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Saturday, September 6, 2014

Alegoria do dia: a nobre arte de fazer as coisas "à Facebook".


Sabem aquelas piadas nonsense que nos fazem rir sem nenhum motivo? Esta chegou-me, como provavelmente a muitos de vós, e fiquei a pensar se não haverá mais empregos para a "receita" e para a designação.

Fazer as coisas assim à Facebook será, portanto, levar as tarefas distraidamente, a ver como cresce a grama, a arrastar os pés, a conta gotas, a pensar noutro assunto qualquer.

 E quem diz Facebook diz outra distracção, porque para empatar tudo serve. É perfeitamente possível fazer isto ou aquilo à Facebook sem tocar no Facebook...

São as arrumações à Facebook...em que uma pessoa começa a organizar para um lado, a separar para outro, a limpar para aqueloutro...e entretanto espreita uma actualização do dito cujo. É a tia da Austrália que quer conversa ou a amiga do colégio que não víamos desde que se casou e foi viver com a sogra...e zás, meia hora perdida.

Cenário sem Facebook: encontra-se aquele livro tão giro ou aquele bloco de notas que  se escreveu na infância, uma alma entretém-se a ler e dali a um bom bocado está tudo exactamente na mesma, ou mais desarrumado ainda.

Também há quem namore à facebook - finge ter um relacionamento muito sério, mas depois vai para as redes sociais fazer tropelias.

Cenário sem Facebook: quem se quer portar mal ou não sabe bem o que quer não precisa de engenhocas. Namoro à facebook será, portanto, qualquer relacionamento sem grande solidez nem boas intenções.

Depois haverá as amizades  à facebook , que só existem mesmo nas redes sociais.

Cenário sem Facebook: pessoas que só se lembram dos amigos quando precisam de alguma coisa, ou de angariar assinaturas/apoiantes para um disparate qualquer e quantos mais para fazer monte, melhor.

 Existirá ainda o trabalhar à facebook ou seja, ir para o emprego e passar o tempo a jogar Ville qualquer coisa fechado no gabinete, enquanto se finge muito ocupado (a).

Cenário sem Facebook: simplesmente ver passar as horas, ou estar na conversa ou enfim, o bom e velho fingir que se trabalha.

Deixo ao vosso critério outras possíveis aplicações...

36 it girls que se podem admirar sem dano, segundo a Harper´s Bazaar

Lucilla Bonaccorsi

Embora vá cedendo aqui e ali às pressões que banalizam as revistas mais tradicionais e sofisticadas, a Harper´s Bazaar ainda mantém alguns artigos (tanto de moda, como de sociedade) do género a que sempre habituou o seu público.
 Esta lista das 36 it girls a acompanhar - "cisnes modernos", mulheres dos seus late twenties aos early thirties - que inclui as mais criativas editoras de moda e bloggers, Kennedies, aristocratas tornadas empreendedoras, modelos e filhas de celebridades que dão cartas no mundo elegante e por aí fora... é, se pode existir tal coisa, uma lufada de ar fresco à moda de outros tempos.

Lady Amelia Windsor

 Há os nomes do costume - como Cara e Poppy - e outros que merecem uma olhadela atenta, na melhor tradição de elegância. Todas com backgrounds e percursos diferentes , mas com algo em comum: classe. E isto importa porquê? Porque convém ver nas revistas exemplos de raça, de distinção, de savoir-faire, por mais que nos tentem convencer de que os tempos mudaram e de que não há mal nenhum em achar piada a Kim Kardashian e companhia, ou em que os media percam tempo com duelos de coisas- que -agora -não digo entre Jennifer Lopez (que já tem idade para ter juízo) e as outras.
  Recomenda-se uma boa vista de olhos e que se partilhe com irmãs e primas mais novas, sobrinhas ou filhas (se for caso disso) porque é de pequenino que se torce o pepino e eu não sei quanto a vocês mas tenho vontade de desatar ao puxão de orelha quando vejo meninas com obrigação para gostar de outras coisas a fugir-lhes o pé para as Rihannices ou a vestir como a Rita Ora na maior das inocências.
 Nada como mostrar alternativas, e estas "meninas cisne" são muito mais giras.


Friday, September 5, 2014

Tomás de Kempis dixit: o homem perfeito.



"Não se há-de dar crédito a toda a palavra, nem julgar ao de leve (...). Os varões perfeitos não crêem de leve tudo o que se lhes conta (...). A esta sabedoria também pertence não crer quaisquer palavras dos homens, nem dizer logo aos outros o que se creu ou ouviu".

in "A imitação de Cristo"

Considerada uma das maiores obras do Catolicismo e um dos livros mais traduzidos de sempre, a Imitação de Cristo, escrita por um monge no sec. XV, mantém-se um clássico incontornável e está cheia de máximas de grande bom senso. 

 Se há coisa que causa insegurança no amor, nas amizades ou nas relações profissionais é lidar com uma pessoa que acredita em tudo o que ouve, não importa quão pouco fidedigna ou merecedora de crédito a fonte seja.

 Pessoas assim são tão desconfiadas - e ao mesmo tempo tão crédulas -  que vêem conspirações ou más intenções em toda a parte menos onde elas estão de facto e assim ouvem daqui, ouvem dali no intuito de se certificarem da verdade ou de confirmarem as suas suspeitas. O resultado é que acabam por ouvir os piores mexericos, os boatos mais tolos ou a versão que interessa a cada um dos envolvidos, sem ponderar o que terá cada intrometido a ganhar com o assunto...e pior, agem de acordo com a última versão que o vento lhes trouxe.

 Ser mexeriqueiro - seja por espalhar, ou por ouvir mexericos - é um dos defeitos mais feios e incómodos à face da Terra. Mas se numa mulher a comadrice é perniciosa, num homem é simplesmente desprezível...pois de um homem espera-se um comportamento varonil, isento de tais fraquezas.


 Shakespeare ilustrou bem este tipo de homem em Othello, que preferiu acreditar sem pensar duas vezes num sujeito que claramente tinha interesse em dar-lhe cabo da vida a confiar um bocadinho que fosse na própria esposa.

 Quem assim é, é demasiado inseguro para formar uma opinião e mantê-la; demasiado volúvel para ser leal e tão imaturo que não consegue gerir nada, nem sequer ser senhor de si mesmo. E se estiver numa posição de poder...mais desastrosa se torna esta mania parao próprio orelhudo e para os desgraçados que dele dependem.

  Amar uma pessoa assim, ser amigo de alguém com tão grandes orelhas ou trabalhar para um chefe que, como diz o povo, emprenha pelos ouvidos, é um verdadeiro pesadelo.

 Sai-se de junto da pessoa muito feliz, tudo em paz...apenas para descobrir que no dia seguinte acreditou num disparate qualquer e se vira contra a cara metade, o melhor amigo ou o colaborador de confiança, sem razão plausível. 

Vive-se a pisar ovos, a caminhar sobre gelo fino, sempre a olhar por cima do ombro, quando para pôr fim a tais males bastava que o desconfiado orelhudo tivesse juízo e escolhesse com mais critério as pessoas a quem autoriza levar e trazer.

 Afinal, nenhum homem inteligente pode pretender ser amigo íntimo de todos, nem crer nos outros mais do que nos factos ou do que na sua própria consciência. O mesmo livro recomenda e muito bem, "caridade se deve ter para com todos; mas não se deve ter para com todos a familiaridade".


Das mulheres- gato...e das mulheres outro-bicho-qualquer.


Existem as mulheres gato, e as mulheres...bem, outra coisa. É um pouco feio chamar mulher cão (ou mulher galinha, Credo) a alguém, por isso fico-me pelas mulheres gato e as que não são mulheres gato.

 E que vem a ser uma mulher gato (para além da super heroína do Batman que fora a fardamenta sexy eu nunca percebi muito bem que poderes tinha)?

 Uma mulher gato é a que tem, nos relacionamentos e na vida, um comportamento felino.  Pode até não gostar de gatos mas se não gosta devia, porque se parece muito com eles. Mas para explicar a analogia tenho de me afirmar como uma "cat person" (alguém que adora gatos) e explicar porquê.

   O meu fraquinho por bichanos começa pelo motivo muito simples de todos os gatos serem lindos. Há uns mais lindos que outros, certo, mas enquanto há raças de cães bonitas e//ou nobres e outras nem tanto, entre os gatos não há tantas diferenças de aparência - nem de comportamento. Um gato é um gato, cada um tem a sua personalidade
 mas sabe-se sempre mais ou menos o que esperar dali.

  Depois, o gato é sempre nobre. Pode estar na sarjeta mas jamais perde a altivez e a dignidade. Pode estar a morrer de medo mas defende-se, faz barulho, causa um estardalhaço desgraçado e às vezes consegue afugentar um adversário bem maior que ele. Isto acontece assim que aprendem a andar. 



Um gato nunca suplica (embora seja um perfeito palerma, um coração de manteiga, uma vez ganha a sua confiança). Pode até estar morto por mimos mas fazer que não é nada com ele. Um cão tenta conquistar-nos, mas é preciso conquistar um gato. A maior parte dos cães são um pouco vai-com-todos, pouco selectivos, gostam de toda a gente; um gato não.

 Sabe sempre, imediatamente, as pessoas com quem quer interagir...e às vezes, essas até são pessoas que pensam que não gostam de gatos. Ele trata de lhes provar que estão enganadas e que nunca precisaram tanto de nada como precisam de um gato - tudo isto sem descer do seu pedestal. Depois caem sempre de pé, estão sempre impecáveis, nunca perdem a pose elegante e perfeita. E  as sete vidas? Como não gostar de um bicho que tem sete vidas?

 São animais extraordinários e ao contrário do que muita gente pensa, extremamente fiéis: simplesmente, a sua lealdade é uma escolha, não é oferecida automaticamente ao primeiro pateta que se intitula seu dono. Um gato não espera que gostem dele - pergunta-se antes "gostarei eu deste caramelo?". E se o dono lhe fizer mal, ele não abana a cauda nem tenta pedir desculpas por cima como os cães: ressente-se, e com razão. Um gato exige respeito.

 Assim são as mulheres gato: não tentam conquistar nem fazem por agradar. Limitam-se a ser a sua adorável pessoa - bonitas, elegantes, meigas - e ficam no seu canto a observar, a analisar se aquela pessoa que as tenta cativar é alguém que convenha, que lhes agrade e mereça confiança. Se finalmente confiam esperam que seja a sério - mas caso se enganem, afastam-se com toda a dignidade que conseguem reunir. Tentam conhecer as pessoas aos poucos, impõem respeito e não toleram menos; jamais põem o carro à frente dos bois. Uma mulher gato nunca implora, nunca facilita, nunca se faz convidada e nunca pede batatinhas (a não ser que tenha feito o equivalente humano a escangalhar todo o conteúdo da cristaleira na tentativa de apanhar uma mosca). É preciso muito para obter o seu afecto, mas vale a pena, porque o seu amor é uma eleição difícil: mulheres gato podem só atacar em caso de fúria extrema, mas não gostam de toda a gente. Por isso, podem ter uma reputação complicada, tal como os gatos: dignidade e frieza às vezes confundem-se.  Afinal, há muito mais pessoas cão do que pessoas gato.

        É quase desnecessário fazer aqui a comparação com as mulheres de fidelidade canina, creio: essas são as mulheres da luta que fazem TUDO para cativar, para forçar laços. Se não as convidam, elas adiantam-se; se as tratam mal, elas redobram os carinhos e as acrobacias ou pedem desculpa por cima; se as ignoram, fazem tudo para chamar a atenção; não têm literalmente uma cauda mas se tivessem, agitavam-na sem sombra de vergonha. Acham que impondo a sua presença chegam a algum lado, porque  das duas uma: ou são tão inseguras que migalhas lhes bastam, ou precisam de assentar  desesperadamente por qualquer razão. Mas nada disso quer dizer que não mordam - salvo seja - ou que sejam de facto mais fiéis. São menos exigentes e mais trapalhonas, só isso...

 Trata-se de feitios e de ter arcabouço para lidar com isso. Em boa verdade, é muito mais fácil abusar de uma pessoa cão; é preciso ser mesmo especial para amar pessoas gato.



Thursday, September 4, 2014

Quem quer um novo visual para a rentrée?

A silly season está oficialmente a acabar e não só o cabelo pode ficar um bocadinho sem graça depois do sol como sabe bem um upgrade no look para enfrentar o regresso às obrigações com outro ânimo.


  Pensando nisso, a Bellady - marca em que confio quando me apetece realçar o tom natural do cabelo - criou as espumas de cor intensa que prometem brilho, intensidade e...durabilidade. Afinal, é aborrecido pintar a cabeleira com uma cor supostamente permanente e dali a dias vê-la desvanecer-se. O produto foi pensado para proteger as fibras capilares, garantindo uma cor vibrante por mais tempo.

 Como nestes casos não há nada como ver pelos próprios olhos, a Bellady juntou-se ao Imperatriz para oferecer a três leitoras uma espuma nos tons Louro Avelã (7/3) Encarnado Jaspe (66/46) ou Castanho Chocolate (6/7).



 Para receber uma embalagem na vossa cor preferida, basta seguir o Imperatrix no Facebook e enviar para imperatrixsissi@hotmail.com uma frase criativa até 15 de Setembro, indicando por que motivo querem fazer uma mudança de visual com Bellady. Sei lá, sejam honestas, do estilo "mandei embora o ingrato do meu namorado e agora vou mostrar-lhe aquilo que está a perder" ou "fiz dieta e quero assinalar uma fase nova da vida" enfim, o que quiserem.

As autoras das três melhores frases serão as vencedoras. Bonne chance!

A imponência é uma bela qualidade.

Conde Claus Schenk Ggraf von Stauffenberg,
 Coronel alemão envolvido na revolta de 20 de Julho  (tal como o pai da modelo Verushka).

A imponência é talvez uma das mais importantes qualidades humanas...e tão desprezada nestes tempos de arrivismo, facilitismo e indisciplina.

 Na era dos Justin Biebers, dos Kardashians, dos esquemas para a riqueza e a fama fácil, do chico espertismo,da falsa igualdade, da tolerância fofinha a todos os pecados, não há grande apreço pela majestade, a grandeza, o porte, a nobreza de modos, a beleza patrícia. O laicismo desbragado é de rigueur, o serviço militar é quase uma ofensa, acarinha-se uma cultura de não ter pelo que lutar, de ausência de honra, de pulhice e malandrice.

 Senão, reparem num exemplo simples: qual é a postura desejada pelo adolescente comum hoje? A imagem que cultiva? Não será a do luminoso ideal grego, nem o orgulho belicista dos jovens romanos, o idealismo apaixonado do cavaleiro medieval, a arrogância elegante do dândi, o ar marcial da primeira metade do século XX...nem sequer, por Júpiter, a liberdade do hippie.

 Não. O que se quer é ter swag, o que quer que isso seja - um andar oscilante, de ombros curvados, uma atitude de rufia de esquina, de preguiçoso, de valdevinos.

 E as raparigas? Não quero repetir-me mas num mundo em que isto substituiu o ballet e toda uma escola de boas maneiras, tudo dito. Podia fazer-se aqui a alegoria da falta de palmatória mas não quero ser acusada de promover violências, que são um último recurso e não a maneira certa de ensinar alguma coisa.

 Já o disse aqui vezes sem conta, hoje tudo se desculpa ao lambe botas que "faz pela vida". A espinha dorsal não é uma qualidade apreciada e a imponência pode ser erradamente confundida com arrogância. Mesmo entre os actuais líderes políticos, quantos têm um porte majestoso? Muito poucos, numa época em que o poder e a arte da guerra nem sempre caminham juntos. E assim, substitui-se o líder que morreria por uma causa por um homem (ou mulher) habituado à feia arte de se safar.

 Pode subjugar-se a Fortuna no sentido maquiavélico do termo sem com isso adoptar a postura de um malandro desprezível, de um fraco, de um parlapatão.

   Mas sem respeito pela autoridade, sem causas nobres, sem finishing schools, sem colégios militares, sem sacrifício e com a MTV à cabeça (para os jovens) e ideais frouxos (para os adultos) o que nos resta é isto.

 Ora desculpem mas eu gosto de gente imponente, que não precisa de abrir a boca para impor respeito; gente com pulso; gente com porte, que coloca uma sala em sentido sem precisar de se esforçar para isso; pessoas que na aparência inspiram comedimento e que no terreno, separam o trigo do joio e têm muito pouca tolerância à cobardia, à graxa e ao mexerico.

  Na minha imaginação - porque esse ainda vai sendo território livre num tempo em que somos obrigados a tolerar tudo - uma mulher deve fazer por ter a graciosidade de uma fada e a dignidade de uma rainha, e um homem a majestade de um rei e o comando de um general. Era a isso que era suposto aspirar-se antigamente. Não que toda a gente conseguisse, óbvio, mas o modelo de comportamento era outro.
 Faz falta uma cruzada, já que estou a divagar. 

 E embora a imponência, como a honra, esteja fora de moda, é sempre reconhecida quando aparece. Pode não se saber porquê, mas faz efeito. O que é, é cada vez mais rara. Uma pena.

Mundo feiinho que o nosso é às vezes.



Em que as pessoas não se alegram com as coisas  bonitas e tentam estragá-las.

 O caso das actrizes a quem roubaram imagens privadas é apenas um exemplo. 

Está certo que cabe a quem é famoso resguardar-se, que não há necessidade de uma exposição dessas nem entre quatro paredes e que é uma estupidez porque hoje nada é seguro, mas o que faz impressão aqui é a constante necessidade de descobrir carecas, de revelar o lado mais frágil ou mais imperfeito de cada um.

 Ninguém se contenta em admirar uma actriz ou modelo no seu melhor, porque é linda e inspira a humanidade- importa fotografá-la sem maquilhagem, sem photoshop, despida,  com os copos como qualquer mortal ou no pior ângulo com o intuito de ridicularizar. Se não se consegue, rouba-se ou recorre-se a outro estratagema infame qualquer. 

Só assim estão tranquilos, só assim o ressabiamento acalma um bocadinho.

 Se alguém tem êxito, importa descobrir os podres, provar que o ídolo tem pés de barro. Se aparece um casal lindo e apaixonado, logo se levantam intriguistas ou aproveitadores para minar tudo. Que aconteceu ao ficar feliz pelo bem dos outros? À admiração que se devia sentir pela beleza, o talento, o amor ou o êxito? Há toda uma cultura do "eles também são como nós" do falhanço, do bota abaixo ou do "nivelar por baixo" - afinal, elevar-se dá muito trabalho, não é para todos. Rebaixar os outros ao mesmo nível é muito mais fácil.

 Feio, feio, feio. Horroroso.

Wednesday, September 3, 2014

Estilo infalivel para dias de preguiça (ou de pressa): Model off duty


As manequins, um pouco como as bailarinas, ganham a vida aperaltadas - saltos vertiginosos, muita maquilhagem, cabelos em constante e cansativa mudança, toilettes exigentes - por isso, nos seus momentos de lazer, optam geralmente por um estilo simples e muito chic, a que se junta a beleza do seu porte.

É um visual espartano, que fascina os seguidores atentos da indústria de moda pela ausência de pretensão...e por ser fácil de usar, claro.


 Este look, conhecido como "Model off duty" (modelo à paisana) é uma receita fácil, clean e elegante para não cair em desleixo quando se está cansada, com pressa, falta de imaginação ou simplesmente preguiçosa (porque até a mulher mais disciplinada tem direito à preguiça ocasional). Ou seja, um bom "uniforme" para ter sempre um ar polido sem grande esforço. E embora funcione instantaneamente numa mulher esguia, não é preciso ter a figura de uma modelo de passerelle para a aplicar no quotidiano.

A base para este visual é a mais elementar e minimalista: calças skinny (ou clássicas, para quem é mais voluptuosa) de preferência pretas, top da mesma cor e sabrinas, pouca maquilhagem e cabelo solto ou num rabo de cavalo. Muito Audrey Hepburn, porque menos é mais.

  Depois há quem opte por saltos altos ou botas de grande efeito, calças skinny de cabedal, vestidos simples, calções (não demasiado curtos e ligeiramente folgados) tudo em tons neutros e acompanhado, nos meses frios, por um blazer, blusão de couro, cardigan ou - para aquele toque extra - um casaco de peles volumoso.

 Para fazer resultar o look, principalmente em quem não tem uma figura de manequim, importa no entanto seguir algumas dicas:

- Escolha sempre o modelo de calças, decote e mangas que mais favorecem o seu tipo de corpo, dentro das linhas mais depuradas; ou seja, fuja de bainhas curtas se tem pernas menos elegantes ou tops de alcinhas se o seu torso não é de modelo - de qualquer modo, uma t-shirt ligeiramente decotada e com manga 3/4 é sempre uma opção perfeita para qualquer figura.

- Se gosta do efeito das sabrinas mas não é muito alta (ou não tem pernas compridas e esguias independentemente da altura) experimente um modelo parecido com ligeira cunha ou um kitten heel. O resultado é quase o mesmo e dá um porte mais bonito. Em todo o caso, lembre-se de que as biqueiras ligeiramente pontiagudas alongam sempre a silhueta.

- Atenção aos tecidos e confecção das peças: uma roupa simples disfarça mais facilmente uma qualidade sofrível, mas para que o look tenha o ar certo nada como elementos sólidos e agradáveis ao toque. As t-shirts devem ser de algodão, compridas q.b e sem mangas que esborrachem os braços e as calças de uma marca de confiança; de preferência, ajustadas à medida. É complicado ter um aspecto de modelo à paisana convincente se usar uma carteira de poliéster ou sapatos que já precisavam de reforma, por exemplo.

 Resta acrescentar que o model off duty é o visual perfeito para criar toilettes com aqueles milhentos casaquinhos, calcinhas e t-shirts clones uns dos outros que vai comprando "porque dão jeito" e que acabam no fundo do armário (quem nunca pecou, que atire a primeira pedra). 

Quando estiver sem nada para fazer, pode aproveitar para construir uma série de conjuntos deste género e pendurá-los prontinhos a usar em cabides, para as vezes que tiver de sair de casa à velocidade da luz. É preciso bem trabalhar para bem preguiçar mais tarde.





Bruce Lee dixit... fala para a mão.


Houve uma altura da minha vida em que tinha uma paixão enorme por artes marciais. Hoje continuo a achar que -  tal como o ballet, a estratégia e tudo o que implique disciplina física e mental - são uma grande escola para a vida.

 A guerra não se trava só no campo de batalha, acontece um bocadinho todos os dias por mais em paz que se esteja com o mundo. Há sempre uma escaramuça privada a acontecer e temos de saber escolher aquelas que valem o nosso envolvimento. Daí Sun Tzu ser considerado um livro de cabeceira por muitos homens de negócios: as relações sociais, amorosas, profissionais, todas implicam saber pensar, saber falar ou calar-se, 
como mover-se ou  estar quieto. O jogo de xadrez é permanente e só quem opta por
 retirar-se do convívio humano ou pela aurea mediocritas está livre disso. Arrisco mesmo dizer que se pode até experimentar a aura mediocritas, ficar quietinho, discreto e insignificante sem despertar a cobiça de ninguém,  mas se quem a tenta tiver algum brilho pessoal...nem assim será deixado em paz. 

O poder (ou o sucesso)  qualquer que ele seja, é a receita mais rápida para se andar sempre a olhar por cima do ombro, por isso não é para cobardes; mas por vezes, a própria paz, por mais humilde que seja, precisa de ser conservada à custa de fortalezas (bem guardadas por muita pólvora).

 Nesses inevitáveis confrontos, aplica-se a máxima de Bruce Lee, ou a velha ideia oriental: nenhum homem está derrotado até que se derrube a sua confiança. Por muito feias que as coisas pareçam, até ao lavar dos cestos ainda é vindima ou seja,  o resultado final pode mudar. Só quando se aceita a derrota - ou a possibilidade da derrota-ela se manifesta efectivamente. Está tudo na cabeça.

 Por isso, o melhor é fazer orelhas moucas a ameaças, bravatas, provocações. Quem o faz é mesmo por desespero, para causar instabilidade ao adversário- o truque mais óbvio e mais velho do mundo, precisamente para derrotar a confiança do outro.

Os obstáculos naturais e o bluff alheio não são coisa que deva meter medo a alguém ou que mereçam ganhar poder - afinal, lá porque alguém fala e debita uma data de disparates isso não o torna verdade, capice?

Tuesday, September 2, 2014

Aqui há duendes.



Que é única explicação possível para o desaparecimento misterioso e constante de pequenos objectos que depois vêm a dar um ar da sua graça nos sítios mais parvos.
 Desconfio que vou ter de fazer como os meus avoengos celtas e pôr um prato de leite na rua, a ver se se acalmam. Quando a lógica falha, há que tentar a superstição.
 Se já agora leite e bolachas fizerem com que outras coisas aborrecidas e sem lógica parem de suceder, sou capaz de desperdiçar um pacote de Oreos inteirinho. Ou como diriam em Trás -os- Montes, r´ais parta os trasgos. Que é outra palavra para duende ou coisa que o valha.

Evitem como a peste: a horrível cava americana.


Um dia ainda descubro porque é que as modas mais difíceis de usar (usar bem, pelo menos) e as menos favorecedoras, são as que conquistam mais adeptas. Era caso para um estudo, se alguma vez surgir um antropólogo fashionista com algum tempo em mãos.

  Basta ver a quantidade de mulheres demasiado roliças que usam leggings, calções, alcinhas, mini saias, tecidos colados ao corpo,  brilhinhos, cai cais (que além de pouco práticos e reservados a certas circunstâncias, precisam de muita cautela na escolha) tachas e aplicações: é um mistério, mas factos são factos.

  Pois um vício de estilo medonho que vejo muito nas nossas ruas é a cava americana. Sabem, aquele decote nas costas inspirado nos tops masculinos de desporto e em alguma roupa interior militar, que é mais estreito no trapézio.

 E geralmente quem o usa é precisamente quem devia fugir disso como o diabo da Cruz (ou seja, meninas de costas e braços gorduchos) mas em boa verdade, são poucas as pessoas que têm algo a ganhar em vestir tal coisa.
   
 1º - Falando em termos de proporções este é um decote muito pouco democrático, que não favorece quase nenhuma silhueta. Geralmente mostra as partes mais feias e esconde as mais bonitas - a linha dos ombros, o pescoço e o colo. Ou seja, não foi uma peça criada a pensar no corpo feminino, logo nunca deve ser a primeira opção e muito menos uma opção para todos os dias.

Nas figuras de ampulheta, dá a ilusão de que as ancas são muito maiores do que os ombros, além de não ajudar quem tem peito; no corpo tipo pêra, pior ainda; eventualmente, uma figura de triângulo invertido pode beneficiar disso porque diminui os ombros e os torna mais próximos da medida das ancas, mas é preciso que se seja extremamente magra e que os ombros não sejam tão largos que dêem nas vistas, ou é pior a emenda que o soneto; e por fim, uma figura rectângulo, esguia e de ancas estreitas (como a da imagem) poderá sobreviver ao seu uso, sem no entanto acrescentar pontos.

2º - É um decote que exige roupa interior própria para esse formato,roupa interior essa que nem sempre está disponível em todas as lojas e quando está, não é a mais confortável (o que em mulheres mais fortes ou com mais busto, tem um resultado terrível). Pior ainda, a maioria marimba-se para esse detalhe e vai de usar a bela cava americana com um soutien normalíssimo, a mostrar as alças. Feio, feio, feio.

3º - É o decote mais comum em roupa com ar baratucho, vá-se lá saber porquê, o que junta a tragédia à desgraça. 

4º- Alguns, além de serem feios, ainda têm o efeito de "apertar o gasganete" por serem demasiado subidos no pescoço. Quem quer andar por aí mal jeitosa e estrangulada, pergunto eu? Muita gente.

 Então, porquê esta preferência? Talvez porque, por motivos insondáveis e objectivos que me escapam, há sempre uma abundância enorme destes tops nas principais cadeias de fast fashion... e certas pessoas compram a primeira coisa em que se conseguem enfiar, por falta de atenção e aconselhamento adequado. 

 Recordo que há uns anos, quando começaram a banalizar-se, de repente não se encontravam tops normais em lado nenhum. Percebi rapidamente que aquilo não convinha, não era prático, não fazia nada por 90% das mulheres e desisti, mas precisei de pesquisar bastante para encontrar tops sem a detestável abertura nas costas.

 Ou talvez se vejam tanto  porque algumas pessoas - de novo, vá-se lá entender porquê - os acham confortáveis. Em todo o caso, uma mulher de gosto deve evitar comprar uma coisa tão pouco atraente - ou reservá-los para o ginásio, se encontrar um soutien desportivo que pareça invisível.

Ovídio, S. Paulo, Camões e Catullus dixit: with or without you.



Sic ego nec sine te nec tecum vivere possum/Et videor voti nescius esse mei.
Perdoem o meu fraco latim (no liceu percebi que essa é uma língua a estudar por carolice, não por obrigação..) mas a tradução é alguma coisa do género, salvo melhor opinião "não consigo viver contigo nem sem ti, e parece que não entendo os meus próprios desejos". 

  Já aqui tinha referido, a propósito do mesmo autor, que o amor é uma coisa cheia de medos ansiosos. E que Ovídio também disse "o apaixonado acredita naquilo que mais teme". 

Ora, outro poeta romano, Catullus, descreve também o mesmo tormento: Odi et amo. quare id faciam, fortasse requiris? nescio, sed fieri sentio et excrucior. Odeio e amo: porquê, perguntarás? Não sei, mas acontece e estou em agonia.

  Paulo de Tarso, porém, afirma que o amor não é ciumento, tudo sofre, tudo crê, tudo suporta. Assim sendo, pode supor-se que os poetas romanos caracterizaram o amor (ou a paixão, que é o mais provável) como ele é, e o Apóstolo dos Gentios descreveu o que o amor deveria ser. Deu-nos uma versão idealizada ou antes, prescreveu o remédio contra as ruins paixões que estragam tudo. Afinal, na Catequese ensinam " contra a ira- paciência".

 Ou é isto ou nada faz sentido e quem tem razão é Camões quando diz que o amor é muito contrário a si mesmo; que nunca está saciado e que consiste na bela coisa de ter com quem nos mata, lealdade.


Monday, September 1, 2014

Um leitor atento dixit: marcha do orgulho conservador.




E dixit muito amavelmente (só tenho de dar graças por ter amigos e seguidores assim neste modesto salãozinho) que gosta do IS porque aqui se diz "o que as outras pessoas também pensam mas não se atrevem a falar com medo que lhes chamem conservadoras". E acrescentou "isso deve dar-te alguns dissabores na tua vida privada!".

Fiquei cá a pensar nisso, e a conclusão foi mais ou menos o que já se escreveu aqui.


Hoje em dia tem-se mais medo de parecer conservador do que de parecer indecente. É preferível, aos olhos do mundo, desculpar brejeirices a ser chamado bota de elástico.

  Cai pior reparar "aquela rapariga vai quase sem roupa pela rua fora" do que ser essa rapariga. Gosta-se pouco de regras, é um facto. E há sempre de quem não goste de ser posto no lugar, de que lhe exijam respeito - porque tão pouca gente se dá ao respeito que isso parece uma exigência muito estranha!

O status quo é ser modernaço, tolerante, fofinho, revolucionário, muito à frente, indulgente, não julgar, não condenar, não abrir piu, aprovar os piores descalabros, experimentar tudo porque não se pode falar do que não se conhece - o preconceito é crime de lesa majestade, atenção - ou como disse há temposActualmente ser open minded, cidadão do mundo, muito tolerante a todas as extravagâncias é quase de rigueur. Cai mal admitir que se é tradicional, que se tem critérios, que se é, enfim, um careta.

Agora, se isso traz dissabores a nível pessoal? Nem por isso. Obviamente será preciso desistir de algumas pessoas que se vem a descobrir, aplaudem o que nos é intolerável. Mas essas não fazem grande falta, é tratá-las de longe com o respeito que se deve a qualquer ser humano e pronto. As pessoas que realmente importam têm valores semelhantes... logo, tudo em paz. 

 Mas às tantas caía bem arranjar-se aí uma marcha (já que agora há marchas para tudo) do orgulho careta, pelo direito de ser conservador à vontade. Tudo com gente gira e composta a reclamar "quero ser tradicional sem sofrer o preconceito alheio". 
  
A questão é que há melhores coisas para fazer...e ninguém disse que ser o Sal da Terra era pêra doce.

Lorde e Taylor Swift: duas ajuizadas num mar de malucas?


Quem tem filhas, sobrinhas ou irmãs mais novas e se preocupa com a educação delas deve estar a passar por um mau bocado neste momento. 

Por muito bons hábitos que se tenham criado - e as crianças aprendem a ter gosto em casa, óbvio - não só há a pressão de colegas e amigos a levar em conta como pode ser estranho, a certa altura, explicar-lhes que modas destas não deviam ser aceitáveis (quanto mais copiadas) que não é suposto uma rapariga de juízo achar o que a Nicki Minaj ou a Miley Cyrus fazem normal, que não está bem vestir como a Jessie J ou a Rihanna ou até que a Beyoncé é linda e tem talento, certo, mas que o que ela faz no palco fica no palco, não é para fazer em casa nem na rua.

 O escabroso tornou-se de tal maneira comum que é preciso estar mesmo atento e saber explicar os contextos: certos tipos de música ou programas de televisão reflectem subculturas que não interessa imitar, por muita piada que possam ter na MTV.
No meio deste panorama deprimente, porém, há jovens starlets que dão excelentes exemplos de saber estar e vestir. Podia citar várias, mas assim de repente ocorrem-me Lorde e Taylor Swift.






Goste-se ou não do estilo de Lorde (eu tenho um fraquinho por elementos góticos, mas não suporto a maioria dos sapatos que ela usa) a verdade é que a cantora é discreta e aparece constantemente ataviada pelas melhores griffes - caso deste macacão Chanel que até se recusou a desfilar pela passadeira encarnada dos VMAs, indo sentar-se directamente sem circos (pudera!).


 Podemos dizer que alguns acessórios que escolhe (gargantilhas de elástico dos anos 90?) ou stylings que faz não são perfeitos, podemos apontar que tem má postura (é preciso fazer reparar as pequenas que Lorde parece que não tem pescoço, e dizer-lhes que se pode ser gótica e não encolher o pescoço!) mas enfim, se uma adolescente se vestir como ela com os devidos ajustes não vem perigo ao mundo.

Já Taylor Swift mostra bem que veio de uma família culta e elegante e faz justiça à educação que recebeu. Impressiona-me porque não só está sempre impecável e linda como, mais importante do que isso, aparece inevitavelmente ADEQUADA à ocasião, mesmo em circunstâncias exigentes!


 É uma das que podem e sabem usar uma mini saia, mas tem noção de quando a deixar em casa.
 Dos videoclips ao palco, passando pelo dia a dia e por diferentes eventos com vários graus de formalidade, nunca a vi desarranjada nem a cometer um faux pas. Sabe parecer jovem, sexy e bonita sem roçar a vulgaridade. 
 Educar para o gosto é educar bem - ensinem-se as mais novas a aspirar a ter classe, mais do que outra coisa, e evitam-se muitos problemas escusados...

Sunday, August 31, 2014

Laclos dixit: um forte ainda era pouco.


Choderlos De Laclos escreveu um dos meus romances preferidos e um dos que melhor retratam a sordidez humana (ou até que ponto as cruéis paixões podem chegar em mãos de pessoas desocupadas), As Ligações Perigosas.

 Felizmente para o olhar de um esteta, o livro é glamouroso porque se concentra em personagens sofisticadas: com excepção dos lacaios dos protagonistas e de uma cortesã que pouco adianta para a história, todos pouco tidos e achados no enredo (meros peões da maldade de um homem e de uma mulher que tinham tudo para ser felizes mas preferem torrar o tempo em conspirações que só servem para perder toda a gente) o olhar, as conversas, são dos movers and shakers, dos que estão próximos do poder e do privilégio. Fúteis e cruéis, certo, mas sempre com uma certa classe.

 Tivesse o autor ido mais longe, analisado mais abaixo na cadeia alimentar, perdido um bocadinho a dissecar os que queriam estar perto de Valmont, as camponesas que disputavam a sua atenção, as costureiras que invejavam entre si a honra de trabalhar para a Merteuil, os rumores sussurrados pelo seu cabeleireiro e assim por diante, aí sim veríamos o feio teatro da baixeza humana em todo o seu esplendor -  quanto maior o desespero, quanto maior a distância, mais mesquinhos os actos, mais sujas as palavras, mais reles os argumentos e mais chinfrins os métodos.



 Mas uma coisa o autor sabia: a maioria das pessoas não pode ver uma camisa lavada a um pobre, quanto mais uma camisa nova
 Quem tem algo de bom - protagonismo, amor, poder, riqueza, beleza, sucesso, o que seja- nunca pode estar muito descansado. Há sempre quem murmure, cobice, inveje, critique, conspire, ache que aquilo é injusto e que a sua pessoa (ou alguém que lhe convenha) estava bem melhor naquele lugar, por mais falso que isso seja. 

Os invejosos raramente têm espelhos em casa, língua discreta e uma vida muito ocupada.

  Por isso, o remédio é resguardar e restringir. Construir um forte à volta, um mundinho privado onde só entrem os que contam alguma coisa. Não vale a pena conhecer muita gente, se metade só serve para confundir. Fechar os ouvidos, abrir bem os olhos e manter as muralhas bem altas é um preço aborrecido a pagar por qualquer privilégio, é um bocadinho triste, mas...dura lex, sed lex. Ou better safe than sorry.





Os males do orgulho, segundo Oscar Wilde.


Um homem muito sábio disse que o orgulho pode ser legítimo, mas que não devemos ufanar-nos das coisas que só ao acaso se devem. 
 Os acidentes felizes de nascimento - ou seja, a beleza, os dons naturais, uma condição privilegiada, o talento e a inteligência...são motivos para levantar as mãos para o céu mas por isso mesmo, para que não se desperdicem é preciso temperá-los com uma dose maior de modéstia e de auto exigência.

 Quanto mais dotado se é, mais rigoroso se deve ser com a sua pessoa e mais indulgente para com os outros. Depois, há outro aspecto da soberba que convém corrigir: ter-se em tão alta conta que se veja cada falha alheia como pecado mortal e imperdoável, como crime de lesa majestade.A altivez nativa que caracteriza uma pessoa bela e bem adornada das prendas de espírito ou das felicidades mundanas transforma-se em arrogância se for mal direccionada.

 Pior ainda, o orgulho exacerbado pode deitar a perder as melhores coisas da vida: quantos grandes feitos, quantos grandes amores não deixaram de acontecer porque alguém foi demasiado orgulhoso? Às vezes espera-se tanto que um dia é tarde demais.

 Oscar Wilde - outro homem sábio - no seu conto "The Star Child", ilustra bem como o orgulho pode chegar a tal ponto que nem o arrependimento ou a expiação são suficientes para reparar os danos.

 Resumidamente, uma criança lindíssima é encontrada por pobres lenhadores na floresta, envolta em ricos panos que denunciam a sua alta linhagem. Apesar das dificuldades que a família atravessa, o casal decide criar o bebé como se fosse seu.

 Em vez de se mostrar agradecido, o menino cresce mau como as cobras; só está bem a torturar pedintes e animais e a desencaminhar as outras crianças. A única coisa que o faz feliz é a sua grande beleza e sonhar acordado com a sua nobre origem. Quando a mãe verdadeira lhe aparece, vestida como uma pobre mendiga, ele rejeita-a cruelmente por lhe desfazer as ilusões. 

Então, como acontece quase sempre nestas histórias, é transformado num monstro horroroso para se penitenciar .

 Só então, depois de muitos sofrimentos e maus tratos, aprende a lição. Torna-se realmente bom e após terríveis peripécias, recupera a sua verdadeira forma. Nessa altura descobre que a mãe estava apenas disfarçada para o testar, que é na realidade uma Rainha, e que o leproso que ajudou em várias ocasiões é o Rei seu pai. É recebido com todas as honras, redime-se das suas maldades, mas...vive somente três anos para reinar porque as penas que sofreu durante o seu castigo lhe destruíram a saúde. Ainda por cima é sucedido por um Rei muito cruel, que faz sofrer grandemente o seu povo.

 Eis um final bem estranho para um conto de fadas, mas que dá que pensar. Nem sempre o arrependimento, a compensação e a bondade são suficientes ou chegam a horas. Por vezes o destino atravessa-se no caminho das melhores intenções, logo não convém haver atrasos de vida que se podem evitar.

 E o orgulho excessivo é isso mesmo: um grande atraso de vida, um desmancha prazeres e um empecilho à felicidade...


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