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Saturday, September 13, 2014

A mulher que fez a minha recruta.



Esta semana tive notícias de uma das mulheres que mais me influenciaram, apesar de ter passado menos tempo com ela do que gostaria: a minha professora de ballet. 

Soube que hoje, com os seus oitentas, continua a ensinar, continua implacável, tradicional e com um gosto irrepreensível, capaz de polir os diamantes mais brutos e de puxar o lustro às que levavam de casa uma boa escola de "costas direitas e barriga p´ra dentro!". 

 Ela intimidava não só com as palavras cortantes que dirigia às discípulas sem hesitar (não havia cá considerações para com a frágil auto estima das crianças) mas com a aura de perfeição que irradiava. 

"Encolha a barriga, menina!"

"Não consigo respirar" 

"Uma senhora não precisa de respirar!"

Ditos deste tipo eram constantes a todas as colegas. Rapidamente se percebia que se pode estar descontraída sem descontrair como não se deve, algo que é bom lembrar todos os dias. Não porque sejam coisas que se esqueçam, mas porque exigem esforço, nem que seja no fundinho da nossa cabeça.

A professora era uma verdadeira bailarina da velha guarda-  muito pouco a ver com algumas jovens professoras de agora, graciosas é certo, mas com vícios e tolerâncias de outras formas de dança que tendo o seu mérito, não possuem o rigor da dança clássica, do ballet "puro". Era uma mulher pequenina, mas parecia alta dada a perfeição da sua postura. Estava longe de ser nova, mas as bailarinas só envelhecem até certo ponto. Mais do que bela no sentido plástico, era elegante, das mulheres mais elegantes que já conheci, daquelas que fazem as outras sentirem-se corcovadas, ou rechonchudas, ou descompostas só de entrar na sala. Imaginem a Miranda de O Diabo Veste Prada, versão bailarina. Depois dela, duvido que as suas alunas tivessem um bocadinho de medo que fosse de um professor ou chefe - e aposto que se acontecesse, bastaria recordar aquela barra para perder os tremeliques.

Rapidamente se passava respeitá-la, porém...e a ter por ela uma verdadeira adoração. Mais do que isso, reparavam-se em coisas que antes passavam despercebidas. A rigidez do chignon (um sarilho para os cabelos rebeldes), o pescoço de cisne, os ombros sempre no lugar, a reconfortante estabilidade das roupas sempre iguais, mas imaculadas. Impossível não ganhar alguma aversão a grandes fantasias no vestuário e uma certa preferência pela beleza da forma e a qualidade do material em detrimento das novidades.

Ainda hoje, nestes tempos tão descontraídos, tão liberais, ela não permite tatuagens nem piercings na sua aula. Não sei como se arranjam - presumo que ela continue a formar raparigas que sabem ouvir, aprender e obedecer. Coisa rara.

A dança clássica não só esculpe o corpo com as formas ideais, como ensina tudo o que uma mulher precisa de saber mas esquece muitas vezes - a graciosidade, o porte, a simplicidade, o bom gosto, o asseio, a elegância, o esforço - e sobretudo, a saber sofrer. 

Actualmente, no tempo dos "direitos" e poucos "deveres", na época das mulheres "ferozes" e "poderosas", do costume de cultivar grandes glúteos em vez de trabalhar para os manter no devido sítio, sofrimento, dedicação, disciplina e sacrifício são palavras non gratas. O ballet será dos últimos redutos que incentivam, sem adoçar, tais valores junto das raparigas. Acham-se ferozes e poderosas? Tentem equilibrar-se em pontas.

 Quanto mais não seja, num cenário ideal, a Moda, o que vestimos,  deveria basear-se sobretudo em "escolas" de elegância: o ballet, a equitação, o Exército, os grandes salões. Foi assim durante muito tempo, hoje já não, mas há uma certa tradição que nunca desaparece por completo.

Muitas mulheres realmente belas - e realmente poderosas - foram bailarinas ou passaram pelo ballet: Brigitte Bardot (que popularizou algumas peças usadas nas aulas de dança, como as fitas e as blusas pretas de decote amplo) Audrey Hepburn (depois dela as "bailarinas" passaram a chamar-se "sabrinas"...mas de onde terá ela tirado a ideia? E os simples conjuntos pretos que inevitavelmente associamos a ela?) Naomi Campbell, Madonna (que degenerou um pouco, mas de onde acham que tirou tanta concentração e disciplina férrea para chegar onde chegou?) e muitas, muitas outras.

 Em boa verdade, se é recomendável a todas as meninas passarem pelo ballet, fazer disso carreira convém a muito poucas mortais...porque se sofre muitíssimo.  Sei que a professora tinha tido bastantes desgostos, daí a sua pouca tolerância a pieguices. Não é necessário ir a tais extremos a não ser em casos de vocação...mas um bocadinho faz muita falta para a vida. No pain, no gain. 

 Quanto mais não seja para chegar a uma certa idade linda, impecável e fabulosa como a Senhora Professora. Respeito - muito, muitíssimo, todo.




Friday, September 12, 2014

Amor é...ter paciência de Job.




O amor tudo suporta - embora eu tenha para mim que os ataques à dignidade e a falta de respeito são a única coisa que não se pode sofrer com exagerada passividade (ou com ausência de firmeza) sob pena de pôr em causa o mesmo amor.

 De qualquer forma quem ama tem paciência, ou não pode dizer que ama; é o velho caso quem não aguenta o calor, sai da cozinha, porque os testes são diários...e às vezes as coisas pequeninas, repetidas, insistentes, os minúsculos hábitos, os pequenos nadas que se vão avolumando, são as provas mais difíceis. 

Numa relação, ou em família, nada se faz sem muito laissez faire laissez passer, sem doses maciças de "tenho tolerância porque também gosto que sejam pacientes com os meus defeitos" sem alguma fé na possibilidade de as coisas irem ao sítio por si mesmas com carinho, exemplo, método e tentativa e erro.

  Por vezes, conhecer aqueles que nos são mais próximos não é um dado adquirido. Há subtilezas que só se compreendem com anos de convivência, de crises, de desgostos, de reconciliações, de alegrias partilhadas que nos ensinam a relativizar. Sem persistência, não se alcança esse conhecimento do outro; sem esse conhecimento, as coisas mais triviais parecem graves, e é aí que as rupturas irremediáveis podem acontecer.

O amor não é como uma compra por impulso; é um investimento a longo prazo. Se houver danos, temos de estar preparados para arranjar, consertar, preservar, não para substituir e passar adiante.

  Havia uma mulher na Argélia que era profundamente infeliz, embora tivesse aparentemente as condições ideais para levar uma vida tranquila: bem casada (aos olhos do mundo) sem falta de bens materiais e com algum prestígio na comunidade, faltava-lhe porém o essencial: um marido decente. O esposo, que se chamava Patrício, era mau e mulherengo. A pobre coitada chorava e rezava, rezava e chorava, e distraia-se confortando os mais necessitados.
 Como se não bastasse, a paciente senhora, que todos elogiavam como um modelo de virtudes mal empregado num marido tão ingrato, tinha um filho igualzinho ao pai - estroina, desobediente e valdevinos, ninguém fazia nada dele. 

 Dava tantas inquietações em casa que a mãe, que era muito piedosa, receava mandá-lo baptizar com medo que ele profanasse o sacramento. Mesmo quando decidiu fazer alguma coisa da vida e estudar, aos dezasseis anos, o filho desnaturado tentou tudo para escapar à vigilância da mãe, viajando para fora. E a pobrezinha lá continuava o combate à distância - sem telemóveis, nem Skype, nem nenhuma destas maravilhas dos nossos dias que permitem acalmar as ânsias de quem está longe - com as armas que tinha à mão: bons exemplos, conselhos e muita, muita reza...

  Tanto rezou que conseguiu converter o marido. Mais tarde, teria a mesma alegria ao realizar o desejo de ver o filho baptizado e desempenhando um importante cargo de professor. A mãe, como já terão adivinhado, era Santa Mónica; e o filho era Santo Agostinho, grande Doutor da Igreja.

 Não deixa de ser estranho que actualmente com tanta ciência, tanta tecnologia, tantos recursos à disposição, haja uma tendência para se ser muito mais impaciente, muito mais intolerante e facilitista, quando as relações e as famílias continuam a ser tão importantes para todos como eram no século IV...



Thursday, September 11, 2014

9 pequenas coisas que arruinam um visual



 Mais vale ter (ou aparentar o mais possível) bom ar do que ser convencionalmente bonitinha mas vulgar e/ou ter recursos ilimitados, mas mal empregados. A elegância polida e correcta é algo que supera os anos e que nunca se perde, mesmo com poucos meios ou muita pressa. Numa semana em que se fala muito de fashion weeks e eventos de moda, é sempre bom lembrar que ao criar um look - qualquer que seja o estilo -  o aspecto clean e bem acabado deve ser sempre tido em mente.

  Antes simples e distinto do que imperfeito ou grosseiro. E a diferença entre um e outro está muitas vezes nos pequenos nadas:

1 - Bainhas por fazer - as lojas já não são o que eram; hoje há poucas que, como antigamente, impeçam o cliente de sair sem ter a roupa ajustada à medida (bons tempos!). 

Depois há a tentação de levar logo para casa e entrar em modo  isto dá-se uma dobra e pronto. O que acontece é que a) a roupa fica para ali a ganhar pó ou b) vai-se para a rua com um aspecto mal enjorcado. Isto é particularmente grave quando se trata das bainhas das calças, porque ou fazem volume nos tornozelos (se forem justas) ou  arrastam pelo chão (no caso de calças a direito, flare ou boca de sino).  Não só é feio, como limita muito a escolha do calçado - para que servem umas skinny se estão dobradas e é 
impossível enfiá-las dentro das botas? E isto no melhor dos cenários, porque se ao usar dobras ou virolas não enfiar o salto do sapato numa delas e não se der uma queda daquelas meio dia a cair gente, é uma sorte.

2 - Pele a brilhar...ou a berrar por socorro: aqui disse que poucas coisas são mais inestéticas, além de a oleosidade acumulada entupir os poros. De um brilhozinho ocasional ninguém está livre (é do calor, é da maquilhagem, etc)..mas não matar o dito quando ele aparece com um lencinho e pó compacto, isso é desleixo.
 Pele seca, manchada ou pouco uniforme também é uma desmancha prazeres: um rosto luminoso é a base para qualquer visual.

3 - Lycra e derivados: Esse é assunto velhinho neste espaço, por isso nem vale a pena repetir o rosário: sempre que possível, reservem-se esses tecidos para bikinis e certas roupas de desporto. Uma camisolinha de lycra arruina uma boa toilette, porque grita "barato" a quilómetros e dá um ar mole, sujo e  transpirado a quem a usa.

4 - Roupa interior errada: alças de silicone com cai cais (estes destinam-se exclusivamente a tops com várias alças fininhas, para tudo o resto usa-se lingerie sem alças) soutien normal com cava americana ou vestidos abertos nas costas, soutien de rendinhas sob t-shirts ou simplesmente, alças torcidas ou descaídas; lingerie branca ou preta visível debaixo da roupa, calcinhas que apertam a pele fazendo saltar gordurinhas reais ou imaginárias, etc, etc...a lista é grande. 
A solução é apostar num enxoval de roupa interior simples e invisível, adequada ao tipo de corpo, que inclua alguns soutiens sem alças e/ou com alças adaptáveis a diferentes decotes (para vestidos sem costas ou com aberturas, etc) em preto e cor da pele. Não é que o branco não tenha o seu lugar, mas como o tecido da lingerie é mais espesso que o da roupa, acaba quase sempre por se notar. A lingerie de fantasia é reservada para usar com tecidos firmes (alguns vestidos de noite, por exemplo) ou camisas soltas.

5 - Eyeliner esborratado: Tal como o brilho na cara, acontece às melhores, mas poucas coisas dão um ar tão descuidado e cansado. Delinear com sombra em pó ou eyeliner gel em vez de lápis ajuda a prevenir essas gaffes, mas nada é garantido. O remédio é estar atenta, trazer um espelhinho e umas toalhitas e ir retocando. 

6 - Cabelo sujito...ou estilo espanador: Muitas mulheres não passam sem o brushing profissional, mas detestam fazer a manutenção em casa. O resultado é que entre visitas ao salão andam com o cabelo menos limpo (julgando que lá por estar alisado, não se nota) ou lavam e secam ao natural quando o seu tipo de cabelo não o permite, resultando numa juba tipo escova de arame, com textura de palha de aço. Das duas uma: ou bem que se tem meios para lavar as vezes necessárias no cabeleireiro, ou bem que se aprende a dar o jeito em casa, que actualmente, com tantos produtos e modeladores fáceis de usar não custa nada. Pode não ficar perfeito, mas fica apresentável. Escusado será dizer que quanto mais descomplicado o corte e a cor, mais fácil é de manter no dia a dia.

7- Cara lavada...ou grafittada: Nada contra o look natural, mas poucas mulheres o suportam a 100%. Nem todas têm o porte de uma Inès de La Fressange para escapar com isso, logo... um BB Cream, um jeito às sobrancelhas e uma corzinha nos lábios recomendam-se. Depois há o extremo oposto: muita base (e da cor errada) sombra azul sem máscara, nem eyeliner, nem nada, makes demasiado dramáticos em plena luz do dia, e por aí fora.

8 - Sapatito duvidoso: repete-se a regra áurea..um vestido modesto passa, sapatos de má qualidade não. O mesmo vale para a carteira.

9 -Muita tralha: Hoje vi uma senhora que iria bem apresentada não fosse ter misturado preto,encarnado, colares, plataformas altíssimas, cinto de franjas e carteira a condizer na mesma toilette. Não há elegância que resista à poluição visual, além de o efeito de uns acessórios arruinar o dos outros. Mais do que dois elementos chamativos num coordenado é arriscar muito, três é overkill.

A nobre arte de "perdoai-os que eles não sabem o que fazem"



Quem anda neste mundo, a não ser que traga um saco pela cabeça, sujeita-se a encontrar gente má, invejosa e embirrenta. Se tiver sucesso ou for abençoado com algo de especial - talento, beleza, meios -pior um pouco. Ou seja, por muito boa pessoa que se seja, dada à paz, metida na sua vidinha, sem fazer mal a uma mosca, ficando longe de intrigas...basta existir ou estar para incomodar alguém, no melhor espírito o velho, o rapaz e o burro. E por vezes nem a diplomacia resolve, nem se pode aplicar o santo remédio de não conviver com tais pessoas - porque há obrigações sociais ou profissionais que não o permitem.

 Não há nada mais desagradável do que saber que se é observado, medido e criticado com as piores intenções, e o mais mau- por almas que não merecem crédito e não descansam de maneira nenhuma. 

Primeiro, é preciso estar consciente de que não vale a pena ser mais simpático do que a boa educação exige: pessoas assim querem ver o seu alvo fora de cena e ponto final; inventam todas as provocações no sentido de desorientar o adversário e fazê-lo cometer um erro que leve a isso. A atitude destes entes lembra aquela anedota protestante que já contei: a mulher do Pastor, faça o que fizer tem sempre defeito perante a congregação. Se veste bem, é vaidosa; se se arranja modestamente, é desleixada; se sorri muito, é cheia de si; se é reservada, acha-se muito importante; se trabalha para a igreja, é porque se imiscui, mas se não se envolve, é preguiçosa; se contraria o marido, é atrevida; se não influencia as decisões dele, é uma mosca morta...

Ou seja, quem tem protagonismo nunca está sossegado.

Quando tal sucede, pode haver a péssima tentação de fazer tudo para não lhes dar razão, alterando a forma de estar; mas isso é um erro terrível e a melhor forma de dar poder, ainda que cá por dentro, aos detractores. É abrir portas à insegurança que eles tanto se matam e esfolam para causar.

Quem procede correctamente, sem nada que os superiores lhe apontem, não precisa de mudar uma vírgula  para agradar a quem procura defeitos de propósito. Aliás, é preciso bloquear mentalmente tal ideia e não permitir sequer que o que se rosna cause a mais leve perturbação; o Imperador Marco Aurélio, useiro e vezeiro nestas andanças, dizia que para se defender de tais indivíduos, é só não se tornar como eles:

"Cá por mim cumpro o meu dever. O resto não me amofina, que (...) são (...) seres privados de razão ou transviados que não sabem ver o caminho".

 Depois, dentro do possível, é aplicar a máxima Bíblica de dar a outra face. Sempre acreditei que dar a outra face pode não ser um acto de mansidão, mas de desprezo nítido. Certo é que o Bom Livro manda dar uma face (não as duas, nem diz quantas vezes) mas em muitas ocasiões mais vale que os actos (e a figuras tristes, as grosserias, as peixeiradas) fiquem com quem os praticou, pois tais papelões falam por si.

 Quem é mau e ressabiado, arranja sempre forma de enlaçar o próprio pé, de cavar a própria cova e assim por diante. Não nos cansemos a ajudá-los, que não é preciso.

 Por fim, a bem da paz de espírito, um belo "perdoai-os que eles não sabem o que fazem" pode ser o melhor remédio. Uma pessoa há-de amofinar-se por causa de uma criatura feia que não suporta a beleza alheia, ou uma pessoa mal amada que não aguenta ver a felicidade dos outros, ou uma alma frustrada e cheia de problemas que rebenta de ciúmes à mínima coisa, de tão mal que anda? Já bem basta a esses infelizes verem-se ao espelho todas as manhãs, acordarem sozinhos e lidarem com as desditas da sua vida. São dignos de pena, já que tentar ajudar seria inútil na maior parte dos casos: só os ia fazer sentir ainda mais furiosos.

 O essencial é não se perturbar, ainda que de leve, com tais ataques...e viver bem. Atrás desses, virão mais: é inevitável. Se Cristo não agradou a todos, como hão-de os simples mortais conseguir um milagre desses?

 Fica o consolo de que pessoas desse género nunca embirram com quem é muito desgraçado, muito desfavorecido e não tem nada que se lhe inveje. Por isso, considere-se a embirração uma forma de elogio, e adiante.





Wednesday, September 10, 2014

A Princesa perfeita que a Tsarina não quis ouvir.


A princesa Zinaida Yusupova (1861-1939) era uma daquelas mortais verdadeiramente abençoadas  e que rendia as devidas graças à Fortuna sendo um modelo de todas as virtudes.
 Bem se diz "a quem muito for dado, muito será exigido"...e a Princesa estava consciente disso. 

Não só era bem nascida, fabulosamente rica e linda - elegante, de brilhantes cabelos negros, um rosto precioso e faiscantes olhos azuis - como primava por uma simplicidade, cultura, bondade, gentileza e espírito que encantavam quem a conhecia. 

  Última representante de uma das mais poderosas famílias do Império Russo, de fortuna muito superior à dos Romanov (e portanto herdeira de um património incalculável, que a tornou numa das mulheres mais ricas do mundo) o seu pai, o Príncipe Nikolai, sonhava - com justiça, assinale-se -  ver a única filha sentada num trono. De toda a Europa choveram pedidos à sua mão, de pretendentes tão elegíveis como o Príncipe herdeiro da Bulgária....mas Zinaida escolheu casar por amor.


O seu coração voltou-se para o Conde Felix Sumarokov-Eston, simples oficial da Guarda Imperial Russa. 

O pai terá lamentado "esta minha filha não tem ambição alguma!" mas também nisso a Princesa teve sorte: vinha de uma família amorosa e boa, que pôs a cumplicidade paternal à frente das vaidades mundanas.

Residência da Princesa em S. Petersburgo

 A educação de Zinaida fora, aliás, cheia de carinho: desde muito nova, a mãe, que se esmerara em incutir-lhe a melhor instrução e modos, confiada no seu saber estar, delegava nela algumas tarefas de responsabilidade. Certa vez, precisando de receber um embaixador num dos seus palácios, pediu à pequena Zinaida que entretivesse o convidado até que ela estivesse pronta para descer à sala.

 A princesinha assim fez: ofereceu-lhe comida, bebida, cigarros...debalde. O velho diplomata, muito cioso da sua posição e crente na boa e velha ideia "uma criança só deve falar se se dirigirem a ela" não se dignou a responder-lhe. Vendo-se sem recursos, Zinaida perguntou então "talvez precise de ir à casa de banho?".


 Já casada e muito feliz, a Princesa tornou-se famosa pela arte de bem receber: dava recepções memoráveis, em que ela própria cantava e dançava tão bem que os grandes mestres russos diziam que o seu lugar era no palco. Mas apesar de todo o esplendor que a rodeava, Zinaida era de uma elegância despretensiosa e mostrava o maior desdém pela ostentação. Era senhora das mais fabulosas jóias, mas só as usava em ocasiões especiais.

 Naturalmente, todos a adoravam - mesmo o Tsar, de quem era muito amiga. Tão amiga, de facto, que a sua natureza sincera e desinteressada acabou por se virar contra ela.

 A Tsarina, frágil e influenciável, sensível à bajulação, não gostou dos avisos da Princesa Zinaida. Ela bem via os desgovernos que se passavam na corte, e que só podiam ter mau fim; a influência nefasta do místico Rasputine não lhe parecia bem, e afirmou-o abertamente.

Como todas as pessoas ingénuas que só permitem que lhes digam o que é agradável ouvir, mesmo que seja um grande disparate, a Tsarina - acicatada por más línguas invejosas - cortou relações com Zinaida.

Não se sabe como a boa Princesa reagiu à desfeita, mas a verdade é que o seu filho mais novo, o Príncipe Felix, participou no assassinato de Rasputine.

A Princesa com o marido e os filhos.

Tarde demais, porém. Quando o Tsar e a família já se encontravam em cativeiro, a princesa Zinaida recebeu dele a seguinte mensagem "quando virem a Princesa Yusopov, digam-lhe que agora eu vejo como ela estava certa; se lhe tivesse dado ouvidos, muitas desgraças teriam sido evitadas".

 Após a revolução a princesa rumaria a Roma e mais tarde a Paris, como tantos seus compatriotas, onde morreu com 78 anos de idade.


*Post inspirado num artigo deste blog muito recomendável. 

Tuesday, September 9, 2014

A comédia da semana (que levanta um mar de questões)

Uma amiga que está a desenvolver uma tese sobre questões femininas partilhou este vídeo nas redes sociais e eu, que parece que não ando neste mundo e sou sempre a última a saber das novidades, toca a abrir para perceber o que era aquilo.
 A início pensei que era uma brincadeira feita por uma amiga da minha amiga, depois lá entendi que não: tratava-se de um manifesto do feminismo pós-adolescente, daquele que nem chega a saber que é feminismo (um produto do meio, portanto) cheio de palavras de ordem vulgo é proibido proibir e a roupa não faz o carácter, parem lá de rotular/julgar as pessoas pelas aparências com muito palavrão pelo caminho. 


Só mais tarde é que entendi que a menina Tatiana não é do Norte, como julguei inicialmente, mas de Pombal (tanta gente que conheço para essas bandas e não me apercebi de nada) que o vídeo se tornou viral a pontos de já ter uma resposta (bem engraçada, por sinal, mas que lamentavelmente não consigo encontrar) do outro lado do Atlântico e que a Tati é assim uma  destas celebridades da internet que aparecem não se sabe bem como.
 Paladina (salvo seja!) da "cultura" de que falo muitas vezes (a kizombada, as não- roupas "artísticas", as poses estilo Correio da Manhã o vivá liberdade e muito pontapé na gramática),discípula das Mileys, Rihannas e Nickis deste mundo do Senhor,  a mocinha seria uma espécie de kryptonite de tudo o que aqui se defende, um verdadeiro ó valha-me Deus, que horror, esta juventude está perdida (e está, mas pronto) não fosse por duas coisas: a sua ingenuidade no meio de tanto disparate e uma certa piada que ou se tem ou não se tem e desculpa, ou aligeira, os descalabros.

 É que me fez genuinamente rir com as suas caretas enquanto explicava, muito compenetrada e com a maior das latas, que a sociedade vê  p*** ou fabricantes de panelas em, cito. "tudo o que mexe" e que - oh, a injustiça - ninguém é p*** ou fabricantes de panelas só porque veste assim e faz assado.

  Alguém podia explicar à Tatiana que a roupa não faz o carácter, que é o carácter que faz a roupa; que só as pessoas muito superficiais não julgam pelas aparências, que este tipo de atenção que tanto aprecia em modo bem ou mal falem de mim não dá felicidade e que daqui a uns anitos pode não lhe dar jeito andarem registos destes pela internet (que tem a mania parva de guardar tudo para sempre). Mas se não explicou, paciência...fica um momento "a penny for a smile" .




5 coisas indispensáveis a raparigas de qualquer idade.


Regra geral, todas conhecemos os básicos (do guarda roupa, da beleza e dos cuidados pessoais) que é suposto ter por perto; mas nem sempre se lhes dá a devida atenção e há alguns que é um pecado ignorar: são verdadeiros problem solvers (ou como dizem no país -irmão, "quebra galhos") e fazem mais pela auto estima e por uma rotina eficaz do que muita terapia. Vejamos cinco que me ocorrem assim de repente: 


1-  Bâton vibrante: todo o mundo sabe que qualquer mulher precisa de um bom bâton nude (e quem já procurou, também sabe que achá-lo pode ser tão complicado como descobrir o amor da sua vida). Mas um bâton de cor forte é igualmente importante...e difícil de escolher. 
 Não me refiro à "cor da estação" mas àquele tom de encarnado, laranja ou rosa que ilumina o rosto instantaneamente e que sozinho faz um visual. O bold lip é um look que voltou à ribalta de há uns anos a esta parte, e por boas razões. Em boa verdade, é aconselhável ter dois tons de bâton vivo: um para o dia (quando o nude é demasiado mortiço) outro para a noite. Basta aplicá-lo sobre uma pele uniforme e tratada e já está. Por isso, descubra o seu: vale a pena!



2- Carteira day-to-night: é útil a todas, mas calha especialmente bem a quem tem preguiça de mudar constantemente; uma carteira média com corrente a tiracolo é um básico imprescindível. 
          Mulberry

Nenhum outro modelo passa incólume tão facilmente, seja usado com jeans e uns pumps para um almoço ou de vestido para um cocktail inesperado. As melhores são as de design clássico, material de confiança e ligeiramente maleáveis - para um efeito elegante mas descontraído, estilo "cabe-me tudo nesta carteirinha".



3- A modalidade ideal: no pain, no gain. Sem exercício é difícil ter boa postura, músculos definidos e tudo no lugar. O desafio está em encontrar a modalidade que se adapta ao estilo de vida, metabolismo, silhueta e necessidades de cada uma; descobrir o tipo de exercício que oferece resultados visíveis (nada mais desanimador do que trabalhar meses a fio para ficar na mesma) que não é um sacrifício horrível fazer e em que se pode confiar, vulgo "depois das festas entro no ginásio e recupero a figura num ápice" ou "se preciso de me preparar para um dia especial já sei o que fazer".

 Uma vez descoberto, é um descanso e a preguiça - assim como muitas inseguranças -  desaparece. A umas caem melhor actividades mais divertidas como aeróbica e derivados, body pump ou zumba, porque se sentem motivadas em grupo; outras como eu perdiam a concentração com tanta barafunda, logo preferem exercícios de baixo impacto como yoga, pilates ou ballet; a sós ou acompanhada, no ginásio, em casa ou ao ar livre, o importante é identificar o que lhe faz bem e insiste, insiste!


4- Sapatos nude: uns pumps pretos levam-nos a qualquer lado, um sapato colorido pode animar um visual simples e seguro...mas poucas coisas fazem tanto como um par de pumps, stilettos ou peep toes da cor da pele.
Christian Louboutin
Investir num par - ou mais - de boa qualidade é das decisões mais inteligentes que pode tomar. Primeiro, porque sendo da cor da pele (e convém que o tom seja o mais próximo possível) não se sabe onde começa o sapato e termina o pé, logo alonga as pernas. Depois porque sendo neutro, praticamente invisível, acaba com o dilema "que sapato é que eu uso com este vestido encarnado/magenta/azul às pintinhas?". 
Ou seja, é um sapato discreto que não incomoda ninguém. É aconselhável ter vários modelos - abertos e fechados, casuais e de festa. 

Uma ressalva apenas: não invista demasiado dinheiro nas versões de verniz, porque mesmo as marcas mais exclusivas resistem mal à calçada portuguesa e poucos sapateiros são capazes de remediar saltos esfolados e arranhões num material tão sensível. Pele macia com acabamento ligeiramente brilhante é uma melhor opção.


5 - O soutien correcto...para as várias ocasiões (incluindo para a noite): é impossível estar bem vestida sem uma boa base interior. Dos conjuntos luxuosos para situações especiais às peças indetectáveis para o dia a dia, lingerie que favoreça e seja confortável não tem discussão; mas quando se trata de assegurar a beleza do busto todo o cuidado é pouco. Afinal é uma zona frágil e a gravidade não poupa nem as mais beneficiadas pela mãe natureza. 

Dizem os especialistas que se deve tirar medidas uma vez por ano e comprar novos soutiens de acordo; um bom aconselhamento profissional ajudará não só a escolher os que mais se adequam às suas formas como os que fazem o efeito que se pretende (realçar, dissimular, etc). 
Ainda assim, algumas mulheres que têm esses cuidados esquecem uma regra do tempo das nossas avós: o soutien de dormir não é só para o pós parto, nem para as meninas mais voluptuosas. Os tecidos sensíveis do busto quebram facilmente, por isso convém fazer como Marilyn Monroe, que nunca dispensava a corsetterie quando se deitava (isso de dormir só com Chanel nº5 era mito, juram os biógrafos). Haverá vozes em contrário, mas com tantos modelos confortáveis que nem se sentem, valerá a pena recusar um esforçozinho em prol da beleza?

Monday, September 8, 2014

A alegoria do cântaro - ou da cântara, conforme.



Diz o povo: tantas vezes vai o cântaro à fonte que alguma vez lá fica a asa. Não estou certa se é o cântaro ou a cântara mas como a definição de um e outra parecem variar de terra para terra, seja. Assim como assim actualmente já só se usam cântaro (a)s para enfeitar ou para regar as flores. De qualquer modo, o dito popular emprega-se para dizer que um comportamento arriscado, repetido muitas vezes, mais dia menos dia acaba mal (porque a sorte não dura sempre) .

 Isto recorda-me um rapaz conhecido da minha família que - nos anos 70/80, quando acampar ficou na moda - decidiu que queria passar assim as suas férias. Mais tarde apaixonou-se mesmo pelo campismo e comprou uma carrinha pão de forma para isso, mas da primeira vez que foi só tinha um carro pequenino onde mal cabia a tenda, a roupa e tudo o que era preciso, mais a mulher e o filho. A solução foi levar alguma bagagem no tejadilho, incluindo o cântaro de plástico...que ia pendurado por um fio e foi a balançar contra o carro pela estrada fora, para gáudio da vizinhança...

 Mas divago - o ditado tantas vezes vai o cântaro à fonte que alguma vez lá fica a asa pode também ter um sentido positivo:  muita insistência acaba por dar frutos, para o melhor ou para o pior. E por vezes, quando uma situação está estagnada e se vai à fonte, se volta à fonte mil vezes sem chegar a lado nenhum - entenda-se, uma questão profissional que não ata nem desata, uma relação entre duas pessoas que se tornou uma batalha campal - 
ficar lá a asa (ou partir-se o cântaro) pode não ser tão mau como isso.

 Antes um cântaro partido do que um cântaro que fica vazio por mais que vá à fonte, ou um cântaro roto que nunca está cheio por mais água que se ponha lá dentro. Se a asa parte, algo tem forçosamente de mudar; se o cântaro se escangalha, pode ser colado ou substituído; vira o disco e toca o mesmo é que não dá. Ninguém está para ir à fonte vezes sem conta, salvo seja. Antes entrar em modo "minha mãe mandou-me à fonte e eu parti a cantarinha".


Coisas que é estúpido guardar:




- Canetas que não escrevem, apesar de aparentemente terem tinta; pior ainda, canetas que mancham os dedos.

- Vernizes de unhas que secaram, mas gosto-tanto-da-cor-e-com-óleo-de-banana-ainda-se-recuperam. Yeah, right.

- Isqueiros que pararam misteriosamente de funcionar e ferem os dedos de cada vez que se tenta acender a lareira com eles.

- Roupa que deixou de servir, ou de servir para alguma coisa.

- Produtos do cabelo ou cosméticos que não resultaram e para lá ficam, a empatar e a sujar as gavetas.

- Sapatos que magoam não se percebe porquê e que temos sempre receio de calçar.

- Bibelots feiosos que nos ofereceram.

- Livros que são uma porcaria e que guardamos só porque nos foram impingidos no lançamento do dito para onde o amigo-de-um -amigo nos arrastou.

- Brindes de casório que não servem para nada.

- Números de telefone de pessoas que nunca mais contactámos e já nem conseguimos identificar.

- Receitas recortadas de pacotes de açúcar, revistas ou embalagens que era giro experimentar mas nunca experimentamos porque quando há ocasião disso acabamos sempre por fazer as receitas testadas e aprovadas que toda a gente aprecia.

- Amigos da treta, parentes da treta e falsos amores que só servem para deitar uma alma abaixo.

Lembre-se sempre: há muito poder na pasta da reciclagem, no botão "delete" e no bom e velho caixote do lixo.



Lina Cavalieri: a reencarnação de Vénus


"Não se detenha em coisas desagradáveis; se valoriza a sua beleza, despreze-as"

Lina Cavalieri


A vida da cantora lírica Lina Cavalieri - uma das maiores beldades da Belle Époque e alcunhada de "a rapariga mais bonita do mundo" e "Vénus na Terra" é um exemplo de como uma mulher pode fazer o seu próprio destino. Ou se quiserem, de que por vezes os deuses se divertem a criar as maiores pérolas de beleza e talento nos locais mais improváveis.

  Do origens humildes, Natalina Cavalieri ficou orfã aos 15 anos e foi entregue ao Estado, passando a viver num orfanato de religiosas. Mas a disciplina rigorosa da instituição não casava bem com a natureza irrequieta da linda jovem, que na primeira oportunidade fugiu com um grupo de teatro.


A existência fora da alçada das boas Irmãs não era fácil, porém - Lina teve vários empregos menos agradáveis para sobreviver: distribuir jornais, vender flores nas ruas de Roma...para se distrair das suas desditas, cantava. E foi assim que (como Edith Piaf mais tarde, e muitas outras) foi descoberta, tornando-se cantora de café-concerto. Daí a Paris foi um pulo: lá encantou os bon-vivants da cidade nas Folies Bergère, cantando melodias napolitanas ao lado de belezas lendárias como a Belle Otero e Cécile Sorel (que viria a tornar-se Condessa de Ségur).
  
Enquanto isso, tomava lições de canto para desenvolver a sua voz com uma das melhores professoras da época. Várias pessoas amigas lhe diziam que o seu destino não era o cabaret, mas o bel canto - e que se a sua voz não possuía, na opinião de alguns, a força e extensão característica das prima donnas, o seu timbre melodioso, a sua figura encantadora, a expressividade dos seus solos e o seu natural sentido do estilo e da publicidade eram suficientes para ter a seus pés as maiores plateias da Europa.
O amor de um homem - o Príncipe russo Alexandre Bariatinsky, com quem viria alegadamente a casar e a ter um filho - veio reforçar esta ideia. Se ia unir o seu destino a uma mulher do mundo do espectáculo, queria orgulhar-se dela. Ele mesmo lhe custeou as aulas de música e moveu influências para a tornar a mais bela diva lírica daquele tempo.

 


 O esforço resultou- em parte. O seu debute em 1900 (em Lisboa, nem mais) foi um fracasso. O público português era exigente e não lhe perdoou o nervosismo e a inexperiência. Mais tarde a bela soprano vingar-se-ia com um triunfo retumbante na Capital Portuguesa, depois de ter conquistado as maiores plateias, de São Petersburgo a Nova Iorque...mas o Príncipe afastar-se-ia dela após esta primeira contrariedade. 
 Um coração partido e uma má estreia não a demoveram, porém; os grandes mestres diziam-lhe "tu és tão bela que te podes dar ao luxo de errar de vez em quando" e era um facto. Lina tinha a sorte não só de ser uma beleza clássica, intemporal - como provam os retratos - mas de corresponder ao ideal do seu tempo: figura de ampulheta, uma cintura minúscula, pele clara, rosto oval e cabelo escuro.

A presença da mais bela mulher do mundo no palco iludia as audiências, fazia-as pensar que ela representava e cantava melhor do que o fazia na realidade. Os seus melhores papéis eram aqueles em que devia parecer linda e surgir em palco com as mais luxuosas toilettes. Ela sabia aparecer e causar impacto. Em pouco tempo, a Fama bafejava-a e tinha amealhado uma fortuna considerável.

 Querida pela sociedade nova iorquina, em 1910 casou com um membro da riquíssima família Astor; mas esta segunda união acabaria logo após a Lua-de-Mel, seguindo-se uma batalha em tribunal e um acordo milionário. Azar ao amor, sorte na carreira: voltou à Rússia, onde se tornou a estrela favorita dos tempos pré revolucionários. 
 A partir de 1914 retirou-se e assentou entre Paris (onde abriu uma elegante loja e passou a escrever uma coluna numa revista feminina) e a sua Itália natal (desempenhando papéis em filmes mudos). Quando a Itália se envolveu na I Guerra Mundial, ela continuou a  carreira cinematográfica nos Estados Unidos. A sua maravilhosa formosura não se tinha desvanecido, por isso publicou um livro (ainda disponível actualmente) - "Os meus Segredos de Beleza".
  Durante a II Guerra Mundial, já na casa dos sessenta, Lina voluntariou-se como enfermeira. Infelizmente, morreu em 1944 durante um ataque aéreo aliado que lhe destruiu a elegante casa em Florença, quando ela e o seu último marido não fugiram para o abrigo a tempo na tentativa de salvar alguns valores.
 No cinema, seria interpretada por outra grande beldade, uma Gina Lollobrigida muito espartilhada, em 

La donna più bella del mondo - nem mais.

  









Sunday, September 7, 2014

Dos jeans rotos de Doña Letizia: ser moderno (a) é uma virtude?


Disse o escritor e teólogo  G.K. Chesterton "cada época foi salva por um punhado de homens que tiveram a coragem de não serem actuais". A que ponto é aconselhável ser-se a 100% um homem - neste caso, uma mulher - do seu tempo?

Recentemente a imprensa assinalava que a Rainha Letizia teria adoptado uma atitude diferente, a bem da sua imagem: submissa em público, independente (ou mandona, como juram alguns) em privado, construindo uma figura mais doce, graciosa e de acordo com o que se espera da sua posição. Nada de surpreendente aqui, como aliás já tinha comentado convosco.
 Mas há dias Doña Letizia espantou Madrid ao aparecer de jeans rotos (que alguns comentaram parecerem consequência de uma queda de bicicleta, pela configuração dos rasgões) e ténis. Não Keds ou outra sapatilhinha preppy, mas um modelo de streetwear, quase adolescente.

 Ora, aqui há duas questões: por um lado, a correcção/estética do conjunto (carteira pele de cobra + t-shirt estampada+ ripped jeans + ténis...) por outro, se é adequado à sua idade e condição. Ou ainda, como aponta este texto, quão moderno é demasiado moderno? A autora cita - e bem - Oscar Wilde, que afirmava "nada é tão perigoso como ser demasiado moderno".

As flutuações de performance e estilo da agora Rainha consorte de Espanha foram uma constante desde que se tornou Princesa das Astúrias. Se há uns anos era criticada pelos espanhóis à conta dos zapatochos vertiginosos, outras vezes foi apontada por usar bailarinas em circunstâncias que pediam outra formalidade, e agora ténis. Nela nada é mediano, o que pode ser uma qualidade se orientada na direcção certa.

Falando novamente no carácter que atribuem à mulher do Rei (já que é difícil separar personalidade da forma como alguém se apresenta)  qualquer qualidade- como uma personalidade forte e determinada, que dá muita graça - deve ser polida para não cair no excesso. Numa mulher, o carácter felino e caloroso é como a pimenta na cozinha ou os ciúmes numa relação: um bocadinho é bom. Neste caso, talvez - digo eu - seguir um pouco o gosto do marido, quanto mais não seja por uma questão de harmonia, talvez fosse o caminho mais simples. 
Note-se que D. Filipe vai o mais descontraído possível, mas clássico.

Depois, há a questão da simplicidade e de uma informalidade que se tornou hábito, para o bem e para o mal.

Por um lado, para o século XXI  cai bem à opinião pública  uma Rainha consorte que saiu do povo e com ele se mistura, provando que é uma mulher como as demais (uma qualidade que sempre cativou nos monarcas, não há aqui novidade; D. Pedro I e já no sec. XX, a Rainha Astrid dos belgas, para não falar na Princesa Diana de Gales, ganharam o carinho dos súbditos pela sua simplicidade). 

 Mas por outro, as pessoas gostam de ter quem as represente com brilho e dignidade, querem ter ao que aspirar, precisam de sonhar. Quando se representa uma instituição, não se pertence a si mesmo (a).Tudo isso faz parte. Doña Letizia é Rainha Consorte de Espanha 24 horas por dia - logo, mesmo nos momentos em que não está sujeita às mais rígidas regras de protocolo, há certas expectativas que convém manter. À mulher de César não basta ser séria...sabem o resto.

  Além disso, mesmo que falemos em Letizia Ortiz, ex jornalista, esposa e mãe como tantas outras, a Rainha de Espanha está como todas as mulheres que se importam com a sua imagem por este ou aquele motivo (quanto mais não seja manter a cara metade feliz e sentir-se bem consigo própria) obrigada às regras básicas de elegância. E segundo essas regras, não é que uma mulher da sua idade não possa usar ténis, t-shirts juvenis ou jeans rotos (não será uma primeira escolha, mas não é proibido); todavia, esta não será a opção - ou antes, a combinação- mais acertada para sair à noite, mesmo para o cinema. 

 Num passeio à tarde pelo bairro ou ida ou supermercado, num dos festivais de música que tanto parece apreciar, vá que não vá ( embora existam alternativas igualmente descontraídas e mais elegantes) mas depois do pôr do sol, e tendo em conta o visual  do marido, seria talvez sensato coordenar a toilette de uma maneira mais composta.
  Fossem só as calças, ou só os ténis, ou a t-shirt, seria diferente; tudo junto é too much.

Quando se trata de usar bem o sportswear, há uma "rainha" indestronável: Jackie Kennedy. Ninguém como ela luziu os jeans (brancos, ainda por cima) sem perder um milímetro de elegância, ninguém como ela era capaz de estar descalça e parecer chic e creio que será das poucas mulheres a nunca ter tido um faux-pas de moda ou um mau retrato. Por isso, quando se pensa em estar o mais casual possível sem riscos de ser apontada um bocadinho que seja, a receita Jackie é o caminho certo. 
 Mais moderno do que isso já é demais...




Tanta roupa feia numa festa só.



Entre as revistas -masculinas -com- mulheres-na-capa a GQ costuma ser a mais respeitável, a tender para a fotografia de moda e não tanto para o género "glamour model" na forma como apresenta as modelos e actrizes que ilustram as suas páginas.
  Nos eventos que promove, é hábito as convidadas escolherem toilettes interessantes para quem acompanha estas idas e vindas (bloggers e jornalistas, por exemplo!). Então, que se passou desta vez?


 Não sei se terem elegido Kim Kardashian como Mulher do Ano (com uma hipotética cena pouco abonatória pelo meio) teve alguma coisa a ver com o assunto, mas a verdade é que na festa não se viram praticamente visuais que jeito tivessem.

Se calhar prova-se aqui  que o perfil da rainha da festa dá o tom para o resto da assistência...e nem me vou pronunciar sobre uma escolha tão popularucha e tão óbvia quando entre empresárias, modelos, actrizes, socialites, cantoras, cientistas, atletas, designers, escritoras e beneméritas haveria decerto percursos mais relevantes e beldades mais dignas de atenção.

 Isto a julgar pelas imagens. Se calhar só captaram as piores (porque já se sabe que nisto de festas há sempre alguém que não acerta no dress code ou que simplesmente faz uma escolha errada) mas custa-me a crer que numa gala inteira não tivesse praticamente aparecido uma indumentária que se diga "Benza-te Deus":



 Do vestido  Ralph & Russo de Kim Kardashian - síndroma "estou complexada e a tentar emagrecer mas preciso de andar meio despida por aí senão morro"- feito à medida mas que seria se não fosse porque não faz nada por ela ao tecido Modas Gininha, roupa de cerimónia do vestido de Nicole Scherzinger, o cortejo não foi muito inspirador.

Ora vejamos - e aviso já que sobre os cavalheiros nem me adianto, deixo para quem percebe mais da especialidade do que eu porque se no dress code feminino anda tudo às avessas, na ala masculina é a rebaldaria completa...nem consigo perceber qual era o código estabelecido para a noite no meio de tanta trapalhada. 

Supostamente seria black tie, o que implicaria vestido comprido para as senhoras -  não demasiado solene tendo em conta que se trata de uma revista como a GQ. Algo do género Roberto Cavalli estaria bem, certo?

Adiante:

1- Vestido curto

Embora os tempos vão mudando, gala ainda pressupõe vestido comprido. Quanto mais não seja porque as ocasiões de usar um vestido magnífico são mais raras e é uma tolice optar por um modelo que se pode levar a outro sítio qualquer. Os vestidos de Jenna Coleman (de Saint Laurent) Lara Stone (Christopher Kane) e Natalie Dormer (Emilio Pucci) podiam ter sido guardados para outra ocasião. Nem sempre menos é mais. 

2- Modéstia/formalidade a mais...ou a menos

Nem oito, nem oitenta. Se temos uma gala à noite, oferecida por uma publicação pouco tradicional, essa é, ao contrário de outras, a oportunidade de vestir alguns corpetes, decotes, aberturas ou modelos mais justos, um bocadinho mais irreverentes. Bainhas tea lenght (como os BOSS brancos usados por Caroline Issa e Pippa Middleton) decotes totalmente fechados, cabelo apanhado de forma demasiado composta ou bordados românticos e jóias muito clássicas (como a mãe e filha Le Bon) ficam um nadinha fora de contexto. Por outro lado, se um jumpsuit ou smoking de senhora pode ser uma alternativa chic nestas situações e mostrar um pouco de pele é bem vindo, fazer como Daily Lowe é má receita: a vulgaridade nunca cai bem. Ainda que se tenha um busto bonito.


3 - Feiinho e ponto final
A questão "gostos não se discutem" está sempre presente em ocasiões destas, mas uma coisa é um vestido correctamente feito e que assenta bem na pessoa não agradar a todos, outra é um material esquisito, uma peça mal feita, inapropriada ou que não cai como deve. E.L. James devia consultar um bom personal stylist com os milhões que ganhou a pôr as mulheres malucas com as 50 Sombras xaropentas, o vestido/macacão de Rita Ora está demasiado largo e quanto a Charlotte Dellal, não sei o que se passa ali, mas não tem sentido nenhum...

4 - Salva a honra do convento, but not quite

As modelos cara Delevingne (de Burberry Prorsum) e Jourdan Dunn (de Zuhair Murad ) e a cantora Rita Ora ( idem) foram as únicas a trajar adequadamente para a ocasião - vestidos compridos de noite bem modelados, que não parecem baratos, com o toque sexy que se espera numa festa da GQ e que - nota bene - dificilmente servem para outro tipo de evento. O único problema é que a receita das transparências já tem barbas a chegar ao chão. Sou suspeita porque não morro por tecidos translúcidos (e sinceramente, espero que se fartem depressa destes não- vestidos que deixam ver tudo) pessoalmente não são o meu cup of tea mas enfim, há lugar e ocasião para certas toilettes; aqui escapam por simples sentido de oportunidade. Ainda assim, com tanto por onde escolher podiam ter feito muito melhor.


E pronto, às vezes aprende-se mais depressa sabendo o que não se deve fazer...















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