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Saturday, August 2, 2014

Defeitos muito feios do dia para os quais eu não tenho paciência nenhuma:




1- Gente desmancha prazeres: aquelas almas que entram em modo crítico e passam a desfazer em tudo porque sim. Isto é especialmente mau quando os outros se esfalfam, dão o seu melhor, estão exasperados de andar para cima e para baixo mas animadinhos com o resultado...e chegam o desmancha prazeres, frescos, airosos e cheios de vagares, regalando-se a descascar em tudo, a pôr defeitos em tudo. E se os mandam calar, desatinam. Era dar-lhes uma enxadinha e mandá-los cavar terra de manhã à noite.

2 - Gente repisadora: já se falou, já se dissecou o assunto ad nauseam, já se lhes pediu todos os perdões, já se lhes deu razão, mea culpa, mea culpa (isto nos casos em que a justiça está do seu lado, bem entendido) e eles dizem que sim senhor e até prometem que não se fala mais nisso mas voltam sempre ao mesmo, a massacrar com o mesmo ou a retaliar pelo mesmo. Mas com os seus próprios erros os repisadores esperam, como é de prever, infinita complacência. Era dar-lhes um voucher para o psicanalista e voar para bem longe. Depois choravam e ficavam muito tristes mas paciência.

3- Gente que fala demais...sem consideração pelos horários e disponibilidade dos outros: somos muito amigos, gostamos muito uns dos outros, mas às vezes já se esgotaram os temas, novidades só no Continente, temos pressa/ enxaqueca/sono, estamos com pessoas, estamos a jantar ou ja avisámos mil vezes que temos um telemóvel novo cujo teclado doido ainda não se habituou a nós, logo não nos permite mandar infinitas e constantes mensagens para esmiuçar...mais do mesmo, mas eles não querem saber e continuam a debitar testamentos. Era dar-lhes que fazer, desocupados.


Está bem que é preciso sofrer para ganhar o céu, mas em vez destas penitências não podiam aparecer uns pobrezinhos a precisar de ajuda ou coisa assim? Sempre era mais construtivo.








Isto explica muita coisa, só pode.


Nos bancos da escola eu era uma grande fã de alguns animes, em especial Os Cavaleiros do Zodíaco - não olhem para mim de lado, já vos contei que era uma mistura estranha entre nerd/rato de biblioteca e fashionista de carteirinha. 
  Enquanto as minhas colegas sonhavam com boysbands, eu preferia dedicar afeições a personagens históricas (como vos disse por estes dias)  ou de ficção. Ao menos não corria o risco de me desiludir, porque tais cavalheiros ou não existiam ou já tinham morrido todos.

    Podia idealizá-los à vontade porque as asneiras que tivessem feito estavam todas douradas pelo pó estelar da História ou explicadinhas nos livros; não havia que ter medo de tão augustas pessoas, reais ou inventadas, serem apanhadas a fazer coisas grosseiras do estilo aparecerem num bar de kizomba com uma strippper brasileira, baterem nos papparazzi (algo que eu imagino Cesar Borgia a fazer sem problemas, mas enfim) ou tomarem más opções de carreira, acabando num reality show qualquer ("Keeping up with the Medici" havia de ser lindo!).


Mas havia um lado preocupante nisto tudo: é que eu raramente torcia pelos heróis bonzinhos. A minha devoção ia quase sempre para o vilão ou no mínimo, para o anti -herói. Ok, geralmente vestiam melhor e eram traçados mais bonitos, mas isso não esclarece tudo. É que coitadinhos, quase sempre tinham um trauma qualquer que justificava o seu comportamento desviante, eram assim para o misterioso, mostravam um lado vulnerável por trás de todo o seu poder, eram uns incompreendidos. Eu nunca gostei de coisas óbvias nem popularuchas - o rapaz  muito disputado, amigo do seu amigo, estimado e requisitado na comunidade sempre me maçou de morte e parecia-me um hipócrita de primeira. 


 Os galãs, os D. Juans estilo James Bond, esses davam-me a volta ao estômago porque  detesto multidões e concorrência. Que me restava? Os bad boys, claro. Esses não davam confiança a *praticamente* ninguém. Tal como com uma fera enjaulada, era preciso ter algo de especial para querer aproximar-se deles, e para que eles deixassem que alguém se aproximasse - exactamente como eu. Nunca tive ambições de dominar o mundo mas essa parte eu percebia perfeitamente. No caso dos Cavaleiros do Zodíaco, tinha dois preferidos: um era o Cavaleiro da Fénix (rezingão, lobo solitário, fiel à memória da mulher amada, rebelde mas no fundo bom rapaz e com o poder de deitar fogo às coisas quando se aborrecia). Detestava andar em grupo ou ir com a carneirada e eu achava a maior das graças a isso.


Depois havia Lord Saga, o Cavaleiro de Ouro de Gémeos - mesmo que não conheçam a história de lado nenhum porque anime e mitologia não são o vosso cup of tea, pelo nome já se percebe que era assim um grande senhor. 


Ora Saga (bonito e grandioso como um Deus,  nobre, puro e assim por diante) vinha com um probleminha: sofria de dupla personalidade.
 Quando estava bem, era muito bom e muito lindo; quando era atacado pelo seu alter ego, bem...entrava em modo Mr.Hyde e era um fartar vilanagem de calamidades, a começar pelo seu golpe fatal, a Explosão Galáctica. Não olhava atrás nem adiante: tipo, "na guerra só há um vencedor: eu!!! E não olho a meios!" . Levava tudo à frente.

 Matou quem foi preciso matar para chegar a Pontifex Maximus (para se sentar no trono, vá) tentava destruir tudo o que lhe era querido e nos seus momentos de lucidez, arrependia-se e ficava todo desesperado.
   Eu achava-lhe graça porque enfim, tinha pena dele, que desperdício...e porque nunca se sabia o que esperar dali: a pena e a curiosidade são um grande mal das mulheres.

  Mas na vida real o caso é outro: há coisas que numa personagem se desculpam e numa criatura de carne e osso não se aturam. Embora um certo mistério tenha a sua graça e continue a desprezar pessoas estilo  Manuel dos Plásticos, que gostam de toda a gente e procuram a aprovação de todo o mundo, é bom saber com o que se conta.

 Pessoas que num momento estão pelos pés, noutro pela cabeça; que num dia são adoráveis e noutras uns autênticos filhotes de Cruz -Credo, que às seis da manhã nos adoram e às seis da tarde conspiram para nos arreliar e depois se arrependem...bom, isso é assustador.

 E por qualquer razão, "personagens" dessas tendem a saltar ao caminho. Começo a crer naquela lei da atracção que diz que as coisas a que prestamos atenção se materializam. 

 Bem que me avisavam em casa para ver menos desenhos animados. Uffff.





Friday, August 1, 2014

Conto da noite: as sonsas são as piores, lá diz o povo.


A elegância, como a virtude, é recusa: dispensa espaventos e alardes. Quanto mais uma mulher se esforça por andar na última moda, luzir grandes toilettes, mais a sua elegância fica comprometida. Bem reza a velha regra de estilo: antes de sair de casa, olhe para o espelho e retire um acessório! E o mesmo vale para a virtude: uma mulher honesta, bem comportada, não precisa de gritar que o é nem fazer de beata, mesmo que seja do mais devoto. A única desculpa para afirmar, como antigamente se fazia muito "eu sou uma mulher honrada" será perante uma acusação injusta (como Catarina de Aragão, pobrezita)  e mesmo assim...o silêncio desdenhoso é sempre a melhor resposta.

Uma mulher de bem pode ir a toda a parte sem que isso a corrompa (bom, a quase toda a parte: há que evitar certos antros porque não basta ser séria, convém parecê-lo). Mas mesmo que vá a uma festa mundana ou seja arrastada sem saber para uma despedida de solteira cheia de malucas aos gritos não haverá mancha no seu carácter nem nos seus actos porque uma senhora só vê e ouve aquilo que quer e quem é seria é-o de raiz, logo não vai agir de modo diferente nem atirar-se a um poço só porque toda a gente o faz. 

A elegância e a virtude são como todas as coisas boas da vida: a riqueza, o estatuto, a beleza, a bondade, a santidade, as alegrias...lá dizia D. Francisco Manuel de Melo, "quem as tem que as goze, mas não que as mostre".

 Ou como fala o povo desde que o mundo é mundo, as sonsas são as piores

Isto lembra-me um conto popular recolhido por Teófilo Braga que vou tentar reproduzir à minha maneira:

«Na corte havia dois cavaleiros: um não parava de gabar as suas três filhas, que eram do mais piedoso, umas santinhas que se estavam nas tintas para as vaidades do mundo. O outro tinha uma só filha, que era muito alegre e divertida. O príncipe ouvia tais conversas e decidiu pôr à prova a virtude das meninas.

Mascarou-se de velhota e foi bater à porta do primeiro fidalgo, o tal que tinha as filhas muito beatas, dizendo-se vendedora de jóias. Mas a mãe das meninas avisou logo o príncipe disfarçado que as filhas não faziam senão rezar, por isso não iriam querer comprar nada. Então ele pediu ao menos que lhe dessem abrigo, não fossem as jóias ser-lhe roubadas na rua.

 A mãe falou nisso às filhas e elas, "nós não queremos cá velhas, que temos muito que rezar". Porém, a senhora lá as obrigou a deixar ficar a "velha" a um canto do quarto e elas, que remédio...

 Às tantas da noite, quando o príncipe fingia dormir, entraram pela janela três marmanjos, que eram os namorados das três santinhas; fizeram o que lhes apeteceu e de madrugada, cada um se esqueceu de um objecto. O príncipe agarrou nas três coisas e abalou.

 Na noite seguinte, repetiu a façanha em casa do segundo fidalgo: a menina bem disposta recebeu a falsa velhota com a maior gentileza e como se fazia tarde, convidou.a a ficar no seu quarto. Penteou-se, rezou e deitou-se. O príncipe, logo que a viu adormecida, roubou-lhe uma camisa de noite e fugiu.

 Dali a dias, deu uma grande festa para todas as famílias da corte: chamou os três mancebos que tinha visto no quarto das sonsas e, mostrando-lhe os objectos, 
perguntou-lhes se os reconheciam. Cada um disse que sim, e que os tinha deixado no quarto de uma menina, e as sonsas a morrer de vergonha...

Depois chamou a filha do segundo fidalgo e perguntou-lhe se conhecia aquela camisa: ela não se conteve e (apesar dos avisos da mãe) desatou a rir, ao perceber que a velha que lhe tinha furtado a camisa era na realidade o príncipe.

  Reconhecendo a verdadeira virtude, ele devolveu a camisa furtada e casou com a menina risonha; quanto às beatas, deu-lhes a sentença de serem metidas num convento, onde sendo tão santas se haviam de se sentir muito bem...»

Foi um bocadinho mauzinho, mas não deixou de ter razão, ou de ser bem feito...







De Ofélia, todas temos um pouco.

Ophelia, Arthur Hughes


Ofélia é sem dúvida a personagem do Bardo mais representada na Arte. Da pintura à fotografia, passando pela moda, poucas mulheres da ficção foram tantas vezes retratadas ao longo dos séculos - ou mais analisadas.

                                         

Nem Julieta comove tanto - ou intriga tanto - porque Julieta tem a recompensa do amor (tanto na vida, como na morte) e é inocente, transparente, fácil de entender. Ama, é amada, o mundo não a deixa amar, morre sacrificada às paixões terrenas dos outros para continuar o seu destino no outro mundo ao lado do homem que escolheu, end of story. 



Além disso, Romeu era apenas um rapaz, com todo o ímpeto e idealismo dos rapazes. Hamlet era um homem e um príncipe, ou deveria sê-lo. Portia, Caterina, Jessica, Lady M., destacam-se pela sua iniciativa, pelo seu mau feitio, pela sua coragem ou ardil mas Ofélia, coitada -um pouco como Desdémona -  é lembrada por ser vítima do seu amor, do amor de Hamlet, da sua própria beleza, castigada por ser irresistível para Hamlet.


 " (...) Ophelia, I hope that your beauty is the reason for Hamlet’s insane behavior, just as I hope your virtues will return him to normal some day, for the good of both of you".

(Act III, cena I)

Não é uma mulher forte ou determinada: a única intensidade que se lhe conhece é a paixão, e a paixão é péssima conselheira.
Só os amores que corriam bem na vida podem correr bem no Além - os que não se resolveram neste mundo não se resolvem no outro. E assim é com Ofélia e Hamlet, já lá vamos.

Se Hamlet é considerada a maior obra de Shakespeare - e a mais densa - não seria eu (que ainda por cima, continuo a preferir, por um triz, a Peça Escocesa) que me atreveria a 
dissecá-la ou a traçar teorias.

 Mas sendo impossível a quem lê ou vê a peça (quem diz peça, diz filme) não tirar as suas conclusões, aqui vos digo em duas linhas: Ofélia ama Hamlet apesar de todos os avisos do pai e do irmão, que lhe dizem que sendo ele um príncipe não pode dispor de si, por muito boas intenções que tenha:

"Perhaps he loves you now (...)
 but you must fear.
His greatness weighed, his will is not his own,
For he himself is subject to his birth (...)".

                                                        (Act I, cena III)


E Hamlet ama Ofélia. Muitíssimo, demasiado. Nunca fica claro se a relação entre os dois foi consumada, mas vários trechos indicam que assim foi e que inclusive, Ofélia espera uma criança dele. O pior é que Hamlet, traumatizado pela morte do pai e revoltado pelo casamento quase imediato e escandaloso da mãe, começa a acreditar que nenhuma mulher é fiel, que todas são ardilosas e falsas, poços de sensualidade sem auto domínio nem coração que não fazem senão atraiçoar os homens que confiam nelas.


 Decide fingir-se de louco para desmascarar o tio usurpador do trono, mas a julgar pela sua atitude para com Ofélia (a quem passa a tratar como se fosse um tapete) fica no ar se o príncipe não estará mesmo descompensado de todo. Desconfia dela, imagina-a capaz dos piores actos (ou pelo menos, assim o diz, pois não se sabe se ele próprio acredita no que diz) e fá-la sentir-se culpada pela sua beleza pecaminosa. Segundo ele, beleza e virtude não podem andar juntas:

"Ay, truly, for the power of beauty will sooner transform honesty from what it is to a bawd than the force of honesty can translate beauty into his likeness. This was sometime a paradox, but now the time gives it proof. I did love you once". (Act III, cena I)

Os seus abusos descontrolam-se de tal maneira - com a infeliz a sofrer-lhe tudo, julgando que ele está gravemente doente - que ele chega a embaraçá-la em público, a mandá-la ir para um convento para não "gerar mais pecadores" ou casar com outro "casa com um tolo, pois os homens sábios percebem bem os monstros em que vocês [mulheres] os transformam" .

"Get thee to a nunnery, go. Farewell. Or, if thou wilt needs marry, marry a fool, for wise men know well enough what monsters you make of them. To a nunnery, go, and quickly too. Farewell".

Piorzinho ainda (conforme as traduções) Hamlet diz-lhe que vá para um bordelpois segundo certas teorias, "convento" era usado, naquela época, como eufemismo para casas de má fama:

"Vai p´rum convento. Ou preferes ser geratriz de pecadores? (...)
OFÉLIA: Oh, céu clemente, ajudai-o!

HAMLET: Como te pintas! Deus deu-te uma cara e fazes outra (...) chega - foi isso que me enlouqueceu. P´rum bordel - vai! 

(Acto III.1)"
A  constante violência psicológica e o assassinato acidental do pai às mãos de Hamlet (porque o esquema do príncipe acaba mesmo por descarrilar, como era fácil de prever) acabam por levar Ofélia ao limite. É ela que enlouquece mesmo e - nunca se percebe se por pouca sorte ou suicídio - morre afogada.
 Essa combinação de sensualidade, fragilidade, culpa, amor desesperado e por fim a morte num elemento tradicionalmente feminino, a água, tornaram a personagem uma inspiração para centenas de artistas e motivaram incontáveis estudos por diferentes escolas de pensamento.

  Voltando à história, é claro que depois Hamlet chora muito e diz que sem ela não tem motivos para viver (e de facto, arranja mesmo maneira de morrer logo a seguir). Típico..

E porque digo eu que em cada mulher há um pouco de Ofélia? Porque não conheço nenhuma que, por amor, não se tenha sujeitado a ouvir ou suportar coisas que deviam ser atalhadas antes de começar, depois de já terem percebido há muito que algo vai podre no Reino da Dinamarca. E, como diria Hamlet, o resto é silêncio...






Thursday, July 31, 2014

O feminismo falha MESMO quando...



Quem publicou este tweet, falou como um livro aberto. Eu sei, eu vi em primeira mão, logo eu que embirro com o feminismo e paguei as favas pelas feministas - como muitas inocentes mulheres por esse mundo de Deus.
  No meu penúltimo ano de faculdade fui estudar para a Holanda. Escolhi esse destino porque já conhecia a cultura local e gosto francamente dos Holandeses - gente alegre e desempoeirada.
 Julgando pela minha experiência anterior, tinha em grande conta os cavalheiros de Amsterdão, bem vestidos, bem dispostos e amigos de galantear educadamente as raparigas bonitas que passavam. Um pouco como os italianos, mas mais discretos. Um encanto!
 Porém, nos panfletos da faculdade, alertaram-nos que os holandeses tinham em grande conta a igualdade de género - ou seja, uma mulher "podia ir sozinha a um bar a quaisquer horas sem ser incomodada, mas também não podia contar que lhe abrissem a porta ou a ajudassem a carregar coisas pesadas". Guardei a informação para meu governo - até porque ia precisamente estudar a teoria antropológica das "dimensões culturais"-  e lá me lancei à aventura.

 Pois bem, no Norte, onde vivi, apesar de quase toda a gente ser muito simpática, vi rapidamente que isso (ou parte disso) não era verdade. 

Não seria doida o suficiente para ir sozinha a um bar - quanto mais à noite - mas fui várias vezes incomodada em plena luz do dia, à saída das aulas ou do supermercado, que nem que fosse Marrocos...

 Quanto a carregar coisas pesadas, nisso o feminismo já lhes dava jeito. No dia em que embarquei para casa sozinha, reparei que tinha calculado mal a carga: mandara seguir por terra as coisas mais pesadas, incluindo a minha bicicleta, mas mesmo assim a bagagem de mão era mais pesada (e volumosa) do que conseguia transportar.


 Simplesmente faltavam-me mãos para aquilo tudo. Até à estação valeu-me o taxista, mas chegada lá não se via um empregado à vista, e eu sei saber como diabos ia subir para o comboio. Olhei ansiosamente à volta para ver se algum dos marmanjos presentes (e se os holandeses são grandes e a tender para o rechonchudo - não sei que adubo lhes dão em pequeninos!) tinha um assomo de solidariedade pelo meu cabedalinho de periquito super carregado e me ajudava para eu chegar ao aeroporto a tempo. Pois sim! Parece que até estavam a apreciar o circo (saco numa mão, mala na outra e uma terceira empurrada a pontapé) a ver como eu ia sair daquele apuro. Até me considero bastante desembaraçada, mas poucas vezes senti tal desamparo.

 Começava a desesperar quando me surgiu na frente um estudante chinês, metade do tamanho daqueles brutos, e com toda a presteza me ajudou a carregar a tralha. Acho que nunca me desfiz em tantos agradecimentos.

 E lá voltei para a Pátria, a rogar pragas à "Igualdade" que só serve de desculpa para a má criação...




Tonteria da semana: com elfos não se brinca.

Para que quer as chuteiras, Ronaldo?!

Há dias, Justin Bieber tirou uma selfie com Cristiano Ronaldo (Ronaldo todo contente, Bieber com a cara de parvo-só-me-apetece-bater-lhe do costume)...e mais uma vez o menino Cristianinho perdeu uma grande oportunidade de deixar orgulhoso este País tão desanimado, abstendo-se de dar ao rai´ do cachopo um bom pontapé. Tanta Bota de Ouro, tanto ai que eu sou o Melhor do Mundo...e depois é incapaz de puxar dos músculos para fazer um favor à Humanidade. 

Somos um país de brandos costumes com celebridades de brandos costumes, uma tristeza. 

Foi preciso vir o Legolas do Senhor dos Anéis para lhe assentar os açoites taludos (a.k.a lambadas, traulitadas ou arrochadas) que o planeta em peso andava ansioso por lhe dar.
 Não, menino Bieber, que na Terra Média não há paciência para peralvilhos branquelas do bairro social armados em dread, e nesta dimensão parece que se vai esgotando. Abençoado Orlando Bloom, que é um cavalheiro sem papas na língua, nem nos punhos...bravíssimo!

Wednesday, July 30, 2014

Dica de estilo inestimável: jovem, ma non troppo.


«Qualquer mulher com mais de 25 anos, quando escolhe roupa, deve perguntar a si mesma: "uma miúda de 15 anos usaria isto?".  Se a resposta é sim, pense bem antes de comprar.»

Flic Everett, jornalista


Certo, as mulheres cada vez se mantêm mais jovens por mais tempo (vide Elle McPherson, 50 anos e frescura de 20), cada vez assentam mais tarde e têm filhos mais tarde. Hoje em dia só quem é muito desfavorecida pela natureza ou muito descuidada é que se pode queixar - não creiam no contrário, há muitas preguiçosas que o dizem mas isso deve ser recusado como tentação do Inimigo. 

Os 30 são os novos 20, os 40 são os novos 30, mas... 15 anos são 15 anos e não voltam, nem convém que voltem.

 Não é que não se deva adoptar um visual pesado entre os 25 e os 30 e poucos - de todo. Pode-se sim parecer jovem, elegante, fresca e sexy q.b. Há opções de styling modestas e sensatas que permitem usar um bocadinho de tudo, consoante a silhueta de cada uma. Mas cair na patranha "não deixe que a idade a impeça de usar o que bem lhe apetece" é crer numa mentira piedosa que não favorece a beleza *nem a decência* de ninguém. Não se trata de "matronizar" o visual, mas de lhe fazer o devido upgrade e evitar o ridículo, que nunca é atraente.

  Há coisas disparatadas que numa menina da escola se desculpam ou até têm graça, principalmente se estivermos a falar de uma adolescente magricelas (porque há meninas rechonchudas que nessa idade já parecem fazer questão de vestir tudo quanto lhes fica mal...) mas que são imperdoáveis numa mulher feita, principalmente se ela tiver um tipo muito feminino, com ancas e busto vincados. Se for magra e atlética, estilo Cameron Diaz, mas tiver sido desleixada com o sol e apresentar algumas marcas na pele...outro tanto!

 As bainhas e calções devem sim descer um pouco - desde que vão cair sempre numa das zonas mais elegantes das pernas. Mini saias tipo cinto largo ficam ridículas em quem seja maior de idade e não tenha ar de Pipi das Meias Altas. Os crop tops têm de ser coordenados de forma muito sofisticada- se a remetem para as Spice Girls, esqueça. 

Os penteados "radicais", estilo punk- que- nunca -cresceu, com "picos" e madeixas às cores, precisam de ser aligeirados. Os bonequinhos devem ser circunscritos a t-shirts de bom ar para usar com jeans e desaparecer de carteiras, casacos e acessórios. Os tops demasiado reduzidos, com alcinhas fininhas...bom, não foram feitos para quem precisa de usar soutien, por isso é bom que  que se limitem ao uso privado, independentemente da idade. Sapatões...convém que sejam substituídos por saltos largos ou plataformas um pouco mais clássicas e a roupa de aspecto desportivo e ténis deverá passar a ter um aspecto discreto, o mais cool possível. Jeans com lavagens estranhas passam a exigir ainda mais cuidado tanto na qualidade como nas combinações.
 Evitem-se as silhuetas e padrões infantis (vestidos estilo império ou babydoll com padrões a lembrar Ruiz de La Prada, por exemplo) os tecidos duvidosos (musselina falsa numa colegial, passa, mas numa mulher a caminho de um casamento ou festa é o terror) tolices como o P.U (já vai sendo tempo de investir em pequenos luxos) e  street wear demasiado óbvio. Se algo lhe faz lembrar o Justin Bieber, deixe-o para a sua irmã mais nova (e mesmo assim cuidado, digo eu!).

 O que se pretende não é envelhecer o look, mas torná-lo elegante, de aspecto mais dispendioso, depurado e responsável. Afinal, as roupas da Barbie nunca serviram na Skipper e vice-versa, certo?  
 (E cá entre nós, nunca morri de amores pela Skipper...)



O amor é isto e tudo o mais são tretas.

(Cor. 13:7)

É muito fácil, muito imediato, desculpar certas maldades, fraquezas e pecadilhos com o amor. O amor é assim um penso rápido que justifica muita coisa. Bem diz o povo "pelo bem que lhe quer, até os olhos lhe tira". Ou como reza a canção


Dizes que gostas de mim,
    O teu gosto é só um engano
Tu cortas na minha vida, 
Como a tesoura no pano!

Se tivesse um euro por cada vez que ouvi pessoas dizer que os seus ciúmes doentios são sinal de amor (sim, não duvido e algum ciume tem a sua graça, mas em exagero é doença) que vi perseguições e ameaças "por amor", ou que li no jornal crimes cometidos "por amor"...estava rica.

   Nada disto tem a ver com amor. Isso pode ser posse, luxúria, medo, egoísmo, paixão, mas amor é que não é. O amor até pode andar escondido no meio de sentimentos tão confusos, mas não está a ser posto em prática de certeza absoluta. A paixão sente-se, o  amor exerce-seComo disseram naquele filme,

            To love someone is to give and then want to give more.  Lust is to take and then take more.  To devour, to consume. No logic, no reason.

Posto isto, o amor dá uma grande trabalheira, porque exige um aperfeiçoamento diário da alma. Obriga quem ama a passar por cima das suas comodidades e conveniências, a fazer o seu próprio julgamento, a ter paciência, a perdoar - a perdoar efectivamente, não a dizer que sim senhor mas a fazer cenas de cada vez que se lembra de alguma coisa que se passou no tempo da Maria Cachucha - a fazer orelhas moucas às línguas do mundo, a resistir a tentações - a tentação de olhar para o lado, a tentação de discutir só porque lhe dá na veneta - a fazer ajustes e sacrifícios. 

Em suma, amor é querer bem: ao outro e a si mesmo. É não fazer isto ou aquilo porque vai entristecer ou perturbar o outro; pôr-se no lugar do outro, não fazendo o que não gostaria que lhe fizessem a si. É querer fazer coisas que façam a pessoa amada feliz. É defendê-la e tomar conta dela.

 É tirar, sim, mas também é dar muito mais do que se tira. Se dois são capazes desta generosidade então temos uma história de amor, porque o amor não pode ser unilateral. 
 Um exemplo simples é o enredo da Escrava Isaura, de que já falei aqui. A quem não leu o livro recomenda-se, mas quase toda a gente se recorda das duas novelas baseadas na obra de Bernardo Guimarães.


Leôncio, o mau da fita e senhor de Isaura, gosta muito dela à sua maneira. Pior, é doido por ela; tanto, que falta à promessa feita à sua mãe de alforriar a escrava, que foi  educada como uma filha da casa. Por aí logo se vê que paixão não é amor, porque ele se importa mais com ter Isaura por perto, mesmo contrariada, do que com o bem dela. Para piorar tudo, sendo casado não pode logicamente casar com ela e Isaura, apesar da sua condição, é uma rapariga virtuosa. Embora fiquemos com a ideia que Leôncio não lhe é indiferente, recusa sempre ceder aos seus avanços. Ele cada vez enlouquece mais e 

faz-lhe a vida num inferno, até que a pobre coitada é obrigada a fugir.


Entretanto Isaura conhece Álvaro, que apesar de ter um background semelhante ao de Leôncio é muito bom rapaz. Apaixona-se por ela à primeira vista, não se sente desencorajado quando ela se mostra esquiva (com medo de ser denunciada, não por não gostar dele) e quando descobre que Isaura, apesar dos seus dotes e qualidades, é uma escrava fugida, o seu amor não se altera. Fica um pouco abalado, é verdade, porque a idealizava de certa maneira e apesar de tudo, está sujeito às normas da sociedade em que vive; mas não deixa de a amar por causa disso, nem passa a tratá-la de modo diferente, com menos respeito ou cavalheirismo. Aliás, apaixona-se mais ainda quando a conhece melhor e percebe que ela necessita da sua protecção. 
 Isaura, que também gosta realmente dele, chega a pedir-lhe várias vezes que não se comprometa por causa dela, preferindo voltar para a casa de Leôncio e aceitar o seu destino a causar problemas ao amado (pois, porque amor é mesmo isso) mas Álvaro não  desiste de a salvar e tendo meios, emprega todos os esforços para ficar com a mulher que escolheu.

No fim acaba tudo bem menos para o Leôncio, que é realmente digno de pena...

* Bendito e louvado, meu conto acabado!*

Tuesday, July 29, 2014

Maria Fitzherbert e Josefina: adoradas e...desafortunadas (Parte I)


"Adeus, mulher, tormento, felicidade, esperança da minha vida, que eu amo, que eu temo, que me inspira os sentimentos mais ternos e naturais, tanto como me provoca os ímpetos mais vulcânicos do que o trovão." 

                                                                                 Napoleão a Josefina


Na vida de uma mulher,a beleza é uma bênção e ser amada,outra; e tudo isso parece mais brilhante se esse amor vier de um grande homem, poderoso,digno de ser admirado. 

   Muitas beldades cuja formosura era acompanhada de inteligência e distinção viram assim o seu nome gravado nas páginas mais fascinantes da História. Porém, nenhuma destas coisas garante felicidade. Antes pelo contrário: tudo o que luz parece, por vezes, ter um preço demasiado alto ou carregar consigo uma maldição.

Roxana, mulher de Alexandre, o Grande; Ana Bolena, Madame du Barry e muitas outras pagaram com a vida, directa ou indirectamente, a sua ligação a homens no poder.

Depois houve aquelas cuja história teve um desfecho menos dramático, que conseguiram conservar certa respeitabilidade e acabar os seus dias de forma aparentemente confortável, mas... com quantos desgostos!

Soraya, a deslumbrante "Imperatriz" dos olhos tristes, é um exemplo recente; mas dela se falará noutra ocasião.

Quando se pensa em "mulher adorada" poucos rostos são mais imediatos que o de Josefina Beauharnais, a amada de Napoleão Bonaparte e Imperatriz de França.


Ainda menina, uma criada na sua Martinica natal, que tinha algo de bruxa, predissera que ela viria a ser "mais do que rainha". Quando Napoleão a conheceu, ele era um ambicioso general de 26 anos e ela uma perturbante viúva de 33, em apuros para sustentar dois filhos do defunto Visconde seu marido, vítima da Revolução Francesa. 
   Napoleão amou-a à primeira vista, ela nem tanto; ele pretendia uma posse completa, absoluta, da sua pessoa: não permitia mesmo que ela usasse o nome de baptismo, Rose, pois outros homens antes dele a tinham chamado assim: como o nome do meio da amada era Joseph, ele passou a chamá-la Josephine, criando-lhe uma nova identidade, moldando-a ao seu gosto e aspirações. 

    Mas Josephine não parecia impressionada: nos primeiros anos o apaixonado general sofreu todas as leviandades da caprichosa crioula. Não só lhe adoptou os filhos, que tratava com todo o desvelo, como à medida que conquistava o mundo em numerosas campanhas punha aos mimosos pés da amada todos as honras e luxos;  tudo isto ela pagava com certo descaso, ignorando as cartas em que ele suplicava que ela viesse juntar-se a ele como competia a uma esposa dedicada, humilhando-o com numerosos flirts e namoricos. Para se escusar a reunir-se ao marido, Josefina chegou a inventar o pretexto de uma gravidez. O pobre Napoleão não foi poupado a nenhuma das desilusões e tormentos temidos pelos amantes dedicados...


 

Tudo lhe sofreu pelo amor que lhe tinha, paixão que fazia o grande homem, que comandava exércitos sem pestanejar, implorar por um pouco de afecto. Era como se ela não percebesse o que realmente sentia por ele - como tudo o que é dado de bandeja nesta vida. A situação só se alterou quando Napoleão perdeu a paciência e a tratou do mesmo modo que aos seus soldados:

"Já não te amo: ao contrário, detesto-te. És uma desgraçada, verdadeiramente perversa, verdadeiramente tola, uma verdadeira Cinderela."


Mostrou-lhe o aço de que era feito, recusou-se a abrir a porta à esposa desmiolada e foram precisas muitas lágrimas de Josefina e muitos rogos dos filhos ao padrasto para que ele cedesse. Caíram nos braços um do outro e a partir daí, foi Josefina que passou a sofrer com ciúmes.

Ainda assim, ele proclamou-a Imperatriz. Seria a mulher mais influente do Primeiro Império durante cinco anos. Napoleão só a deixaria em 1809, para casar com Maria Luísa da Áustria, mantendo Josefina o título de Imperatriz. 

Ambos de coração partido, ele tentou secar-lhe as lágrimas, dizendo-lhe "amo-te e amar-te-ei sempre, mas a política não tem coração, apenas cabeça". O sacrifício foi vão, porém; após o repúdio da amada, a boa estrela de Napoleão não brilharia muito mais tempo: e já no exílio, Josefina é a única que não o abandona, que lhe escreve cartas propondo-lhe juntar-se a ele na Ilha de Elba. Napoleão recusou, esperando que a segunda mulher tivesse ideia igual: sem êxito.

Josefina morreu entretanto, ainda bela; as suas últimas palavras foram para ele.

Claro que para que beleza e amor resultem em felicidade, principalmente quando se trata do amor de um homem poderoso, ser virtuosa é uma grande ajuda; no caso de Josefina, poderemos pensar se ter sido estouvada não terá, a longo prazo, ajudado a abrir brechas na relação; mas por vezes, nem a virtude garante nada. Foi o caso de Maria Fitzherbert, esposa do futuro Jorge IV de Inglaterra: por amor do desmiolado príncipe a boa senhora muito sofreu, sempre com grande dignidade. 

 (CONTINUA...)




Momento "ai se eu não fosse uma senhora"


Aquele momento em que descobrimos um blog infinitamente mais divertido do que o nosso. E nos consolamos a pensar que enfim, somos gente muito séria, muito contida, muito queque, pronto, e temos um mecanismo de auto regulação super sónico. Além disso, bem...o nosso blog não é anónimo e ainda que tivéssemos jeito e vocabulário para escrever barbaridades tão engraçadas, não só nunca mais nos olhávamos ao espelho como tínhamos a família ( o meu irmão, ai!) e um certo Cavalheiro à perna a gritar que isso não são coisas que uma senhora escreva, ad nauseam. E digo eu que costumo exclamar que digo tudo o que bem me apetece. Bom, *QUASE* tudo. Falta-me um bocadinho assim.

Monday, July 28, 2014

E o vestido Concreto vai para....




...pois, eu bem gostava de possuir o talento que o Carlos Cruz tinha para arreliar os concorrentes até ao desespero no 1,2,3; mas como sou impaciente por natureza, não faço aos outros o que não gostaria que me fizessem a mim e de arrelias já basta as que não podemos evitar, é com muito prazer que vos digo que a nossa amiga Vânia Madureira foi a contemplada com o vestido verde-lima da Concreto. A vencedora vai ser contactada por 
e-mail e a julgar pelo que vi, vai ficar giríssima neste sundress.

 Resta-me agradecer a todos os participantes e pedir que continuem com muita atenção (como dizia a Bota Botilde) porque para o mês que vem (se nenhum ataque de gambuzinos ousar impedir-me, lagarto, lagarto) teremos novo sorteio aqui no Imperatrix.



Helen Keller dixit: impossible is nothing.


"É na desgraça que se conhecem os seres superiores. Nada é impossível na vida: a questão é possuir a mais simples mas férrea vontade!"

                                       in Modas e Bordados: Vida Feminina, 1956.


A célebre  jornalista, escritora e activista americana Helen Keller visitou o nosso país, de que muito gostava, nos anos 50, deixando a mensagem acima às leitoras nacionais. Para quem não se recorda, Helen Keller (sigam o link para várias imagens, vídeos e um filme sobre a sua infância) que recebeu as mais elevadas condecorações no seu país, ficou cega e surda antes dos dois anos, devido à escarlatina ou meningite. 
  A sua vida mudou graças a Anne Sullivan (preceptora que tinha crescido em lares para deficientes visuais e auditivos). O talento de Anne conseguiu que Helen, a quem a sua prisão interior tinha tornado uma criança rebelde que só fazia disparates, aprendesse a comunicar. Professora e aluna mantiveram-se próximas ao longo de 49 anos.


Helen (esq.) com Anne Sullivan
 Com a ajuda de Anne, Helen pôde dar asas à sua borbulhante inteligência: não só conseguia expressar-se sem dificuldades na sua língua como em alemão e francês. Tornou-se proficiente em braille; aos 20 anos escreveu a sua autobiografia e foi uma das primeiras invisuais a obter estudos superiores, em 1904. A sua história espantou o mundo e Helen contava com admiradores famosos, como Mark Twain.


Helen Keller (ao centro) rodeada pela sua secretária, a directora de "Modas e Bordados" e a intérprete,
Mme. Álvares Cabral
 Em Lisboa, a figura e gentileza de Ms. Keller encantaram as jornalistas*; na sua opinião as portuguesas eram "mulheres lindas". Ela conseguia "ver"o rosto das pessoas pelo tacto e apesar das suas limitações, apreciava tanto modas & elegâncias como qualquer outra senhora: segundo a revista, a primeira coisa que fez antes de receber a imprensa lusa foi arranjar as mãos e o cabelo num salão local.
 Não sei quanto a vós, mas pensar em mulheres como esta dá-me um grande alento quando a preguiça ou o desânimo ameaçam...

            
* O artigo citado e imagens reproduzidas são da autoria de Maria da Graça e Beatriz Ferreira. Nada mau, numa época de "opressão" para as mulheres, hein?

Sunday, July 27, 2014

Meninas e meninos, muito cuidado com as imitações.



Quando eu era pequena, teria dois ou três anos, Cuidado com as Imitações, do tio Sérgio Godinho, era muito a provavelmente a minha canção preferida (ex aequo com I want to break free, dos Queen) .


Estava sempre a pedir ao pai que pusesse o álbum Era uma Vez um Rapaz no gira-discos, pois eu não estava autorizada a mexer-lhe, não fosse algum vinil ficar riscado (o que conferia uma certa aura mística à maquineta) e - vá-se lá saber porquê - achava bem acompanhar a cantiga balançando-me no cavalinho de madeira (esse mesmo, abaixo) como se não houvesse amanhã. 

Tudo isto acontecia numa sala ampla que tínhamos, uma espécie de mistura entre lounge para receber os amigos e biblioteca, e onde eu jamais entrava sozinha nem que me pagassem pois morria de medo de uma máscara com chifres, coisa pagã que tinha sido trazida de Itália, vivia por cima da lareira e a quem pus o nome de "Xô":


Apresento-vos o Sr. Xô.

 O meu irmão acompanhava-me na brincadeira, pois a letra puxava-nos pela imaginação. Não lhe percebíamos o significado, claro, mas "orelhas equipadas com radar", "dentes de vampiro", "rabinho a dar a dar" e "nariz que parecia um elefante" eram imagens poderosas.

 Agora que já está tudo contextualizado, volto ao que me trouxe aqui: não sei se a canção de Sérgio Godinho, com os seus preciosos conselhos - "ser honesto não é só ser bem falante",
"não é preciso ser Casimiro para ter muito cuidado para não se deixar levar", etc - teve alguma influência nisso, mas a verdade é que me tornei um bocadinho como o Casimiro, que era assim como um vidente e tinha um olho mesmo no meio da testa, tinha as orelhas equipadas com radar e ouvia toda a gente muito sério e comedido mas a topar perfeitamente as intenções alheias.

 Já aqui disse mil vezes que o que mais há por este mundo é pantomineiros: entre as pessoas que são tão falsas como as carteiras que ostentam, carroceiros que julgam que um fato barato, palavras caras e hábitos postiços os transformam em cavalheiros, bajuladorespessoas Floribela e  mulheres da luta que passam por muito desinteressadas, muito dedicadas, há que ter todo o cuidado com as imitações. 

 Exercer ao máximo a intuição de profiler e confiar no primeiríssimo instinto, porque a impressão inicial raramente nos engana. A canção de Sérgio Godinho é perfeita, mas eu acrescentava-lhe duas máximas: evitar as segundas oportunidades, porque parvo é quem lá volta, e fugir como da peste de dar o benefício da dúvida. O benefício da dúvida dá SEMPRE que entender: fica o conselho para nosso governo.





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Os homens detestam histeria, confusão e demasiada informação.




Por estes dias comentou-se, a propósito da redecoração que vos contei, que era melhor "ter tudo pronto antes que o senhor mano chegasse a casa, para ele não ver tanta confusão - senão, ele vai julgar que estamos nas obras de Santa Engrácia e ficar todo aflito".
 Isto é um bocadinho contraditório - afinal, um homem tem mais força para carregar/arrastar coisas e dois braços a mais dão sempre jeito - mas tem a sua razão de ser.

Muitas vezes as mulheres não percebem, ou demoram anos a perceber, uma grande verdade sobre o sexo oposto: os homens não lidam bem com a barafunda. E quem diz barafunda diz agitação, nervoso miudinho, histeria, confusão e muita coisa a suceder ao mesmo tempo. Ou seja, se uma mulher age como uma barata tonta, um cavalheiro das duas uma: ou tem presença de espírito para pôr fim ao pandemónio logo ali (e a melhor bênção para uma mulher é um homem de feitio firme, mas sereno) ou se for de natureza algo nervosa, fica mais barata tonta do que ela. 

  Esta aversão a barafundas, barulhos e pandemónios tem algo a ver com o cérebro deles, que não consegue processar muita informação em simultâneo. Como é que se desembaraçaram na guerra por séculos é coisa que me escapa já que poucas coisas devem ser tão desnorteantes como um campo de batalha... mas pronto,sigo a minha teoria baseada no que tenho visto.

É sabido que uma mulher consegue ter um olho no burro, outro no cigano (um livro numa mão, o telefone na  outra e vigiar um bolo no forno sem pestanejar, por exemplo) enquanto um homem até é capaz de ser mais metódico, mas só faz uma coisa - duas, no máximo- ao mesmo tempo. Mais do que isso eles não acompanham, coitados.

  Por isso, é melhor colocá-los perante os factos consumados do que deixá-los acompanhar o processo todo (been there, done that)

Isto vale tanto para aspectos emocionais como para os puramente práticos: se foi às compras, não deixe os homens da casa (cara metade, pai, irmãos...) ver os sacos todos juntos. É certo que só trouxe um vestido, um par de sapatos, umas quantas toalhas para a casa de banho e alguns frascos de champô, mas eles vão entrar em pânico e começar a refilar "onde é que vai caber tanta tralha? Já não há vestidos de sobra?". 

Ná: o melhor é aparecer linda e airosa com o vestido novo e esperar as reacções (ou não) e pôr as toalhas em uso. Assim como assim eles não ligam  muito a essas coisas, a não ser que fiquem sem toalha e sem champô na hora H ou coisa semelhante.

 Se algo a irrita, mesmo que não seja nada de pessoal (a colega que é chata, um mexerico que ouviu) e tem mesmo que o transmitir a um ente do sexo masculino, ou se precisa de se queixar de alguma coisa, faça-o com o ar mais impassível deste mundo: se mostrar que o assunto a perturba, o pobre coitado vai entrar em modo defensivo, pensar que se prepara alguma embrulhada ou que algo de grave se passa. 

Eles não entendem muito palavreado: são mais sensíveis a acções e a factos. Por muito que gostem de nos proteger e acalmar, isso torna-se um bocadinho difícil se uma mulher está tão fora de si que não se percebe patavina daquilo que ela diz. E basta falar um bocadinho mais depressa para que eles já não percebam! A histeria é totalmente de evitar, até porque muitos pensam  abertamente que as mulheres são malucas, por muito que gostem delas. É triste mas é verdade; convém não lhes dar argumentos. 

 As mulheres do tempo da outra senhora eram exímias nesta psicologia: para já, tratavam ( uma vez que não tinham outra actividade)  de criar um ambiente acolhedor em casa; depois, sempre que possível falavam-lhes com calma, baixinho, serenamente, sem exaltações nem chiliques, que é a única linguagem que eles entendem.

 Quem teve irmãos e primos perceberá mais facilmente que os rapazes se levam melhor por bem e com calma: se disserem a um homem, com agressividade, que se mexa e avie e deixe de ser lesma porque lhe fizeram o prato preferido e está na mesa a arrefecer, é capaz de não ligar nenhuma ou ignorar a informação pertinente para reagir, todo ofendido "olhem como ela me falou!" mas se lhe pedirem com jeitinho que vá ao fim do mundo buscar isto ou aquilo, até é capaz de ceder. 

 Claro que nem sempre há paciência para empregar tão boas estratégias, mas por mais que o mundo mude eles ainda esperam encontrar um porto seguro nas suas mulheres, mães, filhas e irmãs. Não custa nada ser doce e feminina, porque quando eles começam a barafustar...são piores que as mulheres. Ficam com uma ideia na cabeça e nunca mais se calam com o assunto...





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