Recomenda-se:

Netscope

Saturday, June 21, 2014

Madre Teresa de Calcutá ensina: lidar com os invejosos, e outras más pessoas.


Há dias falou-se aqui sobre a inveja má e a inveja boa
  E nem de propósito, chegou-me aos olhos, sob a forma de uma daquelas citações que andam por aí a correr as redes sociais ( cuja maioria se ignora, por estar cheia de lamechices e lugares comuns) uma frase atribuída à Madre Teresa de Calcutá (que eu admiro não só pela sua grande caridade, mas por ser uma mulher a quem não faltava sentido prático e eloquência). 

"Se tiveres sucesso, ganharás falsos amigos e verdadeiros inimigos: tem êxito na mesma. Se fores honesto, vão tentar enganar-te: sê honesto na mesma. Se construíres, vão tentar destruir: constrói na mesma. Se fores feliz, vão invejar-te: sê feliz na mesma".

Eis uma grande máxima para a serenidade e para não se deixar intimidar pelas pressões do mundo. Vejo muita gente revoltada, às vezes com razão, a dizer coisas do género "quanto melhor és, mais maldades te fazem" mas a amargura, a desconfiança e a mania de se pensar "sou tão bonzinho, porque é que são maus para mim?" não resolvem coisa nenhuma. 

Só transformam pessoas bem intencionadas em Gollums da vida (sim, o "my precious" do Senhor dos Anéis): metidos na sua caverna, sem ver a luz, a achar-se bons demais para conviver com o resto da humanidade (é verdade que boa parte da humanidade não é grande coisa, mas somos obrigados a aturá-la) cheiinhos de medo, uns monstrinhos. Quem age assim dá uma bela vitória aos invejosos e desonestos. Deixa que a maldade alheia o transforme e lhe bloqueie o caminho. 

 É verdade que custa muito ser tomado por idiota quando se foi transparente...mas qualquer um pode ser enganado por alminhas sem princípios. O remédio é não lhes dar a oportunidade de fazer outra e de futuro, ser mais cauteloso; podemos ser sinceros e ser cuidadosos, o que é diferente de ser desconfiado. 

Também é verdade que ter êxito pode ser assustador. Por mais que seja preferível ser invejado a que tenham pena de nós, sentir na pele a inveja alheia é muito desagradável, para não falar nos golpes que se preparam contra quem está numa posição de destaque; há quem queira sempre o que é dos outros. Quase dá vontade de não brilhar, de ficar num cantinho, de não dar nas vistas para não ser alvo de ciúmes ou intrigas. De se esconder na caverna, na zona de conforto.
   Mas o pódio não é para os fracos; o sucesso é leve de ter e pesado de manter, exige manutenção, provas constantes, vigilância. Tem um preço elevado e parte desse preço consiste em lidar com gente mesquinha que, como é incapaz de chegar a algum lado, se dedica a copiar/apontar/escarnecer/ tentar estragar o que outrem faz bem.

     Ora, Madre Teresa - não se sabe se a frase é mesmo dela, mas reflecte a sua forma de pensar - ensina que não se pode ser tão sensível, tão frágil, tão cioso da sua bondade. Se pensarmos "fui bom uma vez e já me correu mal, ora acabou-se" então temos uma bondade bem fraca, que não resiste a contrariedade alguma. Se acharmos "sempre fui honesta e traíram-me; nunca mais sou honesta" então, a honestidade não era lá muito grande para começar.

 Isto não significa ser parvo, um pateta alegre que não se defende - a avó, que era uma senhora muito piedosa, toda a vida me disse que nem Deus Nosso Senhor gosta de gente palerma. Significa é que não nos vamos transformar em cobardes, desonestos, amargos, malandros ou fracassados só porque há pessoas  invejosas, interesseiras,desonestas e traiçoeiras que querem que isso aconteça.
 A honestidade, a bondade, a caridade, o sucesso e a alegria não podem ser transitórias nem depender do capricho alheio: ou vêm do interior de cada um, ou não existem realmente. 
 Só porque os outros tropeçam às escuras, não significa que andemos por aí de candeias apagadas: é preciso ser superior a essas coisas.

 É aí que está a verdadeira "superioridade": em manter-se bom, sincero, bem sucedido e contente da vida por muito que os outros não gostem disso. Dar-lhes um grande "temos pena" ou um belo "vou rezar por ti", para quem é religioso, e seguir adiante, em modo "a caravana passa".













Friday, June 20, 2014

As duas morais desta Sexta feira.



1- Uma frase (acima) da autora de um dos poucos "livros para mulheres" que recomendo, e que vem a propósito deste post. Por todos os santinhos, há muito mulherio que precisa de colar esta grande verdade no frigorífico, no espelho da casinha ou no tecto, em letras gordas, para a ler mal acorda enquanto a mente ainda está fresca e impressionável, a ver se decora e pára de nos envergonhar a todas. Alguém devia convencer a Zara, Primark e afins a vender dignidade; podia ser que assim achassem graça à ideia de ter alguma.


2- Será coincidência que uma revista feminina que põe na capa um edificante título sobre "a moda dos derrièrres grandes" (aqui carinhosamente denominados "bumbum" porque enfim, de qualquer modo parece que estamos no Brasil) vá pedir conselhos a especialistas de um ginásio em Odivelas e recomende aulas de kuduro? Classy! Está certo que se deve ir às fontes onde, pela lógica, tais fisionomias são apreciadas, mas só faltou um roteiro das melhores lojas para comprar leggings de lycra e mini vestidos extra justos para realçar a coxa roliça.

Quanto ao "saiba porquê" resume-se a uma breve menção a Kim Kardashian. Artigo preguiçozito, no mínimo - já que se faz um retrato de uma tendência, boa ou má, aproveita-se para um estudo da espécie humana que contextualize minimamente as pessoas, que explique às mulheres "ao aderir a  este visual, está a fazer uma alusão a dançarinas de funk e a meninas de bairros menos recomendáveis".
  Nada contra uns glúteos mais pronunciados e femininos, desde que sem exagero...mas na minha terra, "belo traseiro" ainda é o de Sophia Loren, Marilyn Monroe, Monica Bellucci, Laetitia Casta e por aí fora, não Kim Kardashian e Mulher Melancia. 

Acho que uma revista pode falar de tudo, não perdendo de vista um certo espírito crítico. Mas até a Elle americana caiu no mau gosto de um texto semelhante há tempos e a Vogue nem se fala, por isso acho que está tudo perdido. Se não formos vigilantes, daqui a nada vão 
dizer-nos que é divertidíssimo fazer aulas de dança no varão para estimular o espírito de equipa nas empresas onde trabalham muitas mulheres.
  A publicação oferece ainda um "organizador de malas" - a mim parece-me um organizador de carteiras, ou de bolsas, vá, porque malas só as de viagem... mas é capaz de dar jeito.




Há blogs que são bons exemplos: beleza com valores.


Andava eu à procura de uns penteados para me inspirar quando reparei numa blogger muito bonita, ruiva, muito sardenta e com longa cabeleira a dar todo o tipo de dicas.
  Como é sempre boa ideia aprender truques com quem partilha o mesmo fototipo, perdi um bocadinho a ler-lhe o espaço, The Freckled Fox, e fiquei encantada: embora o meu posicionamento enquanto blogger seja inteiramente outro e pessoalmente não me sinta à vontade com a ideia de expor na blogosfera a vida privada e retratar cada toilette que se veste ou cada passo que se dá (há por aí resultados bonitos, mas quanto às consequências já não sei) se é para mostrar, que se mostre alguma coisa de jeito e que seja um bom exemplo para quem lê.


 Ora, Emily - que é um dos meus nomes preferidos, por ter mais do que uma antepassada que se chamava assim e por ser bonito em todas as línguas - é uma mãe e esposa muito jovem que leva uma vida idílica ao lado do seu super paciente marido, que a ajuda com a canseira enorme que é um blog deste género, fora o resto.
   Ou seja, Emily tem projectos profissionais, mas também é uma dona de casa e mãe de quatro pequenos que são a coisa mais amorosa que já se viu.


 Não concordarei com tudo que a blogger defende (também ainda não li a fundo tudo o que escreve) mas nos tempos de frieza e materialismo que atravessamos - em que as ideias pró libertação da mulher martelam que uma rapariga pode e deve fazer tudo menos  decidir, se assim o entender, dedicar-se mais a ter uma família do que a qualquer outra coisa - a sua opção é realmente corajosa. 
 Quando vejo situações assim ocorre-me sempre aquele episódio de Sex and the City em que Charlotte se sente culpada por exercer a tão falada liberdade de escolha para formar um lar.
 Ora, se há liberdade esta deve prever que se tomem, sem julgamentos, as opções que parecerem acertadas; e se há mulheres que não querem ser astronautas nem dirigir um império, que têm ambições mais tranquilas e que preferem prescindir de alguns luxos ou tempo livre para ter mais filhos, essa é uma escolha de coração que merece tanto respeito como qualquer outra...até  porque não pode ser de todo uma tarefa fácil.
 Acima de tudo, é uma escolha que exige personalidade.

 Depois, Emily não só está orgulhosa das suas opções como ainda dá uma lição às meninas preguiçosas que andam para aí a pregar a desculpa esfarrapada "tenho orgulho nos meus quilinhos a mais e nas minhas olheiras porque tive um bebé e nunca mais fui a mesma", porque com quatro crianças, uma casa, um marido e um projecto a cargo arranja tempo e brio para estar lindíssima e sempre composta. Uma mãe não tem de ser pouco glamourosa e à beira de um ataque de nervos; como tudo na vida, não há nada que não se alcance com vontade e disciplina

 Sabe bem encontrar coisas assim na fogueira de vaidades que para aí anda - sem que haja nada contra a vaidade em si mesma, bem entendido.



Thursday, June 19, 2014

Sobre o assunto do dia: Doña Letizia.


Espanha tem uma nova Rainha consorte. Ao longo de dez anos de casamento, a então Princesa das Astúrias - uma mulher que dizem (ou se tem mostrado) independente, determinada, cheia de opiniões, algo intempestiva e muito ciosa da sua modernidade ou "normalidade", com tudo o que isso encerra de mais ou menos positivo - teve momentos em que soube manejar as circunstâncias a seu favor e conquistar admiração contra todas as probabilidades num ambiente marcadamente hostil...e outros não tão felizes.
 Não me vou alongar sobre o assunto que tem feito correr muita tinta ao longo da semana (as análises são  muitas e com pareceres mais ou menos apaixonados) mas aposta-se que terá uma posição  muito diferente da sua antecessora, Princesa de sangue e mulher de outro tempo, mais afeita a um papel tradicionalmente feminino.



 Pois é aqui que as subtilezas começam e que a ex jornalista me intriga enquanto espectadora, quando comparada com outras jovens princesas e rainhas de percurso semelhante. Catherine, Máxima, Mary ou mesmo Mette -Marit -esta com um passado bem mais sombrio - aparentam ter-se fundido no ambiente que passou a ser o seu. Umas mais discretas, outras mais espontâneas, parecem ir cumprindo os seus deveres como mulheres de hoje, mas isentas de uma certa atitude de desafio que (verdadeira ou falsa) é atribuída à jovem e bela (porque o é, com mais ou menos retoques) Rainha de Espanha. 

 A forma de estar de Doña Letizia, como o seu estilo, não é exactamente regular: momentos fantásticos e outros que ficam aquém por um excesso de simplicidade e quase desatenção (propositada?) às exigências do protocolo.


 A sua personalidade e os ossos do ofício que são difíceis de perder contribuirão talvez para dar razão aos seus detractores - uma mulher espontânea forçada a reprimir uma personalidade borbulhante poderá sofrer como consequência o pouco à vontade que alguns lhe apontam. 

 Nem todas as mulheres demonstram doçura e meiguice da mesma maneira; é fácil confundir nervosismo ou reserva com arrogância; mas uma Rainha, principalmente uma rainha consorte, deverá estar acima destas coisas e (tarefa difícil!)  polir os aspectos menos agradáveis do seu carácter...nem que isso signifique passar por menos "actual" e perder um pouco da "independência" que lhe parece ser tão cara.

   Do célebre "deixa-me falar a mim" no anúncio de noivado a momentos em que mostrou menos reverência para com os sogros passando por uma alegada recusa de ter mais filhos porque uma mulher é tão capaz de herdar o trono espanhol como um  homem, é sugerida uma luta permanente, um esforço demasiado vincado, para conciliar o  dever com a ambição de mostrar que não deixou de ser quem era. E com isso, perde-se uma graciosidade que faz parte das exigências do "conto de fadas" e que a Duquesa de Cambridge, por exemplo, tem de sobra.

Se é inevitável que os tempos mudem e que a Monarquia se adapte para estar mais próxima do coração das pessoas, há que considerar que certos aspectos tradicionais são traves mestras; que uma Rainha não pertence a si mesma, que - por mais novidades que se introduzam - será Filipe VI a figura de proa e que não há nenhum insulto num papel "secundário".  Grande poder, grande responsabilidade...e grandes sacrifícios. 

                                   

   Se Doña Letizia tiver a destreza de imprimir um estilo próprio e simultaneamente adaptar-se à instituição que representa em vez de esperar o inverso, parece-me que tem tudo para ser amada pelos espanhóis - e sempre achei que é para isso que as Rainhas servem, para serem queridas pelo povo e unirem as pessoas em torno de um conceito muito acima de quaisquer ideais políticos. 
 Não é uma questão de abandonar a pessoa que foi, mas de vestir uma nova pele, de desabrochar. O tempo de provar que não perdeu a personalidade já passou - da Rainha Letizia não se espera a jornalista desembaraçada nem a Princesa em busca de afirmação, mas o rosto sereno e confiante do Reino da Espanha.


  

Intrigas palacianas a nível microcósmico. De salãozinho.


Maquiavel não sabe do que se livrou!

Julga uma pessoa que viu de tudo e conhece algumas coisas da vida. Se tiver um bocadinho de mundo e considerável independência mental, sabe que para se mover em certos círculos sem consequências, absorvendo só a parte boa,  basta não levar a sociedade demasiado a sério, manter uma distância de segurança e fugir de mexericos; o mesmo vale para a política.

     Pode observar-se, subscrever esta ou aquela ideia, mas a menos que se seja um carreirista de primeira água ou não haja outro remédio, o melhor é deixar as politiquices à distância de um braço. E isto aplica-se a qualquer tipo de organização humana, de maior ou menor monta: panelinhas de beatas nas paróquias, trapalhadas em associações de estudantes - ou outras que me arrepia só de pensar - associações de pais (coisa mais assustadora, não imagino) e assim por diante.

 Intrigas palacianas só têm graça nos livros, e quem quer viver em sossego e preservar a sua reputação é melhor que seja superior a elas e que se ria disso tudo, para não ser contaminado por mexericos, facadinhas e outros disparates que não se adequam a pessoas de bem.
 Quem tiver espírito crítico sabe disto e lida com o assunto com a sobriedade, ou mesmo sobranceria, que o assunto merece. Há que ir ao salão, mas não lhe limpar o pó, penso eu.

 Tudo isso é verdade e muito lindo, toda a vida cri nisto, mas eis que nas últimas duas semanas se me deparou um interessantíssimo estudo antropológico.
 Contei-vos em confidência que precisei de ser assistida por uma manicura, algo que não me agrada porque não gosto lá muito de dependências desse género.

 Eis que se descobre que as manicuras devem ser artífices de uma inteligência sobrenatural, porque a arte de tratar das mãos sem errar tem muito que se lhe diga, infinitos detalhes, aspectos que nem a física quântica explica. Palavra de honra - daqui a nada vão ser precisos doutoramentos para limar, pintar e secar, fora o resto das palhaçadas que fazem e que não passam pela cabeça a uma senhora trazer nos dedos.

 Falando em bom português, o trabalho não saiu lá aquelas coisas e pedi uma segunda opinião, levantando-se um coro de profissionais a dizer que não era assim que se fazia. Tive de ver dois ou três sítios, até que uma amiga que é mais perfeccionista com isso do que eu sou com os tecidos me recomendou a sua, garantindo que era um prodígio de simetria.
   
 No meio disto tudo não imaginam as sensibilidades que tive de ter o cuidado de não ferir, os motins que se passam nos salões, as rivalidades e politiquices que fiquei a conhecer. Acho que me morreu um punhado de neurónios - ouvir falar de unhas horas a fio tem o condão de fazer murchar inteligências, por muito complicada que a arte seja. 

 Estou de tal forma que só pensar no assunto me dá tonturas. É impressionante o nível de detalhe e de conspiração que pode haver na mais fútil e superficial das coisas. Acho que Maquiavel devia ter arranjado as mãos e o cabelo: aposto que O Príncipe ia ter mais uns quantos capítulos. 

De intrigas de salão sempre ouvi falar - agora de salão de cabeleireiro e da unha, confesso que é novidade.

Wednesday, June 18, 2014

Bom karma, ou mundo concertado...para variar?


por aqui dissertei em tempos sobre a minha crença assim-assim na ideia de karma. 
   Numa acção-reacção cega e imediata, independente da  intenção, acho que não acredito. 

 Mas - espiritualidade à parte - uma certa atitude, repetida durante um dado espaço de tempo, tem de conduzir forçosamente a um resultado qualquer.


As pessoas bem sucedidas, amadas e felizes que tenho visto podem não ser uns querubins, uns santos - afinal, vivemos num mundo que obriga toda a gente, até os melhores, a alguma assertividade - mas fazem-se leves, flutuam quando podem, remam quando é preciso, gozam as coisas boas e não se descabelam pelas más; se há estragos agem e procuram reparar o dano em vez de entrar em pânico, de berrar que o mundo é injusto e que serão toda a vida uns desgraçados. 

 Metem-se nos seus assuntos, não têm tempo para coisas mesquinhas, responsabilizam-se pelo que é da sua responsabilidade e deixam alguma coisa ao sabor da Sorte, que gosta de favorecer os audazes e aqueles que se movem. E depois - não quer dizer que façam voluntariado em África ou andem em barcos da Greenpeace - são gente de boa vontade. Até podem ser, aparentemente,  os piores misantropos ou snobes que já se viu, mas têm uma bondade intrínseca, uma forma de dar com a mão direita sem que a esquerda saiba, de acudir quando é preciso e de se interessar genuinamente por outrem no momento certo.

 E às vezes, essas boas obras voltam ao dono. Sob a forma de coincidências que até parecem justiça poética, e nem sempre de modo discreto. Quando tem de ser espectacular, o karma é espectacular...para o bom e para o mau. E gosta de dar presentes.

 Não é que se faça uma boa acção com o intuito de receber algo em troca, mas quando isso acontece é uma surpresa agradável e muito interessante de observar. Dá assim aquela ideia, como dizia Camões, de que o mundo anda concertado, e não só com puxões de orelhas a quem merece...



Tuesday, June 17, 2014

Momento inveja branca, ou "benza-te Deus" do dia.


A inveja é para mim, a seguir à baixeza, o pior dos defeitos e um sentimento que nunca percebi. "Detesto esta pessoa por- nenhum- motivo- a -não- ser- ela- ter- isto -e -aquilo -que -eu -não -tenho"...é uma forma de pensar que me escapa completamente, porque ninguém ganha nada com isso. Lá diz o povo e bem, "nem o invejoso medrou, nem quem ao pé dele morou".

 Além do resto, deve ser uma tremenda canseira observar os outros ao milímetro para cocar o que têm ou não, e muito doloroso moer-se de raiva só porque alguém é mais bonito, mais rico ou mais bem sucedido/nascido/amado.

     Mas a inveja branca, ou a inveja da boa, é um sentimento inócuo e positivo. Pode ser até uma força de motivação. A inveja má diz "eu não tenho, por isso tu também não hás-de ter porque isto assim não é justo", a inveja boa afirma " tão bonito, também quero" e inspira a conseguir outro tanto, o que nunca é uma coisa má desde que se tenha noção das próprias limitações e capacidades.

 Daí ser costume antigamente ( e ainda hoje, em certos meios) acrescentar-se "benza Deus!" depois de elogiar a beleza, a fatiota, a felicidade ou os filhos de alguém, para provar que a admiração era genuína, que se estava realmente contente pelo sortudo e não se desejava mal algum - que, em suma, não havia ali peçonha nem mau agouro.

Pois bem, a menina Poppy Delevingne tem muito que se lhe inveje (lá em casa sempre me disseram "antes causar inveja do que pena") e este vestido off the shoulder de Vivienne Westwood que usou há dias é um exemplo muito sério disso: perfeição sem mácula. 

 Mas como eu não sou invejosa e nem sei o que isso é, só tenho a dizer "que linda está a Poppy: benza-a Deus três vezes!".



Coboiada da semana: apropriação cultural, esse crime.


     Dizia eu há dias que estamos tão democráticos, tão democráticos, que se instalou o terror de dizer ou fazer a mais leve coisa que cheire -ainda que não o seja de todo -  a pouco democrático. E quem diz pouco democrático diz de direita (o que vai aos poucos deixando de ser um palavrão, mas nunca fiando) sexista, classista, anti gordo, pró belezaanti ordinarice , minimamente honesto e assim por diante.

 Temos uma bela ditadurazinha do politicamente correcto. Estamos bonitos, com esta liberdade obrigatória tão restritiva, daqui a nada, como aquele regime horroroso do romance 1984, de George Orwell, que prendia as pessoas pelo delito de "crime-pensar".

    E embora a Europa para lá caminhe, os americanos continuam a ser os reis da paranóia no que concerne ao sempre sensível tema do racismo/subtilezas culturais.

    Pharrel apareceu na capa da Elle usando um toucado nativo americano. Não sei se o  empenachado apetrecho era Sioux, Navajo, Apache ou outro,  assim como não tenho a pretensão de exigir que um apache lá na sua reserva/casino saiba distinguir um traje de tricana de um de noiva do Minho, mas não vem ao caso; duvido que os produtores de moda da Elle o soubessem.

 Pois esta coisinha sem mal nenhum - quem nunca se mascarou de índio em pequeno que atire o primeiro tomahawk, porque até me lembro de haver kits de brincar que traziam arco, toucado e flecha - deu uma escandaleira tão grande, com sinais de fumo a cheirar tanto a esturro, que o cantor se viu obrigado a pedir muitas desculpas pela sua "apropriação cultural".
 O mesmo tem acontecido com várias cantoras e modelos que usaram bindis, só porque não são indianas. 

 Não sei se acordei numa realidade alternativa ou quê mas os bindis, tal como as tatuagens com henna, usaram-se muito nos anos 90, época em que a inspiração multicultural (por sua vez, um revivalismo das décadas de 1960/70) estava em voga. Então e os Village People, que tinham o índio (meio porto riquenho, meio sioux, pelo que só tinha direito a usar metade do penacho)  e o cowboy, fora o polícia e os outros?
 Faltinha de respeito - encerrem-nos em Guantanamo, esses malvados.


    Nem me apetece agora cansar a  memória a recordar as infindáveis colecções com referência a esta ou àquela cultura - chinoiserie, padrões africanos, kimono jackets, etc-  que temos visto nas passerelles ao longo dos anos. E de repente inspiração é crime?

 Certo, fazer uma tatuagem tribal, ou de um caractere chinês cujo significado se desconhece, é uma foleirada; mas daí a ser falta de respeito vai um grande passo.

 Por este andar não se pode comer sushi, nem pizza, nem aprender a dança do ventre ou qualquer dança estrangeira (está bem que eu embirro com a kizomba e as escolas de samba que por cá se fazem, mas por outras razões...) nem usar um olho turco ou  de Hórus ou escaravelho da sorte egípcio, e Deus nos livre de sair no Carnaval mascarados de sevilhana, de campino, de mandarim ou de toureiro
 Estão os americanos condenados a comer só bifes (porque lamento, mas o hamburguer e a salsicha do cachorro quente são alemães) e os portugueses coitados, a jantar só bacalhau mas não há-de vir da Noruega, porque isso seria apropriar-se da cultura escandinava. (E se assim for, como se vai descalçar a bota do nacionalismo, pergunto eu?).

 Tudo em nome do da tolerância, do suposto sacrossanto respeito por outros modos de vida. 
Já sabia que isto estava mau e que se embirrava com a globalização, mas agora 
ultrapassou-se tudo.

 Se nem multiculturalidade fofinha escapa ao politicamente correcto, ninguém está a salvo.



Monday, June 16, 2014

Balzac dixit, #2: amor old fashioned, porque não existe outro.



"Noutros tempos sabia-se tão bem amar como morrer quando era preciso."


Verdade do dia: bom gosto x dinheiro


Nothing comes cheap, though the educated eye will always spot very nice things for the least money. 

                                    Albert Hadley, decorador favorito de Jackie Kennedy


A frase "quem diz que o dinheiro não dá felicidade não sabe onde ir às compras" já foi atribuída a tantos autores que não arrisco citar nenhum. 
   E embora haja alguma verdade nesta ideia, creio que seria mais justo dizer "alegria" do que "felicidade".
  Isto é sujeito à opinião e sensibilidade individual, claro, mas parece-me que a felicidade é algo mais permanente. 

   O dinheiro permite, isso sim, o acesso a pequenas alegrias e muitas coisas que facilitam a felicidade: a maior delas será liberdade total para fazer dos próprios dias o que bem se entender.

 Quem dispõe de meios está livre da maioria das preocupações mesquinhas que afligem o comum dos mortais, o que é (ou devia ser) meio caminho andado para se estar contente. 

 O resto depende de cada um - porque como qualquer recurso, o dinheiro é neutro e pode ser bem ou mal usado.

 Há coisas que o dinheiro complementa, mas não compra nem substitui: compra uma grande casa...mas se o dono não tiver gosto, esta será provavelmente um mamarracho; paga as propinas de boas escolas, mas não garante verdadeira educação, porque isso vem de trás; compra roupas caras e tratamentos de beleza, mas não  beleza, porte, bom ar e muito menos sentido de estilo. 

É claro que tudo isso é polido, limado e encadernado se a pessoa tiver o bom senso de contratar quem saiba para ajudar, mas uma transformação completa entra no campo dos milagres.



  Uma alma grosseira e sem sentido estético pode entrar na mais exclusiva das lojas, pedir - como tenho ouvido muito - "o  mais caro que houver" - e sair de lá exactamente na mesma. O preço assegura um mínimo de qualidade, mas isso é só a ponta do icebergue.



 Quem foi educado para o gosto, quem tem os olhos treinados e a sensibilidade aguçada por anos de prática e pela observação de bons exemplos, sai-se bem com muito ou pouco - seja na apresentação, na decoração da casa, ou em qualquer outra coisa. 


 Primeiro, porque um bonito porte e um ar racé asseguram que tudo cai como deve; depois porque saberá instintivamente evitar os artigos, caros ou baratos, de aspecto e qualidade duvidosa, comprar pelo valor real - não pelo preço de mercado - e fazer brilhar mesmo as peças mais modestas. 

 Quem é conhecedor (ainda que tenha vivido melhores tempos e não nade em dinheiro) sabe onde comprar (e provavelmente,  os pontos de venda onde fazer aquisições de qualidade com desconto e sem alardes) escolher peças intemporais, combinar coisas antigas com novas, conhece as coisas em que deve investir ou poupar, tem um grande sentido de parcimónia,  do que fica bem, da ocasião, da discrição, das prioridades -  mas acima de tudo, faz valer aquilo que possui.

  Mais do que qualquer coisa, as pessoas verdadeiramente elegantes têm a consciência de que a sua distinção não depende de factores externos: das flutuações da economia, da ostentação nem dos últimos figurinos (por muito agradável que seja ter acesso a eles)
 mas dos seus valores, das suas opções sempre correctas, do cachet que imprimem a tudo, e de princípios morais firmes - já enunciados aqui - que se reflectem na sua atitude, na sua fisionomia, em toda a sua pessoa. 
 Ou seja, dos tesouros à prova de crise.



Sunday, June 15, 2014

Vox populi, vox Dei: gente muito boazinha.

Jan Steen, Crianças ensinando um gato a dançar ou A lição de dança  c. 1665-1668

"Casa sem gato nem cão é casa de velhaco ou ladrão"

(Dito popular do sec. XVII)

Vá, ladrão não digo, mas quem não gosta de animais não pode ser boa pessoa. Pior ainda são as criaturas que se repenicam todas, achando que fazem um figurão, quando dizem "eu gosto é de crianças", "não temos de nos preocupar com a bicharada quando há crianças com necessidades" ou mais disparatado ainda "eu não gosto de animais, só gosto de plantas".

 Como se ter animais em casa não fosse o melhor treino do mundo para quem quer responsabilizar-se por uma criança, ou as crianças não aprendessem lições de vida por começarem cedo a tomar conta de outro ser vivo. Ou - enganem-me, que eu gosto - como se quem é capaz de abandonar um animal indefeso, ou não se preocupar se um bichinho ou uma planta tem calor ou sede, fosse capaz de se ocupar de alguém que esteja a seu cargo. Até poderá fazer aquilo a que a lei ou a pressão social obrigam, mas mais do que isso não creio. 

 Quem não tem empatia numas coisas, não pode, por uma questão de lógica da batata, ser meigo e sensível nas outras. 

 Talvez me engane, mas acho que não há áreas cinzentas nestas coisas e quando ouço alguém falar assim, só me ocorre responder: então tenho pena das suas plantas/crianças/tamagotchis. E também não gosto nada de si!

Boas e santas almas, sem dúvida...



De dress codes - e um malandro de um vestido baratinho.

   


Há coisas que só se vêem em revistas de outras paragens. Se queremos artigos sobre a forma certa de usar chapéus, por exemplo, o melhor será espreitar uma publicação espanhola ou inglesa - países onde as tradições bonitas e os códigos de vestuário se mantêm mais do que cá.

Ora, a Marie Claire do Reino Unido publicou uma selecção de vestidos para usar na temporada de corridas.
 Sendo certo que a day at the races não é o programa mais habitual no nosso país (lá dizia o Carlos da Maia, "a verdade e que não há corridas...")  as revistas portuguesas bem podiam dedicar-se a escrever artigos que instruíssem as pessoas a vestir para os eventos que ainda se fazem pelas nossas bandas. Sei lá, o que levar à feira da Golegã. Ideias de visuais para ir aos Santos Populares sem parecer vulgar.
 Ou vá, mais textos sobre o que usar consoante o horário e local dos eventos.

Anteontem falava eu com uma amiga que é dona de uma elegante loja, e fiquei surpreendida quando ela me disse que "os vestidos compridos de cerimónia se vendem muito bem para casamentos de dia, porque as pessoas não têm noção do horário e ambiente em que podem usar vestido longo".

 Ontem, à saída da Igreja, vi mais uma vez convidadas a usar fatiotas mais próprias de uma saída à noite. E isto nem é só uma questão de fé (que neste caso, caberá a quem de direito lembrar) mas de noção das ocasiões.

Está bem que este é o tipo de informação que se aprende em casa e uma intuição que só o hábito pode aguçar, mas os códigos de vestuário aligeiraram-se tanto que por vezes já nem são respeitados nos meios em que se deviam fazer cumprir - logo, nunca será de mais lembrar, manter e ensinar. Hábitos e tradições precisam ser exercitados para que sejam levados a sério e não se percam.

  Embora respeitar o protocolo tenha as suas dificuldades, também facilita a busca na hora de ir às compras e torna mais divertido o processo de escolher o que usar.

 Para quem tem uma vida social movimentada, é aconselhável ter em casa uma selecção de toilettes para cocktail, black tie, white tie, baile e assim por diante; mas quem precisa de comprar só para ocasiões pontuais beneficiará igualmente deste tipo de informação.

 Logo, custa-me a entender como não há na nossa imprensa artigos regulares que tirem as leitoras de apuros escusados...

  Entre as sugestões da Marie Claire, estava então este vestido adorável e do mais acessível que há. É de brocado, tem a cinturinha no lugar certo (se há coisa que me irrita são as cinturas "nas orelhas" que se vêem muito agora e não favorecem quase ninguém) verde (uma das cores que mais gosto de me ver) e a bainha onde deve estar, abaixo do joelho.


H&M

 E já me deixou em conflito, porque primeiro, o material parece ter boa caída mas não é tecido natural; segundo, porque se o comprasse teria de mandar adaptar o decote; e terceiro, porque a H&M não vende online e como a de cá não é nenhum primor, duvido que tenham este modelo... eu não sou menina de andar a correr as lojas de fast fashion à procura de coisas, não. Vou estar de olho na próxima vez que sair da cidade e com sorte, nos saldos ainda o agarro para a minha colecção. Fica a sugestão para quem procura um vestido adequado para esta temporada sempre fértil em casórios e baptizados, que não escandalize os santos no altar nem faça estragos na carteira.


Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...