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Saturday, September 20, 2014

Há que couraçar - ou como diz a outra, Shake it off.



Esta semana fiquei muito espantada ao ver várias pessoas minhas amigas muito sentidas, à beira de um ataque de nervos, de se enfrascar em pirolitos ou coisa pior, por causa de coisas que lhes dizem, ou que dizem delas.

Claro que é mau tropeçar em gente intriguista e atrevida que tenta sabotar os outros por inveja - só quem é muito desgraçado nunca passou por isso e quanto mais sucesso tiver, mais espécimes desses encontrará pelo caminho. É como um jogo de vídeo: quanto mais se avança, piores vão ficando os monstros que fazem trinta por uma linha para fazer o Super Mario ou o Sonic gastar as vidas. Os monstrinhos só existem para causar GAME OVER na vida alheia, é a função deles.

  Para que isso não funcione, primeiro é preciso ganhar uma certa couraça, aprender a fazer muito ouvido mouco, muita vista grossa, praticar a arte marcial do entra-por-um-ouvido-e-sai-por-outro. Só nos deve preocupar o que as pessoas chegadas, ou as que admiramos, pensam de nós - e essas não costumam deixar-se afectar pelo diz-que-disse. Se deixarem, se calhar anda-se a conviver com a multidão errada e é melhor mudar de círculo, ou convocar uma reunião de emergência para pôr tudo nos eixos. Ter medo é que não.

 De resto, é irrelevante o que pessoas insignificantes rosnam ou espalham. 

Tomemos um exemplo histórico: os lacónicos tinham tanta confiança na sua capacidade bélica que nem se maçavam a murar nada. Esparta era tão superior que a cidade não tinha muralhas. Não havia o que temer. Preocupemo-nos pois somente e apenas com os ouvidos de quem nos pertence ou dos superiores perante quem temos de responder.

 Depois, é preciso ter um pouco de humildade também: não tomar cada desfeitazinha, cada olhar de soslaio ou cada má criação alheia como crime de lesa-majestade. Ter honra é essencial, quem não se sente não é filho de boa gente, mas ser melindroso e ressentido é muito feio. A atitude "fez-me isto, a mim?" não atrai nada de bom. Gente bem maior que nós sofreu injustiças piores - é preciso relativizar.

 Por fim, conheço muito quem não se atreva a confrontar quem o ofendeu, mas seja igualmente incapaz de perdoar. Pois, mas não se pode ter sol na eira e chuva no nabal: ou bem que se pede satisfações à pessoa e fica-se quite, tira-se o agravo do sistema e pronto; ou bem que não se faz nada e se dá o desconto ao pobre idiota, perdoa-se, esquece-se e passa-se adiante.

 Remoer cobardemente ou andar às alfinetadas fica pior ao ofendido do que ao menino que começou...

Há que fazer como diz a canção e sacudir essas emoções mesquinhas para longe. Se pararmos no caminho a analisar cada parvoíce, nunca chegaremos a parte nenhuma...


Friday, September 19, 2014

Ai o que me foi lembrar (máxima da noite).

A propósito de nada, recordaram-me esta canção que a avó cantava quando nos apanhava a fazer alguma maroteira. Tinha-me era esquecido totalmente a última estrofe:
A mim não me enganas tu
A mim não me enganas tu
A mim não me enganas tu
A panela ao lume
O arroz está cru

Está cru deixá-lo cozer
Está cru deixá-lo cozer
Está cru deixá-lo cozer
Dizem mal de mim deixá-lo dizer.

Conhecem? Olhando bem, a cantiga não deixa de encerrar uma certa filosofia. Primeiro, há pessoas que já conhecemos tão bem, mas tão bem, que as suas malandrices se anunciam a quilómetros e já sabemos o próximo capítulo. Dizem que puseram o arroz ao lume, mas...nunca mais cozinham nada que se veja ou então queimam invariavelmente o arroz. Como cada um tem defeitos e é melhor o diabo que se conhece que o diabo que não se conhece, vai-se levando à paciência.
Depois, se o arroz não está pronto - seja qual for o arroz, por arroz entenda-se qualquer objectivo que não anda nem desanda - é deixá-lo cozer, que remédio, e quanto ao mal que digam...nenhuma pessoa de bem se deve apoquentar com isso. É deixá-lo dizer, porque certas pessoas, pobrezitas, não têm outro entretém...



6 Clássicos de Outono/Inverno obrigatórios.

Se já os tem no armário, vai provavelmente precisar de comprar mais alguns...ou de os renovar. Se ainda não tem, é aconselhável pensar nisso para diminuir a quantidade de momentos "ai-que-vida-a-minha-não-sei-o-que-vestir"...que nos dias frios e escuros são ainda mais stressantes (e deprimentes). Venham as tendências que vierem, estes queridinhos nunca ficam datados e são sempre elegantes. 

1- Tops de manga comprida

O Inverno é sinónimo de malhas, mas escolher bem camisolas é uma ciência e há que considerar que não se aplicam a todos os dias nem combinam tão facilmente com todas as coisas. Logo, um bom sortido de t-shirts justas de manga comprida (ou 3/4, para os dias mais amenos) é essencial. 

Se forem 100% algodão adaptam-se a vários dress codes e a todas as temperaturas: venha sol, vento, humidade, ar condicionado,  nunca ficará gelada nem enjoada, com calor ou irritação na pele (que algumas malhas, principalmente as sintéticas, provocam).
 Depois, se escolher tecidos com bom ar e cor sólida, dão praticamente com tudo: sob um fato, com uma saia bonita, calças ou jeans. Nos dias mais frios pode vestir um colete por cima, usar um blazer ou sobretudo. Como não fazem volume, permitem trabalhar a toilette por camadas.

 Top preto + calças skinny da mesma cor com uns sapatos e uma carteira de qualidade é uma toilette estilo model off duty que nunca desaponta e pode vestir-se literalmente às escuras. 

 As versões melhores são as neutras, de preferência sem botões, pretas, brancas, cinzentas ou azuis escuras, com um ligeiro decote. Os bodies também são uma versão interessante, porque não saem do sítio nem desfraldam na cintura.


2- As duas camisolas básicas
Não sou fã de grandes fantasias quando se trata de malhas, já o tenho dito por aqui. Por isso, há dois modelos que nunca surpreendem pela negativa: a camisola justa de gola alta (de preferencia, caxemira) preta ou branca e o camisolão tipo escocês ou pastor da Serra da Estrela, em cru. Marilyn Monroe e Jane Birkin popularizaram os dois modelos, respectivamente. As primeiras usam-se sobre calças clássicas, cinturas subidas, jeans ou saias lápis (e não só) as segundas com skinnies ou outras calças justas, de botins ou botas. Em todo o caso, nunca passam de moda.

3- Os três casacos imbatíveis



Todos os Invernos, as marcas de fast fashion fazem por nos impingir pea jackets ou seja, casacos curtos de fazenda...ou blusões de todos os tipos.  Embora estes tenham o seu lugar e dêem um aspecto jovem e à moda, não combinam com tudo nem ficam bem a toda a gente. Devem portanto ser uma variante e não a regra no guarda roupa.
   À prova de erro são sempre os duffle coats (canadianas), que também servem para a chuva; trench coats, vulgo gabardinas (com  forro amovível para usar dos dias mais frescos) de desenho clássico, e os sobretudos de corte intemporal, de preferência cintados (que podem ter uma gola de pêlo para um efeito sempre chic). Os mais versáteis, e que favorecem todas as silhuetas, terminam imediatamente abaixo do joelho - para usar com saias ou vestidos de noite.

4- O Pequeno vestido preto...com mangas!

Embora muitas marcas insistam em vender vestidos de mangas curtas ou cavas na estação fria, por razões que só elas entendem, um vestido com mangas, de tecido espesso mas macio, que se possa levar para o trabalho ou acessorizar para uma festa é um must have de Inverno e esta continua a ser a época mais lógica para o procurar. Nenhuma mulher fica mal num modelo clássico, bem forrado, que acompanhe as formas do corpo sem colar.

5- Botas impermeáveis

Ferragamo

Embora encontrar o par certo seja um desafio, umas boas botas de couro preto ou castanho de cano alto com um salto confortável são o melhor dos investimentos, pois resistem à chuva e combinam com quase tudo. O modelo mais democrático é pelo joelho e de preferência, sem fechos que incomodem. Fica bem a toda a gente, enquanto os canos mais curtos ou as cuissardes exigem mais cautela.

6 - E não menos importante...

As calças escuras, de tecido, clássicas, de cintura subida q.b e afuniladas (cigarrete ou de modelo semelhante às jodphurs de montar) nunca desiludem;  usam-se com quase todos os calçados e fazem uma silhueta elegante; jeggings, breeches ou skinny jeans macias são preferíveis às leggings; uma saia lápis preta de tecido ou pele presta-se à maior parte das ocasiões; e um bom cachecol ou pashmina, grande o suficiente para se embrulhar nele, é um pequeno luxo que compõe qualquer toilette. Todas estas peças se conjugam com o conteúdo de qualquer armário por isso é aconselhável prestar-lhes atenção e não hesitar se aparecer um exemplar que lhe assente como uma luva!







 

Nunca me enganaste, John Lennon


Há dias avisava eu cuidado com os homens feministas, sem sonhar que o  homem feminista mor, o na-cama-pela-paz John Lennon fazia mesmo justiça à frase. 

Cruzei-me com a informação esta semana por acaso, tão pouco se fala nisso.

Já aqui disse que nunca embarquei na letra radical-fofinha da canção- porta-estandarte-da-paz-com-imagens-sinistras-pelo-meio, Imagine.

Tanta paz e amor era demasiada querideza para ser verdade. A ideia utópica e ultra socialista de ninguém possuir coisa nenhuma já era terrível, mas vinda de alguém que vivia em grande estilo em Nova Iorque nem sequer era honesta. O mesmo, exactamente, se pode dizer da sua postura feminista e subserviente a Yoko Ono. A abstenção radical soa sempre a mecanismo de defesa e compensação, no caso, sei muito bem que tenho tendência a zurzir mulheres, por isso vou tornar-me super passivo e arranjar uma generala que mande em mim.

Desculpo-lhe porque em contrapartida escreveu coisas geniais -entre elas Jealous Guy, uma das minhas canções preferidas (embora prefira a versão de Brian Ferry). 

E é precisamente essa que dá uma pista para o passado de John Lennon. "I,´m sorry that I made you cry..." é capaz de ser mais literal do que parece: o próprio Lennon admitiu que quando era mais jovem, dava tareia em mulheres. O hippie, o pacifista, o feminista, cometia violência doméstica.  Se não teve tempo de se redimir como deve ser (porque a morte se atravessou no caminho) teve tempo de reconhecer em entrevista que tinha sido muito mau rapaz. 

Claro que com a morte veio a imortalidade e aí já não convinha a ninguém desfazer na imagem fofinha do músico. É do conhecimento público, mas um facto pouco falado.

Agora já percebi. Era naturalíssimo que tentasse super compensar com uma imagem de paz e amor exagerada. Nunca me cheirou bem. Se há coisa que detecto à distância é pantominice e aldrabice. 
 Isto não retira nada à boa intenção de não voltar a agredir quem é mais pequeno do que ele. 

É pena que não tenha encontrado um meio termo, porque um homem não tem de se transformar num paspalho para fazer a sua obrigação de ser decente com as mulheres. Há umas coisinhas que se chamam auto domínio e cavalheirismo, que permitem que um homem se afirme e imponha respeito sem chegar a isso. Para espancar a cara metade é preciso ser um cobarde de primeira, e se calhar a primeira solução que ocorre a alguém assim é o outro extremo da cobardia: transformar-se em tapete. E daí, que uns safanões moderados à maluca da Yoko para ver se ela se acalmava...até eu lhos dava de boa vontade, mas tudo se quer com peso e medida.

 Seja como for lá se entenderam e a Yoko Ono também deixou uma canção de que gosto bastante, Kiss me. Antes beijos que estaladas, vá.








Thursday, September 18, 2014

Porque é que o Titanic nunca me convenceu?


Ocorreu-me esta ideia quando há dias li qualquer coisa a propósito num artigo de nostalgia dos anos 90. Nunca comprei a maluqueira do filme de James Cameron. Mentiria se dissesse que não fiquei entusiasmada ao saber de uma produção sobre a tragédia (já que o acontecimento e a época sempre me fascinaram) ou que não gostei dele em si, apesar de se tornar tão popularucho. Por mim, as cenas das senhoras de sociedade na 1ª classe e as peripécias dos irlandeses na 3ª podiam ter continuado por ali fora, que eu não me ralava.

 O que nunca engoli nem com molho de tomate foi o belo romancezinho entre a Rose e o Jack, por quem era suposto o público torcer. Are you serious?! Já lá vamos.

 Primeiro, a Rose. Nunca compreendi a Rose. Sempre a achei estouvada e egoísta. 

Também sou suspeita, para vos ser sincera: se eu vivesse naquela época, se tivesse a idade da Rose nesse tempo, ia ser o mais parecido que havia com uma reaccionária (se é que posso aplicar aqui a palavra, mas acho que posso) ou se preferirem, um Velho do Restelo jovem e de saias. Ainda me lembro da cara espantada da minha professora de História do 8º ano, quando eu lhe disse que não achava piada às suffragettes. Era suposto todas as meninas gostarem dessa parte:  as suffragettes eram umas gandas malucas que desobedeciam à ordem estabelecida e faziam manifs, eram valentes e iam presas e tudo.



Admito que por cá, a forma como a cirurgiã Carolina Beatriz Ângelo deu a volta aos homens para votar como chefe de família foi uma jogada brilhante (imagino a cara deles) mas melhor faria se não tivesse discursado e debatido tanto- morreu do coração aos 33 anos quando tinha coisas bem mais importantes a oferecer à Humanidade do que debater política. Lá dizia Bernard Shaw que não percebia para que é que mulheres bonitas e inteligentes se esgatafunhavam por coisas dessas...



 Logo eu não havia de simpatizar muito com raparigas como a Rose, sempre revoltadas para que o mundo mudasse numa direcção que não sabiam se lhes convinha. 



Voltemos então à doidivanas da Rose. A Rose é uma menina mimada que sabe muito pouco da vida e acha que a relva é mais verde do outro lado. Tem um noivo bonito e Alfa que a adora, que não lhe nega nada desde que ela o trate bem, que quer casar com ela e oferecer-lhe uma vida de mimos e segurança apesar de ele ser rico e ela estar completamente falida. Caledon, o noivo, não gosta de Picasso, mas oferece-lhe quadros dele porque ela gosta. E pode não dizer frasezinhas romanescas nem tolerar disparates, mas manifesta-se como sabe: no caso, oferece-lhe diamantes porque pode e na sua ingenuidade acha que ela merece o mais belo e raro diamante do mundo. O valor da peça é irrelevante, o gesto é que diz tudo.

 Como é que ela agradece a devoção dele? Contrariando o coitado em tudo o que se lembra. É que não lhe faz uma vontadinha sequer, trata de o contradizer à frente de quem está, faz cara feia a tudo, enfim, é desfeita atrás de desfeita. Depois aparece o Jack- cara -de- bebé, que não a conhece de lado nenhum, bom rapaz mas um tremendo irresponsável.


O Jack é novidade, é idealista, boémio, sonhador, faz de sensível, diz-lhe o que ela quer ouvir - que ela pode fazer o que quiser da vida dela e voar e mimimi - e claro, a menina que está para contrariar toda a gente decide que o rapaz rebelde que nunca viu mais gordo é o amor da vida dela, que quer viver como os amigos dele que passam o tempo a cantar e a dançar porque tem uma ideia romântica do que é a vida dura dessas pessoas, que vai fugir com ele assim que o navio atracar e mai´nada.

 Não lhe ocorre ter respeito pelo homem a quem deu a sua palavra nem remorsos de o enganar em público, não pensa na pobre mãe que ficará na miséria se ela romper o noivado, não repara sequer que o Jack, o bom do Jack, vive de biscates, vive para o presente e amanhã Deus dará, logo não se sabe se amanhã manterá as juras de amor. 


Ela nem sequer acha estranho quando ele lhe diz que costuma privar com prostitutas e as acha mulheres exemplares. Sinal de alarme, anyone?
 Desculpem estragar o romantismo da adolescência de muita gente, mas se o navio não tivesse afundado, o romance não duraria duas semanas. Até podiam chegar a Paris, mas o mais certo era ele trocá-la por uma corista qualquer e a Rose juntar-se ao circo (que é mais ou menos o que acaba por acontecer, vá).
No entanto afundou e é o pobre do Cal que a vai procurar a todo o custo mesmo 
sabendo-se traído e escarnecido. 


 Aí comecei a pôr em causa se o Caledon a adora perdidamente ou se é um tanto pateta, porque tenciona meter uma bala no homem que lhe roubou a noiva (e a desenhou sem roupa) mas continua a querer casar com uma destemperada daquelas. De qualquer modo, nesta altura é suposto a audiência simpatizar com a Rose, a traidora e com Jack, o desmiolado, e dizer "que ciumento malvado que é o noivo! Que possessivo!" - também, faltava que não fosse perante vexames daqueles...

Depois  a película finda como sabemos: ela acaba por ter sozinha todas as aventuras que a família não queria que tivesse (ser actriz, andar a cavalo sem sela de senhora, etc) mas acho que a história passa uma mensagem totalmente errada. Ter uma vida estável ao lado de uma pessoa com ideias firmes não é necessariamente estar "encurralada", assim como fazer o que nos apetece não é garantia de não ter contrariedades na vida. Todos estamos sempre sujeitos a alguma coisa, ninguém é totalmente livre. As restrições que a Rose ia enfrentar junto do Caledon não eram piores do que aquelas que teria de lidar juntando-se com o Jack ou outro "cidadão do mundo" qualquer. Havia muitas coisas que também podia fazer junto do marido, afinal, "ele não lhe negava nada".


 Claro que podem dizer "ah, mas ela amava era o Jack" - sinceramente acho que não amava nenhum. Não sabia o que queria da vida. Uma paixoneta, um entusiasmo, não é amor.
 Por fim, assumindo que isso fosse verdade, ela não deu uma chance ao noivo, embirrou  com ele desde o início; mas também nisto sou suspeita porque sempre achei o Billy Zane mais interessante e custa-me a crer que alguém prefira o imberbe Leonardo Di Caprio, mas tudo é possível...





Wednesday, September 17, 2014

Coisas práticas que se encontram nos contos de fadas #1: a "it bag" da Pele-de-Burro


Em algumas versões mais obscuras da história A Princesa Pele de Burro de Perrault (que é, por sua vez, uma versão condensada de contos mais antigos, como é costume nestas coisas) aparecia um bruxedo espectacular. Claro que as Fadas Madrinhas, génios e companhia são sempre cheios de truques que nos davam muito jeito a todos, mas quando li este em pequena fiquei mesmo encantada: para quem está esquecido dos seus contos de fadas (o que é um erro, porque não se deve deixar morrer a imaginação e as histórias de encantar são cheias de lições valiosas) eu refresco a memória.

 A Princesa Pele de Burro é, de todas as princesas com pouca sorte, a mais infeliz, com problemas familiares daqueles que nos chocam quando aparecem nas manchetes do Correio da Manhã. Aflita para fugir à desgraça do "amor violento [que] pouco liga à prata e ao ouro desde que possa satisfazer-se" a desventurada infanta pede ajuda à Fada Madrinha.



 Graças ao engenho desta, a nossa heroína consegue três vestidos magníficos e impossíveis (um da cor do Tempo, outro da cor da Lua e um terceiro mais brilhante que o Sol) mais uma pele de burro. Vendo-se obrigada a fugir e a usar a pele do animal como disfarce, não se julgue que vai sem bagagem. A boa e esperta Fada arranja-lhe a it bag mais fabulosa de todos os tempos: um baú que segue a dona por baixo do chão enquanto ela viaja, e aparece quando é preciso com um toque de varinha mágica!


"«Eis», prosseguiu ela», uma arca onde vamos meter todos os vossos vestidos, o vosso espelho e produtos de beleza, assim como os vossos diamantes e rubis.  Dou-vos ainda a minha varinha; se a levardes na mão, a arca seguirá o vosso caminho escondida sob a terra.
 E se a quiserdes abrir, mal a varinha tenha tocado a terra, a arca abrir-se-á perante os vossos olhos".


 Já imaginaram viajar de mãozinhas a abanar, só com uma varinha, e ter uma mala mágica que transportasse o nécessaire com o secador e toda a tralha, os sapatos, os porta fatos, o computador e tudo o que quiséssemos meter lá dentro? Sem canseiras nem risco de roubo nem nada? Para não falar que sendo mágica devia adaptar-se a toda a tralha que nos lembrássemos. Isto resolvia-me uma data de problemas. Não sei onde anda essa Fada, mas a Louis Vuitton ou outra casa especializada precisa de a contratar urgentemente. Podia ser Samsonite para quem prefere uma versão prática, não interessa: quero essa arca!








A Vogue foi comprada por uma data de rappers, só pode.





Não há outra explicação para, depois de uma Kardashian na capa e outras tropelias (começo sinceramente a perder a conta a tanto disparate) publicar agora um artigo a anunciar "a madrugada do traseiro".

Bom, o problema nem é o artigo em si: se um fenómeno existe, é natural que os media o assinalem.

Também não é a questão racial que o público apontou em massa no twitter, dizendo que só agora  é que a revista se dignou a reparar numa coisa que já por aí anda desde o início do Milénio, e antes. 

 Nisso estou de acordo com a Vogue, vá: se por aí andava era um conceito underground, circunscrito a certas cenas musicais e determinados ambientes menos, bom...bem vistos. Se só agora se tornou mainstream e supostamente aceitável, é natural que só agora determinadas publicações concedam dar-lhe tempo de antena.

Acrescente-se que as mulheres africanas não podem queixar-se de não estar bem representadas na Vogue - a lindíssima Lupita é o exemplo mais recente de uma mulher de classe para todas as audiências - mas ficam, elas e todas as outras, mal representadas quando se fala no fenómeno do traseiro à escala global.



 O que me chamou a atenção no artigo foi a total ausência de espírito crítico, de julgamento estético ou moral - aliás o quase louvor -  perante algo que vai completamente contra o que a Vogue sempre defendeu. Porque uma coisa é o regresso (cíclico) desta ou daquela figura feminina. Era previsível e desejável que as curvas voltassem a estar em voga, não como padrão único mas numa perspectiva mais realista de a beleza e a harmonia existirem em vários tipos. 

 Há beleza em todos os géneros de silhueta, desde que devidamente vestida e com classe - das Caras e Kates às Belluccis, Vergaras e Uptons passando pelas Queens Latifahs e até, porque não, Iggy Azaleas deste mundo. A questão não é a circunferência dos glúteos per se. Nada contra o big booty, tudo contra este exagero medonho e boçal.

O problema é o contexto grosseiro e aberrante com que isso é apresentado e o mau exemplo que transmite que -  mais do que tudo -  contraria a exigência, elegância e rigor que a Vogue devia representar.

 A Vogue era a revista que ditava tendências, não a revista que se dobrava humildemente a elas, aos ecos da rua. Nunca foi uma revista from the people, for the people. A sua missão era determinar os padrões (elevados, elitistas mesmo) a que era suposto aspirar, não era ser cúmplice aquilo que supostamente devia desprezar ou contrariar.

 Se a própria Vogue baixa os padrões e coloca a fasquia a este nível, não sei como pode inspirar alguém. Ou pode - mas não na direcção daquilo que era a Vogue. Passo.


Tuesday, September 16, 2014

Quanto mais simples, mais complicado é.



Uma pessoa procura, procura a coisa mais simplória à face da terra, e nas lojas comuns é sempre um sarilho. De um dia para o outro lembrei-me - mais uma vez- que me dava jeito um body para usar por dentro de saias e calças sem andar desfraldada, e já não tinha tempo de mandar vir pela internet. Logicamente, para uma peça de algodão não é necessário investir em marcas exclusivas, acho.

 Bem digo que há sempre básicos que faltam nas lojas, e este é MAIS UM. Logo eu que tanto gosto de centros comerciais, meter-me numa aventura dessas...tive de correr SEIS lojas. SEIS.  Sem contar com as de desporto - onde às vezes se arranjam peças impecáveis como calças de montar e maillots - que, surprise surprise, só tinham para criança. Pois, as adultas devem andar todas nas danças latinas e africanas, precisam lá disso. Um bruxedo que nem vos conto.

Finalmente lá achei o malfadado body com manga 3/4, e preto, e de algodão e tudo, aqui. Recomendo-vos que aproveitem se andam à procura de um desses, porque o cenário é bodies à favela com rendinhas sintéticas e transparências, quando há. Mas era preciso gastar os sapatos por causa de uma peça normalíssima sem jeito nenhum e que agora até está na berra? 
Tenho de dar-me ao trabalho de criar uma marca que venda sempre o que as mulheres realmente precisam, está visto.

A problemática do piropo.


A questão dos piropos tem estado on fire nos social media e revistas online (sobretudo americanas) e ainda não atinei com a fonte. Se calhar isso é secundário, porque o assunto vem à baila de tempos a tempos - mesmo por cá, no ano passado.
 Assédio ou não? Devia dar direito a multa, ou não? A questão tem muito que se lhe diga e é claro que não ajuda à discussão que certas alas políticas (adivinhem quais) e certos movimentos tragam para cima da mesa a velha cassete de "acabar com a sociedade patriarcal e machista!" esse papão que ninguém sabe exactamente o que é.

Um portal americano até se deu ao trabalho de elaborar "respostas femininas às desculpas masculinas para o direito a atirar piropos". Umas têm a sua lógica, outras são totalmente disparatadas e caem na lamúria do costume. Ora, as mulheres precisam de perceber que com lamúrias ninguém as leva a sério.

 Segundo consegui confirmar com uma pesquisa não- tão- rápida- como- isso no Google - o que prova que a questão está pouco clara - no nosso País  o piropo é punido por lei se corresponder a "actos exibicionistas de importunação"(recordo-me de ter visto algo na Lei que proíbe olhar fixamente para as pessoas, mas lamentavelmente não encontro)....

E queiram desculpar as senhoras mais picuinhas, mas parece-me que  está razoável assim (a Lei, não a falta de informação sobre ela) e que enquadra aquilo que é realmente incomodativo.

Ponto um: é preciso separar uma brincadeira bem educada ou galanteio de intimidação, insulto, ofensa, injúria. Se formos seguidas na rua, assediadas com palavrões ou coisa pior, é legítimo dizer a um polícia "aquele indivíduo está a incomodar-me". O assédio no local de trabalho e outras formas de abuso estão igualmente contempladas. Quanto às consequências para quem prevarica isso já é outra história, mas o que importa é que tudo isso está previsto, que pode ser utilizado em defesa de quem passeia na rua, que a pessoa que ofendeu pode ser chamada à atenção pelas autoridades e pensar duas vezes para a próxima. Se não queremos dar-nos ao trabalho de perder tempo a denunciar o acontecido porque enfim, palavras leva-as o vento, aí o caso é outro. 

Ponto dois: aqui é que o bicharoco torce o rabo, porque a maioria das mulheres não gosta de ouvir isto e salta logo com o argumento revoltado "então agora a culpa é nossa??? Já não se pode andar na rua à vontade?" mas cá vai, de mulher para mulher. A modéstia impõem respeito. Quem não quer o tipo errado de atenção, evita uma apresentação que atraia atenção negativa. 

Quero dizer com isto que uma mulher merece ser atacada porque sai à rua vestida de forma provocante? Não, não merece. Ninguém tem o direito de invadir o espaço alheio. Mas vivemos num mundo imperfeito e temos de saber lidar com isso. A Polícia reconhece que as mulheres, só por o serem, são um grupo de risco e desaconselha as pessoas a andar na rua, ou em certas ruas e a certas horas sozinhas, ou com muito ouro, por exemplo. Se andarmos na Baixa carregadas de jóias, com dinheiro à vista, e formos vítimas de furto, o ladrão é menos culpado? Nada disso. É punido na mesma, se o apanharem. Porém, à vítima já ninguém a livra das consequências. Não tem culpa, é certo, mas foi imprudente. 

Se é recomendado trancar as portas à noite, ter alarmes no carro, esconder valores em público é porque, bem... não é seguro fazer o contrário. O mesmo acontece quando se trata da nossa pessoa. Não podemos prever as acções de loucos que se acham com direito a tudo, nem esperar educar cada elemento da sociedade.
 Com os piropos incomodativos passa-se o mesmo. Quem quer evitar atenção negativa, faz por isso. Recentemente disse aqui que não é a roupa que faz o carácter, é o carácter que faz a roupa. Uma mulher sensata não se sente confortável com trajes que ela SABE, como todo o mundo sabe, que vão chamar a atenção de certo tipo de pessoas e convidar a determinado tipo de abordagens.
Significa isto que quem vai a caminho do trabalho vestida com um fato de saia casaco e passa por uma data de trolhas numa obra está livre de ouvir piropos? O mais certo é que não, principalmente se for uma rapariga bonita. Mas os atrevidos terão menos pretextos para dizer coisas muito ofensivas, por muito criativos ou malcriados que sejam. 

Ouvir um "casava-me já" não humilha ninguém. Uma pessoa encolhe os ombros e o dia continua...



Monday, September 15, 2014

Anna Pavlova dixit: 10% de inspiração...



"Deus dá o talento, mas é o trabalho que transforma o talento em gênio."


Ainda a propósito de bailarinas, lembrei-me desta frase da grande estrela da Belle Époque  - que aparece na giríssima série Mr. Selfridge, de que falarei um dia destes, interpretada por uma actriz tão parecida que até faz confusão, vide:



 Vindo dela, podemos acreditar que a máxima é verdadeira. Além de trabalhar imenso como qualquer dançarina clássica (começou aos dez anos; antes disso não a deixaram ingressar na Escola Imperial de Ballet por ser demasiado baixinha) teve um começo difícil. Filha de mãe solteira e sem grandes recursos, precisou de demonstrar todo o seu carisma e talento para se impor numa época em que a figura estilizada que hoje associamos às bailarinas não era propriamente a norma. Aos dezoito anos estava formada e sete anos depois era Prima Ballerina do Ballet Imperial Russo. Seguiu-se uma grande carreira, em que fascinou os públicos mais exigentes.
  E o que ela dizia é bem verdade: quem é naturalmente dotado pela natureza ou pelo acaso, pode cair na tentação de depender disso e não se empenhar tanto como devia. 

 Afinal, consegue sem grande canseira o mesmo que outras pessoas se matam para alcançar. Mas às vezes isso não basta. Corre-se o risco de ficar pelo meio termo.

Conheci algumas pessoas pouco inteligentes que desesperavam os professores, mas que acabavam por ser recompensadas nas notas por serem tão trabalhadoras. 
  Mentes assim raramente deslumbram - mas quando dotes promissores se juntam a uma vontade feroz, ambição saudável e muita disciplina, é raro a Fortuna não dar uma mãozinha.

 Veja-se o caso do nosso compatriota Cristiano Ronaldo: não morro de amores pelo estilo do menino, mas quem pode negar que seguiu a sua paixão, que foi onde era necessário para a realizar e continua a espantar quem priva com ele pelo trabalho constante, quase obsessivo, a que se dedica para ser o melhor? Ele dizia desde pequenino que ia ter um Ferrari, mas praticava com a bola dia e noite; o Ferrari era só uma inspiração. Hoje pode mesmo dar-se ao luxo de ignorar quem não gosta dele, porque não descansa nos louros e sabe melhor que ninguém quanto trabalhinho há por trás de cada sucesso.

 O mesmo vale para as modelos de passerelle: qualquer profissional do ramo (editor de moda, booker, por aí fora) sabe que não basta ser alta, bonitinha, expressiva, ter as medidas certas e possuir uma característica única que por acaso esteja em voga no momento. Há muitas raparigas lindíssimas que ficam para trás, que não têm o stamina psicológico para lidar com a profissão nem a capacidade de trabalho que o meio exige. As que se tornaram famosas são pacientes, obedientes, fazem ouvidos moucos ao cansaço, à pressão o e à insegurança. E mesmo essas, passam por muitas transformações físicas: entre os humanos, não basta ser crisálida para sair borboleta

Quem gosta muito de cantar mas não é louco pelo palco, é melhor fazer disso um hobbie; quem adora futebol mas tem medo do fracasso e das lesões pode tornar-se um excelente cronista de desporto, se souber escrever. Quase toda a gente é capaz de ser competente numa coisa ou mais, mas para ser excelente numa só é necessário um sacerdócio...

  É preciso muito quem corre por gosto não cansa, muita surdez às críticas inerentes a cada ofício/ambiente/área e às invejas próprias da competição, muito amor à camisola (leia-se, ao sacrifício) uma visão de túnel para o objectivo ignorando as coisas assustadoras que estão no caminho e trabalho, trabalho, trabalho. Mesmo Leonardo Da Vinci deixou muita obra inacabada e com todo o seu o seu assombroso talento, não se tornou propriamente milionário, enquanto outros menos dotados se estabeleceram: a facilidade com que as ideias brotavam, já perfeitas, impelia-o a procurar outros projectos, o que associado à natureza incerta da sua profissão não facilitava. Daí dizer-se "o mundo e dos medíocres"...porque quem é menos brilhante precisa de se estafar o triplo para chegar a algum lado.

 Só quando muito trabalho e muito talento se juntam, a Humanidade é recompensada com um génio - um génio compreendido e aplaudido, coisa rara!








A vida é um leasing.



Na Terra, tudo é emprestado: a beleza, a boa forma, o êxito, o estatuto, as lindas coisas que tanto apreciamos e fazemos por ter, enfim, todas as vaidades mundanas. Os nossos esforços para obter e manter tais coisas não são mais que o pagamento das mensalidades do leasing. 

É sensato ter em mente o bom e velho estribilho tempus fugit, memento mori, carpe diem. Trabalha-se para construir um futuro, mas já se sabe - pouco ou muito, alguém herdará. Faz-se ginástica para manter uma bela figura, mas um dia não precisaremos dela. Serve tudo para nos divertirmos enquanto cá estamos, mas não se pode matar e esfolar à conta de coisas passageiras. Do mundo nada se leva. Quem acredita, pode portanto gastar algum tempo a preparar-se para a vida no outro mundo, a pôr a alma em forma aperfeiçoando-se e acumulando boas acções. 

Ora, não quero ser mórbida ou deixar-vos indispostos com isto. Foi apenas um pensamento que me ocorreu a propósito disso de fazer exercício: além das boas acções que contam para a perfeição da alma e para os seus méritos no outro mundo, será que cuidar do corpo garante uma alminha bonita? É que sei lá, ser um fantasma mal jeitoso, um anjo mal enjorcado (salvo seja, porque toda a gente sabe que os anjos já nasceram anjos, mas nunca percebi bem que título é que os humanos assumem quando chegam ao Paraíso) ou vá, para as pessoas que fazem muitas maldades mas também cuidam imenso da imagem, ser um diabo pançudo e gorducho, não cai lá muito bem.

 Ou será que do outro lado cada um assume a forma que dá mais jeito, à vontade do freguês e todos parecem literalmente Anjos da Victoria´s Secret? Como não sei mas temos de viver neste mundo com as escolhas que se fazem (e muito provavelmente enfrentá-las no seguinte) não há outro remédio senão cuidar do corpo e da alma enquanto por cá andamos. Mens sana in corpore sano. Mal não faz...


Sunday, September 14, 2014

Cuidado com o homem feminista.

Pois.

O homem feminista está na moda: em contacto com as suas emoções, compreensivo com a "opressão" das mulheres...um fofo. 

Bonita ilusão que divulgaram para aí, porque esse espécime é do piorio. Se calhar algumas de vós até já namoraram com um sem saber, já trabalharam para um, já se cruzaram com vários, sofreram as consequências e ainda hoje se interrogam o que correu mal.

O homem feminista toma várias formas, mas geralmente é igualitário e fofinho - principalmente no que lhe convém. E muito mais tirano que um machista, que esses ao menos têm a virtude da honestidade e chamam a si a obrigação de agir como homens (mesmo que não a cumpram lá muito bem, ao menos tentam).

 O homem feminista é o que prefere contratar mulheres...porque sabe que elas têm maior espírito de sacrifício, mais facilmente se viram umas contra as outras do que contestam uma ordem injusta ou parva e têm vocação para burrinhos de carga. E não tem problemas em mandar as empregadas carregar caixas pesadas, mesmo que essa não seja a função delas e haja um segurança de 1,90 e 100 quilos ali ao lado que só serve para "vigiar a portaria". Visto com os meus olhos. Desconfio sempre de equipas compostas por 95% de mulheres e chefiadas por um homem. A melhor parte? Nenhum dá desconto às "questões femininas" (dores de barriga, filhos pequenos) porque enfim...vivemos em igualdade!

É o devasso que não vê mal em nada: não se importa de ter uma relação assumida com uma rapariga com ar de stripper, não julga ninguém, está tudo bem para ele, é amigo de tudo quanto é mulher de mau porte...não por acreditar realmente em igualdade alguma, mas porque assim é mais fácil somar conquistas. Como tem moral de elástico e não julga para não ser julgado pelas sujeiras que faz, vale tudo. A namorada pode ir meio despida para a rua, que para ele está tudo bem: "os outros só podem ver, eu é que vou com ela para casa" é o seu lema rasteirinho de bimbo. Quanto mais ordinária, melhor, porque assim não pode reclamar dos pecados dele e ainda faz inveja aos bimbos como ele, percebem a ideia? Nada o choca, nada o envergonha.  No fundo é tão inseguro que acha que não merece melhor. Se mais tarde, por conveniência, tentar assentar com uma rapariga decente... trata-a com a mesma falta de respeito que tratava as outras. Para o homem feminista, todas valem o mesmo.

É aquele que espera que a mulher tome a iniciativa - assim não se responsabiliza e pode sempre atirar-lhe à cara "tu é que te meteste comigo". Também é demasiado moderno para casar: prefere juntar-se, pela mesma razão, à espera que lhe apareça coisa melhor. Com sorte, ainda é capaz de  ter o descaramento de justificar essa incapacidade para agir de forma viril como "orgulho de homem" ou "não se deixar pisar". Não se enganem- o que quer é facilidades e total falta de compromisso.

 Claro que pela lógica da conveniente  igualdade, não se rala minimamente de se encostar a uma mulher para subir na vida. Ou deixar que ela o sustente, o que ainda dá mais jeito. O papel de protector, de líder, não lhe convém nem um bocadinho - mas dá-se ao luxo de pôr e dispôr, se lhe derem asas.

É o amiguinho fofinho que faz de ombro, que ajuda, que ouve as mágoas da melhor-amiga-inalcançável-por-quem-tem-um fraquinho...tudo com segundas intenções, porque não tem coragem de se declarar, ou na tentativa de se aproveitar num momento de fraqueza. Isso não é amizade, não é friend zone sequer: é sinistro. Quando se vê rejeitado, ou a amiga encontra um namorado, revela-se: ressabiado, vai dizer mal dela, achar-se com direitos e gritar ao mundo que as mulheres são todas umas ingratas que só gostam de quem as trata mal

É o homem capacho que não impõe nem um bocadinho de firmeza em casa, que deixa a mulher pôr e dispor, fazer de generala, e ainda é insultado porque é passivo, não dirige, não resolve, não ajuda. Depois vinga-se pelas costas. Ou flipa. Nunca acaba bem.

 É o que nunca saiu das saias da mãe e procura uma desgraçada que o ature, mesmo que lhe dê pontapés. O inútil que se contenta com a primeira descarada que lhe aparece, porque dá menos trabalho. O que é demasiado preguiçoso para carregar as compras, ter uma gentileza, moderar os palavrões se vê uma senhora passar. O que se sente com direito a tudo e nenhuma obrigação, que é um ganda maluco e um espírito livre, por isso pode jogar playstation enquanto os filhos berram no berço. É menos homem que os outros, mas quer as mesmas regalias. E justifica isso sendo sensível e queridinho. Pior um pouco, alguns ainda têm a lata de fazer de cavalheiros para inglês ver, de assumir uma postura tradicional quando fazem tudo o que foi dito atrás. 

 Se estivesse no Titanic, o homem feminista corria para os botes, atropelava todo o mundo e as mulheres e crianças que se afundassem, porque honra e dignidade não lhe assistem e coitadinho, com aqueles braços fortes que Deus lhe deu não sabe nadar.

Respeitar as mulheres, trabalhar em equipa, apreciar a sua inteligência, ser cavalheiro, amável e ter empatia - ou mesmo ser romântico - nada tem a ver com essas ideias. Um homem que se recomende é digno, capaz, corajoso, responsável, assertivo, pronto a proteger quem é fisicamente mais frágil. Não é um espertalhão que se aproveita. Nem um cobardolas que foge às suas responsabilidades e ainda justifica isso com "respeito pelas mulheres". Respeito desse podem dá-lo às suas tias, coitadas, que não merecem sobrinhos assim...









Chagas Freitas e as "mulheres inteligentes".


Diz que a Chaga das Chagas, que causa mais danos à psique e ao comportamento feminino com meia dúzia de citações melosas do que trinta feministas sem roupa e aos berros (traduzindo:é muito mau) tem livro novo. E eu já tremo verdadeiramente porque sei que lá vem disto: partilhas erótico-xaropentas do senhor (que uma blogger de juízo descreveu com palavras mais  certeiras do que eu conseguiria fazer) por mulheres-desesperadas-e-histéricas-em-busca-do-amor-nem-que-seja-por-uma-noite.

 Mas só hoje, ao ler a publicação de uma amiga-de-uma-amiga, percebi a razão de tanto sucesso: não é apenas porque o cavalheiro diz que é, bem, Deus. Para uma legião de mulheres aflitinhas com falta de quem lhes imponha juízo, até acredito que seja.

É que o criativo autor faz por cativar as mulheres solitárias armadas em inteligentes. Literalmente: escreveu-lhes epopeias e tudo (já lá vamos) e numa extensão inspirada da sua blasfémia, berra que "até Deus tem inveja da mulher inteligente". Benzam-se.

Para vos ser franca, não consigo olhar para as frases dele que andam para aí nos murais alheios sem me encolher. Com a desculpa de "falar de malandrice com sentimento" o senhor vai sempre buscar imagens constrangedoras, sórdidas, sujinhas. Não é romântico, nem literatura para adultos: é um híbrido grosseiro que lembra o discurso de certos tarados na internet, daqueles que deixam comentários anónimos nos blogs alheios.

 Para vos situar, é preciso dizer que descobri o fenómeno de popularidade através de uma criatura que era o público alvo perfeito para tais coisas, logo debitava citações dele como quem diz pão: feia de meter dó, daquela fealdade que é a pior porque é flagrante mas inconsciente, acompanhada de malícia e carência; burra como um cesto, mas armada em inteligente e culta A isto juntava-se a erotomania: aquela doença que faz as pessoas fixarem-se em alguém muito fora do seu alcance e achar que vão viver juntos para sempre. Era, em suma,  uma daquelas que se acham sensuais (blhec para a palavra).

 Para justificar a burrice, basta dizer que mulher inteligente teria vergonha de mostrar em público que está aflita por ter companhia à noite, não? Just thinking. Como diriam no Brasil, que lá há gente com tino como em toda a parte...

                                 

 Ora, não estou a dizer que todas as fãs do autor são feias ou maluquinhas. Provavelmente não. Mas que ao que vi, ele escreve para almas que meteram ilusões  na cabeça e trata de lhes incutir mais algumas, isso é verdade. E claro, nada melhor para agradar às mulheres armadas em inteligentes do que um ode à "mulher inteligente".  Vou tentar citar um bocadinho, e Deus (o verdadeiro, não o Chagas) me ajude:

"Sou doente pela mulher inteligente. Sou fanático pela mulher inteligente. Sou viciado na inteligência da mulher inteligente. Preciso dela, exijo-a a toda a hora, persigo-a como um cão com fome persegue o osso."


Ficaram com uma ideia? Espero que sim, porque eu não queria continuar a fazer copy/paste do chorrilho de piropos desagradáveis que ele dedica às pobres mulheres dotadas de neurónios. É que já vi trolhas berrar elogios mais delicados, juro. Mas para não dizerem que eu sou uma exagerada, aqui vai:

" A mulher inteligente faz do ...* palavra muito feia*  um estado de alma. A mulher inteligente dá-me *palavra muito feia*. Mmmm" (sic).

Nem faltam os mmmm sinistros. Não inventei, juro.  Mas fica pior ainda: segue-se o discurso de homem feminista. Homem feminista pseudo urbano que é muito gourmet e muito fashion:

"Viver com uma mulher inteligente é um privilégio que muito poucos estão à altura de degustar. Não é qualquer um que está à altura de rastejar e de ser rastejado."

Ok, começo por onde? Pela palavra "degustar", que é arrepiante?
Por dizer que não sei se "ser rastejado" existe na nossa língua? 

"A mulher inteligente não tem um pingo de vergonha. É uma desavergonhada da pior espécie, uma descarada sem remédio. A mulher inteligente é a p... preferida do seu homem". 

Ena, que romântico, que lindo. Andam pais a criar filhas e a pagar estudos universitários para que elas ganhem o direito de ser chamadas desavergonhadas e pior. Mas não esqueçamos, "até um arroto de uma mulher inteligente seduz – de tão inteligente que é", por isso está tudo desculpado. Serei só eu que fico maldisposta com isso? Serei eu uma coca bichinhos que não acho nada de romântico nos barulhos do organismo, e no suor e nos detalhes escatológicos que o autor tão detalhadamente descreve? É que cada texto tem mais fluidos e mais ADN que um laboratório do CSI.

E também me falha a coragem para reproduzir todas as partes do corpo em que ele acha que uma mulher inteligente é inteligente (ter orelhas inteligentes ou um (sic) rabo inteligente, estão a imaginar o fenómeno?) ou as coisas escabrosas que uma mulher inteligente faz como se citasse Proust. Vejam pelos próprios olhos, porque eu tenho limites. 

Raios e coriscos, uma mulher que ouça coisas destas sem ficar com medo não é inteligente, não; tem é pouco amor à própria segurança
 Se ouvissem tais coisas na rua, se calhar fugiam. Se calhar, já não digo nada. Mas como está impresso é aceitável e bonito?
 E até vos digo mais, se ser inteligente é isso, eu quero ser desmiolada. Uma verdadeira cabeça de alho chocho. Sem um único neurónio que ate coisa com coisa. Tudo, para não ouvir insultos escabrosos disfarçados de elogio. Dizia Eça de Queiroz que os romances punham caraminholas na cabeça das mulheres, que era por culpa dos romances que a Luizinha tinha caído nas garras do primo Basílio. Lesse ele isto, e diria que tínhamos a peste. E que já não havia mulheres, mas fêmeas. Ou se calhar ainda aparecia a criada Juliana a chamar a todas uma récua de qualquer coisa, que ela era malcriada, mas não tanto como os livros da moda...













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