisa-se do detalhe, das minúsculas coisas que tornam alguém único (a inflexão da voz, o olhar, o riso, os instantes partilhados, as piadas privadas, certos traços do rosto, a forma de andar, as frases, o toque) para escolher ficar e entregar-lhe as chaves da nossa existência.

 E tal como com as casas, é preciso um conjunto de pequenos factores (ou um grande factor que arrasta consigo uma miríade de coisinhas, de dores e de dúvidas) para que o entusiasmo arrefeça ou a união se destrua.

Em tudo na vida, raramente uma só uma coisa estraga o conjunto: é preciso algo muito grande, ou muitos pequenos males, muitos pormenores dolorosos e assustadores para que se perca o entusiasmo e se cortem todos os delicados laços que se criaram com pessoas, coisas, lugares ou situações. O acumular é poderoso, para o bem ou para o mal. 

Há toda uma lógica grão a grão, para construir, e de gota de água que faz transbordar o copo, para a extinção.  Por isso é tudo tão complicado.

Thursday, May 8, 2014

Homens que põem uma mulher à beira de tomar as gotas.


Certa vez contaram-me uma anedota de protestantes: a mulher do Pastor, faça o que fizer tem sempre defeito perante a congregação. Se veste bem, é vaidosa; se se arranja modestamente, não se preocupa com a imagem do marido; se sorri muito, é cheia de si; se é reservada, acha-se muito importante; se trabalha para a igreja, é porque se imiscui, mas se não se envolve, é preguiçosa; se contraria o marido, é atrevida; se não influencia as decisões dele, é uma mosca morta...e por aí fora, um pouco como a história do velho, do rapaz e do burro.

 E conheço certos cavalheiros para quem a mulher que os preocupa - namorada, esposa, candidata ou pedra no sapato - é exactamente como a mulher do pastor, coitada. 

 É sempre ela que tem a culpa do ciúme, do desgosto, da desconfiança ou do *inserir moléstia* que os incomoda. Nunca param para pensar nas asneiras que fizeram - isso não é para ali chamado, porque uma mulher deve perdoar tudo, ter paciência para tudo. Não se convencem que a única mulher que ama incondicionalmente e perdoa incondicionalmente é a mãe, porque não pode deixar de ser mãe por mais tropelias que o filho faça. E mesmo essa...tem limites. E se for esperta, tem uma colher de pau para impor esses limites desde tenra idade.

 Mas quê - querem dedicação fácil, confiança fácil (para o lado deles) perdão grátis, e anda cá meu querido, és tão lindo que nem olho às calamidades que andaste a fazer, dá cá beijinho, quando me tratas mal ainda gosto mais de ti

 Esperam perdão até quando continuam a fazer exactamente a mesma coisa, todos contentes, porque acham que podem e que isso não é mal nenhum. Isto nunca percebi, porque na minha terra quando se pede desculpa, é em modo "já acabou, já passou, perdoa que eu não volto a fazer isto" ao que se segue o bom e velho 
"perdoo-te, mas não voltes a pecar, obrigadinha pelas rosas encarnadas". Deve haver para aí umas formas de perdão todas modernaças que escapam à minha antiquada compreensão.

E como se isto não fosse suficiente...

...não confiam, não acreditam em nada do que lhes é dito, acusam uma rapariga honesta de cálculos e artimanhas que fariam inveja à Milady dos Três Mosqueteiros (sim, porque uma mulher ocupada não tem mais que fazer senão inventar ardis e ser um mestre do disfarce) em vez de falar claro põem-se com testes e armadilhas, e quando a confusão se instala retaliam e inventam quantas maldades há para fazer a cabeça em água à mulher do pastor ou seja, à deles - ou à que acham que é deles. Há sempre um sentido de posse em pessoas assim.

Depois lamentam-se que não têm sorte nenhuma, e ai que mulher malvada que me põe maluco. Ora, se fossem aborrecer o Padre da Freguesia que como Sacerdote sabe lidar com essas crises do espírito, ou um psiquiatra competente com receitas de gotas para coisas desse jaez é que muitas mulheres vos agradeciam, cabeças de alho chocho.

De entrar em contacto com a criança interior, e tretas dessas.

A Pequena Generala. Do disparate, claro.

Vocês, pessoas fofas e respeitáveis que já me vão conhecendo de ler os meus disparates (sem esquecer uns mirones que para aqui andam, deixá-los andar que o espaço é público, fazer o quê, mas não me aborreçam que eu sei onde vocês moram e tenho excelente pontaria para atirar ovos; estais avisados) se calhar, caso não tenham assim muito que fazer e percam uns segundos a 
dar-me a honra de meditar minimamente em quem escreve isto, já perceberam que eu sou uma pessoa espiritual, toda pela religião, que me interesso por mitologia e crenças populares mas não sou nada dada a tretas New Age.

 Por isso, essa ideia de entrar em contacto com a criança interior sempre me pareceu uma patacoada de todo o tamanho, uma espécie de batidos da Herbalife e afins em versão mental. Tenho memórias desde os dois anos de idade e lembro-me perfeitamente da criança que fui, não preciso de regressões e meditações para aprender o que quer que seja com a Sissi de palmo e meio.

 Ou seja, eu na altura não gostava lá muito de ser criança (agora reconheço que com a minha imaginação, foi uma época realmente mágica). 
  Desenhava, escrevia, era unha e carne com a família, acreditava imenso em fantasmas e coisas do outro mundo, delirava com santinhos e rezas que as Irmãs do colégio e a avó me ensinavam porque enfim, eram coisas do outro mundo; inventava histórias mirabolantes para me divertir, tinha a mania dos mistérios e da ciência (acho que era mais de ser uma espécie de alquimista) e adorava brincar com cosméticos e com Barbies (coisas que continuam, se bem que agora a "Barbie" sou eu porque uma mulher pentear-se e vestir-se a si própria já dá trabalho que chegue). 

Era teimosa, caprichosa, com mau feitio, mas com bom fundo. Coração de manteiga que me tem dado muito que entender... 
 Calava-me bem caladinha até o saco rebentar, e aí espantava tudo com as respostas que dava. 

Gostava de me mascarar e de fazer teatrinhos. Não gostava de Nenucos, porque me soavam a tarefas domésticas - ainda hoje continuo a achar que as crianças são giras mas uma canseira enorme - e como fui abençoada com  primos e mais primos (uma criança sem primos não sabe o que perde) passava a vida a arrastá-los, coitados deles que estavam pelos actos, para as minhas invenções. Digo o quê? Ainda arrasto. Mas tudo isto com muito "propósito" porque a avó me metia na cabeça que uma menina tinha de ter sempre muito "propósito" e hoje continuo a não gostar de pessoas que não possuam tal coisa.

 Mas o mais curioso é que praticamente não tenho um retrato de pequena em que não esteja com um ar completamente malandreco, a tramar alguma. Nem nas procissões, valha-me Deus. Com aspecto de anjinho (caracolinhos, longas pestanas e bochechas cuti-cuti) mas um sorriso endiabrado- quando era meio sorriso, pior ainda - e toda divertida a planear a próxima marotice. Os meus primos com ar resignado e angélico, e eu sempre a cozinhar alguma. Chega a ser embaraçoso, juro.

 Dito isto, não mudei rigorosamente nada. Só fiquei maior, com direito a dizer ainda mais o que me apetece e a usar saltos altos. 

 Vou "entrar em contacto com a minha criança interior" para quê, digam-me? Irra, tínhamos a cólera! Tínhamos a peste! Literalmente.

Uma coisa que sempre quis saber, mas tive medo de perguntar.


Afinal, como é que uma mulher faz essa coisa de contabilizar quantos sapatos tem? Quando vejo essa questão a ser colocada a celebridades fico sempre baralhada. Não se trata de não saber contar, de não ser super perfeccionista na organização dos ditos ou de não ter no armário apenas as coisas de que se gosta mesmo, uma colecção isenta de tralha inútil e de coisas sem grande qualidade -  é mesmo nessas condições mínimas, é uma pergunta parva para se fazer a alguém.

 Como é que se faz isso? Contam-se os de Verão ou os de Inverno? As botas devem contar também, e as sandálias, certo?  E para o número final só contribuem os de uso corrente, ou os pares de colecção que raramente vão à rua também estão incluídos? Além das coisinhas utilitárias que não são exactamente sapatos, como ténis, chinelinhas, havaianas e por aí fora - entram na jogada, ou não? A sério, espero que nunca me façam tal pergunta. Tenho cá um número na minha cabeça, mas ninguém tem nada com isso. É daquelas coisas que se devia convencionar não perguntar a uma senhora, ou daquelas que não se devia indagar de todo a ninguém, ao nível do "quanto ganha por mês"'?


Wednesday, May 7, 2014

Qualquer dia o carteiro vai ver. Não perde pela demora.


"Traz carta p´ra mim?" 
e o carteiro que é gago 
espera um bocado 
e responde-lhe: 
"Não não não não não 
não não trago nada 
só trago o pacote 
só trago o pacote
da sua criada"


Facto: eu não tenho grande paciência para andar a correr as capelinhas (leia-se, lojas "comuns") por isso uma parte considerável do meu guarda roupa, para não falar de livros e outros produtos, é encomendada pela internet ou a vendedores que já sabem que marcas e modelos me agradam e me mandam  sugestões de tempos a tempos, numa junção do melhor dos dois mundos: os prodígios do comércio online e a cortesia luxuosa das antigas boutiques tradicionais, à porta fechada, com atendimento personalizado e nada de filas. 

 Ora, algumas encomendas vêm à cobrança e, maçada das maçadas, quando a  entrega é feita pelos CTT sucede que os Correios são demasiado primitivos para dar aos carteiros uma maquineta de multibanco. Quando sei ao certo em que dia virá o "embrulho", já estou prevenida. Mas muitas vezes não há certezas e com franqueza, nos dias que correm é tolice ter em casa certas quantias, ou dinheiro trocado (pois  por vezes o carteiro nem troco traz!).
 Ora, uma pessoa já sabe disto e atura, que remédio;  já basta a parvoíce de, se não estiver presente para receber a encomenda em mão ou não tiver dinheiro consigo, só poder levantar o pacote 24 horas depois, na estação dos Correios.

 O pior é que por aqui costumam passar dois carteiros: um mais jovem que é uma simpatia e que, perante os meus argumentos de que isto não tem jeito nenhum, me aconselha a queixar-me à empresa porque eles próprios acham estúpido que não lhes dêem uma engenhoca para que as pessoas possam pagar mais confortavelmente; outro, mais velho e carrancudo que se farta, com uma bigodaça que parece o Guarda Serôdio, que quando não pode entregar logo a encomenda faz questão de voltar para dentro da carrinha, de trombas, e fazer-me esperar SÉCULOS para preencher o postal e entregar-mo, como se eu não tivesse outra coisa que fazer - quando podia perfeitamente dizer-me "vá lá, menina, que eu deixo o postal na caixa do correio". Agora sou obrigada a ter um banco em casa para agradar a Sua Senhoria, não me faltava mais nada...

 Ando com vontade de arranjar um pastor alemão mal humorado, tipo Rex, o Cão Polícia, por várias razões: mas desconfio que acabo de encontrar mais uma desculpa para ter outro um lindo bicho de estimação . E que hei-de treinar o mastim para causar danos nas calças do homenzinho. Se não for isso, invento outra partida qualquer. Não é bom
 irritar-me gratuitamente, muito menos quando se trata de aquisições destas. 

Fábula das pessoas que implicam com tudo e opinam sobre tudo- chatas, mesmo.


Hoje vou contar-vos mais uma fábula do Decameron, porque no tempo em que não havia blogs, um homem chamado Boccaccio retratou lindamente certos tipos humanos (ou semi,
 vá-se lá saber ao certo)  que não fazem falta nenhuma, mas como existem é um dever moral alertar que por aí andam.

Eu ainda há dias disse por aqui que embirrar com bom humor é preciso: se não repararmos no que vai mal à nossa volta para evitar que se propague (ou pelo menos, que se propague para o nosso lado) e não nos rirmos dos disparates que a sociedade oferece, estamos a ir com o rebanho, a não exercitar o nosso espírito crítico, a ser uma daquelas pessoas a quem tanto lhes faz ou pior, que querem tanto agradar que não se atrevem a ter opinião...e isso é muito triste.


 Mas lá está, é tão mau não ter opinião sobre nada como ter opinião sobre tudo


Pessoas que têm constantemente de opinar, de debater, que metem constantemente colherada, que dizem mal deste, daquele, daqueloutro, que este tem cunhas, que aquela é bonita logo deve armar-se em mulher fatal, que se acham com mais  diplomas do que toda a gente - logo, com o direito de se imiscuir onde não são chamadas e de entrar em debates que não lhes competem - tudo isto com cara de tacho, de quem anda sempre a chupar um limão que não pediu para nascer na árvore ou  pior- com um sorriso melífluo, cheio de peçonha e mel como dizia Nabokov, são do mais insuportável.


Ou porque se tornam cansativas (é preciso saber quando parar) ou porque não percebem quando estão a mais e  se intrometem no que não lhes diz respeito, ou porque a sua companhia não só se torna indesejável como ridícula,  gente desta não aprendeu a máxima às vezes é melhor estar calado

 Por desejo de protagonismo, por amargura, por falta do que fazer, por vontade de engraxar ou por ausência de noção pura e dura, o que mais há é seres assim. 


Os que tenho conhecido são geralmente pessoas que não têm grandes alegrias na vida: como não brilham em nada, não têm génio, imaginação, beleza, êxito, felicidade, nem sequer paixão pelo que quer que seja, dá-lhes para isso:  frustrados a tempo inteiro, gente da aldeia que manda nas colectividades, pseudo-intelectuais frustrados e solteironas sem existência própria que se consideram autoridades nisto e naquilo.


 Quanto a estas últimas, já vos disse: não há nada pior do que uma mulher sem grande cérebro que se arma em muito culta e se põe com pretensões intelectuais ou pior, com discussões "ideológicas" com tudo quanto é homem, nem que o homem em causa seja o pobre Padre da freguesia - que como Sacerdote não tem outro remédio senão dar a outra face e sofrer aquilo. Se não saber estar calado é feio, numa mulher, que deve ser graciosa, é intolerável. Mas lá está: ninguém se torna uma solteirona jarreta por ser linda e graciosa.


Almas destas, todas elas, não são gente digna de nota- o único poder que têm é o de maçar os outros de morte, ser inconvenientes, estragar almoços, arranjar pequenas intrigas e dar cabo da paciência alheia.

 E lembram-me sempre a tal estória do Decameron; vamos à fábula que já me alonguei muito, desculpem: havia um homem rico que tinha a seu cargo uma sobrinha muito mimada. A rapariga não era uma beleza, nem uma inteligência rara; para além da fortuna do tio não possuía formosura, nascimento ou dotes que a recomendassem. Mas tinha a mania que sim, logo desprezava toda a gente e torcia o nariz ao mundo. Se estava em casa, implicava com as criadas que não faziam nada com jeito, com a comida que não lhe agradava, que se aborrecia de morte;  se saía de casa, achava que dizer de tudo e de todos: a gente hedionda, a rua que era suja, as lojas que não prestavam, tudo era mau.


 Certo dia houve festa na cidade e a chata lá foi, deixando o tio aliviado por se ver livre dela por umas horas. Mas não teve sorte porque dali a pouco a chatarrona voltava, com cara de quem comeu e não gostou como de costume.


 "Então, minha sobrinha - regressais tão cedo?"- perguntou o bom homem.

"Ai tio- achei a festa tão maçadora, a rua tão malcheirosa e a assistência tão mal arranjada e desagradável que preferi vir para casa para não ver tais pessoas" - respondeu a maldisposta.

"Pois bem, minha cara- se fazeis tanta questão de não encontrar gente dessa, recomendo que eviteis ver-vos ao espelho" - alfinetou o homem, farto de a aturar.


 E como pessoas destas nunca olham para o espelho para ver os seus próprios defeitos, a chata continuou a ser chata, chata, chata pela vida fora, e morreu sozinha, refilona...e chata


Estão a perceber a analogia da coisa?





Tuesday, May 6, 2014

Há pessoas mesmo espanholitas.


Que é como se diz, na minha terra, das crianças que começam a falar tarde e não pronunciam as palavras lá muito bem.  
 Mas hoje nem me refiro às que dizem coisas feias como "fizestes" ou "vai fazer o comer". Falo das que pretendem ter alguma cultura, até são licenciadas e ainda por cima gostam de marcas mas não se dão ao trabalho de lhes dizer ou escrever correctamente os nomes.

  Começam por chamar Breska à Bershka e continuam por ali além, por ali além, à medida que vão apurando os gostos  (às vezes, vá) e/ou ganhando poder de compra, para baptizar atamancadamente as marcas mais...bom, exclusivas. 

É muito comum encontrar quem ache que escrever Channel é mais chic do que Chanel, dizer Burbérri faz mais sentido do que Burberry, e assim por diante.

 Está certo que com mais instrução ou menos, nem toda a gente tem de ser um ás em línguas e que há algumas marcas cuja pronunciação correcta divide até os entendidos na matéria. A gaffes todos estamos sujeitos,  mas com tanta informação fidedigna disponível é no mínimo disparatado não saber dizer/escrever como se chama aquilo que se traz vestido. 

É como as pessoas que acham que uma maçã é Apple, mas quando se fala de computadores e telefones já é fashion dizer "Eiple", mesmo que tenham uma maçã escarrapachada na engenhoca, para que não restem dúvidas...

Espanholitos com a mania que são espertos - haja paciência.  


Princesa de Lamballe: a mais fiel das amigas.




Quando uma amiga nos diz "punha a cabeça no cepo por ti" é geralmente em sentido figurado - ou, se não conhecermos a tal amiga assim tão bem, caso para desconfiar, porque quando a esmola é muita...
 Mas a trágica Rainha Maria Antonieta, tanto nas maiores alegrias como no meio de todos os seus infortúnios, pôde contar com os tesouros do verdadeiro amor e da verdadeira amizade: amor, o do Conde de Fersen, que até ao fim tentou todos os esforços ao seu alcance para a resgatar; amizade, a da meiga Princesa de Lamballe, a mais fiel e leal das companheiras.



   A lealdade da Princesa é tanto mais valiosa se pensarmos que nem sempre Maria Antonieta pagou na mesma moeda, já que por vezes preferia a companhia da alegre mas estouvada Duquesa de Polignac, a quem favorecia largamente (o que causava a  inveja das maiores famílias do Reino) e que nem sempre a incentivava ao caminho mais sensato. 



Será talvez injusto acusar Madame de Polignac de não ser dedicada -  quando se percebeu que era demasiado perigoso para o círculo íntimo da Rainha permanecer em França, ela ordenou às duas amigas que partissem para o exílio. Ambas obedeceram, contrafeitas. Madame de Polignac adoeceu em Viena e diz-se que foi a notícia do fim de Maria Antonieta na guilhotina que apressou a sua própria morte.


Yolande de Polignac

 Mas enquanto a Condessa (e depois Duquesa) de Polignac tinha algo a ganhar com a amizade da Rainha, já que vinha de uma boa, mas empobrecida família, a Princesa de Lamballe - nascida Maria Luísa de Saboia, filha dos Príncipes de Hesse-Rheinfels-Rothenburg e de Carignano e escolhida pela sua educação virtuosa para casar com o Príncipe de Lamballe, herdeiro da maior fortuna de França - brilhava por direito próprio. 



Se Madame de Polignac encantava pela sua sofisticação e beleza, a Princesa de Lamballe era admirada por todos graças à sua elegância, piedade e simplicidade.
 Aos 19 anos já era viúva do seu devasso marido, que a deixou riquíssima. Quando a preferência da Delfina - e entretanto jovem Rainha - esmoreceu, por achar a Princesa demasiado séria e discreta para os seus passatempos frívolos, Madame de Lamballe 
voltou-se para as suas obras de caridade ao lado do sogro, mas manteve-se fiel.


 Ao compreender que os seus divertimentos tinham contribuído para manchar irremediavelmente a sua imagem junto do povo francês, a Rainha voltou-se novamente para a velha amiga.
 Infelizmente, era demasiado tarde para as duas: Madame de Lamballe escapou para Bath, no Reino Unido, onde tentou obter ajuda para a Família Real. Lá, temendo voltar a Paris, escreveu o seu testamento. Mas apesar dos pedidos de Maria Antonieta para que não regressasse a França, a Princesa retomou o seu serviço junto da Rainha. Ficou ao seu lado até ao ataque às Tulherias, em 1772. 



 Quando foi presa, quiseram obrigá-a a jurar lealdade à liberdade e igualdade, e ódio à Monarquia, ao Rei e à Rainha. A Princesa aceitou a primeira exigência, mas recusou-se a trair o seu sangue e os seus amigos. Então entregaram-na a uma multidão furiosa, que a linchou. Os detalhes da sua morte horrível e violenta nunca ficaram bem claros, mas é certo que a populaça levou a sua cabeça num espeto e tentou mostrá-la à Rainha, que desmaiou ao saber o que se passava lá fora.
 Pudéssemos todos nós contar com uma amiga tão leal como a bondosa Princesa de Lamballe, ou ser capazes de tal dedicação aos nossos amigos...

Monday, May 5, 2014

Das pessoas destinadas à grandeza.


Há quem saiba, desde o berço, estar reservado a um grande destino porque o nascimento, as circunstâncias, os dotes e os meios assim o determinam. Se está à altura ou não, se decide  rebelar-se e fazer algo completamente diferente com os seus dons, isso já é outra história. 
El-Rei D. Sebastião é um exemplo: desde pequenino que lhe apontavam um destino estratosférico, que o monarca tomou demasiado ao pé da letra...

  Existem também indivíduos que sempre sentiram dentro de si que farão algo de importante. 
      É um pressentimento, uma visão, como se possuíssem dentro de si uma estrela, um fogo que tem de ser canalizado para iluminar os outros, algo demasiado precioso para ficar em silêncio. O Mundo precisa deles, por isso acaba por abrir-lhes o caminho. As oportunidades proporcionam-se para que a voz, a beleza, as acções, o génio ou as descobertas de tais  indivíduos sejam oferecidos à Humanidade.

 (Claro que não falta por aí gente que se sente destinada a grandes voos sem possuir qualidades para tal, mas não é dessas que quero tratar hoje...). Um Mozart, um da Vinci, podem nascer na mais remota das aldeias e parecer destinados à obscuridade - mas quase sempre um capricho da Fortuna os coloca no merecido lugar ou antes, no lugar onde são necessários.

 Depois temos as musas, os génios e os heróis improváveis: indivíduos que à primeira vista nada têm de transcendente ou que mesmo tendo, nunca sonharam com a celebridade ou com fazer coisas grandiosas. Recordo-me de ouvir que Amália Rodrigues, quando vendia laranjas, gostava de cantar mas nunca tinha rezado por nenhuma das coisas boas que lhe aconteceram. A combinação de acaso, talento e boa estrela abriram as portas para que a sua voz e o seu estilo fossem dados a conhecer.
  Mas esta semana tive finalmente a oportunidade de rever com olhos de ver A Lista de Schindler, e dei por mim a pensar que até um grande malandro pode tornar-se um herói genuíno, se as suas capacidades de malandrice forem necessárias para actuar e agir em tempo de crise - e se possuir, apesar dos defeitos, um coração generoso, acompanhado  de gosto pelo risco.


 Oskar Schindler não era o que se chamaria um homem bom. Possuía encanto, carisma, generosidade, uma bela figura e uma grande capacidade de persuasão, mas não tinha nada de santo.

 No liceu, já era conhecido como "Schindler, o trapaceiro" por falsificar as notas. Era um mulherengo incorrigível: dizem que no fim da guerra, quando escapou para a Argentina com a mulher e alguns judeus da sua fábrica, também levou a amante consigo; depois abandonou as duas e quando morreu em 1974, aos 66 anos, tinha a seu lado a última amante, nem mais nem menos que esposa do seu médico.

 Gostava de ganhar dinheiro, e de o gastar com a mesma extravagância. Era uma daquelas pessoas divertidas que toda a gente adora, a quem se dá o desconto e com quem ninguém se zanga porque "não é defeito, é feitio".

 Nem sequer era um grande homem de negócios - no filme, o protagonista reconhece que a guerra era o ingrediente que lhe faltava para ter êxito - e devia ser verdade, porque em tempo de paz nunca mais conseguiu ter sucesso. Em todos os aspectos era um homem imaturo, com tendência para o excesso.

  Mas esses mesmos defeitos -a estroinice, a marotice, as falinhas mansas, o desembaraço, o jogo de cintura, a lata, a capacidade de acender uma vela a Deus e outra ao Diabo, a impulsividade e o hábito de arriscar sem pensar nas consequências para si próprio e para os outros - em tempo de guerra e de selvajaria, pela lei da sobrevivência do mais forte, valeram por qualidades. 

Para salvar mais de mil pessoas em tais circunstâncias seria preciso um Bom Malandro: um perdulário que não se importasse de queimar dinheiro; um parlapatão capaz de sorrir ao diabo, de fazer amizade com homens violentos e dizer-lhes o que queriam ouvir, de trapacear, de subornar, de se desdobrar em mil artimanhas para dissimular os seus impulsos generosos como fazendo parte do negócio, um homem destemperado e narcisista o suficiente para se arruinar e doido que chegasse para se entusiasmar com o seu próprio heroísmo, por mais perigos que corresse. Um homem honrado e prudente teria dificuldades em fazer tanto em iguais condições. Se Schindler não fosse tão vaidoso, tão esbanjador, poderia ter pensado melhor - e a sua lista seria mais pequena.

 Ele próprio não sabia dizer porque salvou tanta gente - conhecia-os, aconteceu. As pessoas que ajudou louvavam a sua bondade, mas nunca lhe compreenderam os motivos.

Schindler não seria exactamente um homem bom - era o homem certo na hora certa. A grandeza às vezes, calha a protagonistas que ninguém espera. Serve-se dos instrumentos que estão à mão. 

Manifesto anti-chilique.


Por aqui, defende-se bastante a ideia da mulher tradicional, que usa os seus recursos de maneira feminina, subtil e inteligente em vez de bater o pé, empunhar cartazes, vestir as calças abertamente e refilar sobre sexismo como uma pata choca. 

 Mas também tenho dito que a minha ideia de mulher independente é a de uma Scarlett O´ Hara: uma verdadeira senhora, elegante, educada, coquette q.b, capaz de fazer frente a um exército e de tomar os assuntos nas próprias mãos sem descer dos saltos, tirar o espartilho e perder o fôlego apenas SE  e QUANDO tais coisas são necessárias. 

 O ideal não é uma mulher dragão (admiro Caterina Sforza, mas Caterinas Sforzas não nascem por aí nas árvores...) mas uma mulher fio de aço. Delicada mas firme, de uma resistência a toda a prova e afiada (e afinada...) como uma corda de piano. E o que fazem as cordas de piano? Só soam quando é preciso e útil, em vez de tilintar ao vento como os espanta espíritos, que fazem um barulhinho giro mas aleatório que não serve exactamente para coisa nenhuma. Ou seja, uma mulher digna e sensata deve primar pelo auto domínio: falar, agir e emocionar-se quando é sábio fazê-lo.

  É curioso que na nossa época e na nossa cultura, em que as mulheres têm (ou pensam que têm- reconhecer que isto ainda é, mal ou bem, um mundo de homens e jogar de acordo pouparia muitos dissabores, mas essa é uma opinião pessoal de quem prefere seguir a corrente e deixar os feitos falar por si a lutar por utopias) todos os direitos, todas as liberdades, em que prezam tanto a sua independência e se fazem muito fortes, basta um abanão emocional, ou um homem que se comporta menos bem, para as deitar abaixo.

 Não critico que se vão abaixo, atenção - qualquer uma está sujeita - mas digo que mais valia menos bravata antes de as coisas acontecerem e menos choradeira depois. É preferível reconhecer a própria vulnerabilidade ("não me queria meter nisto que já sei que fico mal, mas se correr mal logo se vê") e lidar com ela com certa compostura depois do mal feito.

  Quando as coisas dão mesmo para o torto, uma mulher fio de aço não fica a chorar. Bom, se calhar fica. Às tantas até liga ao guru ou ao terapeuta ou toma uns pirolitos de passiflorina, de flor de laranjeira ou de erva de S. João porque não vale a pena ser mártir nem matar neurónios; ou vai às compras como qualquer mulher desgostosa, que isto terapia de pirulitos ou terapia da montra vai dar tudo ao mesmo. Pode até precisar de se esconder como a Greta Garbo porque uma senhora só vê e ouve aquilo que quer e quem quer e ninguém precisa de armar em heroína, mas  não fica a remoer coisas que magoam.

Enfia umas lunettes escuras para esconder os olhos encarnados e lembra-se de toda a lenga lenga da mulher independente e ocupada. Usa o mantra "não preciso disto, tenho melhores coisas em que gastar o tempo" mostrando a quem quiser ver a serenidade de sempre.

 Nascer mulher não é nada fácil, mas o fardo é mais leve se se pensar "sou delicada, mas posso bem com isso". E se se puser em uso  as lindas mãozinhas e a linda cabecinha, porque a ociosidade é oficina do Diabo. Nem que para isso seja preciso dar uma lamparina psicológica em si mesma (caso seja a afectada pelo chilique) ou na amiga que está em modo fanico. Ou como diria o senhor meu pai, "vai dar uma corridinha lá fora que isso passa-te".

Às vezes é preciso pensar como um homem, reconheço.




Sunday, May 4, 2014

Fiada de petas do dia. Porque não tem outro nome.


Há assim fins de semana que podiam parar no Sábado. Quando um Sábado é perfeito, esplêndido, geralmente há um sacaninha de um Domingo para enodoar o pano. Não é que estrague o cenário todo, mas lá se tem de mandar o fim de semana à lavandaria para ficar apresentável.

E claro, como dizia o filósofo, o Inferno são os outros. Sempre os outros. Só os malandros dos outros para desarranjar um dia lindo, com tudo para correr às mil maravilhas. Os seres humanos são tão endiabrados que eu já disse aqui algures que os pobres Diabos profissionais, que ficam com a fama e levam com água benta nas trombas e Vade Retro Satana, devem andar todos no desemprego.

Pessoas de bom senso raramente fazem infernozinhos privados,  mas são achacadas a diabretes e mafarricos que tratam de lhos arranjar. O Sérgio Godinho tinha razão quando cantava "digo ao diabo não te temo, ó camafeu: conheci piores infernos do que o teu".

Há almas com quem nem o Diabo (o chefe deles, entenda-se) quer nada!

  Sobre a terra dos meus antepassados diz-se uma frase romanesca a que acho muita graça:



 Isto é afirmado à guisa de elogio, pois lá reza o provérbio: uma mulher bonita é um perigo, uma mulher feia é um perigo e uma desgraça. Mas o mais curioso é que, quando isso de as mulheres serem mais perigosas do que as armas se verifica na realidade, as visadas até estão lá quietinhas, bonitinhas, a pensar na sua vida e a cuidar dos seus assuntos.
 São os homens que fazem a sarrafusca toda, e o inferno todo, que queimam munições mas se queixam que as mulheres os deitam a perder.
  O romantismo não morreu, mas toma a forma de cada dramalhão infernal...Cruz Credo.

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