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Saturday, May 17, 2014

As "pessoas Cluedo"


Eu não gosto de pessoas óbvias, daquelas que se dão com todo o bicho careta, que conhecem toda a gente, fazem questão de ser íntimas de todo o mundo. Além de me parecerem vulgares, deixam-me desconfortável.

   Sempre preferi gente ponderada, discreta, selectiva, segura de si, com um certo ar altivo, que faz mais e promete menos e se gaba menos ainda; indivíduos espirituosos q.b (ser reservado não implica ser sorumbático) mas que sabem quando devem estar calados (pois lá diz o povo: promete pouco e cumpre muito, a palavra é de prata mas o silêncio é de ouro, etc) e que recusam dar confiança a tutti quanti.
     Há um apelo irresistível numa aparente frieza que esconde um espírito caloroso e meigo, num certo mistério. O meu fraquinho foi sempre para as pessoas com algo de enigmático, de indecifrável que é preciso ver melhor para abarcar, absorver aos poucos - e acima de tudo, que não concedem esse privilégio a qualquer um (a).

 Porém, não exageremos - se o mistério tem o seu encanto, a franqueza, a sinceridade e a comunicação clara, sem áreas cinzentas, é que fazem qualquer relação funcionar - seja ela de amizade, amorosa ou profissional.

 E se há coisa que me tira do sério são as Pessoas Cluedo. Lembram-se do jogo de detectives?

 Ou seja, uma Pessoa Cluedo, além de ser telhuda e zangar-se de um momento para o outro, pensa que os outros são bruxos - ou Poirots, Sherlock Holmes e Miss Marples - e que têm, portanto, de adivinhar qual foi o móbil, a arma do crime e a ocasião que motivou a birra (ou o longo amuo, a fúria, etc) de Sua Excelência.

 Perante as suas cenas, fica-se em modo "mas que foi que eu fiz?", "será que acordou para o lado errado?" e anda-se ali dias e dias a conjecturar, a recordar detalhes, até chegar ao momento Eureka de lhe dizer das boas ou,  se o erro foi realmente nosso, pedir uma desculpa zangada, acrescida de um "MAS PORQUE É QUE NÃO DISSE LOGO?".

Ná, as Pessoas Cluedo são demasiado importantes para explicar o que as incomoda. Ou sofrem de um complexo permanente de Bebé, que como não sabe falar protesta assim.

 Ora, eu considero-me do mais observador que há, tenho uma certa habilidade de profiler e muito boa memória, mas se quisesse ser detective candidatava-me à Scotland Yard ou coisa parecida- e mesmo que fosse uma boa profissional a seguir pistas, decerto teria coisas melhores para fazer no meu tempo livre. Como diria o Sherlock, why can´t people just think?




Mais um "sexismo" de morrer a rir.

Miss Belle e Miss Best, personagens de Enid Blyton, iam fartar-se de rir com esta novidade.

Dizia eu ontem que as feministas desocupadas andam ainda mais desocupadas e fora da graça de Deus do que o costume, porque não desistem de inventar tolices novas e de embirrar com ninharias que não lembram a ninguém. 
 Mas como o disparate é uma daquelas coisas que não têm limites, agora lembraram-se de mais uma: supostamente, no Reino Unido, tratar as professoras por "Miss" (o delicado equivalente ao nosso "menina") diminui as mulheres, já que os professores são tratados por "Sir" - uma designação viril, poderosa e dominadora.

Sir remete para os cavaleiros matadores de dragões, Miss para as indefesas donzelas salvas por eles - e claro, os papéis de género tradicionais são veneno para mentes destas.

  Mas esperem, também não lhes serve substituir o juvenil (ou próprio de uma solteirona de Dickens)  "Miss" por "Ma´am" - que é considerado "arcaico" e actualmente reservado quase exclusivamente para Sua Majestade a Rainha (ao contrário do que acontece em certas zonas dos EUA, onde "madam" ainda é um tratamento habitual). 

  E depois, como por lá o "Sr (a) Professor (a)", ou o muito coloquial "setôr (a)" não se usa, resta-lhes dirigir-se aos docentes informalmente pelo nome próprio - como se faz na Holanda, por exemplo - o que lhes parece desrespeitoso demais. Ou seja, arranjaram um novelo que não sabem  como desembrulhar.

 A vida já tem tantas confusões graves que é preciso resolver, será imperativo desencantar mais uma?

  Quem levanta lebres destas deve ter um quotidiano mesmo entediante, só pode.

Friday, May 16, 2014

Neura legítima, ma non troppo (a cortesia da neura)


A neura é um direito que assiste a todos. 


Há uma certa utilidade em algumas máximas do chamado "pensamento positivo" - porque se estão bem para atletas de alta competição e grandes gestores, não podem ser más de todo.


Cada um as poderá aplicar à maneira, do estilo "quando ponho uma ideia na cabeça nem o diabo me dá volta", (parafraseando a avó) "fake it ´till you make it", "descobre exactamente o que queres, que o universo lá há-de arranjar maneira" (e normalmente arranja- depois é preciso cuidado com o que se pede, mas isso é outro assunto)  "planeia por etapas e festeja cada passagem ao próximo nível" (soa foleiro, mas que ajuda, ajuda) ou "põe as tarefas/objectivos por escrito e vai riscando à medida que os cumpres".

 Tudo tácticas válidas.

Porém, não compro de todo a ideia Polyannesca do pateta alegre que está sempre contente. Isso é no mínimo sinistro. Soa-me a adepto de seita com lavagem ao cérebro, porque ninguém é assim tão bonzinho nem tão controlado no seu estado normal. Serenidade sempre, mas sejamos honestos.

É importante reconhecer as emoções e lidar com elas. Tristeza, raiva, frustração, são sentimentos legítimos. 

Sempre que possível, deverão expressar-se em privado - porque o mundo não deve ver os aborrecimentos íntimos de cada um- mas tenho para mim que camuflá-los é um bilhete só de ida para a doença. 

Quem está mal tem mais é que desabafar, virar o assunto do avesso, lamentar-se, espernear, analisar a questão pelos ângulos mais malucos até que se sinta melhor. É para isso que servem a família, os amigos, o diário, o Padre e, em casos mais específicos, se o assunto não se resolve mesmo, o terapeuta; por vezes o cérebro prega partidas que só um especialista resolve e mais vale tratar a tempo do que dar cabo dos neurónios. 

 Mas atenção, há neura e neura. Até a neura tem regras de cortesia próprias.

 Primeiro: é preciso saber isolar a neura, ou os culpados da neura, para não acabar maluquinho de vez. Ou seja, por mais desesperada que uma pessoa se sinta, precisa de se concentrar na causa: se a culpa é da vida amorosa, ou da carreira que não desenvolve, ou da família que anda desavinda, chore-se por causa disso; há que dizer " só me saem duques" mas nunca - TODA A MINHA VIDA desde que nasci é uma porcaria, a culpa é toda dos outros, eles têm tudo e eu não tenho nada, está TUDO perdido, nunca hei-de ter sorte nenhuma, ai que fado o meu

Ou seja, podemos sentir que uma ou duas áreas da existência não correm bem, mas é logicamente impossível ser TUDO mau. Extrapolar, exagerar, fazer um dramalhão e futorologia já e pedir demasiado da paciência alheia. 

 E isso leva-me à regra número dois da neura bem educada: amigos e familiares têm a sagrada obrigação de fazer de ombro; um dia somos nós o ombro, mais tarde serão os outros. 

E um bom ombro sabe que quem está desnorteado diz disparates, que tudo lhe parece negro, que é preciso carradas de paciência. Mas quem está de neura também tem obrigações: a da gratidão, a da empatia e a de ao menos fingir que as palavras de consolo surtem algum efeito.




  Se o ombro já ajudou em tudo o que podia, se ao fim de duas horas de injecção de ânimo, de "também já passei por isso, verás que não é nada", "às vezes é preciso bater no fundo para voltar para cima", "há males que vêem por bem", e por fim, de tentativas de mudar de assunto completamente infrutíferas a pessoa de neura continua a dizer que está amaldiçoada, que vai ser sempre assim, que "tu não entendes porque sempre tiveste tudo" (fazendo o ombro sentir-se culpado...e parvo) numa atitude de quem já não está só triste mas amargo, ressabiado, zangado com o mundo e prestes a morder em quem lhe quer bem, ignorando até a sugestão "pede mas é uma receita"...isso já é má criação e maldade, nem mais. 

 Em tudo na vida, é preciso saber estar. Até na neura.



Ainda as campanhas "ame o seu corpo tal como ele é" X a verdadeira elegância.



Beleza "real". "Body Shaming", fat shaming, skinny shaming, slut shaming. Actrizes que fingem que se estão marimbando para o peso só para obter a simpatia da ala feminina. Videozinhos dramáticos a mostrar que o photoshop, a Barbie, a "Beleza Irreal" , a maquilhagem e as modelos são coisas muito más, que dão expectativas impossíveis às mulheres. A mania generalizada de que mulher alguma deve ter vergonha do seu corpo por isso pode usar as tendências mais extravagantes, mesmo as que não favorecem ninguém. Artigos a pregar o que é que a gravidez faz à silhueta  (excelente desculpa para tirar a roupa e pescar elogios). E coisinhas lamechas a dizer "se eu não amar o meu corpo como ele é, como é que a minha filha o vai fazer?".

 Tudo isto louvado como actos de "mulheres corajosas".

 Poupem-me. Não confundam "mulher corajosa" com "mulher atrevida, exibicionista e queixinhas".

Mulheres corajosas são as que fazem a diferença no mundo contra todas as probabilidades, as que sobrevivem a situações de risco e reconstroem a sua vida, ou que se fartam de trabalhar para chegar a algum lado com famílias às costas, logo não lhes sobra tempo para filosofar disparates, muito menos em público - e muitas ainda conseguem ter bom aspecto fazendo isto tudo. 

Não falo de um aspecto "perfeito" ou de um corpo "perfeito" - porque isso não é importante, não existe, é relativo. Mas a mulher de hoje esqueceu a sua obrigação sagrada de ser uma SENHORA em todas as circunstâncias, e que parte dessa obrigação consiste em manter a ELEGÂNCIA, haja o que houver. 

Elegância na figura (tirando partido da sua silhueta e do tipo que a natureza lhe deu) elegância no pudor, na serenidade e nas atitudes (se ainda não se voltou à forma habitual, vista-se fato de banho por uns tempos até poder voltar a usar bikini, qual é o problema?) elegância na discrição - estamos no século XXI, sabemos perfeitamente o que a gravidez e outras alterações fazem ao corpo, qual é a necessidade de expor mazelas? 

 Ninguém dirá que uma mulher é feia só porque a sua forma se alterou temporariamente, desde que continue a cuidar-se como é sua obrigação.

Mas parece que todas querem ser elogiadas pela beleza exterior, mesmo que não se esforcem nem um bocadinho. É certo que há quem seja naturalmente bela e elegante, outras precisam de mais trabalho, mas nada é grátis nesta vida.

Ora, das duas uma: ou se está disposta a fazer o esforço para cuidar da silhueta (dieta, exercício) e a ter o equilíbrio necessário para não ficar paranóica com isso, ou se aceita alegremente como é, veste de acordo e pára de se queixar, de desculpar o desleixo, a preguiça ou o mais-que-fazer, que é um direito seu,  com "movimentos feministas e afins". 

 As mulheres ou andam muito desocupadas, ou doidas, ou não têm mãe, pai ou maridos que lhes coloquem juízo, ou o feminismo é de tal ordem que tanto faz o que se diga ou faça, ou está tudo a ficar tão egocêntrico, tão fútil, tão egoísta que não tem mais nada em que pensar, ou se instalou uma cultura do "eu posso" e do "eu tenho direito a tudo", da facilidade, da relaxaria,  que eu não entendo. 

 Entre a futilidade das que se enchem de plásticas para ficar "perfeitas" e a futilidade das que exigem elogios à força, venha o diabo e escolha.

 Como não quero soar machista e não sei fazer crochet logo seria hipócrita da minha parte mandar as outras tricotar, digo a estas senhoras que vão ver se a cara metade já lavou a louça toda, ou fazer jardinagem, ou à Missa ou ajudar os sem abrigo, que é sempre uma maneira boa de se livrarem das guloseimas e tentações que estão a mais lá em casa. 







Thursday, May 15, 2014

Cuidado, que a mamã tem poderes.


Não vou discutir  os poderes mágicos (ou  falta deles) da minha família, que isso de poderes mágicos é como as opiniões e os esqueletos no armário, cada um tem os seus e ninguém tem nada com isso, quem está no convento é que sabe o que vai lá dentro. Mas la que las hay, las hay.

 E se em todas as mulheres há um pouco de feiticeira, as mães lideram a Assembleia (não é ofensa, é elogio). Não é por acaso que  os Antigos criaram a figura da Deusa, mãe de todos e dona de todos os poderes: eles lá sabiam, que as mães deles não deviam ser para brincadeiras.

 Quando uma mãe tem uma ideia na cabeça acaba por realizá-la, por mais birra que o filho faça: seja com recurso à argumentação, à insistência-até-que-uma-pessoa-cede-só-para-não-ouvir-mais-nada (todos acabamos por pagar com juros as cenas que fizemos na loja dos brinquedos, prometo) a tácticas fofas, mas passivo-agressivas como "vai uma mãe criar um filho para a sua opinião não interessar para nada!" à chantagem subtil "se não me ajudam nisto, não contem comigo para aqueloutro" a - no caso de mães como a adorável Endora, da série Casei com uma Feiticeira - ou é assim, ou transformo-te em formiga durante uma semana.
 E se uma pessoa faz ouvidos de mercador e leva a sua avante, os poderes mágicos entram em ebulição e é um caso sério.
 Senão, vejam: ontem achei que ficava amoroso fazer uma toilette mais ou menos assim: uma t-shirt às risquinhas brancas e pretas, estilo parisiense, com umas skinny pretas também e uns peep toes do El Corte Ingles  a estrear,  que nem encarnados eram, eram cerise, mais escuros do que estes abaixo:


 Pois bem, a senhora mãe entendeu que a combinação era muito garrida, como se eu fosse pessoa de andar para aí a dar nas vistas, eu que sou tão discreta. Tinha pressa, os sapatos eram confortáveis e ala que se faz tarde.
 E sabem o que aconteceu? Inexplicavelmente, espatifei um par de sapatos de óptima qualidade e novinhos em folha. Não sei se os tive guardados durante demasiado tempo antes de usar (mania minha que já me tem causado dissabores, pois  pode fazer com que as capas e as solas ressequem e percam resistência sem darmos por isso) mas a sorte é que já precisava mesmo de ir ao sapateiro levantar outros, e...lá ficaram no doutor. Coincidência?
 A mãe, claro, a troçar de mim e a dizer "bem te avisei" que é a frase preferida das mães. 
 Lagarto, lagarto...




Estudantes de uma figa. Tenho dito.

A minha pessoa e o caro mano: um estudante deve manter a  compostura - toda a possível, mesmo que esteja com cara de tacho e cartola à banda por mais que se faça.

Se calhar não fica lá muito bem eu dizer isto, sendo de Coimbra, mas por mim saía da cidade nesta altura do ano, juro.

Não que eu seja anti tradições académicas: cumpri o meu dever de gritar EFE- ERRE-ÁS com o entusiasmo que me era pedido, embora a experiência de usar traje não fosse aquilo que eu esperava e multidões não sejam propriamente my cup of tea. 

Anti-praxe tão pouco: novamente, cumpri o meu dever de deixar que me enfiassem a cara num alguidar de farinha para procurar rebuçados Bolas de Neve com os dentes, e dois anos depois ainda praxei "cruelmente" alguns caloiros só para fazer o jeito ao outro "doutor" que precisava de ir à casinha num instante, fazendo-os cantar o Hino Nacional com mão no peito e saltar ao pé coxinho.



 E mais tarde, quando já tinha acabado o curso e estava mais distante de voltar a pôr capa do que de vestir um hábito de Carmelita Descalça (há quem o faça, mas eu não sou de saudosismos e a capa maçou-me tanto que espero nunca mais tropeçar, literalmente, em tal balandrau) cumpri o meu dever - já estão a ver que sou muito cumpridora das convenções sociais, mesmo que não me apeteça nada - de conimbricense paciente ao tolerar, sem chamar a Polícia, que a estudantada malcriada me fizesse barulho à porta e ainda gritasse, com sotaque da aldeia "se isto fosse na minha terra havia de ser bonito".  


 Ah pois...

Afinal, é de rigueur sofrer alguns excessos aos estudantes, como por exemplo ignorar quando roubam vasos ou lanternas da lojinha do chinês (true story). Faz parte, é uma forma de hospitalidade nossa, são só uns dias e fazer o quê, tradição é tradição. 


À estroinice do estudante manda a convenção que se responda com um encolher de ombros e um partilhar da alegria, ao que é suposto o estudante replicar com certa galanteria e boa educação de menino apanhado na lata das bolachas. Por exemplo, se uma velhinha o surpreendesse a mexer nas plantas ou a fazer qualquer disparate, era comum que o estudante, como pessoa formada, se desculpasse, mil perdões minha senhora, e dissesse uma piada qualquer. Mas claro, isso é a tradição, e cada vez menos a realidade. A falta de rigor e exigência dá nisto - e sendo as fornadas de estudantes cada vez menos seleccionadas, é natural que apareça de tudo.

Brincadeiras é uma coisa, abusos e faltas de respeito é outra - e tenho visto amigos a queixar-se de roubos mais sérios, insultos, atentados ao pudor e sabe-se lá o que mais. Isto para não falar nas "estudantes" vindas do quinto dos infernos, que estariam melhor a lavar pratos numa cozinha sem ofensa às ajudantes de cozinha ou a fazer unhas num salão da esquina sem ofensa às manicuras honestas que fazem macacadas nas unhas para ganhar o seu pão.

Criaturas que não beberam uma gota de chá nem conheceram palmatória na baiuca de onde vieram, que têm a lata de transformar o traje em mini saia, para não falar dos "trajes" com que aparecem nas aulas, manchando a dignidade da instituição- havaianas, cai cais e calções de stripper, entre outros farrapos de fugir (then again, aí é culpa da instituição: os tempos em que se mandavam estudantes fazer o exame para casa deles por não virem adequadamente vestidos vão-se perdendo, porque é proibido proibir e tudo e todos se aceitam sem perguntas).


Ora, e por causa dessas almas de Deus, ontem fiquei aborrecida que só visto.

Chego à costureira para ir provar e levantar uma série de coisas (e só eu sei como me desagrada ter certas peças fora de casa) e vejo a senhora toda enervada, toda despenteada, pálida e a desfazer-se em desculpas, que dava dó. 

  Sucede que não estava nada pronto porque as meninas (e meninos) estudantes me deixaram a modista, que coitada é bondosa e esteve pelos actos, à beira de um fanico com arranjos em trajes e fatiotas...que depois não se deram ao trabalho de ir levantar, não obstante os telefonemas desesperados da senhora que precisava de atender a outros clientes e de fechar a loja, porque estavam a curar a bebedeira da noite anterior. Isto apesar de a terem obrigado a fazer serão porque tinham MÁXIMA URGÊNCIA nos seus farrapos.

Esqueçamos por um momento a falta de respeito que isto é - fui estudante, fui bué da jovem e bué da parva (não fui, mas faz de conta) e nunca me passaria pela cabeça não cumprir a minha palavra, assim como nunca me passou pela ideia vestir-me como uma farrapeira seminua, logo vai tudo da educação que se tem em casa e o álcool não é assim tão poderoso, ora histórias.

Quanto à má criação, já nem me enervo com isso - e se não soubesse que fiquei com as coisas por arranjar (um vestido de renda vintage, uma saia Barbara Bui, e outras peças que adoro) por causa dos trajes transformados em tapa -cueca e vestidos medonhos do chinês que muitas dessas rapariguinhas trazem para dar cabo do baile de gala e empidericar Coimbra, até levava o caso na brincadeira. Mas há um limite para tudo, e quando alguém, principalmente alguém com um sentido de estilo de meter medo, toca na minha roupa, aí fico danada e acabou-se a tolerância.


Não só encrencam a cidade toda com as suas tropelias, ainda se atrevem a isto. Tentem agora mexer-me nos vasos, tentem - já tenho dito aqui que sou uma atiradora de ovos excelente. Aviso feito.







Wednesday, May 14, 2014

Pelos queridos bichinhos, tudo: apelo às pessoas fofas e respeitáveis.


Das causas que me movem, a dos animais é uma das mais presentes- porque o nível de desenvolvimento de uma sociedade de mede pela forma como os trata; porque eles não votam, logo têm pouco quem os defenda e porque a minha vida sem os meus queridos bichinhos - vulgo bonecos, gataria malcriada, etc-  não teria metade do encanto.

 É que eles dão trabalho, certo, mas são a alegria da casa, sempre disponíveis para brincadeiras, mimos e abracinhos. Nunca deixam de me surpreender pelos raciocínios e emoções subtis que demonstram. 

 Todos os bicharocos que tenho - de momento só felinos - foram adoptados. Ou porque apareceram à porta enfim, lá foram ficando porque uma pessoa não resiste, ou porque não sei quem não podia tomar conta deles e não era conveniente ficarem com estranhos, e assim por diante.

  De vez em quando, lá acontece servirmos de intermediários para que os protegidos que não podemos guardar encontrem uma família que os trate com o carinho que merecem. E na minha cidade, há uma Associação que ajuda em tudo isto com um trabalho meritório, incansável e muitas vezes sem apoio substancial no socorro aos animais abandonados e de rua: a Agir

Há anos que conheço de perto o seu esforço e dedicação e sempre que me é possível, faço questão de ajudar.
 Os seus voluntários desdobram-se, prescindem do seu tempo livre a horas inusitadas se preciso for para resgatar animais em risco, muitas vezes contribuindo para as despesas do seu próprio bolso-  logo, merecem toda a solidariedade e respeito.

 Ora, neste momento a Agir pelos Animais tem duas campanhas em curso, e ajudar não custa quase nada. 

1- A primeira é daquelas que não consome tempo nem dinheiro quase nenhum mas significa muitíssimo: basta transferir 1€ (ou mais, se quiserem ser extra fofinhos e generosos) para o NIB da Associação: NIB: 0035 0255 0022 0728 230 56 - e assim ajudar a pagar dívidas contraídas em esterilizações e tratamentos veterinários.

2- A segunda, que se realiza no próximo fim de semana (dias 17 e 18 de Maio) junto ao Continente do Fórum Coimbra, precisa de voluntários para proceder à recolha de alimentos. Quem se quiser inscrever pode enviar um e-mail para agir.voluntariado@gmail.com. E claro, quem por lá passar para deixar o seu donativo vai certamente acumular muito bom karma...





Fugir e juntar-se ao circo, parte II: o rapaz que engole espadas é um bom partido.


Por estes dias andava para trás e para a frente com o comando da máquina do tempo à procura de um documentário interessante (por acaso, tencionava ver um sobre criancinhas de três anos que eram mandadas para Gulags por serem "contra revolucionárias perigosas", mas esse já não estava disponível) e reparei nesta série sobre circos de aberrações, tema que sempre me despertou muita curiosidade. 


 O ambiente, a época em que estas exibições eram populares, o próprio décor, as estranhas histórias de vida, algumas bem dramáticas, das "aberrações" que ganhavam a vida por serem diferentes (o "Homem Elefante" e a "Vénus Hotentote" são dois exemplos tristes)  acho tudo isso fascinante; mas julgava que tais espectáculos tinham tido o seu auge em finais do século XIX e acabado por volta da década de 1950, porque afinal não é lá muito ético pasmar para a estranheza alheia.


Mas parece que não: há quem continue a tradição, e entre os que se juntam a estes circos porque a sua esquisitice voluntária não cabe num circo comum (faquires, artistas que se submeteram a modificações corporais extremas e coisas do tipo)  e aqueles que já nasceram assim ( a mulher barbuda, o rapaz lagosta e outros que tais) não falta gente que capitaliza a sua diferença a fazer habilidades. Eu cá não julgo- se se sentem bem assim é lá com eles e quanto à lei, desde que ninguém seja explorado nem enjaulado contra vontade, não creio que se possa dizer às pessoas onde é permitido ganhar a vida honestamente.

 E depois achei a maior das graças a este bem apessoado rapazinho com um elegante sentido de estilo minimalista e gótico, que é a coisa anti social mais amorosa que já se viu.


O ilusionista, que dá pelo bonito nome de Morgue (porque diz ele, se o comum dos mortais tentasse as suas doidices em casa era lá que ia parar) engole espadas, adora espetar-se com agulhas e outras excentricidades. Cultiva um visual de anjo caído e parece que não gosta nada de pessoas que não conhece, nem morre de amores por multidões em geral. Só tolera os outros seres humanos (a maioria deles, vá) quando está a trabalhar, depois prefere ficar no seu cantinho. Um encanto! Como eu o compreendo- o que prova que de génio e de louco, todos temos um pouco. 

Há uma pequena aberração em cada um de nós; o problema é que se a maioria a reserva para si, sem aborrecer ninguém, e outros vão para o circo que é onde as raridades pertencem, há uns quantos que andam por aí a espantar as almas fora do palco e da arena em plena luz do dia, a causar chatices aos outros.


 Em todo o caso, os moços do circo sempre tiveram o seu apelo para algumas mulheres: basta recordar as peripécias da Maria Monforte, dos Maias, com um "Apolo de feira que todas as cocottes disputavam", mas não vamos mais longe: uma senhora da minha família teve uma paixoneta assolapada pelo rapaz dos carrinhos de choque, e chegou a passar-lhe pela ideia uma divertida carreira de saltimbanca - felizmente para ela a feira foi-se embora e o "romance" não chegou, literalmente, a assentar arraiais. Perdeu-se uma artista...

Também conheci uma viúva que fugiu com um bruxo escandalizando a parentela toda, por isso não deve ser uma cousa tão rara como isso.

  Não que eu, menina de gostos do mais patrício e betinho que há, corra riscos de me encantar por um engolidor de fogo e juntar-me ao circo: já vos contei que os meus projectos de ir para o Chapitô foram breves e nunca mais me lembrei de tal, quanto mais não seja porque a vida nómada parece-me uma canseira ; de qualquer modo, que número podia eu fazer? 

Mas bem vistas as coisas, para corações mais aventureiros do que o meu, a ideia romântica de se  apaixonar por um saltimbanco é capaz de não ser tão disparatada: assim como assim, o que há mais é cavalheiros que são uns "artistas" de primeira ordem; e se engolir espadas, cuspir fogo e meter-se acorrentado em tanques de água gelada forem as únicas esquisitices que um homem faz o problema é dele, podia dar-lhe para pior e uma casa não anda tão mal governada como isso. 

 Tenho visto "circos" bem piores, e "proezas" bem mais problemáticas que se não estão no circo, ou num reality show de aberrações, deviam. 

Comparado com alguns que para aí andam, com carinha de quem não parte um prato e muito envolvidos em causas que são Dr. Jekill até ao meio dia e Mr. Hyde depois da hora do almoço, o Morgue até é capaz de ser um bom partido. Candidatas, apresentem-se!






Momento elegante da semana: Ralph Lauren no Castelo de Windsor



 Ralph Lauren (que além de ser virtualmente incapaz de fazer roupa feia é uma pessoa consciente e gosta de partilhar com a sociedade um pouco da sua boa fortuna) foi o convidado de honra no jantar de gala oferecido por SAR o Duque de Cambridge no Castelo de Windsor a favor de um dos hospitais que protege, o Royal Marsden.
 Mr. Lauren vai custear a construção de um novo centro de combate ao cancro nesta unidade de saúde em Londres e, em homenagem à sua boa vontade, as mais elegantes convidadas - Helena Bonham- Carter, Cara Delevingne, Cate Blanchett, Zhang Ziyi, Kate Moss e Margot Robbie, entre outras - escolheram usar criações suas para a recepção.
 Claro que este é um caso de noblesse oblige em que seria de mau tom vestir outra coisa;  mas Ralph Lauren é uma daquelas griffes de solução-imediata, go-to, tried-and-true, para eventos glamourosos que exijam uma certa solenidade e compostura.
  Com um vestido seu, dificilmente se está overdressed ou espampanante. A mulher que o usa poderá não ser a mais vistosa da sala mas será decerto a mais adequada, e já se sabe o adágio "quando uma mulher está mal vestida, repara-se no vestido; quando está bem vestida, repara-se na mulher".



Tuesday, May 13, 2014

Esta nunca me tinha ocorrido.


No que à filosofia do amor diz respeito, sempre acreditei que é péssimo esforçar-se demasiado, desesperar-se, arrepelar os cabelos - principalmente quando se trata de mulheres, cujo papel não convém que seja o de conquistadoras, mas o conselho também vale para eles. Um rapaz pinga amores, a quem qualquer coisa serve e aflito para arranjar quem o ature não passa uma imagem nada apelativa, não.

 O surgimento do amor na vida de alguém é daquelas coisas cheias de lugares comuns bem verdadeiros - não se pode apressar nem forçar, é como uma bolinha de mercúrio que só fica na mão se não a tentarmos prender, tem de surgir naturalmente e em geral, quando se está contente da vida e a pensar em tudo menos nisso, e por aí fora. A sua manutenção a longo prazo, essa já tem mais que se lhe diga...mas adiante.

 Em todo o caso,  tenho para mim que sem uma certa atitude "don´t worry, be happy" não se consegue funcionar nesse sector da existência. 
E isso é particularmente verdadeiro quando se saiu de um relacionamento complicado, ou se está sozinho há demasiado tempo. Não é que eu não acredite nas máximas "os namoros são como os autocarros, perde-se um e aparece logo outro" ou "não há como uma paixão para esquecer a anterior" - tudo isso tem a sua razão de ser, e em certos casos, será a melhor terapia... mas há que dar o desconto aos impulsos abalados do organismo ou da emoção, que podem toldar o discernimento.

 Uma pessoa selectiva e confiante que esteja emocionalmente fragilizada pode cair na asneira de se envolver com alguém que à primeira vista corresponda ao seu ideal, mas que não tenha um background compatível com o seu, não partilhe os mesmos valores, ou/e sofra de sérias falhas de carácter  - defeitos que seriam notados em circunstâncias normais, mas que numa situação de tristeza ou carência são convenientemente ignorados, no melhor espírito do wishful thinking

 Mas se a pessoa que está triste já de si não tiver muita auto estima, nem critérios muito específicos para escolher com quem se relaciona, pior ainda: corre o risco de se apegar a alguém pouco recomendável, para quem não olharia no seu estado normal, só porque está à mão...e quando se apercebe do mal feito, é demasiado tarde.

O remédio - preventivo, claro - é ser-se muito, muito exigente, ter muitíssimo amor próprio, ser-se bastante vaidoso de uma maneira boa, ser tão selectivo com as pessoas como com as roupas, a comida ou os sapatos, e saber bastar-se a si mesmo. Antes só que mal acompanhado - e que perder uns pontos na reputação, ou coisa pior.

 O que nunca me tinha lembrado é que a metáfora dos supermercados se aplica perfeitamente a isto: quando não se jantou tudo parece apetecível, até coisas que normalmente se rejeitam. É sabido que não se deve ir ao supermercado com a barriga vazia, nem ao cabeleireiro com a neura, nem às compras furiosa: dá SEMPRE disparate. SEMPRE.

O Facebook, esse grande filósofo.

Ulisses e a maldita DESCONFIANÇA.


Tal como vos disse, tenho acompanhado a *muitíssimo recomendável, nunca é demais repetir* série luso-francesa A Odisseia, que seguiu o enredo da dita cuja nos seis primeiros episódios para agora tomar algumas licenças poéticas.
 E na minha opinião, esta é uma perspectiva interessante: Ulisses podia ser um herói com sangue divino, bisneto de Deuses, certo; mas não deixava de ser um homem como os outros, com o ego frágil, o ciúme e os medos que assistem a todos eles.

Seria estranho que após 20 anos de batalhas horríveis de se ver, de assistir à morte dos seus companheiros, de andar em bolandas de Herodes para Pilatos (salvo seja) a enfrentar a ira de Deuses, monstros e toda a sorte de perigos, voltasse a Ítaca  todo contente só para encontrar a sua casa invadida de pretendentes sem noção a assediar-lhe a mulher, o reino de pantanas e o trono em perigo e que tudo isso não deixasse um bocadinho de trauma de guerra, de síndroma de stress pós traumático, de justificável paranóia.

 O pior é que o herói deixou que a cautela necessária para sobreviver a tantos transes se transformasse em insanidade, em desconfiança patológica (não sei se isso se chama assim, mas que existe, existe; eu já vi!).

Obcecado com a ideia de traição, passou a ver conspirações em toda a parte, nos corações mais leais, até na própria família que comeu o pão que o diabo amassou para lhe guardar o trono; a duvidar da fidelidade heróica e literalmente lendária da mulher, Penélope; mais facilmente acredita na intriga de um inimigo que diz qualquer coisa para salvar a pele do que nas pessoas que sempre conheceu; e por fim, está feito um tirano que comete injustiças, leva tudo à frente, é impossível de aturar, magoa toda a gente e põe em perigo as coisas que lhe são mais queridas, abrindo caminho para que os verdadeiros inimigos o ataquem.

  Como este Ulisses, tenho visto muita gente.

A vida e os relacionamentos são cheios de episódios que nos obrigam a erguer as defesas para sobreviver;  mas é preciso saber quando baixar a guarda e evitar que o coração seja toldado pelo veneno da desconfiança. 

Lá diz o povo, quem se aventura a amar aventura-se a sofrer - e quem quer de facto viver, aventura-se ao mesmo. Ser prudente não pode significar um regresso constante às mágoas do passado. Não pode implicar esconder-se, fechar-se, levar tudo a peito, destruir todas as hipóteses de cura, de paz, de reconciliação, de recomeço. Se o medo da surpresa, do sofrimento, das armadilhas e do engano estiver sempre presente, ninguém consegue reinar, nem viver.

Torna-se uma sombra de si mesmo - e um espectro para aqueles que o conheceram e amaram. Não sejamos como este Ulisses, de quem disseram "antes tivesse perecido em Tróia".




Monday, May 12, 2014

As pessoas untuosas...arrepiam-me!





Cuidais que trago piolhos,

anjo de Deos, minha rosa?
Eu sô aquela preciosa
que dava as moças a molhos, 
a que criava as meninas
pera os cónegos da Sé...
Passai-me, por vossa fé,
meu amor, minhas boninas,
olho de perlinhas finas!
E eu som apostolada,
angelada e martelada,
e fiz cousas mui divinas. 
Santa Úrsula nom converteo
tantas cachopas como eu:
todas salvas polo meu,
que nenhüa se perdeu.

                                                           Gil Vicente, "Auto da Barca do Inferno"


A quantidade de posts que já escrevi por aqui sobre as pessoas cheias de peçonha e mel quase dava para fazer um Tratado da Sabujice, ou um Manifesto anti Lisonja Barata.
 Sendo incapaz de bajulação, também não suporto ser bajulada ou ver pessoas queridas a ser alvo de tais tentativas de aproveitamento. Soa-me imediatamente a falso e não só - se estiver em modo caridoso, chego a sentir um misto de repugnância, vergonha alheia e pena por quem se rebaixa a engraxar abjectamente, tirando o chapéu a pessoas que inveja ou despreza com um servilismo doentio.

Mas na maior parte das vezes, só a boa educação me impede de lhes dar um pontapé. Assim, com a pontinha do sapato, estilo chegue-se para lá, bicho feio, antes que se pegue

 Quando a esmola é muita, o santo desconfia - e é preciso ser muito ingénuo para não distinguir admiração sincera (ou simples diplomacia, que às vezes nos obriga a ser polidos com quem não simpatizamos) de untuosidade, vulgo lamber botas.

 A untuosidade lembra-me sempre a Alcoviteira do Auto da Barca do Inferno: vozinha maviosa, elogio fácil de quem quer angariar meninas, o riso imediato a cada piadinha que o alvo diz, muita solicitude, muito empenho, muita humildade, muito sim a tudo, e olho de falcão para arranjar as intrigas que forem precisas, não vá o pássaro fugir.



  Claro que quem bajula tem geralmente uma tendência para se fazer necessário, para se intrometer onde não é chamado, para ser fura bolos, metediço e pior que a pulga na costura - força aproximações, faz-se convidado, mete colherada, presta-se a ser alvo de troça desde que ganhe alguma coisa com isso, opina muito e se lho permitirem, põe e dispõe. Huriah Heep, de Dickens, ou a Juliana, do Primo Basílio, são bons exemplos  da natureza venenosa de pessoas assim: quem não tem vergonha de se mostrar servil, é capaz das piores maldades.

 Eu, que noto um bajulador a milhas, se não lhe puder dar o desejado pontapé (ou por uma questão de compostura, ou porque não ando a investir em bons sapatos para os empeçonhar com gosma) divirto-me a calcular quanto tempo aguentam o sorriso.
 Tenho cá uma teoria: acho que o agrafam e que logo que voltam costas, sofrem um ataque de tiques nervosos, fazem caretas que nem uns possessos, vomitam injúrias, espanejam-se pelo chão de raiva, enfim, mostram a sua verdadeira face, que é mais ou menos assim:



A mim não me enganam. Nauseazinha...

Liane de Pougy: it girl e pecadora arrependida.


A vida de Liane de Pougy, uma das mais célebres demi-mondaines da Paris da Belle Époque, podia resumir-se da seguinte maneira: do convento-para-o-cabaret-para- o -palácio-e-para-o-convento-outra-vez.

  Ao contrário de tantas "grandes horizontales" (como Cora Pearl, La Paiva ou Marie Duplessis, a Dama das Camélias) Liane - nome de baptismo,  Anne Marie Chassaigne - não teve uma infância difícil no campo, ou em qualquer bairro desfavorecido. Nasceu numa família de classe média e teve uma boa educação num mosteiro, de onde só saiu (ou antes, fugiu) aos dezasseis anos para casar com um Oficial da Marinha.


A história podia ter ficado por aqui, numa grande respeitabilidade burguesa, se o  marido, Armand, não saísse um brutal que lhe batia. Desnorteada com a responsabilidade doméstica (mais tarde, recordaria que via o filho que lhe nascera como "um boneco" e que era uma péssima jovem mãe) e com a violência que lhe deixou cicatrizes para o resto da vida, Anne - que não devia, apesar disso, ter grande medo do marido - vingou-se tomando um amante, o Marquês Charles de MacMahon. 

Armand apanhou-os em flagrante delito na sua casa em Marselha e reagiu como seria de esperar de um homem do seu género: disparou sobre o casal de adúlteros e feriu a mulher num pulso. Receosa pela sua vida, Anne vendeu o único bem que possuía - um lindo piano de pau rosa-  e em menos de uma hora estava num comboio para Paris, deixando o atribulado matrimónio e o filho bebé para trás.

 Aí, lançou-se no teatro (sem grande talento, assinale-se: a grande Sara Bernhardt, que lhe deu aulas de interpretação, aconselhou-a a "manter a linda boquinha calada sempre que possível") e na vida galante, com o nom de guerre mais romântico de Liane; o apelido foi-lhe "emprestado" por um dos seus patronos, Conde do mesmo nome. 

Para uma cocotte, a presença no palco era só um meio para a celebridade, a atenção da imprensa...e pretendentes poderosos, que não tardariam a cobri-la de jóias magníficas, palacetes e carruagens. Para lá chegar, Liane contou com os ensinamentos de uma cortesã bem sucedida: a  famosa "Condessa" Valtesse de La Bigne, uma das mulheres que inspiraram a personagem Nana, de Zola.

Valtesse de La Bigne
Bonita, jovem, elegante, excessiva, sem pruridos em envolver-se tanto com homens como com mulheres, em breve Liane formava,  juntamente com a  Bela Otero e a famosa Émilienne d´Alençon, a "Grande Trois", as "Três Graças" das cortesãs de topo - mulheres famosas pelo seu desempenho nas Folies Bergères e na vida dos homens no poder. 

 Pelo meio, Liane fez sucesso como escritora, publicando contos e romances mais ou menos autobiográficos que eram recebidos pelo público com grande curiosidade.



 Mas em 1910, a beldade deixou definitivamente o "demi-monde" para casar com o Príncipe romeno Georges Ghika. 

O relacionamento entre os dois terá começado quando o jovem titular  cavalheirescamente  a defendeu, ao vê-la ser alvo de troça por usar um chapéu demasiado grande e extravagante; travou-se de razões e acabou por ir parar a tribunal por causa da brincadeira. 



Embora a família dele desaprovasse uma união tão escandalosa - outra coisa não seria de esperar - e lhe cortasse os fundos, o casal foi feliz durante vários anos, vivendo no campo.
  Porém, uma crise no casamento e a morte do filho do primeiro marido, Marc, na I Guerra Mundial, fizeram Liane (que agora utilizava o nome de Anne Marie, Princesa Ghika) voltar-se gradualmente para o único Homem que nunca a desiludira: Cristo. 



 Após enviuvar arrependeu-se da sua juventude de estúrdia, escreveu as suas Memórias e ingressou na Ordem Dominicana, como Irmã Ana Maria da Penitência. Passou o resto da vida a cuidar de crianças com necessidades especiais num asilo e morreu pacificamente na Suiça, aos 81 anos de idade.

 Há quem diga que todas as mulheres encerram em si os arquétipos de Santa, Mãe e Amante...mas poucas o terão feito tão literalmente como Liane de Pougy!








Sunday, May 11, 2014

Um pai realista merece o céu. Mesmo que o filho não seja índigo nem nada.


Por estes dias, a propósito de uma conversa com uma amiga, eu tinha rascunhado para publicar aqui um post que se ia chamar Eu embirro com...a moda das crianças índigo que não são índigo coisíssima nenhuma.

 E entretanto sai-me no Público uma crónica destas, de um pai com juízo, noção da realidade e dois dedos de testa, pelo que só me resta aplaudir a ironia fina como um coral, tão rara nestes tempos de fantochada.

É que há paizinhos histéricos desta geração, daqueles pais digitais com que ninguém se mete, muito pequeno burgueses, muito tupperware, muito falsamente bem comportados e muito hei-de ser culto, espiritual, zen e sofisticado à força, vulgo bando do sushi e do cosmopolita ou do parolinho que tenta a todo o custo deixar de o ser,  que não se convencem, porque não se convencem mesmo, que deitaram ao mundo crias perfeitamente NORMAIS.

 Se os pequenos se portam mal, nunca é porque são crianças mexidas, irrequietas, criadas aos tombos em inevitáveis creches onde é impossível dar a atenção devida a cada trouxa de fraldas, com falta de brincadeira ao ar livre e de boa e velha disciplina.

 Qual quê, essa explicação não é romântica que chegue: são todas hiperactivas, têm todas défice de atenção e síndromas disto ou daquilo. 

Nos dias que correm, não só é muito mais fácil medicar do que educar (se o mal fosse só esse seria terrível, mas ainda assim era um motivo pragmático) como a necessidade de dar nas vistas é tanta que se prefere ter um filho oficialmente...enfim, diagnosticado, a ter em casa uma criança que não se pode comentar com os amigos, nem levar a consultas pseudo- chiques. 

Se a criança não servir mesmo para hiperactiva porque, que vergonha de filho este, é um pachorrento, um pachá que não incomoda ninguém, tem de se inventar outra coisa qualquer - geralmente  um desvio imperceptível nos dentes para se pregar com um aparelho à criaturinha (os aparelhos têm muito chic, agora) ou intolerância à lactose (qualquer desculpa é boa para torturar os infelizes com comida light e biológica).

  Porém, vamos imaginar que o pequeno ou pequena se porta enfim, razoavelmente bem - não morde os colegas nem mostra uma curiosidade assustadora para dissecar animaizinhos - tem os dentes certos, não engorda assim muito e não sofre de alergias esquisitas nem de ossos frágeis. Que grande chatice, o que é que se vai arranjar num caso destes?

  Se tiver uma inteligência minimamente acima da média, não gritar que nem um possesso antes das aulas de música nem ameaçar saltar da varanda ao saber que os pais o vão obrigar a ter aulas de japonês e enfim, mostrar apetência para sábio, pode-se sempre maçar de morte um especialista infantil para diagnosticar a criança como sobredotada. Não estou a brincar - juro que vi uma reportagem na televisão sobre crianças "geniais" em que a protagonista, uma rapariguinha perfeitamente comum e a precisar de uma boas reguadas, foi considerada como tal porque arranhava violino, escrevia uns disparates que eram parvos até para a sua idade e imitava bailarinas de samba, logo não pode ser muito difícil desencantar um pergaminho desses. Um génio é sempre um excelente macaquinho de circo.

 Mas... e se não for o caso, e os infelizes pais se virem a braços com um miúdo que não  sonha ser um Einstein ou estrela da TVI, que tem um QI do mais saudável que há, que não morde, não arranha, não dá a cidadãos conscientes vontade de o estrangular, não se distingue nem por bem nem por mal, passa despercebido no meio da petizada toda e tem, enfim...a sensibilidade, empatia e imaginação características de um primata como toda a gente na mesma faixa etária, não privado dos estímulos e condições normais de desenvolvimento?

 Nada temam, para tudo há solução nesta vida; a pseudociência e a parapsicologia estão cá para isso mesmo . Basta dizer, com os olhos em alvo e as mãos postas "o meu filho é ÍNDIGO, representa um salto evolutivo na Humanidade, é um espécime superior". Pimba, panaceia - porque ser índigo explica de tudo, desde a genialidade à incapacidade para se adaptar a qualquer colégio, passando por um "sentimento de realeza e de missão desde muito cedo". Lindo, não é?

E não se acanhem, para isso parece que não é preciso a criança ser médium, anunciar com ar de profeta que viu a tia Felismina que morreu há 20 anos a fazer malha no sofá da sala, levantar voo, alcançar a Iluminação, transformar água em Fanta, mover objectos com a mente ou manifestar alguma capacidade extraordinária. Isso até era capaz de trazer alguns incómodos, porque podiam fechar a criança num laboratório qualquer, o que ficava péssimo perante a Associação de Pais, afinal ninguém gosta muito de aberrações; há que ser pouco convencional, mas fofo, para se ser aceite. 

Para que uma criança passe por índigo perante os outros pais do mesmo estilo (os únicos que interessa, afinal, impressionar) basta que diga, na sua ingenuidade e banalidade infantil,  coisas tocantes mas normalíssimas, tipo pedir à mãe que não chore ou que contribua para a última causa da Leopoldina para ajudar outros meninos,  ou que as borboletas são flores que levantam voo, ou tretas assim que fiquem bem partilhar no Facebook. 

  Não tem nada que enganar, vêem? Por mim esses pais tão extremosos podem fazer a inveja dos amigos à vontade, desde que não tragam gente índigo, ou roxa, para o meu lado -  roxa fico eu ao ouvir tanta tolice junta. E um caldinho de noção em cubos? Disso não há quem invente...







Quando a imprensa sabe ter classe.


É um facto que as revistas que nos faziam sonhar vão deixando de ser o que eram. Umas porque perdem impacto graças à concorrência de outros formatos e pelo acesso constante a informação que nos é oferecido, outras porque cedem a descer do seu pedestal na tentativa de conquistar novos públicos desiludindo assim a sua audiência original, em erros flagrantes de posicionamento.

  Creio mesmo que comprar ou assinar uma revista (ou até acompanhá-la online) é dar-lhe um grande elogio nos dias que correm, porque a necessidade de o fazer e o apelo que leva ao consumo e fidelização são cada vez menores.

  Mas há momentos de fôlego que salvam a honra do convento: afinal, por muito que a blogosfera seja uma força a considerar, ainda se espera que a  imprensa - certo tipo de imprensa, bem entendido- lidere as opiniões e dite as tendências em diferentes campos.

No quiosque reparei nesta revista francesa (acima) que conheço de vista (as minhas incursões pelas publicações glossy, del corazon ou vá, do social limitam-se à Hola!, a umas espreitadelas à Tatler e pouco mais) e pensei "olha olha, uma alusão inspirada".

Chamar à Rainha Máxima dos Países Baixos "A Rainha-Sol" não será o trocadilho mais original de todos os tempos, mas é de bom tom e aplica-se a uma jovem monarca tão bonita e tão sorridente. É o tipo de capa que gosto de encontrar...inspirada.

  Depois, a Harper´s Bazaar dedicou ao Dia da Mãe um artigo lindo de se ver,   produzido pela elegantíssima Joanna Hilman com belos retratos de Patrick Demarchelier - e eu não podia deixar de assinalar esta imagem encantadora de Carolina Herrera com as suas filhas. Tenho uma grande admiração por ela, não só pelo seu trabalho sempre irrepreensível (é muito difícil estar-se mal vestida numa criação sua) mas porque é, em todos os aspectos, uma SENHORA. 
 E daria sei lá o quê para deitar a mão ao sheath dress azul que Carolina Herrera de Baez (ao centro) usou para esta produção. 

 Num mundo de Kardashians e Rihannas, ver momentos de graça e elegância é um colírio para os olhos e a alma...








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