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Monday, January 26, 2015

A prova provada que as ceroulas são do demo.


 Eu tinha prometido não trazer este tema à baila novamente, mas acho isto o fim. 

Uma blogger americana foi fortemente atacada nas redes sociais e na imprensa online por ter escrito um post a anunciar que deixou de usar as ceroulas do demo em público, ou que pelo menos "vai passar a cobri-las com uma túnica ou camisola comprida". Isto porque Veronica Partridge, assim se chama a autora, é Protestante e não quer melindrar o marido, além de ter chegado à brilhante conclusão de que usar peças coladas ao corpo sem nada por cima provoca "pensamentos libidinosos" nos brutos que passam.

Zás, caiu o Carmo e a Trindade, com as adeptas das não calças e seus admiradores a acusá-la de slut shaming com o arrepiante argumento "o que é bom é para se ver" e que "as mulheres podem vestir o que quiserem, eles é que têm de se controlar, não temos nada que facilitar a vida aos homens" (eu diria que andar seminua por aí é facilitar-lhes bastante a vida, mas se calhar temos noções diferentes do que isso significa). 

Ainda bem que essas pessoas não passam aqui pelo Imperatrix: com o que já apedrejei o assunto havia de ser bonito...

Mas vamos por partes: primeiro, usar algo por cima de leggings ou calças demasiado justas e finas - ou evitar outras roupas vulgares- não tem nada a ver com religião (embora a Fé de cada uma seja um barómetro de estilo tão bom como qualquer outro) com submissão ou com uma postura mais antiquada. É uma questão de simples bom gosto, elegância e bom senso. Não é preciso vir um anjo cá abaixo dizer que se estamos sem calças, porque leggings não são calças, tem de se tapar essa zona e ponto final.

Logo, Veronica andava um bocadinho desorientada para anunciar isto ao mundo como grande novidade.

  Segundo - e aqui é que está o problema - é extraordinário que ninguém diga nada às meninas que se colocam em trajes menores em público, mas que mal uma voz se levanta a defender uma postura mais recatada - nem que seja para dizer "eu não uso tal coisa mas falo por mim" - parece que está a cometer um crime. É como se agora houvesse uma ditadura da pouca roupa, e todos tenham obrigação de defender o direito a seguir, como se diz em Itália, "la moda de la p***na" (se calhar o conceito de slut shaming ainda não chegou lá, terei de perguntar).

 Liberdade é só para a desinibição, está visto; quem é discreta já está a atacar a "liberdade" e não tem o direito de pensar, vestir e escrever como bem entende.

Só posso concluir que as ceroulas são mesmo do demo, e que ele arranjou uma legião de diabinhos para vir em sua defesa. Vade retro. Que outra explicação há para tanto barulho por nada?

3 comments:

Gabriela Caldeira said...

Quando a ditadura do "sim" elimina a hipótese de dizer "não", estamos perante um problema de igual gravidade.
Até achei graça à expressão "ceroulas do demo", mas o problema não se estende só às ditas ceroulas. Poderíamos encontrar esta ditadura do "sim" no estilo de vida, na sexualidade e até em vícios... e sobretudo dos erros.
Hoje errar é quase obrigatório. Se não erramos, não somos pessoas completas. Pessoalmente abomino erros e falhas e assim que os cometo dou meia volta ao meu planeta para não os tornar a repetir. Mas aparentemente isso é algo que mete confusão a muita gente, como se errar fosse um direito e aceitar o erro fosse um dever. Reviro os olhos da alma cada vez que ouço pérolas como "Os erros dão sabor à vida", ou "Uma vida sem falhas não tem emoção" ou ainda em situações mais particulares "Eu nasci assim, quem não gosta que se vá" (como se o mundo tivesse o dever de suportar a nossa recusa em corrigir o erro) ou como a que vi mais recentemente "Mulher a sério tem celulite, crises emocionais, faz filmes e ama irreflectidamente. Se não gosta, compre uma boneca" (e que me faz sentir então um holograma ou uma mulher não-a-sério). Inúmeras vezes já expliquei (ou tentei explicar) aos seguidores da religião do erro, muito pregada estes dias, que toda esta filosofia foi uma forma que as pessoas arranjaram de se sentirem melhor consigo próprias quando erram, que não era verdade, que normalizar erros é uma forma de os tornar legítimos e que é apenas um recalcamento humano para não ter que se massacrar com as suas falhas... que no final a errada sou eu, está visto que não aproveito a vida, errar é um dever e eu claramente sou uma pessoa fechada ou antiquada.
Engana-se toda a gente que acredita que vive numa época de "liberdade"... nunca o obrigar uma pessoa a cometer os mesmos riscos que as outras foi ou será sequer ser-se livre. Hoje mais depressa uma pessoa é julgada por ser sexualmente recatada do que se o não fosse. O mesmo se aplica à indumentária. Pessoalmente acho as leggings usadas como calças profundamente anti-estético... e o meu senso de estética até é bastante diversificado. Um trajar é estético dentro do estilo em que se insere (até um trajar hippie ou mais alternativo pode ser estético se dentro do estilo for usado com bom gosto). Mas leggings usadas como calças pertencem à lista de hábitos de vestir que nunca se enquadrará em estilo nenhum que não o seja o do mau gosto...

Gabriela Caldeira said...

Quando a ditadura do "sim" elimina a hipótese de dizer "não", estamos perante um problema de igual gravidade.
Até achei graça à expressão "ceroulas do demo", mas o problema não se estende só às ditas ceroulas. Poderíamos encontrar esta ditadura do "sim" no estilo de vida, na sexualidade e até em vícios... e sobretudo dos erros.
Hoje errar é quase obrigatório. Se não erramos, não somos pessoas completas. Pessoalmente abomino erros e falhas e assim que os cometo dou meia volta ao meu planeta para não os tornar a repetir. Mas aparentemente isso é algo que mete confusão a muita gente, como se errar fosse um direito e aceitar o erro fosse um dever. Reviro os olhos da alma cada vez que ouço pérolas como "Os erros dão sabor à vida", ou "Uma vida sem falhas não tem emoção" ou ainda em situações mais particulares "Eu nasci assim, quem não gosta que se vá" (como se o mundo tivesse o dever de suportar a nossa recusa em corrigir o erro) ou como a que vi mais recentemente "Mulher a sério tem celulite, crises emocionais, faz filmes e ama irreflectidamente. Se não gosta, compre uma boneca" (e que me faz sentir então um holograma ou uma mulher não-a-sério). Inúmeras vezes já expliquei (ou tentei explicar) aos seguidores da religião do erro, muito pregada estes dias, que toda esta filosofia foi uma forma que as pessoas arranjaram de se sentirem melhor consigo próprias quando erram, que não era verdade, que normalizar erros é uma forma de os tornar legítimos e que é apenas um recalcamento humano para não ter que se massacrar com as suas falhas... que no final a errada sou eu, está visto que não aproveito a vida, errar é um dever e eu claramente sou uma pessoa fechada ou antiquada.
Engana-se toda a gente que acredita que vive numa época de "liberdade"... nunca o obrigar uma pessoa a cometer os mesmos riscos que as outras foi ou será sequer ser-se livre. Hoje mais depressa uma pessoa é julgada por ser sexualmente recatada do que se o não fosse. O mesmo se aplica à indumentária. Pessoalmente acho as leggings usadas como calças profundamente anti-estético... e o meu senso de estética até é bastante diversificado. Um trajar é estético dentro do estilo em que se insere (até um trajar hippie ou mais alternativo pode ser estético se dentro do estilo for usado com bom gosto). Mas leggings usadas como calças pertencem à lista de hábitos de vestir que nunca se enquadrará em estilo nenhum que não o seja o do mau gosto...

Imperatriz Sissi said...

Querida Gabriela, eu não diria melhor.

"Eu nasci assim, quem não gosta que se vá" (como se o mundo tivesse o dever de suportar a nossa recusa em corrigir o erro) ou como a que vi mais recentemente "Mulher a sério tem celulite, crises emocionais, faz filmes e ama irreflectidamente. Se não gosta, compre uma boneca" Se eu tivesse um euro por cada frase dessas que vejo por aí, estava mais que milionária. A pressão do mundo, ou de um certo mundo, é muito grande. É mais fácil nivelar por baixo, ter elasticidade moral, ser tíbio e complacente. O aperfeiçoamento requer auto domínio, trabalho, humildade, obediência a certas regras e isso ninguém quer, claro! Beijinho

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